Domingo, 31 de Julho de 2011

Há muitos anos... atrás - Parte X

Ainda está por fazer a história do grafismo nos jornais e revistas de Portugal, e enquanto essa obra não chega, lanço aqui o meu contributo, em forma de fotos-que-tenho-aqui-esquecidas-em-pastas-no-desktop. Hoje, excepcionalmente nesta rubrica, vamos falar de jornalismo desportivo. Mas não vamos falar muito, que estou de baterias em baixo. Aqui ao lado, está uma primeira página do jornal A Bola de 1985. Não, o que chama a atenção não é a foto pequena do Vítor Serpa, o actual (e há décadas) director da Bíblia, com aspecto de dealer de Ciudad Juarez. O que chama a atenção é o arrojo gráfico da coluna da esquerda. Nunca antes se paginou uma foto e depois se fez um espelho da mesma - numa montagem à baralho de cartas que, infelizmente, não fez escola.

A próxima foto é paradigmática de um drama que assola quem anda nestas coisas do jornalismo, especialmente os gráficos. Quando é para pôr uma foto dentro de uma página não há problema (passe o simplismo da coisa). A porca torce o rabo quando se trata de ir buscar qualquer coisa dentro da foto e "extraí-la", ou seja, recortá-la. Regra geral, pessoas. O grande problema das pessoas (e ninguém duvida disto) é que têm cabelo. Recortar um edifício numa foto é canja, a não ser que seja um prédio do Gaudi (nitidamente um bêbado). Recortar uma franja é que é o verdadeiro pincel. Hoje em dia, com o advento do Photoshop, do QuarkXPress e do vinho a copo no Bairro Alto, é muito mais fácil recortar uma guedelha (mas ainda continua a ser um bico). Agora imagina há vinte anos... Como se vê nesta foto (que não sei a data porque sou um grande boi), a única maneira de fazer isto naquele tempo era cortar o cabelo como se poda uma sebe.

Depois, não havendo paciência para se cortar o cabelo, cortava-se a cabeça. Foram os loucos anos 80. Ah, os anos 80... Foi toda uma geração tão grandiosa, especialmente na música, que ficará para sempre conhecida como a geração que sucedeu à dos anos 70. E foi também uma geração que se levantava de manhã, vestia aqueles medonhos fatos de treino que havia e ia para os cafés ler jornais desportivos, que, na altura, mais do que jornais de futebol e restantes modalidades, eram ilhas das cabeças cortadas (e multiplicadas).
E, por fim, eis a prova de que são gémeas as expressões "manter a cabeça fria" e "a vingança é um prato que se serve frio."

Este ano, não tenho férias. De modo que estarei por aqui todo o mês de Agosto. E de Setembro. E sucedâneos. Assim deus nosso senhor alumie o caminho.

Terça-feira, 26 de Julho de 2011

...

Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar. Sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.

estrofe retirada do contexto de um poema qualquer de Drummond

Domingo, 24 de Julho de 2011

estar na moda cansa


A barba de quatro dias recupera o estilo bad boy, tão em voga há poucos anos (não como desleixo, mas como afirmação de masculinidade, porque as mulheres num estudo qualquer revelaram que o que querem mesmo é um homem que cheire a homem e pareça, vá lá, como dizer, um homem) e que parecia ter caído em desuso, talvez devido à ascensão nas revistas de moda de certo e determinado clube de homens, a que não será também alheia uma campanha recente de uma marca de lâminas de barbear, onde, através de outro estudo, proclamavam as virtudes de uma cara masculina isenta de pêlos.

Esta foto prova, portanto, que ainda há quem não vá em modas.

Atenção ao pormenor dos ténis condizerem com a cor do colete. A t-shirt, branca, foi uma boa opção, porque conjugar cinzento com outra coisa qualquer é sempre arriscado (da mesma forma que com um vestido preto nunca me comprometo, com um visual cinzento nunca invento - e esta inventei agora, o que prova que a poesia está ao alcance de qualquer um). Não é certamente pacífico que os ténis tenham de condizer com qualquer coisa acima da cintura (no caso, o colete). A esse propósito, um dos meus editores (a quem, e se me estiveres a ler, dedico um especial beijo na boca por me teres estragado o fim-de-semana ("estragar", partindo do pressuposto que a minha vida é interessante e que ia ter um fim-de-semana espectacular) por me teres dado na sexta um livro de 650 páginas para ler e daí ter de fazer um texto de duas páginas para segunda feira), esse editor, dizia, acha que os ténis têm de combinar com as calças e não necessariamente com a t-shirt, daí que estes ténis cinzentos com calças azuis-escuras sejam, de facto, de duvidosa sincronia. Mas já vi bem pior. Para quem se deslocou à Baixa para apanhar os últimos saldos, não está mal - está desportivo, confortável, ágil (e todos sabemos o que é a corrida aos saldos).

Gosto particularmente da mala TAP Air Portugal, estilo retro, numa suave invocação dos tempos chiques de antigamente, em que ser hospedeira de bordo era um orgulho.
 
Curiosamente, no mesmo dia (numa daquelas coincidências que aninam as nossas vidas), em plena Feira da Ladra de Lisboa:


Em suma, um look com todos os requisitos para aparecer no Alfaiate Lisboeta, não fosse o caso de o Alfaite Lisboeta estar provavelmente de viagem outra vez na Europa para fotografar pessoas bonitas e bem vestidas de modo a alimentar o blog que tanta fama lhe tem grangeado. O Alfaiate Lisboeta tem de ir de vez em quando a Itália e a outros países do género fotografar toda a gente decente que encontra, que é para ficar com fotografias em stock para aguentar o blog durante vários meses - que se dependesse de Lisboa estava feito. Quando se lhe acabam as fotos, lá vai ele outra vez para o aeroporto. É a viagem contrária à dos emigrantes, que vêm de França e do Luxemburgo de férias e depois regressam com jerricans de azeite e linguiças de porco. Cruzam-se na Portela - uns com sacas de víveres, o Alfaiate com pens de miúdas boas. Quando aos emigrantes se lhes acabam as linguiças, voltam a Portugal, geralmente com a desculpa que são as saudades e tal - mas a mim, leitor e adepto dos autores mais descrentes da vida humana, do Céline ao Beckett, do Kafka ao Orwell, dos russos (principalmente o Yuran e o Kulkov) ao coiso (de quem agora não me lembro o nome), a mim, dizia, parece-me óbvio que o que os emigrantes querem é encher o bandulho a preços mais convidativos, ou, como eles dizem, "não é nada très cher, prima Lurdes".

A esse propósito, é esta é mais uma prova de que uma mente que passa de um assunto para outro com esta rapidez não pode provocar outra coisa em quem o lê que não excitação sexual (a única coisa que me dá vontade de rir são estas parvoíces que para aqui escrevo, como se tivesse uma permanente dor de barriga e viesse para aqui descarregar os intestinos - sabe bem, relaxa, sabes, espero que compreendas e não leves a mal), eis o Chuck Norris de Alfama:


Mais tarde, em casa (caro editor, só li até à página 250, porque tenho a vista cansada e não consigo ler depois das 19h30), é que reparei nos anéis, no bigode, nas tatuagens - dos metallica, do cifrão e de qualquer coisa war: corresponde ao lado mau, de barba de três dias (que também eu aguento quase uma semana deixando de a regar). Mas a tatuagem do mickey e do cãozinho à solta nas costas deixou-me mais uma vez a prova de que o ser humano é tão incomensuravelmente mais complexo do que me fizeram ver na catequesse da igreja de Santo Condestável, em Campo de Ourique - agremiação que abandonei quando a voz se me começou a engrossar e deixei crescer uma poupa no cabelo, que alimentava a cuspe (era uma onda de cabelo tão perfeitamente erecta no topo da cabeça (o cuspe bem aplicado é como cimento, sabes) que as pessoas no autocarro pensavam que era um tumor). Está tudo bem.

Quinta-feira, 21 de Julho de 2011

Terça-feira, 19 de Julho de 2011

gaia

por que é que estamos no cu da Europa? passo a explicar, uma vez que estou a comer uma sopa de creme de cenoura do Continente, o que não deixa de ser curioso é que os portugueses gostam de dizer e tal que Portugal está de costas voltadas para a Europa, ou seja, é um país atlantista, quanto mais não seja porque na Europa ninguém lhe liga puto, excepto o Sven-Goran Eriksson e a Cicciolina, que veio cá há uns tempos ao Parlamento, enfiou-se nas escadarias à socapa e por causa das coisas mostrou uma teta, então começou tudo a mandar vir, mas a Natália Correia mandou aquela malta toda foder, na medida em que o símbolo da República consiste na estatuária, seja isso o que for, do busto desnudado de uma moça,

bom, é curiosa esta ideia de que Portugal está de pança virada para o Atlântico, Brasil, África e o coiso, de que me falta agora o nome, mas o Céline, um cabrão francês, passe o pleonasmo, no Viagem ao Fim da Noite, na parte em que o protagonista parte de barco para África, diz, a páginas tantas,

que era (Páginas Tantas), já agora, o nome de um livro de Português B no tempo em que era tão puto que ia para o supermercado não sei quê ali no Lumiar roubar io-ios através da técnica de os meter nas cuecas, isto porque não era propriamente uma pessoa de posses e não podia estar a gastar dinheiro com coisas supérfluas, e isto foi o mais parecido que tive com a máxima 'roubar para comer',

bom, dizia o Céline esta coisa espantosa, e cito de cor: 'passar as costas de Portugal', ou seja, para este nazi do Céline, Portugal estava era de costas para o Atlântico e virado para a Europa, precisamente o contrário do que a gente apregoa aí, não sei, acho curioso, só espero que tenha sido uma ilusão do momento, que a estarmos de pança para a Europa que seja a mijar em Madrid, com aqueles repuxos muito grandes que a gente tinha, jactos tão potentes que éramos como Pollocks de acne e buço a pintar quadros de urina nas paredes que havia ali como quem desce para a Calçada de Carriche, que era onde havia um bailarico no verão e tal, então estamos no cu da Europa pelo seguinte argumento:

liguei hoje para uma agência de comunicação a pedir umas fotos e tal, e a senhora 'com certeza, mando já', isto de manhã, esperei, esperei, esperei, liguei às cinco da tarde e coiso e a mulher já não estava, falei com outra e a outra 'ah, pois, tinha aqui o recado para lhe mandar...', e eu 'pois..', e ela: 'mando-lhe já', e eu, à filho da puta, com voz fofinha: 'mas o que é que aconteceu? esqueceu-se, foi?', e ela começou a arrastar a voz, mas como a referida voz transpirava sensualidade esqueci o assunto e repeti-lhe o meu mail,

bom, uns minutos depois liguei para uma editora e atendeu-me uma estrangeira, que se chamava Gaia qualquer coisa, e eu disse-lhe logo, que é por causa das tosses: 'olá, boa tarde', e ela: 'boa tarde', e eu: 'queria saber quantas páginas tem determinado livro', e ela: 'mas esse livro já não está à venda', e eu: 'mas queria saber na mesma, se não se importasse', e ela, num português de arame farpado: 'vou ver, só um segundo',

e enquanto ela via lá no computador eu digitava o nome dela no Facebook para ver com quem é que estava a falar (a segunda melhor coisa do Facebook), táctica que uso amúde, e ela: 'não tenho aqui essa informação', e eu: 'ah...', e ela: 'eu vou ver no armazém, mando-lhe um mail com essa informação em quinze minutos', e eu, à cabrãozinho: 'em quinze minutos?', e a estrangeira: 'em quinze minutos', e eu: 'está bem', desligámos, bom, o que tenho para te dizer é que em menos de quinze minutos tinha um mail da Gaia com a informação,

mandei um mail de seguida a agradecer e ia começar assim: 'obrigado, Gaia', mas pareceu-me o Luís Filipe Menezes em noite de vitória eleitoral, e escrevi apenas 'ok, obrigado, cumprimentos', entretanto o mail da outra ainda não tinha chegado, é por isto que estamos no cu da Europa, não é por mais nada, entretanto a sopa está fria.

interacção

uma leitora enviou-me um mail aqui há umas horas transcrevendo o conteúdo do post anterior e depois perguntando: Isto é para mim?

e eu: claro que não. be cool. não é para ninguém.

e ela: Não?!? Foda-se. Não acontece nada de excitante na minha vida.

...

Nos tempos que correm, tempos de montras sociais, tempos de ruídos e sons por todo o lado, tempos de excessos, nestes tempos, sabes, vou-te explicar isto da melhor forma que consigo, a verdadeira arte, ou talvez a arte mais difícil, não é mostrar, é esconder, ou, dito de outra forma, mas igualmente gentil para não magoar ninguém, não é falar, muito menos falar bem - é saber calar.

Saber calar é a arte do século vinte e um. O silêncio é o novo ouro, e dele sou garimpeiro. E tu? Talvez já te calasses.

Domingo, 17 de Julho de 2011

Terça-feira, 12 de Julho de 2011

os fins de tarde do Quarteto

devidamente autorizado, vim para casa trabalhar, que hoje não me estava a sentir bem enfiado numa redacção (acontece muito raramente). Liguei o computador (já está) e a TVI, esperançado que dava o Benfica. Não dá. Está a dar os Morangos. Nem sabia que ainda havia Morangos. E miúdas giras. Mas tive de desligar o som, que vê-las ainda vejo, ouvi-las é que é demais. No meu tempo não se faziam miúdas boas. Caía a tarde e a gente ia dar umas beijocas para as traseiras do Quarteto. Havia competições (nunca declaradas), a ver quem conseguia estar mais tempo a beijar. Alguns passavam meia hora agarrado à boca de uma cachopa, como se fosse uma botija. Umas apalpadelas e tal, e era assim. Os morangos eram outros. Não passavam na tv, passavam por outro lado. Lembro-me bem. Primeiro foi a Isabel, que era grande e forte, sem ser gorda. Certa tarde, usando uma potente língua de vaca, violou-me a boca no pátio da escola. Não apresentei queixa. Umas semanas depois, foi a irmã dela, a Benilde, que era feiinha, feiinha, mas lá consegui. Foi a Isabel quem me empurrou para a irmã. Fomos os quatro ao cinema, que a Isabel levou o Paulo, que tinha o cabelo grande e deixou de me falar sem apresentar uma justificação. A Isabel queria que eu convivesse com a irmã, e a irmã também, mas eu não, ainda que naquela idade (naquela idade?) a gente queria era amealhar, mas estou-me a adiantar. Não houve nada durante o filme. A Benilde, coitada, enterrada na cadeira, à espera do meu ataque, bambi abanando o rabo em covil de leões, parecia um reposteiro, primeiro tensa, depois angustiada, depois sonolenta. Teve de gramar um filme de que não estava à espera - literalmente. Eu também não sabia se ela queria ver o filme. Por via das dúvidas, deixei-me ficar. A Benilde tinha uma cabeça muito grande e o cabelo aos caracóis finos. Perna grossa, como a irmã. Cada uma delas faz-me lembrar um leitão. A boca da Isabel sabia a água com gás, ou qualquer coisa aveludada e ligeiramente arraçada de água de rio. A boca da Benilde sabia certamente a qualquer coisa, mas não me recordo. A Benilde nem sequer andava na nossa escola. A Isabel era da minha turma, a Benilde era mais nova. Por isso, nunca mais a vi. Depois acabou o filme e acabou-se-me a desculpa, e a pressão de ser homem obrigou-me então a cumprir o protocolo de a puxar contra a parede e dar-lhe um beijo. Teve de ser. Foi um sacrifício (gosto de pressão, mas não gosto de ser pressionado) mas foi feito. Com aparente tranquilidade, disfarçando conhecimento, como é óbvio. Agarrei no leitão e pronto. Ela não resistiu. Abriu a boca, cheirou o ar com a língua e foi assim. Isto já cá fora, por trás daqueles prédios. Estivémos meia hora aclopados, eu quase sempre de olho aberto a ver se a Isabel estava por lá e a respirar apenas pelo nariz (técnica muito útil para outras coisas). Não me lembro se apalpei o rabo da Benilde. É possível. Lembro-me, isso sim, que não trocámos uma única palavra. Talvez o 'olá, tudo bem' das apresentações e mais nada. Cumprimos a obrigação decretada pela Isabel e foi cada um à sua vida. Só não demos um aperto de mão porque não calhou.

Terça-feira, 5 de Julho de 2011

trinta

a minha capacidade de atracção virtual cresce à proporção inversa da atracção presencial. cada vez é preciso de escrever menos e cada vez é preciso de falar mais para conseguir o mesmo efeito. duas curvas num gráfico com o actual posicionamento do ponto na fase de intersecção das duas. ou estão muito próximas, ou estão a fazer o x uma na outra, ou fizeram há pouco tempo. seja como for, a partir de agora, é sempre a subir de um lado, e sempre a descer do outro. como uma tesoura a abrir a boca.

quando não há muita paciência para falar, e escrever é só às vezes, parece uma tesoura de unhas dos pés a podar árvores de fruto. é a vida.

Domingo, 3 de Julho de 2011

a sociedade secreta das serenelas andrades

aqui há tempos, num post que surpreendeu o Pacheco Pereira e o José Mário Silva, disse que a família real de França (diz-se que é "do Mónaco", mas é só para parecer chique) era a minha preferida, o Rui Ramos e a Maria Filomena Mónica (com quem, aliás, ontem sonhei que tinha um caso sexual) vieram logo a coiso dizer que eu me estava a revelar uma desilusão, "pensava que só lias filósofos dinamarqueses", disse logo o Rui na sua habitual crónica no Expresso, onde, aliás, tem uma foto com o cabelo substancialmente mais comprido e a cara mais bolachuda do que na foto que aparece esta semana na Sábado, "está tudo bem?", perguntou depois a Maria Filomena num post-scriptum (por falar nisso, para dizer a expressão 'por exemplo' a Maria Filomena usa as iniciais 'v.g.', de 'verbi gratia', que é 'por exemplo' em latim ou lá o que é, deve ser por isso que a acho linda, e daí a ter sonhos é um saltinho) também na sua crónica no mesmo pasquim, pasquim, esse, diga-se, que estava a ser lido por um velho num canto esconso do centro comercial Turim ontem quase à meia noite, local onde me desloquei para ver um concerto de malta amiga depois de ter estado a comer um magnum amêndoas, um prego e meio, dois panachés, um rol, um pires de caracóis e um pires de tremoços (estes dois ítens comidos a meias com uma pateta amiga que fez questão de pagar a conta, dizendo depois: 'pagas as bebidas no concerto', e eu claro que disse 'está bem', bem sabendo que não se ia beber nada no concerto, como não se bebeu),

"está, está tudo bem", respondi à Maria Filomena Mónica por sms, "não contes ao António, beijos", concluí, aliás, Maria Filomena, eu sigo tanto este assunto que nem sabia que o dono da minha família real preferida ia casar no sábado, e até foi uma estupidez não ter sabido, é que, por razões técnico-tácticas, passei a tarde de sábado em casa; mas derivado ao facto de já ter ido comprar super bocks minis, nem sequer liguei o televisor, que por acaso está agora no chão, com o rabo empoleirado no degrauzinho da lareira e uns jornais à frente a equilibrar, isto porque o móvel estava a criar barriga, e fiquei com medo que se partisse e tal, tenho de comprar, lembrei-me agora, toalhetes para os vidros, um esfregão de lava-loiça, um pacote de coisos e frango, então já estive a ver alguns jornais estrangeiros e tal e depois apareceram algumas coisas em alguns blogues e no facebook, e por causa do que se diz fui ver fotos e vídeos no youtube, e parece que a Charlene estava triste, ou lá o que é, isto porque não se ria, ainda chegaram ao ponto, como já li por aí, e ouvi hoje de manhã quando fui buscar as calças à costureira (mandei pôr umas bainhas e ontem tive uma paragem massoencefálica quando ela me perguntou se queria as bainhas originais ou não, eu disse as originais, tungas, burro, onze euros, as não originais são cinco, isto é a diferença entre duas linhas amarelas cozidas nas bainhas (as originais) e duas linhas amarelas cozidas nas bainhas (as não originais), ou seja, paguei mais seis euros por duas linhas amarelas cozidas nas bainhas que nem o Moita Flores conseguia discernir a diferença entre as originais e as da costureira do Fonte Nova, nem que tivesse o Hernâni Carvalho e o Amaral (falta-me aqui um nome) a abaná-lo com folhas de bananeira e tanga branca, como faziam em Roma), então a Charlenne (?) não ria no altar e compararam-na com a bifa da Kate com o outro (falta-me aqui um nome também) aqui há umas semanas, ou seja, estão a comparar dois pós-adolescentes-ingleses-com-conta-aberta-em-Albufeira-para-esturricar-as-contas-dos-pais com uma alemã-branca-criada-na-África-do-Sul-e-já-com-trinta-e-tal-anos-depois-de-ter-sido-nadadora-olímpica-o-que-como-se-sabe-é-fodido e um francês-de-cinquenta-e-tal-anos, ou seja, comparar um par de ingleses com um par composto por uma alemã-boer e um francês-careca é como comparar uma brasileira assanhada nos classificados do Correio da Manhã com um português educado,

simples, discreto, civilizado, a descascar nêsperas, assim como me vejo amiúde, rir é então a marca desta malta de agora, rir, rir, rir, expressar, já a Kate, coitada, a outra, a mãe da Maddie, era culpada porque não chorava, andamos, portanto, assim, uma pessoa não ri e parece que há ali qualquer coisa de errado, eu estive aqui a ver as fotos e os vídeos do casamento da família real da França e acho-os adoráveis, como sempre, já to disse, não por serem acolhedores, mas, pelo contrário, por aquele ar de serem intocáveis, inalcançáveis, de ninguém lhes pedir cigarros na rua, e a Charlene, ou Charlotte, como é que se chama a noiva?, chiça, aquela cara debaixo do mosquiteiro Armani onde a enfiaram é uma das imagens do século, eu sou bom nestas coisas das fotos do ano, ou fotos do século, a de uma princesa num conto de fadas que não ri, provavelmente porque se sente esmagada, agora perguntas-me: 'aquela cara é o quê?, não sei, o que sei é que é muito mais, ou pode ser muito mais, do que 'é a de alguém que está triste', uma afirmação que devia merecer, de quem a profere impunemente, uma pena máxima de três anos a ler o que o arquitecto Saraiva escreve, ouvir as piadas do Nuno Markl, ou aturar a Penélope Cruz e os filmes do Almodóvar,

quem se facilita a si próprio analisando estados de espírito pelo vislumbre, ou não, de dentes, não passa de uma serenela andrade com a tensão sexual do josé carlos malato, que tenta em todas as emissões do seu programa deixar o corpo de homem para se tornar numa reformada.

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