Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

"Olho para trás

e não vejo um entusiasmo, um projecto, uma manifestação qualquer desta ânsia de agitação que nasceu comigo, em que não me tenha sentido absolutamente só. E ninguém em entende. E os que não me entendem o melhor que de mim pensam é que sou um ambicioso banal atormentado por inconfessáveis vaidades. E se neste desentendimento, no qual as minhas qualidades me são muito menos perdoadas que os meus defeitos, tenho de viver sempre, eu não sinto que a vida me possa dar mais nem uma alegria nem uma compensação que me interesse. E, assim, chegado aos 35 anos sem outros horizontes, nem outra paisagem, condenado possivelmente para sempre a não realizar nunca completamente o menor dos meus desejos. Não faço ideia do rumo em que vou nem do destino para que sigo. Sei apenas que de momento me sinto absolutamente demolido. E ninguém me entende.”

Henrique Galvão, Um Herói Português, págs. 53-54

Domingo, 11 de Dezembro de 2011

benfica, perto da padaria, de frente para a igreja

Um papel escrito por uma pessoa letrada, com a frase bem estruturada e usando uma terminologia de tempos antigos - "quem os encontrar e entregar será recompensado com..." é uma expressão própria de uma alma cheia de livros. Quem escreveu o cartaz não foi a pessoa que perdeu os óculos. Primeiro porque se são brancos quer dizer que provavelmente são de uma mulher, mas a letra parece claramente de homem. Além disso, se perdeu uns óculos, ainda por cima graduados, não conseguiria escrever isto. Postas estas premissas, apostaria que foi uma senhora de idade que perdeu os óculos e foi o filho, que andará pelos 40 anos e tem uma profissão ligada às letras ou à administração pública (repare-se na formulação da data), quem escreveu o bilhete. Elementar.

benfica, dois mil e onze


Vendedor de couves e pinheiros de natal no largo do Chafariz de Benfica, construído no longínquo ano de 1788. Destas bicas vinha água desviada do Aqueduto das Águas Livres para alimentar as pessoas e o gado. Estes chafarizes também se chamavam aguadeiros e eram fundamentais numa Lisboa setentista e oitocentista, onde não havia saneamento básico.

Este aguadeiro, apesar de ser um dos poucos monumentos do bairro de Benfica, está votado ao abandono. Não tem uma placa a explicar a sua história, não tem nada. A única coisa que lá puseram foi aquela tabuleta branca espetada no meio a dizer para não alimentarem os pombos.

Por aqui, por este aguadeiro, passou nos últimos três séculos muita gente pobre, camponeses, operários, mas também condes, aristocratas, burgueses, cléricos (a igreja de Benfica, que começou a ser construída em 1750, fica trinta metros abaixo), os grandes escritores do século dezanove, comerciantes abastados, políticos. Muitos viviam por aqui, outros (a maioria) vinham almoçar, jantar, cear ou passar férias campestres nos palacetes da zona. Passavam de tipóia vindos do Chiado ou indo a caminho dele. Alguns passeavam a pé com as damas, eles desembainhando as bengalas no ar, elas fazendo rastos na terra com as sombrinhas.

A memória destas coisas não está, nunca esteve, nunca estará, a cargo dos autarcas que nos têm governado e que sempre foram destruindo a cidade em nome do 'progresso'. A memórias está apenas nos livros, e está nestes tempos difícies que levam a que postais de antigamente ganhem cores de século vinte e um. Ei-lo, o vendedor de hortaliças, esperando clientes para as suas couves. Trezentos anos depois. 

último sonho bom

por razões que desconheço, muitas vezes sonho com grandes caçadas em que sou perseguido por um leão, ou por lobos, ou ursos, ou leopardos, ou sou eu ou é alguém de que gosto, como a minha mãe, que já foi perseguida algumas vezes nestes sonhos, numa ocasião até foi por um touro endiabrado que subia escadas, ou amigos, como esta noite, em que estava a ser perseguido numa montanha por um jaguar, eu e uma amiga minha, entretanto separámo-nos e eu fui ter a um anfiteatro enorme onde estava uma gigantesca parede de vidro e por trás dela era só água, como se eu estivesse num aquário, então atirei uma pedra, aquilo rachou um bocado mas não partiu, saí e fui procurar a minha amiga, chamava por ela e só a ouvia a grunhir de volta, como se já tivesse sido atacada pelo jaguar e estivesse tão desfigurada que já não conseguia gritar, mas o mais estranho é antes mesmo de adormecer, naquele lusco-fusco entre o estado de consciência e o sono, quando muitas vezes me vêm à cabeça situações de quase-morte, principalmente relacionadas com precipícios, a mim e, mais uma vez, a pessoas de que gosto, o último sonho bom que tive foi tão longínquo que não me lembro, sou incapaz de sonhar que estou numa padaria a comer bolas de berlim e croissants doce de ovos sem engordar, sou incapaz de sonhar uma alegria, e isso até nem chateia nada, é só curiosidade.

Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

...

estava hoje a ler O Sentido do Fim, do julian barnes, livro que comprei para oferecer no natal a uma pessoa mas pedi ao senhor para não fechar o embrulho porque o queria ler antes, e a dada altura uma passagem fez-me chegar à conclusão que os amigos e a mãe e os filhos e os croissants doce de ovos são o pior obstáculo às pessoas que se querem suicidar, elas ultrapassam o mais difícil, que é a esperança e o amor em si próprias, mas os pormenores pequenos, como os amigos e a mãe e os filhos e os croissants doce de ovos, é que são a barreira intransponível, se não fosse isso e andava tudo aí a automatar-se, entretanto sonhei que tinha uma lesma gigantesca e viscosa aclopada ao pescoço, ia da cabeça até à anca, tinha vários filhotes espalhados pelo corpo, lesminhas lindas e castanhas e silenciosas e pegajosas, ontem vi uma maravilhosa explosão intergaláxica da minha janela aqui de benfica, não foi uma estrela cadente, vêem-se muitas de madrugada em noites de inverno de céu limpo, parecia uma daquelas medusas de luz que há no oceanário, apereceu subitamente no azul profundo e escuro e depois abriu a boca e desapareceu.

Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

...

tenho escrito pouco porque o dia-a-dia não tem dado as devidas banalidades, porque de resto esgotou-se a paciência para aquilo a que se chama 'a vida', as grandes tiradas, as questões existenciais, os amores e desamores, a felicidade, os sonhos, tenho centenas de livros aqui em casa já com isso tudo lá enfiado, e acho um bocado sacana essa malta que anda a repetir o que já foi dito e escrito mas não se sabe ainda porque as pessoas não sabem nem viram nem leram tudo, uma sacanice, uma sabujice, há que ser honesto e ficar calado, ainda agora recebi os dois últimos livros da grande estrela da nova literatura portuguesa e tudo aquilo é malabarismo, não há amor, leveza, sinceridade, humildade, nada daquilo soa a natural, tudo soa a esforçado, a imposto, a exibicionista, é como o plástico da mariza em comparação com a carminho, leio aquilo e imagino o autor enfiado num quarto ou numa mesa de café a tentar ser... como é mesmo a palavra?: profundo, que é uma coisa que dói,

experimentei uma vez e jurei nunca mais, imagino-o a contorcer-se para tentar ao máximo interpor o seu cunho entre a realidade que vê e a que chega até nós pela sua escrita, a contaminar ao máximo essa escrita com perfume dolorido e intrincado e bafiento e exuberante, a tentar escrever de uma forma 'impressionante' aquilo que é simples, a tentar feiar o que é bonito, sem ter a mais pequena ponta de coragem de deixar bonito o que é bonito, simples o que é simples, fluido o que é fluido, sem vagar nenhum de tornar bonito o feio, simples o complicado, fluido o perro, mas isto somos nós aqui a dizer, que gostamos da escrita ao ritmo da respiração, que só temos paciência para dois escritores, o que deslumbra e o que esmaga.

Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

dez histórias - parte V

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feira da ladra de lisboa

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