bom, vamos lá tentar escrever qualquer coisa enquanto o computador planeia rebentar-se-me na cara, antes de beber um copo de leite com qualquer coisa que corte o leite lá dentro, fumar um cigarro, ver as ratazanas a passar lá em baixo e ir fazer sono, para amanhã acordar fresco e feliz como nunca consigo, acordo cenoura enfuçada na terra quando devia acordar como alface, esperando ser despedido em grande estilo, que é fazendo um grande balão com a pastilha, tão grande que farei a figura triste de ser escorraçado enquanto arranco tridente melancia do nariz, vou pôr uma corda, uma guita, atada ao computador, tem uma moto cá dentro que às vezes começa a arrancar e isto um dia ainda sai disparado, nunca fiando,
havias de me ter visto a simular que ia votar quando na verdade não votei, aliás, não pus cruz, as pessoas que votam em branco deviam ter o direito de receber o boletim e dobrá-lo ali mesmo, votar em branco e não poder anunciá-lo ao mundo é uma frustação tão grande como ser despedido e não rebentar um balão de tridente melancia na cara, simulando desinteresse, então fui até à casota onde se vota, mas ia já a dobrar o papel, enfiei-me na casota e saí logo, deduzo sempre que as pessoas são tão observadoras como eu, fui tão rápido que se percebeu obviamente que votei em branco, gosto muito de votar no lumiar,
a minha mãe também tem a mania que vota no lumiar, só porque mora no lumiar acha-se no direito de votar no lumiar, a minha mãe, coitada, fui lá almoçar, comi-lhe duas gelatinas, uma mousse, três cafés, duas pernas de frango, arroz, batatas, fruta, queijo, bolos, vinho, compal pêssego estragado, e ainda me perguntou se queria mais, diz-me ela que compra um exemplar do órgão de comunicação social onde tenho a oportunidade de brilhar e eu disse-lhe que não vale a pena, não sei porque é que disse isso, não tenho razão nenhuma para o dizer, tenho?, mas disse, e por via das dúvidas vou comprando tridente melancia para rebentar na cara, a pessoa que me criou, que, por coincidência, é a minha mãe, disse-me ao almoço que votou socialista, levantei-me, estarrecido de desprezo, e foi quando fui buscar a mousse que era para a minha irmã, foi para armar zaragata, repara como estou a escrever desgraçadamente estroina,
agora é que a leitora não sei quê vai deixar de me seguir outra vez, ela que já me seguiu, depois deixou de seguir, depois voltou a seguir, isto disse ela num comentário aqui em baixo, e sempre sem me explicar porquê, deixando-me na incerteza entre os pulsos ou o saco de plástico na cabeça, disse apenas que me estava maribando para vocês todos, e é verdade, estou mesmo, mas gosto imenso de vocês, bom, não todos, há demasiada gente sub-vinte e três por aqui, sabe-se lá de onde vieram, mas pronto, faço de conta que gosto, e eu, líder de uma imensa manada, minha cara leitora tresmalhada, lanço os cães a recolher as ovelhas, mas até os cães, esses imbecis animais que gostam de pessoas a abanar o rabo, até os cães se borrifam na minha pessoa para cheirar o rabinho de morango das cadelas, e nem sabia que havia cadelas nesta pradaria, bom, adiante, preciso de um copo de leite para beber com o cigarro, está tudo bem, está a ficar tarde, tenho algumas coisas para dizer mas estou naquela fase de seca dos chamados criativos,
não sai nada de jeito, as fotos são só para encher buracos, sou um criativo, sabias?, farto-me de criar, sou espectacular, voto em branco a achar que está toda a gente a reparar, se não é o cúmulo de decadência adulta, ilusão?, 'decadência' e 'adulta' são duas palavras que se eliminam automaticamente quando postas lado a lado, ou quase, espécie de -3+2, que dá -1, ou seja, adolescência, já reparaste que 'cúmulo' tem acento' mas 'cu' não tem?, ainda que 'cúmulo' não tenha assento, mas 'cu' já pode ter, a não ser que viajes no metro da linha azul a partir das nove e meia da noite, que agora só tem três carrugagens e possível que a gente fique de pé, está tudo bem, leite, leite, tabaco, tabaco.