Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

dez histórias - parte I

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feira da ladra de lisboa

Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011

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Afinal, como bem perguntou uma leitora esperta, para onde olhava o matriarcado do chinelo?
Raquel Tavares ensina turistas a cantar o fado. Sem câmaras de tv por perto, sem receber nada em troca. Apenas hospitalidade.
 

Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

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uma vez dei uma varada num pinto que o ia matando, um pinto branco que provavelmente morreu, ratazanas caçavam-se com ratoeiras de caçar perdizes, a polivalência da faca a cortar uma cenoura e se for preciso logo a seguir corta um pulso, as ratoeiras trincavam as perdizes pelo pescoço que estendiam para ir comer o isco, umas sementes grossas que se apanhavam na terra, pareciam bolbos, bolotas moles, se não me engano eram brancas por dentro e castanhas por fora, espetavam-se na armadilha, armava-se e punha-se no chão, camuflada por folhas e terra, excepto a semente, que ficava de fora, como um cinzeiro num centro de mesa na sala, então vinha a perdiz, debicava a semente e pronto, era delicioso, especialmente com um bom tempero, para chegar a um caracol os dedos iam até às silvas, o caracol ia depois para um saco cheio de antenas, escargots da pedra furada, mais tarde os óregãos haveriam de espumar de raiva na panela, ouvia-se um estalito na noite, silêncio, e depois um estalito, era a ratazana com a cabeça trincada, ou o pescoço, as picadas de abelha levavam vinagre e uma moeda pressionada lateralmente, como cunhar moeda,

e depois as formigas-de-asa, que saíam quando chovia, as ervas grandes tão grandes a esconder os miúdos nas escondidas, as azedas chupadas, mais para estilo que para nutrição, o fio de ouro ao pescoço e ao pulso, também mais para estilo que para nutrição, o bate-pé e o toque-e-foge e o mamã-dá-licença, os vizinhos à varanda a ver a bola, os jogadores a vê-los a ver se os viam, havia ali gente com grande visão de jogo, enormes passes a rasgar, que agora vêem pouco e rasgam ainda menos, certo dia uma cadela esganava na trela, cadela branca pequena idiota, salvei-a e mordeu-me, talvez venha daí o trauma da generosidade, a cicatriz ainda cá está, no dedo do meio, o que se usa para mandar foder e para carregar nos acentos, o cão chamava-se benfica, bastava isso, benfica, tinha pêlo castanho curto, as formigas-de-asa usavam-se para caçar passarinhos, a água do tanque ganhava musgo, lavado sazonalmente, as cobras vinham e comiam os passarinhos na gaiola, havia que as esborrachar na cabeça com a vassoura, as formigas-de-asa pareciam noivas, assim postas nas ratoeiras de apanhar passarinhos, o isco das ratazanas era queijo e pão, pedaços rijos de pão, como os crutons das saladas e sopas frias da cozinha de fusão, os caracóis subiam o tacho e eu mandava-os abaixo, para morrer no quinto dos infernos, uma botija bolachuda de gás,

as batatas vinham da terra cheias de borbotos, passava-se a mão e já estava, havia um monte onde agora está um prédio, rés-vés com uma estrada, e era nesse monte, agora supultado em alcatrão e cimento, que se aprendia a andar de bicicleta, não havia ninguém a amparar, chegava-se lá acima para se atirar lá para baixo, a força da gravidade era tal que dificilmente se caía, deve ser por isso que ninguém dança quando cai de um prédio, fala-se muito da infância quando há falta de assunto sobre o subsequente,

se as batatas vinham com os borbotos, as amoras vinham com pêlos moles de porco, comia-se tudo, como os passarinhos, que se matam esmagando a cabeça nos dedos, depenava-se, com cuidado para não esfolar e ficar bonito, nunca gostei muito de cabeças de passarinhos, mas das de coelho sim, os miolos dos coelhos eram bons, esgravatava-lhes as cabeças para os catar, os dentes metiam impressão, assim cozidos parecem de pessoas, mas depois enjoei disso tudo e nunca mais comi, os passarinhos apanhavam-se de três maneiras, uma com uma cola preta, bisco, que se lambuzava em ramos biforcados de sabugos, a outra com uma grande rede vertical hasteada num campo aberto, invisível a olho de pássaro, ou duas redes num ribeiro, uma em cada margem, com uma corda que se desenrolava vários metros até um esconderijo, assemelhava-se à dinamitação da ponte no por quem os sinos dobram, então os pássaros vinham beber água e dava-se um puxão na corda e as duas redes elevvaam-se no ar e caíam num abraço brusco, fechando-se sobre os passarinhos, depois chegava-se com os dedos e esborrachava-se-lhes as cabeças, só se ouviam estalinhos, clic, clic, clic, clic, clic,

e ficavam todos mortos, as nespereiras e as figueiras prenhes de fruta, a folha de figueira tem sangue branco peganhento, o caroço da nêspera é revestido de placenta, escorregadio como um peixe, cuspiam-se os caroços para engravidar o chão, pegava-se numa talhada de melancia, sentava-se num degrau, abria-se as pernas, depois muito a boca, quase até rasgar os cantos, e passava-se a talhada de um lado para o outro, como uma gaita de beiços, água da melancia escorria para o chão, as pevides iam atrás, tudo se fertilizava, o pneu da bicileta furava nos espinhos e era preciso retirar a câmara de ar, analisava-se, suspeitava-se de um certo local, e punha-se cuspe, se fizesse bolhinhas havia furo e punha-se um penso rápido,

os tentilhões cantavam em gaiolas tapadas de pano branco, os biquelaces eram os biquelaques, só muito mais tarde é que descobri que biquelaques era corruptela de bico-de-lacre, foi o tempo em que também aprendi o que era uma corruptela, depois calculei que os borrões vermelhos que os reis punham nas cartas eram os bicos dos bicos-de-lacre derretidos ao lume, muitas vezes as pessoas vêm-me suspirar, olhando-em, julgando-me em bondade sincera: 'menino da cidade...', e eu, complacente, magnânimo, sorrio, dou uma baforada me ar pelo nariz, como que embaraçado, como que a dizer 'ah, apanhaste-me...'.

Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011

Domingo, 4 de Setembro de 2011

figura de estilo

A foto do vendedor de livros a comer uma carcaça com um livro dele próprio à venda é uma foto parábola de imensa coisa. As fotos que ponho aqui não valem pela técnica (não tenho, como qualquer profissional percebe logo). Valem pelas histórias que encerram. Os pormenores são a única coisa que interessam nesta casa-de-banho branca. E às vezes, um de vocês deixa-me feliz. Um dos leitores chamou a atenção na caixa de comentários dessa foto para o título de um dos livros que estavam escondidos na banca do homem. Achei engraçado ainda haver quem olhe para uma foto e se demore nela, a ponto de descobrir pormenores escondidos, ou discretos - um pouco como "olhar" uma mulher começando nas unhas dos pés, ou das mãos, a ver se estão pintadas, tratadas, cuidadas, ou, como dizia o outro, na forma como apanha o cabelo. Ou seja, não se deter num estruturalismo recto-mamário (embrulha esta e faz um laço) e partir para os pormenores. As fotos podem conter inúmeras figuras de estilo. E nesta, a do romancista que publicita o seu livro enquanto come uma carcaça na Feira da Ladra, há muita matéria prima. E depois também é engraçado desconstruir. É uma boa ideia voltar à feira para comprar o livro e confirmar a suspeita - a de que é mau. Confirmando-o, a foto perde o seu poder de parábola - isto deduzindo que faço ideia do que é uma parábola e não estarei a confundir com metáfora (as figuras de estilo, tirando a Vicky Fernandes, baralham-lhe). 

Bom, adiante. Por quê esta foto ao lado? Outra parábola (metáfora?)? Se quiseres. Mas nesta corto-lhe já as vazas. A cena, passada no Castelo de S. Jorge, pretende recriar a Lisboa no século XII (as três fotos das crianças do post de há alguns dias são daqui). Mais uma feira medieval, portanto. As feiras medievais são o franchising mais bem sucedido de Portugal. Toda a terra tem uma. Podia-se recriar a época mais rica da história do país, a dos Descobrimentos. Podia-se. Mas o que se faz? Recria-se a mais pobre e atrasada, a Medieval. Mais uma vez, tudo isto é normal.
A cena que a foto documenta está inserida num pequeno evento que se passou no Castelo de S. Jorge há uns dias. Para entrar no dito Castelo paga-se 7 euros. Os de Lisboa não pagam. O resto paga. Ou seja, um residente em Loures paga os mesmos 7 euros que um residente no Burkina Faso. Outra coisa normal. E tudo isto explica por que é que o Castelo de S. Jorge é o único monumento de Lisboa que dá lucro. E por mais: o evento onde esta foto foi tirada (este) era pago à parte. Custava mais 3 euros e consistia numa tenda com bufos, corujas e afins, meia dúzia de artistas a representar profissões medievais e estes dois camaradas, simulando uma luta do século XII, deduzo que da conquista cristã do Castelo, sendo um muçulmano e outro cristão. No final da demonstração da luta feroz, um deles vira-se assim para outro: "olha lá, não te aleijei nas pernas, pois não?"

E assim uma foto perde as suas figuras de estilo. Deixa de ser uma parábola, uma metáfora, uma hipérbole - e passa a ser apenas a imagem de uma patetice.

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

grande

Aqui há dias, subia eu Alfama dengosamente (advérbio de modo que contraiu dengue), quando reparei que ia ao meu lado, também a subir, um tipo a falar ao telefone, e falava alto, estávamos os dois quase a chegar à Sé de Lisboa, íamos ali por aquela rua lateral, não sei se estás a ver, estás de frente, imagina, e é à direita, onde agora está um restaurante novo com esplanada, o homem parecia estar perdido, deduzi que não fosse de cá, ou fosse mas não conhecesse bem a zona, o que é normal, porque ninguém conhece bem as ruas de Alfama, e tentava encontrar-se com alguém, precisamente a pessoa com quem falava ao telemóvel, então continuámos a subir, dizia ele: "estou a subir uma rua...", até que chegámos, uns minutinhos depois, ao largo da Sé, edifício símbolo da cidade, como sabes, quase mil anos de história, construída pelos muçulmanos, remodelada e alugada depois por nosso senhor que estais no céu, sobreviveu a tudo, até a um terramato que nada deixou de pé, só a Sé (sou bom a fazer rimas), é por isso, e por outras coisas, que a Sé é tão importante, porque há pouca coisa em Lisboa com aquela idade, porque o terramoto matou tudo, e então o homem olhou à volta, depois para cima, e disse à pessoa com quem estava a falar ao telemóvel: "olha, agora tou aqui à frente de uma igreja grande comócaralho".

roupa limpa

Oscar Wilde era um criador imenso de frases marcantes, das que enchem a boca aos que proclamam, a talhe de qualquer foice, "como disse um dia fulano tal...". Praticamente todos os livros deles estão cheios de ditos espirituosos. Já eu, sou um esquecedor profissional. Leio muito, esqueço-me de quase tudo - dinheiro fora, portanto. Mas há uma frase dele que li há alguns anos num livro qualquer de que nunca mais me esqueci: "lavar roupa limpa em público", que é o oposto, já se vê, a lavá-la suja. Bom, já percebeste onde quero chegar. O discurso do coitadinho só é menos detestável do que o discurso bêbado do amor ostentatório. Vindo de adolescentes, percebe-se. De gente adulta, é tal o desprezo que provoca que só se segue o enredo com o único fito de lhe esperar o fim - muitas vezes desejando-o. Não é por mal - é só para o nosso bem (duas coisas completamente diferentes). O 'amo-te' diz-se no recato. Fora disso, já fede a acne.

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