Segunda-feira, 20 de Junho de 2011

água

A voz de Agualusa ao telefone é suave, baixa, serena, mas ao mesmo tempo distante, impalpável, algo vazia, pouco forte, qualquer coisa parecida com erva seca, ou talvez bafo, também seco, de final de tarde, que são duas coisas que parecem ficar a meio caminho de outra coisa qualquer, foi talvez a sinestesia de falar com alguém que se associa a África, a branca, mestiça, misturada, talvez ainda colonial, ou assim parecendo colonial porque ele é branco, e por ele ser branco se assemelhou a voz a erva seca, capim?, porque fosse o Agualusa castanho e era barro, fruta cor-de-laranja, café, fundo de rio, e assim, ainda que ele esteja agora em Lisboa, como eu, a chamada foi transatlântica,

e depois falou da Casa da Morna, e depois praias da Costa, e antes Gulbenkian, e depois Rio de Janeiro, africano branco angolano português brasileiro, Agualusa é uma garrafa de cerveja sem rótulo fixo, nem sei se tem rótulo, talvez o tenha, mas esteja descolado da transpiração, rótulo em mãos desocupadas à mesa, agora assim, depois vira-se, agora tira-se, descola-se, lambe-se, volta-se a colar, erva seca suave e estaladiça, fim de tarde abafante e aveludado, é natural que a voz de Agualusa seja assim.

Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

onde o que é ainda é

A procissão do Santo António de Lisboa realiza-se em Lisboa no dia em que morreu Santo António, conhecido por Dia de Santo António, consistindo no transporte de uma imagem de Santo António desde a casa onde nasceu Santo António, dando uma volta pelas imediações da casa onde nasceu Santo António e terminando na casa de partida, que é, curiosamente, onde nasceu Santo António. Não deixa de ser insólita esta celebração abnegada do santo padroeiro de Lisboa na medida em que o santo padroeiro de Lisboa não é Santo António, mas sim um tal de São Vicente, a quem ninguém liga pevide. Santo António é apenas o mais célebre talento que a academia portuguesa de santos alguma vez conseguiu produzir. Veja-se que Santo António fez carreira em Pádua em meados de 1200, sendo que só em 1994 (ou seja, oitocentos anos depois) é que Lisboa conseguiu exportar para Itália um talento semelhante, que foi quando o Rui Costa saiu do Benfica para a Fiorentina.

A imagem do Santo António vai à pendura de um carro dos bombeiros, passa ali pelo largo da igreja, sobe à Sé, desce até Alfama, anda ali um bocado, passa pelo coiso, sobe outra vez por Alfama, e vai ter ao Largo de Santa Luzia, onde leva uma lambidela de raios de sol e brisa do Atlântico, até que desce outra vez até à Sé, onde se realiza uma missa dada por um padre, um muito gordo que estava com o turno de ontem. Atrás vai um séquito de padres com ar de padres, outros com ar de outras coisas que me escuso de referir, além de outras pessoas vestidas para desempenhar umas funções quaisquer, assim como o presidente da câmara, que também ia vestido. Não ponho aqui muitas fotos destas coisas, porque são mais turísticas. Tenho mais da envolvência - é o meu core business, sabes: envolver.

A multidão era imensa. Fontes bem informadas em Alfama confidenciaram-me que há muitos anos que não se viam tantas pessoas. A maioria eram reformados. Havia também muita gente às janelas com colchas e mantas e coisas assim. Desconheço o significado, e não me pagam para pesquisar.

Foi uma experiência nova para mim. Numa multidão de reformados, não é possível começares a furar, se por acaso quiseres acelerar o passo. Numa multidão destas vês-te envolvido numa incrível teia de ‘rómático’, rigidez, imobilidade, ‘cuidado com o degrau’, ‘olhe, veja lá não caia’, ‘oh, onde é que eu me fui meter’, ‘oh, filha, dá-me o braço’, ‘ande lá, senhora’, ‘que a gente mete-se cá em trabalhos…’, ‘cuidado’, ‘olhe aí a rampa’, e é isto que se ouve, e se te vires numa multidão destas encafuado numa estreita rua de Alfama, olhas para cima e segues a ladainha que se canta, nada mais te restando do que apreciar, e se por acaso conseguires escapar vai até a uma das tascas e pede uma cerveja, que por estes lados Lisboa ainda é Lisboa.

Terça-feira, 7 de Junho de 2011

mimosa

o rendimento que Soraia Chaves tira das tetas deixa-me de boca aberta.

...

bom, vamos lá tentar escrever qualquer coisa enquanto o computador planeia rebentar-se-me na cara, antes de beber um copo de leite com qualquer coisa que corte o leite lá dentro, fumar um cigarro, ver as ratazanas a passar lá em baixo e ir fazer sono, para amanhã acordar fresco e feliz como nunca consigo, acordo cenoura enfuçada na terra quando devia acordar como alface, esperando ser despedido em grande estilo, que é fazendo um grande balão com a pastilha, tão grande que farei a figura triste de ser escorraçado enquanto arranco tridente melancia do nariz, vou pôr uma corda, uma guita, atada ao computador, tem uma moto cá dentro que às vezes começa a arrancar e isto um dia ainda sai disparado, nunca fiando,

havias de me ter visto a simular que ia votar quando na verdade não votei, aliás, não pus cruz, as pessoas que votam em branco deviam ter o direito de receber o boletim e dobrá-lo ali mesmo, votar em branco e não poder anunciá-lo ao mundo é uma frustação tão grande como ser despedido e não rebentar um balão de tridente melancia na cara, simulando desinteresse, então fui até à casota onde se vota, mas ia já a dobrar o papel, enfiei-me na casota e saí logo, deduzo sempre que as pessoas são tão observadoras como eu, fui tão rápido que se percebeu obviamente que votei em branco, gosto muito de votar no lumiar,

a minha mãe também tem a mania que vota no lumiar, só porque mora no lumiar acha-se no direito de votar no lumiar, a minha mãe, coitada, fui lá almoçar, comi-lhe duas gelatinas, uma mousse, três cafés, duas pernas de frango, arroz, batatas, fruta, queijo, bolos, vinho, compal pêssego estragado, e ainda me perguntou se queria mais, diz-me ela que compra um exemplar do órgão de comunicação social onde tenho a oportunidade de brilhar e eu disse-lhe que não vale a pena, não sei porque é que disse isso, não tenho razão nenhuma para o dizer, tenho?, mas disse, e por via das dúvidas vou comprando tridente melancia para rebentar na cara, a pessoa que me criou, que, por coincidência, é a minha mãe, disse-me ao almoço que votou socialista, levantei-me, estarrecido de desprezo, e foi quando fui buscar a mousse que era para a minha irmã, foi para armar zaragata, repara como estou a escrever desgraçadamente estroina,

agora é que a leitora não sei quê vai deixar de me seguir outra vez, ela que já me seguiu, depois deixou de seguir, depois voltou a seguir, isto disse ela num comentário aqui em baixo, e sempre sem me explicar porquê, deixando-me na incerteza entre os pulsos ou o saco de plástico na cabeça, disse apenas que me estava maribando para vocês todos, e é verdade, estou mesmo, mas gosto imenso de vocês, bom, não todos, há demasiada gente sub-vinte e três por aqui, sabe-se lá de onde vieram, mas pronto, faço de conta que gosto, e eu, líder de uma imensa manada, minha cara leitora tresmalhada, lanço os cães a recolher as ovelhas, mas até os cães, esses imbecis animais que gostam de pessoas a abanar o rabo, até os cães se borrifam na minha pessoa para cheirar o rabinho de morango das cadelas, e nem sabia que havia cadelas nesta pradaria, bom, adiante, preciso de um copo de leite para beber com o cigarro, está tudo bem, está a ficar tarde, tenho algumas coisas para dizer mas estou naquela fase de seca dos chamados criativos,

não sai nada de jeito, as fotos são só para encher buracos, sou um criativo, sabias?, farto-me de criar, sou espectacular, voto em branco a achar que está toda a gente a reparar, se não é o cúmulo de decadência adulta, ilusão?, 'decadência' e 'adulta' são duas palavras que se eliminam automaticamente quando postas lado a lado, ou quase, espécie de -3+2, que dá -1, ou seja, adolescência, já reparaste que 'cúmulo' tem acento' mas 'cu' não tem?, ainda que 'cúmulo' não tenha assento, mas 'cu' já pode ter, a não ser que viajes no metro da linha azul a partir das nove e meia da noite, que agora só tem três carrugagens e possível que a gente fique de pé, está tudo bem, leite, leite, tabaco, tabaco.

Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

a mulher das sabrinas tigresa

uma das vantagens de Lisboa é, por exemplo, fazer-se aqui um post a suspirar por uma pessoa e depois sai-se à rua e esbarra-se nela (linguagem conotativa) a beber copos no Maria Caxuxa, de sabrinas tigresa, calças azuis escuras justas, acho, e blusa de uma cor qualquer que já me escapou da memória mas que ficava bem nela. Na verdade, só decorei as sabrinas. Deve ter sido por ter reparado na maneira como ela anda. Parecia um gato. É rápida e suave e não se ouvem os passos. Mas isso de não se ouvir podia ser das sabrinas tigresa, ou da música, que era posta por um tipo novo de cigarro na boca. Todas as pessoas que estavam de volta dela pareciam decentes e civilizadas. Dois vestiam-se de vintage (há um nome qualquer para isso, disseram-me mas não decorei). Ela de vestido preto curto com brincos esmeralda. Ele de bigodinho e camisa branca com motivos de qualquer coisa que não apurei. Simples, bonitos e normais. O tipo alto e coiso que estava com ela, idem. Lisboa respira-se muito bem em certos sítios em certos dias da semana. É uma questão de saber onde páram os gatos.

arquivo

Tecnologia da Blogger.