Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

Domingo, 29 de Maio de 2011

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A nossa rua é estreitinha,
tua casa é rente à minha,
mas a distância é tão pouca
que p'ra beijar-te à noitinha
basta só estender a boca...

Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, p. 157

Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

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As ruas de Lisboa, nos bairros desafogados, estendem as roupas nos saguões. Não chegam as roupas a respirar. Se o sol lá entra, nem tem tempo de lhes dar um beijo - de luz.

Fica a roupa encardida de amores.

Nos bairros pobrezinhos - não. Quando a menina veste a sua saia ou o seu corpete de algodão, tão macio de puído, já o sol vai com ela.
Norberto de Araújo, Legendas de Lisboa, p. 183



Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

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amanhã haverá mais, que agora vou beber um copo de leite com qualquer coisa castanha lá dentro.

Domingo, 22 de Maio de 2011

o artista

Futre, genuína boa pessoa, é, como se sabe, um bom malandro. Famoso, entre outras coisas, por simular penalties, agora, que abandonou a carreira, continua a simulá-los, com evidente arte. Futre, imagine-se, continua a contar, em todas as suas aparições públicas, que inventou aquela história dos charters de chineses para abafar mediaticamente a demissão do Sócrates. Inventei diz ele, com a cara mais séria, perante o espanto de nós todos, que neste jogo fazemos de árbitro. Simulei, diz ele. Simulei, encenei, fabriquei. E mantem a teoria há mais de um mês. E parece que ninguém percebeu que é tanga, porque ainda não vi um único jorrnalista a perguntar-lhe isso. Porque basta ouvir Futre durante um minuto, basta um minuto, para perceber que a história dos chineses veio daquela cabecinha espontaneamente. Futre é assim mesmo, fala e pensa como jogava futebol: um relâmpago imprevisível. Quem o conheça minimamente, quem tenha lido o livro, sabe-o. Mas Futre, bom malandro, decidiu simular mais um penalty. Diz que foi tudo pensado. Futre, Futre... Sempre a simular penalties, mesmo já retirado... Gosto desta dupla simulação invertida - estou a simular ao dizer que simulei. Futre é um eterno bom malandro. Mais houvesse.

Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

o estado da nação


Varandas de um prédio na rua da escola politécnica, a dois passos da sede do partido socialista, no largo do rato, toponímia que ninguém sabe explicar, do museu de história natural, da procuradoria geral da república e, para o lado sul, do princípe real, um ventoso e triste antigo desterro de cabras, vagabundos, ratos, morcegos e cães vadios (não necessariamente por esta ordem), de sobreviventes do terramoto e de tropas de junot, e que hoje, passado tanto tempo, é um jardim bonito e calmo e prazenteiro, de onde já se cheira o rio e se desce para o bairro alto e o chiado. O nosso estado de espírito eleva-se ou abate-se conforme corramos esta rua de sul para norte, ou de norte para sul. Pelo meio, as bandeiras à varanda, esfarrapadas, talvez da bipolaridade.

Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

Há muitos anos... atrás - Parte IX

Antes de mais boa noite, que é por causa das merdas.

Procuro tantas coisas na vida (de que me abstenho aqui de especificar), que acabo por encontrar o que não procuro - e com esta frase posso já fazer um livro da Margarida Rebelo Pinto. Estava então aqui a limpar fotos do computador quando encontro imagens de uma rubrica de que já me tinha esquecido, esta. Para quem não sabe o que é, uma vez que há meses que não acrescento nada, clicai na etiqueta 'Futebol' e é fartar vilanagem. Constato, então, que tenho aqui mais recortes para alimentar a melhor rubrica alguma vez feita na blogosfera portuguesa. E tenho-os para mais três ou quatro posts. Hein?! Há surpresas na vida. Vamos lá, então.

Começamos com esta. Trata-se de Dito. Todos os homens sabem quem é. Quem não sabe, eu explico: o Dito é um ex-jogador do Benfica que ficou conhecido por ser um traidor, uma vez que, devidamente acompanhado pelo irmão da Lena d'Água, rumou certo dia para o FC Porto. Antes disso, porém, Dito morreu, mais precisamente a 20 de Março de 1983, data deste recorte do Record. Acho a notícia ideal para o contexto em que vivemos, em que se duvida se Bin Laden está ou não morto. Dito não estava. O que se passou é que adormeceu. Apenas isso, e depois apareceu no café para beber a bica e todos gritaram "Milagre!". Espera-se que o mesmo não suceda a Bin Laden, apesar de haver almas caridosas que acham que a morte do senhor é uma farsa. É gente que acredita que ele, na verdade, está apenas há quarenta e oito horas a dormir derivado a ter estado numa rave em Kandahar. Vai acordar amanhã e aparecer no café para comer uma chamuça. Está tudo bem.

Seguimos a grande velocidade para Outubro de 1982. Este recorte não tem nada especial a não ser o facto de me elucidar ter havido um treinador de futebol chamado Conhé, natural de Alhos Vedros. Nem sequer li o texto. Isto já me chega perfeitamente.

Fevereiro de 1984. Estamos a poucos meses do Campeonato da Europa, onde a selecção fará um brilharete, alcançando o terceiro lugar. O sucesso talvez se tenha devido ao local de estágio, a espectacular Pousada de Palmela, como diz o Record, com direito a ponto de exclamação e tudo no título. Uma pousada que tinha "lindas e funcionais casas de banho" e quartos "com boas janelas". Está tudo bem.





Onze de Setembro de 1986, jornal A Bola. Espectacular reportagem do monstro sagrado Carlos Pinhão sobre a chegada do metro ao Estádio de Alvalade. Repare-se no aviso em baixo. O estádio chama-se Alvalade, há uma estação chamada Alvalade, mas não é essa! Não é para sair nessa. Senão, têm de andar como ó caraças. Mas podem sair em Entrecampos e irem a pé. É um passeio agradável, "com boas árvores, boas sombras, até mete um lago que tem esplanada e barcos e cisnes e tudo..." Mas o que interessa neste tema é que o Sportting ia ter o Metro à porta muito antes do Benfica. Era a "Rua da Inveja". O FC Porto só teve metro à porta quase dois séculos depois, mas entretanto começou nesta altura a ganhar outras coisas... Um último reparo: note-se (quem tiver paciencia para ler) a mestria de Carlos Pinhão em fazer um texto muito agradável quando não havia nada para dizer. É a arte de encher bem chouriços. Não é para qualquer um.





Um dos meus recortes preferidos de sempre. 4 de Julho de 1980, há trinta e tal anos. Um clube de Aveiro da III Divisão coloca um anúncio no  jornal O Comércio do Porto a pedir pontas de lança. Dois, mais especificamente. "Resposta a este jornal ao n.º 327". O clube pede pontas de lança como quem pede empregados de pastelaria. Mais tarde, os clubes portugueses descobririam o Brasil e a Argentina, e nunca mais houve anúncios destes nos jornais.
E, por falar nisso, dez dias depois, o FC Porto pede "indivíduos dos 13 aos 17 anos" para treinos. E pede para trazerem "sapatilhas". Indivíduos?! Como se vê, já neste tempo os responsáveis do FC Porto usavam códigos. "Indivíduos" em vez de "jovens", como mais tarde falariam em "fruta" para se referirem a "putas".

Dez de Janeiro de 1984, jornal Record. Peça de David Borges, ele mesmo. Uma espectacular "emboscada à americana" a um árbitro de bigode chamado Alfredo Basílio. Não é preciso dizer mais nada... (ainda que o final seja emocionante). Ufa...

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