Domingo, 27 de Novembro de 2011

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Sei que foi uma época infeliz porque Archie estava infeliz, e Archie era uma daquelas pessoas que não sabem lidar bem com a infelicidade. Ele próprio sabia disso. Lembro-me de ele me ter avisado uma vez, nos primeiros tempos do nosso casamento:
- Nunca te esqueças de que não sou muito bom quando as coisas correm mal. Não sou bom com doenças, não gosto de pessoas doentes e não suporto que as pessoas estejam infelizes ou aflitas.

Agatha Christie, Autobiografia, pág. 404

Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011

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O Miguel gosta de observar uma coisa em cada mulher, e por vezes os encontros são tão fugazes e duram tão poucos minutos e tão poucos segundos que precisa de ser rápido mas ao mesmo tempo discreto a virar a cabeça ligeiramente para ter uma melhor perspectiva: ele quer observar a boca dela de perfil para ver quão perfeito é o coração que forma. O Miguel fica maravilhado, não é excitado, não há nada sexual aqui, quando descobre um lábio superior igual ao inferior, nem mais grosso nem mais fino, igual, proporcional, com a curva perfeita, coração. O Miguel cata obras-primas no meio da lixeira.

Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

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Já eu gostava de ser rei de Portugal para decretar a tristeza a todo o país - oficializá-la. É obrigatório ser triste, ser triste é bom, ser triste faz crescer, ser triste provoca erecções duradoras. Ou, dito de outro modo, ilegalizar a alegria. É proibido rir (excepto sarcasticamente), não é permitido a felicidade sem justificação régia. Tenho o pressentimento que haveria muito trabalhinho a fazer para prender essa canalha toda que para aí anda.

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No metro, o Miguel não se senta num banco onde estava uma pessoa com mau aspecto. Acha que a pessoa se levanta mas ainda fica lá mais um bocado. Mais ou menos o tempo que demora a água a sossegar depois de lá cair uma pedra. O Miguel é muito inteligente. 

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Não ler o que escreves - eis uma prova de amor, às vezes até de gratidão. Escrever mal, na forma e principalmente no conteúdo, chega a ser humilhante para quem gosta de palavras. Por isso também apago muito do que escrevo aqui - não sou adepto de automutilações, tenho piedade de mim e só deixo o que não me envergonha. Percebo muito bem porque amam as mulheres escritores feios e porque é tão difícil a uma pessoa bonita usar as palavras para maravilhar - para que precisa de palavras bonitas alguém que nasceu com olhos verdes? Escrever encanta, mas lamentavelmente destrói em igual proporção. Mas não te preocupes - sou óptimo a poupar embaraços alheios, devo isso a quem gosto, é quase a única maneira, de entre os meus fracos recursos, de retribuir. Não ler. Mil vezes prefiro surpreender a pessoa na sanita - porque nisso empatamos todos. Já no resto... Mas eu não quero ganhar a ninguém, sabes. Já não quero.

Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

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o Miguel estava a sair do prédio onde mora quando viu pela porta um velho no chão sem se conseguir mexer porque tinha caído da cadeira de rodas quando a mulher que o empurrava, também muito velha, não reparou no desnível do passeio, o velho tentava gatinhar mas estava completamente perro, o boné tinha tombado na estrada, era uma cena muito triste, e então o Miguel voltou para trás e foi à caixa do correio ver se tinha correio, tinha lá qualquer coisa, que levou para cima, abriu a porta de casa e depois foi à janela ver se o velho já estava levantado, estava, uma mulher que passava, e que agora lhe falava, deve tê-lo posto na cadeira de rodas, e depois a velha ia já a empurrar a cadeira a dizer obrigado, que vamos para o médico, o Miguel reparou que o velho tinha um pequeno golpe de sangue na cabeça, ou isso lhe pareceu, a janela era alta, depois desceu e saiu finalmente do prédio, o Miguel precisa de se confessar, está cada vez mais triste.

Terça-feira, 8 de Novembro de 2011

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no prédio onde trabalho há um call center no primeiro andar, à entrada os assistentes fumam cigarros que depois abandonam a meio num cinzeiro barra caixote do lixo cinzento e preto, ficam ali os cigarros a morrer, quando um cigarro arde sozinho, sem ninguém que o oriente, chega ao filtro e o filtro arde também, o cheiro de um filtro queimado deverá assemelhar-se às piras funerárias de Varanasi, ou àquele cheiro que havia ali ao pé do Jardim da Estrela, então a entrada do sítio onde trabalho é um crematório, os assistentes, novos e energéticos e robustos e gordos, trabalham sentados e chamam o elevador para descer do primeiro andar para o rés-do-chão, chegam à entrada, puxam de um cadáver e sentam-se outra vez para o fumar nuns murinhos de uns canteiros que lá há de lado, devem molhar as pontas dos cigarros com as bocas cheias de cuspe e baton, enquanto discutem as vendas, agressivas, que fizeram a quatrocentos euros mês, um deles tem uma rodela branca de mais de cinco centímetros enfiada em cada um dos lóbulos das orelhas, como algumas tribos africanas têm discos de madeira e osso nas bocas, não há nada para ver num rico excepto do que é feito o seu interior, porque a forma como se veste e comporta tem uma conduta determinada, enquanto o exterior de um pobre é infinitamente mais variado, só há uma ou duas maneiras de ser rico e belo mas milhares para se ser pobre e feio, por vezes entra no autocarro ou no metro um feio ainda mais feio do que o que acabara de entrar antes dele e de uma forma completamente diferente de ser feio, e depois mais outro, e mais outro, e mais outro, uma maravilhosa e incrível variedade de feiura, um rico é um animal enclausurado, um pobre anda à solta.

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Esta noite sonhei que o José Mourinho me convidou para jogar no Real Madrid, agora mesmo, com esta idade. Foi bonito. Eu aceitei o convite e quem me deu boleia para o estágio foi o Fábio Coentrão. Lembrou-me de ele pôr o saco da marmita e dos cremes para a cara na bagajeira do carro, que era um BMW todo bom e branco. Depois acordei com os pés gelados e apanhei chuva e greve nos transportes públicos e por causa disso fui todo ensanduichado no metro com uma família de chineses à frente, um trolha atrás e uma mulher ao lado a dizer que agora é que ia começar a falta de civismo devido ao facto, não provado em tribunal, de a terem pisado. A realidade, como sabes, é mais dura que os sonhos, mas também não é preciso abusar.

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