Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

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hoje sentei-me no metro ao lado de uma mulher que ia a ler o órgão de mass media onde tenho a oportunidade de trabalhar, ainda que o faça temporariamente, até ao dia em que a direcção descortinar a minha incompetência, que é factual, evidente e notória, daí a minha estranheza, não estou a brincar nem a fazer género, sou mesmo uma nódoa, e então a mulher virou uma página e apareceu um artigo escrito por mim, é sempre curioso estar no metro ao lado de uma pessoa que está a ler um artigo escrito por nós e ela não faz ideia, queremos saber se o vai ler ou não, quanto tempo demora, etc, é um pouco como espiar uma pessoa na casa de banho a lavar as partes, sabes, ou ao contrário, o que é bastante pior, e então a mulher viu o título e as fotos e virou a página logo para o artigo seguinte, está tudo bem.

Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

a caneta

hoje milhares de casacos homossexuais saíram do armário, com casacos vestidos as pessoas ganham volume e ocupam mais espaço no metro, comecei a ler um livro chamado 'as mulheres na implantação da república', de uma senhora chamada Fina d'Armada, e que começa a introdução assim: 'é com imensa alegria que vos apresento a minha obra', é o melhor começo de introdução de sempre, fiz eu um estudo mais tarde enquanto comia um halls ice sem açúcar, um dia quero também escrever um livro com uma introdução a começar assim, ou então uma coisa do género 'antes de mais boa tarde, que é por causa das merdas', gosto muito da expressão, e depois acabava com um 'está tudo bem',

lisboa é tão pequena que ainda outro dia comprei o último livro da dulce maria cardoso e no dia seguinte cruzei-me com ela num jardim que há aqui, ali como quem vai para o coiso, ela olhou-me, muito branca em olhos que me pareceram azuis, e eu olhei para ela e foi assim, no mesmo sítio onde há uns meses estava eu sentado e passou o eduardo lourenço muito velhinho, em passinhos ritmados de passarinho, mas bruscos, mecânicos, retesados, enferrujados, assim para a frente, não levantava os pés mais do que alguns milímetros, parecia que ia eternamente a limpar a sola dos sapatos, ou então, lembro-me de me lembrar na altura, parecia aqueles malabaristas em cima de bolas gigantes, têm de dar passinhos muito rápidos e coordenados para a frente ou para trás, então o eduardo fazia isso com o planeta, que é a única coisa redonda que agora me ocorre debaixo dos pés dele,

a mulher do café, feia, gordinha, de cabelos aos caracóis pintados de ferrugem, mãos de homem, grandes cuecas abraçando um grande rabo, anéis feios de várias cores em vários dedos, triste, insonhadora, desiludida, tinha hoje a caneta presa à camisa mas metida para dentro, com o bico encafuado nas mamas, a tilintar entre as duas no levantar dos cafés e no agachar do compal pêssego metido na prateleira de baixo, uma última sensualidade, involuntária, presente, notória, de tal forma que te conto nesta altura do dia e da minha vida o tamanho das cuecas da mulher do café porque as olhei quando ela se virou, e o soutien era preto,

posso indicar o exacto sítio daquele jardim onde o trajecto da dulce maria cardoso na semana passada se cruzou com o do eduardo lourenço há uns meses, longe de mim sugerir um romance entre os dois, interessa-me apenas imaginá-lo com quem se poderia prender assim a alguém a partir de um cruzamento fugaz num jardim ou numa praceta não fosse a fatalidade de minutos, horas ou dias, a felicidade é uma coisa de sorte, sabes, é o que dizem e eu acredito.

Terça-feira, 18 de Outubro de 2011

dez histórias - parte IV

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feira da ladra de lisboa

Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

pep

num desgraçado dia de fevereiro do ano passado, algures na fronteira de marrocos com a mauritânia, houve uma pequena história que ficou por contar, não é uma grande história, é uma personagem conhecida fugazmente que sugestiona uma história, é o Pep, estou a lembrar-me das coisas agora, do contexto, dos contornos, e está-me a vir pó ao nariz, moscas, cheiro a gás, cães magros sem carraças para alimentar, áfrica seca, rude, árida, malcheirosa, áfrica marroquina,

estava eu num café e à minha frente, a trinta metros, ficava uma estrada, uma perfeita língua recta de alcatrão, e nessa língua parava já há várias horas uma fila de carros e camiões para entrar na mauritânia, a fronteira era a vinte metros, passava-se uma cancela cheia de guardas, com edifícios pequenos de lado a lado, camiões militares ao fundo, as horas de espera serviam para mostrar quem mandava, assim como o tamanho das armas e dos soldados, pequeno gozo freudianocolonial, e depois havia uma zona sem aparente dono, uma terra de ninguém de alguns quilómetros até à entrada propriamente dita na mauritânia, lembro-me que na altura fiquei curioso com a terra de ninguém, nunca antes tinha estado numa terra de ninguém, e também não seria nesse dia, à volta havia apenas deserto, os tais cães, as ervas secas em bolas ao vento, eu sentado no café, cheio de moscas, as tais moscas, o cheiro a gás, o tudo se sentir seco e pegajoso,

o Pep falava ao telefone, também ele tinha sido apanhado em falso, 'ainda há duas semanas passei aqui sem problemas', dir-me-ia mais tarde, o que me deixou menos fatalista por partilhar o azar com alguém tão experiente, o Pep ia regressar a daklha de táxi, tal como eu, e depois ia apanhar um avião para las palmas, onde ia pedir o visto no consulado da mauritânia, falava com uma mulher da agência de cigarro na boca, navegando no à vontade dos bonacheirões, reis amadores, descontraídos, desenrascados, seres que entram numa sala sem olharem para os tapetes, diferentes dos que olham e têm medo de sujar, andava pelo quarenta anos, mas parecia cinquenta, haveria de me dizer mais tarde que conhecia áfrica toda ao volante de um camião, um implacável conta-quilómetros que se via no rosto, nasceu em marrocos, o pai era espanhol e tinha ido para lá jogar futebol nos anos sessenta, foi quando nasceu, penso que mais tarde voltou para espanha, mas viveu tempo suficiente para saber as duas línguas, francês e árabe, falava perfeitamente árabe, além do espanhol dos pais, logo do português também, e do inglês, que era fácil, e assim o guia lonely planet africa de quatrocentas páginas que mandara vir pela amazon estava ali noutro formato à minha frente, sentado numa cadeira branca suja, de lá de dentro ouvia-se a televisão numa telenovela marroquina,

o Pep trabalhava agora num aeroporto qualquer espanhol, mas antes correu áfrica num camião de mercadorias, tinha-a entranhada, sabia-lhe as manhas, os timings, as curvas, as línguas, os dialectos, os pássaros, amanheceres, sofrimentos, o calor, a secura, deve ter sido por isso que decidi oferecer o guia da lonely ao casal de franceses que me tinha dado boleia até à fronteira, foi ele que puxou conversa no café, disse-me que se preparava para ir passar o verão todo ocupado com uma equipa de filmagens italiana que ia fazer um documentário no mali, ele seria o guia, trabalho muito bem pago, e poucas vezes invejei tanto alguém na vida como ali no meio daquele cheiro a gás, ainda a ressacar de toda a trampa que tinha acontecido naquele dia, bebíamos os dois café com leite, ele tinha um maço de cigarros espanhol no bolso da camisa branca, não tinha falta de cabelo, a pele ia já tostada do sol, mãos gordas e duras, nunca se queixou da viagem que fizemos no táxi até dakla, a pior das viagens, sete homens enfiados num carro duas horas, quando saiu levantou os braços e esticou-os ao alto, depois baixou-os até ao chão, levantou a cabeça e sorriu antes de entrar numa loja para comprar cigarros,

era o mesmo sorriso que vira horas antes, quanto estávamos os dois à espera do táxi e entretanto tinham começado umas negociações com os taxistas e os angariadores, preços, horas, preços, número de passageiros, preços, sempre preços, a tensão do terceiro mundo tentando enganar o primeiro, espécie de gestão de balancete geoestratégico, e o primeiro tentando ao máximo não ser muito enganado sabendo que o pode ser até um certo ponto, o Pep falou sempre com eles em francês, e depois eles, os árabes, viravam-se uns para os outros e começavam a falar entre eles, e o Pep punha-se a ouvir, ar meio abstraído, ausente, serenamente aparvalhado, e eu perguntei-lhe 'eles sabes que falas árabe?', e ele: 'não, não..., nunca, nunca digo...", sorriu aquele sorriso sereno, passe a piroseira do palavreado, todo o calo do mundo estava ali naquela doçura e serenidade, imaginei-o depois muitas vezes em negociações algures no mali, com o mesmo sorriso, o mesmo ar negligente, o mesmo tabaco espanhol no bolso da camisa, a mesma camisa, a mesma barba de quatro dias, aquele aspecto de galã de filme a preto e branco, escutando um dialecto qualquer, fingindo alheamento, sempre sorrindo, sereno, aqui ou ali rude, para impor, o cínico mais charmoso, um ideal, Pep era sobretudo um ideial.

Domingo, 9 de Outubro de 2011

dez histórias - parte III

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feira da ladra de lisboa

Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

azul suave

há uma mulher que todos os dias por volta das dez e um quarto da manhã apanha o metro no colégio militar, hoje estava a comprar bilhete e passou ela a correr, sinal de que sabe de cor o exacto minuto a que passa o comboio, vem todos os dias com a mesma roupa, há meses que a vejo assim, sempre igual, tem pele de mármore e outro dia pintava-se delicadamente num espelho de bolso, o cabelo sempre apanhado, os óculos simples e elegantes, nariz pequeno, é óptima para ser observada porque está sempre focada no infinito com olhos pequenos e determinados, é magra, veste saia cinzenta pelo joelho, camisa de alças azul suave, mochila cinzenta e azul suave às costas, sempre a mesma saia, a mesma camisa, a mesma mochila, os mesmo olhos, nunca se senta, fica sempre em pé e sai em sete rios, tento imaginar o que há em sete rios onde ela possa trabalhar, parece uma pianista, mas ninguém toca piano em sete rios, e não imagino uma pianista sempre com a mesma roupa, ora a imagino uma bomba sexual, ora frígida, a profissão obriga-me a desconfiar de tanto cinzento, tanta harmonia com o azul suave, tanta determinação, tanta precisão, controlo, tanto cabelo sempre apanhado e nunca solto, cabelo preto, deduzo que tenha várias saias iguais, várias camisas iguais, os sapatos são de salto curto e grosso, e pretos, como os cabelos, tem maminhas pequenas, também nisso é sempre igual, todos os dias as traz pequenas.

Sábado, 1 de Outubro de 2011

dez histórias - parte II

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feira da ladra de lisboa

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