no prédio onde trabalho há um call center no primeiro andar, à entrada os assistentes fumam cigarros que depois abandonam a meio num cinzeiro barra caixote do lixo cinzento e preto, ficam ali os cigarros a morrer, quando um cigarro arde sozinho, sem ninguém que o oriente, chega ao filtro e o filtro arde também, o cheiro de um filtro queimado deverá assemelhar-se às piras funerárias de Varanasi, ou àquele cheiro que havia ali ao pé do Jardim da Estrela, então a entrada do sítio onde trabalho é um crematório, os assistentes, novos e energéticos e robustos e gordos, trabalham sentados e chamam o elevador para descer do primeiro andar para o rés-do-chão, chegam à entrada, puxam de um cadáver e sentam-se outra vez para o fumar nuns murinhos de uns canteiros que lá há de lado, devem molhar as pontas dos cigarros com as bocas cheias de cuspe e baton, enquanto discutem as vendas, agressivas, que fizeram a quatrocentos euros mês, um deles tem uma rodela branca de mais de cinco centímetros enfiada em cada um dos lóbulos das orelhas, como algumas tribos africanas têm discos de madeira e osso nas bocas, não há nada para ver num rico excepto do que é feito o seu interior, porque a forma como se veste e comporta tem uma conduta determinada, enquanto o exterior de um pobre é infinitamente mais variado, só há uma ou duas maneiras de ser rico e belo mas milhares para se ser pobre e feio, por vezes entra no autocarro ou no metro um feio ainda mais feio do que o que acabara de entrar antes dele e de uma forma completamente diferente de ser feio, e depois mais outro, e mais outro, e mais outro, uma maravilhosa e incrível variedade de feiura, um rico é um animal enclausurado, um pobre anda à solta.