Quarta-feira, 30 de Março de 2011

sinais dos tempos, dois

há uns dias, fui comprar o jornal à loja dos jornais e ia a sair quando uma velha ia a entrar com um daqueles carrinhos para as compras, e foi quando parei para lhe dar passagem, e ela: 'não, não, passe, passe', e eu: 'não, passe, passe', e ela: 'não, não, passe, não tenho pressa', e eu então passei, sorrindo, como que agradecendo, e para reforçar disse assim: 'obrigado', e ela diz assim, alto, para o bairro inteiro ouvir: 'ainda há cavalheiros', eu ri-me, e ela: 'já não se fazem, já não se fazem', sorri, e ela, já eu tinha passado: 'continue, continue...', era uma velha com cabelo curto pintado de bordeaux, o carrinho tinha garrafas de plástico vazias, segundo percebi quando passei e deitei o olho lá para dentro, depois recolhi o olho e segui caminho, enquanto ela dizia: 'continue, continue...'

sinais dos tempos

ontem, duas crianças, um menino e uma menina, estavam debruçadas sobre uma grade de esgoto, daquelas grandes, quadradas, no meio dos passeios, os dois de rabo empinado para cima, as batas do colégio a balouçar, ganchinhos na cabeça, o cabelo a perder gravidade, os ténis às cores, e diz então o menino, muito sério, professoral, apontando lá para o fundo, para baixo, para o esgoto: 'É daqui que vêm os vampiros, sabes...?'

Domingo, 27 de Março de 2011

portuguesices

Depois de um assombroso episódio de Conta-me Como Foi, série onde as limitações técnicas são brilhantemente disfarçadas pelo texto, pelos actores, pela direcção de actores e pela produção na recriação histórica, segue-se na RTP um filme, também português, onde a primeira cena é Marco de Almeida na praia fazendo de paparazzo com uma máquina fotográfica... Olympus. São estes pequenos pormenores que distinguem os bons dos maus.

Quinta-feira, 24 de Março de 2011

como hoje é sábado

e fazemos dois anos, damos (eu e a administração) como prenda os comentários abertos, depois de um mês e meio bastante saudáveis de ditadura esclarecida. Ah, dar a voz ao povo, devolver ao povo o poder de decisão, ou seja, criar uma ilusão. Estamos no tempo disso. Sou um democrata, sabias?

Quarta-feira, 23 de Março de 2011

está tudo bem

Se escrevesse um livro sobre esta noite, poria agora em cena Cavaco Silva despedindo-se da mulher, dando-lhe um beijinho na testa, ao mesmo tempo que se justifica:
- Tenho de ir agora. O Sócrates já está aí...
E o presidente começa então a afastar-se, quando Maria, de súbito, lhe agarra um braço, resmungando:
- Oh Aníbal, mas despacha esse gajo depressa, que quero ver a novela contigo.

amanhã este blog faz dois anos certinhos

o francisco assis fez a barba hoje, e o sérgio sousa pinto tem agora uma pêra. o francisco assis disse 'boa tarde', e o sérgio sousa pinto, sentado, em baixo, reagiu de imediato: MUITO BEM! MUITO BEM! ia até começar a bater palmas, quando alguém o acalmou. o sérgio sousa pinto está mais gordo. o sérgio sousa pinto nunca teve uma profissão na vida, e desconfio que nunca terá. sendo assim, porque é que ele não estava na manifestação da geração à rasca?

o líder parlamentar do cds, cujo nome não consigo decorar, apesar de o ter visto uma vez no picoas plaza, e eu decoro o nome de todas as pessoas que vejo no picoas plaza, bate palmas com um grande espaço entre as mãos, diria que serão uns vinte e tal centímetros, o que é um excelente tamanho.

Estou a ver agora a deputada d'Os Verdes a discursar (o nome dela também não consegui ainda decorar, mas tenho esperança de conseguir quando ela fizer 50 anos de parlamento - faltam três), mas o que me chamou a atenção foi outra coisa: o peito. Se eu disser que a deputada d'Os Verdes aparenta ter uns bons marmelos estarei a ser grosseiro, ou a uma ecologista pode-se falar nestes termos?

parvo que sou

leio com atraso o Expresso de sábado e deparo-me com a crónica do Miguel Sousa Tavares, onde o excelso comentador (com quem estou quase sempre de acordo, diga-se) faz uma espantosa (porque intelectualmente desonesta) comparação entre, imagine-se, o sismo no Japão e a manifestação da geração à rasca.

Entre outras coisas, o Miguel perora contra a importância que a comunicação social deu à manifestação em detrimento do sismo, o que me deixou de boca aberta, na medida em que o Miguel é jornalista, e qualquer jornalista sabe o que são os valores-notícia. O que é um valor-notícia? Um valor-notícia é aquilo (uma coisa, ou várias) que leva a que um acontecimento seja noticiado (ou não) e que determina o destaque (maior ou menor, ou seja, primeira página, capa, abertura, ou caixa, breve, chamada de capa, nota de rodapé, etc) que se lhe dá. Um desses valores-notícia chama-se 'proximidade'. O que é isso da 'proximidade', Miguel? A 'proximidade' significa que um acidente de viação com dois mortos em Portugal tem mais importância num telejornal português do que um acidente de viação com 20 mortos na Papua Nova-Guiné. Ou, um sismo no Japão tem menos relevância para um português que a maior manifestação cívica em 35 anos realizada no seu próprio país. Da mesma forma que para um japonês um sismo em Portugal tem menos importância que uma hipotética maior manifestação cívica em décadas no Japão. Outra variante: se a manifestação fosse reduzida, e o sismo bíblico, os valores-notícia alteravam-se, ou seja, o factor 'proximidade' deixava de ser privilegiado - entrava em campo o valor-notícia chamado 'importância'. Não foi o caso. A manifestação foi muito grande, e o sismo, embora grave, não foi bíblico. Tudo isto é uma 'balança', mais ou menos fácil de usar, onde o bom-senso do jornalista 'pesa' as notícias. Isto para mim é claro, e pensava que era claro para todos os jornalistas. Mas pelos vistos não é. A não ser que o Miguel já não seja jornalista. Nesse caso, percebo o disparate.

Mas o mais espantoso desta crónica é o início. Passo a citar:

" (...) o terramoto, filmado por uma câmara de vigilância de um supermercado, uma imagem comovente de duas empregadas que, em lugar de fugirem dali para fora, tentam manter em equilíbrio as prateleiras: a defender o seu posto de trabalho."

Esta é a bucha (imagine-se) que o Miguel usa para depois criticar os manifestantes em Portugal da geração à rasca, nomeadamente que são uns preguiçosos, que querem empregos de mão beijada, e para toda a vida, ao contrário desta trabalhadora gente do Japão. Assim se vê que uma pessoa quando engatilha na parvoíce, depois é difícil sair dessa parvoíce...

Mas, já agora, só para terminar, deixo-lhe uma dica, Miguel: as senhoras estavam a segurar nas prateleiras a fim de que as mesmas não lhe caíssem na tola. Só isso. Achar que no meio de um sismo alguém pensa em micro e macroeconomia é sinal de que se está a precisar rapidamente de fumar um charuto e relaxar um bocado. Vá, aquele abraço, Miguel. Está tudo bem. Já passou. Gosto muito dos poemas da sua mãe. 

Terça-feira, 22 de Março de 2011

o pronome dos reis e das rainhas

gosto muito quando a fátima campos ferreira usa o nós majestático em frases como 'nós estamos com os bolsos vazios.'

Segunda-feira, 21 de Março de 2011

as velhas de benfica

a esplanada está cheia e uma velha vê um um novo sentado sozinho e pergunta: 'posso-me sentar aqui?', e o novo, ou nova, não tem outro remédio senão aceitar, outro dia estava sentado numa esplanada, sozinho, e à minha frente estava uma nova, também sozinha, e noutra mesa estava outra nova, também sozinha, e veio uma velha e, vendo que não havia mesas disponíveis, perguntou a uma das novas: 'posso sentar-me aqui só um bocadinho?', podia, eu estava a ler um livro e achei: 'coitada da miúda...', então veio mais uma velha e começou a falar com a outra velha, e sentou-se também, e eram agora duas velhas contra uma nova, como numa batalha, a nova estava a estudar, e as velhas começaram a falar alto, ri-me, e foi quando se chegou à minha mesa uma velha e disse asssim: 'ai, deixei-me sentar aqui um bocadinho', trazia já um café, daqueles que têm espuma por cima, e eu disse: 'com certeza',

ela agradeceu e sentou-se, quando ela se sentou, sentaram-se também os sacos, umas calças vermelhas, uma camisa branca às riscas azuis, o cabelo, todo branco, apresentado numa armação, uma espécie de bola de pêlo que os gatos cospem da boca, sapatos castanhos rasos, óculos de fundo de garrafa com as lentes ovais, como de mergulho, um relógio de menina, branco, com um desenho animado, que me pareceu uma vespa, 'é só um bocadinho, até ir à consulta', sorri, desviámos as minhas coisas para um canto da mesa, e ela disse assim: 'você arranja-me um cigarro?', eu disse que arranjava, 'quer lume?', perguntei eu, já de isqueiro estendido, e ela: 'não, não vou fumar agora, preciso de comer primeiro', recolheu o cigarro, eu recolhi o isqueiro, e ela então meteu a mão no saco grande, que se dividia em matrioskas de saquinhos pequenos e tirou um embrulho, 'ainda bem que trouxe comida, para o caso de ter de esperar', e riu-se, eu ri-me, era um bolo, uma madalena, começou a comer a madalena e o café, que estava muito cheio e transbordou, tirou uma guardanapo, depois outro, depois outro, e mais outro, e eu, que preciso de concentração para ler, desisti, e ela: 'eu antes não fumava, comecei a fumar aos 55', eu disse 'pois' com a cabeça,
'mas tive umas desgraças na vida...',
...
'a médica já me disse para reduzir... tenho uma amiga que fuma quatro maços por dia', e eu: 'quatro maços?', e ela: 'quatro maços...', e eu: 'quantos anos tem ela?", e ela: 'é mais nova que eu, tem uns cinquenta e tal', e eu: 'e a senhora fuma quantos?', ela acabou o café e a madalena, pegou no cigarro, estendi o isqueiro, acendi-o, veio o vento, foi quando ela fez parede com as mãos, oportunidade que tive para lhas ver, que não tinham nada de especial, 'fumo um maço; e você?', e eu: 'meio maço por dia', e ela: 'ainda assim, é muito...', sorri, e ela: 'foi uma depressão, fiquei desempregada e perdi o meu marido, o meu companheiro, éramos tão felizes, viajávamos pelo mundo inteiro', e eu:
'ele fazia o quê?
'era director hoteleiro, passávamos longas temporadas no norte da europa, estive um mês em nova iorque, eu disse-lhe uma vez: não me quero ir embora, aqui está-se tão bem. e ele disse-me: mas em portugal também é bom...'
'e o emprego?', perguntei, 'o que é que a senhora fazia?, se não é indiscrição...'
'era recepcionista'
'no hotel?'
'não, num salão de salão de beleza. fui vítima de intrigas...'
'então?'
'era um salão na fontes pereira de melo, de uma francesa, a filha tirava dinheiro da caixa, e a patroa pensou que era eu, eu dizia: 'não, é a monique, é a monique. acabei por me despedir. fui para uma loja de uma amiga minha, mas fechou três meses depois.'
...
'foi muita coisa junta...'
...
'comecei a fumar aos 55...'
e eu, tentando saber a idade dela sem lho perguntar directamente (táctica de jornalista): 'isso foi há quê? há cinco, dez anos?'
'não!, então?!, eu tenho 77.'
...
'foi muita coisa junta...'
...
'desculpe o desabafo'
'ora essa'
'bom, então bom dia...'
'bom dia'
'ainda é bom dia?'
olhou o relógio
'é, é'

Domingo, 20 de Março de 2011

a boca

não basta ver para tentar perceber, neste caso é preciso ouvir, e quando se ouve a bárbara percebe-se porque é que uma mulher como ela se casou com um homem como aquele, não é uma questão de ser melhor ou pior, do que eu ou do que tu, apenas se percebe logo porque é que é assim, lembrei-me agora quando o carrilho concorreu à câmara de lisboa, e perdeu, na noite eleitoral, a bárbara chorava, não sei se literalmente, a fonte não mo concretizou, mas andava ela de um lado para o outro, no hotel altis, se não estou em erro era no altis, lamentando-se: 'uma campanha tão boa..., tão boa, como é possível...?', eu e a bárbara somos dois mundos incomunicantes, o que é uma pena, com uma boca daquelas, trazia-a cá a casa e virava-lhe a cara ao contrário para fotografar metade dos lábios, para ficar só o coração, depois ela olhava à volta, espantada, e eu, adivinhando a pergunta, dizia: 'são livros, bárbara, são livros...', e ela, boquiaberta: 'um rapaz tão bonito..., tão bonito, como é possível...?'

de deus

tinha ar de professora severa de ensino primário, passe a contradição, antigamente não era uma contradição, agora é, pediu uma revista na banca, e a revista vinha com uma oferta, tudo enbalsamado num saco de plástico, como aqueles que põem nas pernas de frango, mas mais fininho, e disse assim à miúda: "tire-me a encardernagem", sem pedir por favor, sem sequer recorrer a uma palavra mais fácil que encardenagem, que, desconfio eu, nem sequer existe, tinha cinquenta anos, um sinal preto no canto, e o cabelo era um estupendo abat-jour, parecidos com os que vendem aqui na gomes pereira, mas em preto, a miúda disse assim: "como?', o problema foi o encadernagem, e foi também a oportunidade que a miúda deu à senhora de lhe pedir com outros modos, e a senhora então disse assim: 'é para tirar a encadernagem', pronto, já foi diferente, há um tipo aqui em benfica que sempre que me vê, às vezes é todos os dias, me pede um cigarro, e eu digo-lhe sempre assim: 'não', e ele no dia a seguir pede-me outra vez um cigarro, outro dia pediu-me e estava eu a comprar um maço na banca e ainda vinha com ele na mão, e nesse dia eu já lhe disse assim: 'não', e abano sempre a cabeça, que é para não ficarem dúvidas, acaso ele fosse búlgaro e achava que estava a gozar, não é na bulgária que o sim com a cabeça é o não com a cabeça para nós?, e o não com a cabeça na bulgária é o sim com a cabeça para nós?, bom, abriu uma loja de conveniência de chineses no lumiar, mesmo em frente ao colégio são joão de brito, está sempre aberto, domingos e feriados e noites, dois rapazes chineses, outro dia fui lá e pedi um marlboro, depois peguei nele e calculhei o peso, atirando-o ao ar, desconfio que os asiáticos traficam tabaco, havia, ainda há, uma indiano ali no marquês de pombal que vende marlboros traficados, este pareceu-me do peso certo, o chinês era maricas, nem sabia que se faziam maricas na ásia, quanto mais que emigravam e tudo e tinham lojas de conveniência e tudo, tinha uma fita no pulso, e havia outro, que está lá sempre, que está sentado ao balcão em frente ao computador, deve estar a fazer downloads de filmes ou assim, preciso de comprar meias, sabias que há meias pretas que deitam imensa tinta quando são lavadas?, chiça, outro dia, quando estava a torcer uma, parecia que estava a agarrar um polvo pelo cu, ou então deve ser a qualidade destas meias, talvez indo a outra loja a coisa se resolva, não como uma queijada de leite há uma semana, está-me a custar, percebo bem o que é a ressaca, agora ando virado para os pães de deus, pequeno almoço pães de deus e até sou capaz de almoçar pão de deus, se fosse comigo eu dizia logo à mulher: 'olho, aqui só vendemos as revistas, não tiramos encadernagens."

Domingo, 13 de Março de 2011

mais coisas à rasca

Eu fui à manifestação de sábado, fui e sou a favor dela, e gostei de lá ter estado. E sou suspeito para o dizer. Não sou de esquerda (cruz credo) e não partilho (nem pouco mais ou menos) as reivindicações de mais e mais Estado assistencialista, para não falar da visão cimentada da legislação laboral. Não foi por isso que lá fui. Foi por outra coisa, a que já lá vou. O que me irritou no pós-manifestação foram as críticas de alguns comentadores. Concordo quando a Maria Filomena Mónica diz que a universidade não é um direito universal, mas sim um privilégio para alguns. Concordo com o Pacheco Pereira quando ele critica a falta de rigor e a linguagem PREC de muita comunicação social. Mas não posso concordar quando eles dizem, e tantos outros, basta correr a maioria dos blogs políticos, basta ouvir o que disse Miguel Sousa Tavares na SIC, basta ouvir o que disse Ricardo Araújo Pereira (até este...) no Governo Sombra da TSF, que a manifestação foi ridícula por ter sido acéfala, apartidária, apolítica, vazia de ideias e soluções, ignorando que a mesma teve tal sucesso por os seus pressupostos serem exactamente esses, como se uma pessoa não tivesse na vida, num ou em vários momentos, a necessidade de desabafar, de dizer que se está infeliz, que se está farto, que não precisa, não quer, não sabe a solução, apenas que tem um problema e o problema é este. A manifestação de sábado foi apenas isso, uma catarse colectiva, um desabafo, uma ida ao psicólogo. Estes comentadores revelam uma cegueira tão grande perante o que aconteceu no sábado, que é tanto mais surpreendente quanto foram os mesmos (mas não só eles) que se encheram de lágrimas quando um vendedor ambulante se imolou na Tunísia e desencadeou uma revolução no país, que depois se estendeu ao mundo árabe. Por deus, por alá, que proposta fez aquele homem à sociedade pegando fogo ao seu próprio corpo? Nenhuma, zero. Aquele homem estava apenas guiado pelo desespero. Nas sociedades ricas europeias ninguém se imola em praça pública. Nas sociedades ricas europeias, burguesas, superficiais, banhadas nas aparências, o equivalente, passe o exagero, a imolar-se pelo fogo na praça pública é vir à rua com cartazes, como eu vi no sábado, dizer que se ganha 500 euros por mês e que tem de se viver na casa dos pais porque essa é a única maneira de sobreviver. Não interessa de quem é a culpa, se é deles, se é dos pais, se dos partidos, se dos patrões. Interessa, mas ali era secundário. Há alturas na vida em que o essencial tem necessariamente de ser acessório. Quem chega a este cúmulo nada mais quer que desabar, deitar para fora, no conforto de milhares de pessoas que sentem e passam pelo mesmo, como numa reunião de alcoólicos anónimos. Estes comentadores são capaz de assistir a uma reunião de alcoólicos anónimos e dizerem no final: "Isto é uma fantochada porque estes tipos só falam, falam, falam e não fazem nada..." Felizes estes comentadores, que nunca desabafaram, nunca tiveram um desespero na vida, nunca sentiram a necessidade de o exteriorizar, sempre foram bem sucedidos, nunca chegaram a uma altura na vida e disseram para si próprios: eu não sou feliz, que vidas fabulosas devem ter, nunca disseram um palavrão, nunca fizeram um disparate, sempre tão bem resolvidos, desconfio até que não têm amigos, porque pessoas sem problemas não precisam de amigos para nada. Eu fui àquela manifestação porque me outorgo o direito de dizer "foda-se para a merda como somos governados" sem ter medo que me chamem rasca, sem sentir necessidade de propor uma alternativa. Que alternativa se pode propor quando não há nenhuma, credível, capaz, ou melhor? Então, resta o desabafo. Ainda somos livres para isso, não? Ainda somos livres para dizer que somos uns bêbados? Ainda há o direito de as pessoas se humilharem? Ou já não? Nem isso?

à rasca

Então bom dia. Cá estão as fotos. Eu sou, como sabes, uma espécie de Alfaiate Lisboeta das manifestações - uma lacuna no mercado que estou à espera que um dia me rendibilize alguma coisa. São muitas fotos, mas isso é derivado ao facto de ter estado muita gente, e gente bonita e engraçada. Não concordo com algumas das coisas que lá se disseram, concordo com a maioria. Mas não falemos de política (recordo, isto é um post à Alfaiate). Foi uma festa bonita - diferente, vá. Encontrei muita gente conhecida, e não sei se isso é bom sinal - jornalistas, actores, ex professores da faculdade, ex colegas do movimento associativo, e até bloggers bem conhecidos(as) da nossa praça. Bom, adiante. Algumas fotos estão desfocadas, ou tremidas, mas isso já é uma coisa a que te habituei e que sei que já não prescindes. Se algum dia apresentar aqui um conjunto de fotos e nenhuma estiver tremida ou desfocada até parece que estou a gozar. Não, eu não sou assim. Para fotos bem tiradas, já basta este camarada. Atenção a alguns pormenores do que se segue. Fui a única pessoa a fotografar o vocalista dos Blasted Mechanism (estupendo nome, já agora) sem estar em tronco nu. Há um senhor de calções a fazer jogging no meio da manifestação. E para último deixei um bocadinho dos bons ares que se respiram noutros lados, e que também há por cá. Refira-se ainda que está tudo bem com as pessoas e animais fotografados.

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