Domingo, 30 de Janeiro de 2011

o factor P

aqui há uns anos, fui almoçar a Matosinhos, ou a Leixões, ou a Leça, ou à Ribeira, ou lá o que era aquilo, uma coisa assim, eu para decorar nomes é uma chatice, sei lá ir ter mas não sei o nome, com as pessoas é a mesma coisa, sei lá ir ter mas não sei o nome, enfim, e estava com a cabeça a rebentar, uma dor que parecia que o simples respirar era um martelo a bater de lado a lado, e então eu, que estou quase sempre de trombas (aliás, na altura, que agora sou muito mais simpático), estava pior ainda, e o senhor, que era o dono do restaurante, reparou no meu estado quando veio à mesa perguntar o que ia almoçar, mesmo que, independentemente do esgar de dor que fazia nas veias ao lado dos olhos, estava a comer as entradas todas, e estava, que no Porto não se brinca com as entradas como aqui em Lisboa, o homem não disse nada, então uns três minutos depois apareceu-me com dois compridos vermelhos e meteu-os em cima da mesa, mesmo ao lado do prato onde estavam uns pepinos verdes muito pequenos, que eram as entradas, não sei o nome daquilo, não são pepinos, é uma coisa verde e pequena que parece uma malagueta, na verdade deve ser um pimento bebé, e que é levemente assado na brasa e depois leva umas pitadas de sal em cima, que é por causa das merdas, não sei o nome daquilo, mas comi-os todos, mais os jaquinzinhos, eram dois Trifenes, que vi logo que eram dois Trifenes, sei identificar um Trifene a quilómetros, que toda a minha vida tive dores de cabeça e peço sempre um Trifene à primeira mulher que me aperece, porque as mulheres têm sempre imensas barras de Trifenes nas malas e nas gavetas do trabalho, olhei e vi que só podiam ser da filha do senhor, uma miúda que andava ali a ajudá-lo e que depois de ter ido à cozinha com o pai me pareceu ter ficado chateada, provavelmente o pai pediu-lhe qualquer coisa para me ajudar e ela disse que só tinha Trifenes, mas que não podia emprestar, que, coitada, também devia estar com dores menstruais, ou lá como se chama isso que vocês têm nos rins, e não deveria querer facultar dois Trifenes assim a um tipo estranho, e ela era tão teenager que devia estar a ter as primeiras dores menstruais, se é que essas dores aparecem na teenageridade das mulheres, então o pai deve-lhe ter dado umas bofetadas no focinho, que o dever dela era ajudar-me, não sei, o que sei é que tomei os compridos e a dor de cabeça passou mesmo a tempo de virem as lulas grelhadas com batatas a murro e a salada de tomate regada a azeite e vinagre, eles lá no Porto não têm quase nada melhor do que nós em termos culturais, o clima é pior, e não há quase nada que se passe lá que não passe também aqui, então eles especializaram-se nas pessoas.

Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

feira da ladra, mas não morde

Voltemos então a Bangkok e aos mercados. Gosto muito de mercados, como sabeis. Gosto e tenho-lhes respeito, como bem ensinam o professor Aníbal e o cachorro Bo. Em Bangkok, como não podia deixar de ser, vende-se de tudo. Especialmente roupas. Neste aspecto, são um paraíso para as senhoras que apreciam aquelas coisas da zara e da mango e dessas pessoas, porque está aqui tudo isso a preços dez vezes menores. Por acaso não tenho muitas fotos, mas garanto. Há por aqui muita qualidade vendida quase de borla. Estamos a falar de t-shirts, por exemplo, a dois ou três euros. Vestidos por cinco e etc. Bom, adiante. (Hoje não estou para converseta.)


Se alguma foto estiver tremida, é só impressão.

Em cima, a ventoinha gigante na foto da esquerda borrifa água nas pessoas. É para refrescar da humidade. À direita, um maricas tailandês que ficou muito meu amigo e me mostrou as suas bonecas.

Em baixo, estrangeiros em esplanadas. Para rebentar à bomba. 

Ratos à esquerda e gatos à direita.

E agora, cães. Para estufar. Ou assar, gostos não se discutem.

Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

um enfado sobre o enfado

um excelente post, este.

O Beckett, por exemplo, faz em alguns livros uma coisa muito parecida, que é repetir, às vezes quase até à náusea, certas situações, para o leitor ter melhor 'percepção' delas. Ou seja, não basta dizer que uma situação é absurda (ou qualquer outra coisa) - tem de ser esmiuçada até ao máximo através da enumeração de todos, mas todos, os seus detalhes, ou repetições, ou momentos, seja o que for, para assim a caracterizar provocando um determinado estado de espírito no leitor que o leve a concluir isso, mas sem que isso lhe tenha sido dito. Mas só alguns leitores aguentam e poucos percebem.

Um exemplo básico, inventado agora à pressão:

Pode dizer-se, por exemplo num livro: "Ana começou a subir uma escadaria interminável, e conforme ela subia, mais farta e exausta ficava, desejando que tudo terminasse o mais depressa possível."

Ou fazer isto, que é a mesma coisa, mas escrito de uma forma completamente diferente:

"Ana subiu o primeiro degrau, depois o segundo, o terceiro, o quarto, olhou para cima, e subiu o quinto degrau, depois o sexto, o sétimo, oitavo, novo, décimo, décimo primeiro, décimo segundo, décimo terceiro, parou, suspirou, olhou para cima, e continuou a subir, décimo quarto, décimo quinto, décimo sexto, décimo sétimo, décimo oitavo, as pernas começaram a doer, décimo nono, vigésimo, vigésimo primeiro, vigésimo segundo, vigésimo terceiro, vigésimo quarto, vigésimo quinto, vigésimo sexto, vigésimo sétimo, vigésimo oitavo, vigésimo nono, trigésimo, trigésimo primeiro, trigésimo segundo, trigésimo terceiro, trigésimo quarto, trigésimo quinto, trigésimo sexto, trigésimo sétimo, trigésimo oitavo, trigésimo nono, quadragésimo, parou, olhou para cima, suspirou, quadragésimo primeiro, quadragésimo segundo, quadragésimo terceiro, quadragésimo quarto, quadragésimo quinto, quadragésimo sexto, quadragésimo sétimo, quadragésimo oitavo, quadragésimo nono, quinquagésimo, quinquagésimo primeiro, Ana suava cada vez mais, voltou a parar, olhou para cima, e continuou a subir, quinquagésimo segundo, quinquagésimo terceiro, quinquagésimo quarto, quinquagésimo quinto, quinquagésimo sexto, quinquagésimo sétimo, quinquagésimo oitavo, quinquagésimo nono, sexagésimo, sexagésimo primeiro, sexagésimo segundo, sexagésimo terceiro, sexagésimo quarto, sexagésimo quinto, sexagésimo sexto, sexagésimo sétimo, sexagésimo oitavo, sexagésimo nono, septagésimo, septagésimo primeiro, septagésimo segundo, septagésimo terceiro, septagésimo quarto, septagésimo quinto, septagésimo sexto, septagésimo sétimo..."

Ninguém aguenta ler isto. Mas ler mesmo. Todas as palavras. Ou quase ninguém aguenta - ainda mais nestes tempos, em que ninguém tem muita paciência. A esmagadora maioria, assim que se apercebe da repetição, lê na diagonal e chega rapidamente ao fim do parágrafo, ou acha que é chato, ou aborrecido, ou não percebe.

Pelo contrário, quem leu as palavras todas (mas todas) chega a sentir o mesmo cansaço e a mesma angústia da personagem. A arte na literatura não são apenas palavras bonitas. Isto também é.

Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

vento

Hoje voltei a comprar um jornal, duas semanas depois. Comprei o Público. Ia a lê-lo na rua e veio uma ventania tão forte que me saltou das mãos e foi parar debaixo de um carro (é também por estas coisas que é quase certo abandonar o jornalismo). Na medida em que não faço figuras tristes na rua, recusei baixar-me para apanhar o jornal debaixo do carro. Fui comprar outro. Mas tive de ir a outra banca de jornais, que é para a mulher não pensar que eu era maluco ou que andava a traficar Públicos. Está tudo bem. Isto em Lisboa uma pessoa não tem descanso. Sai-se à rua, dá-se um pontapé numa pedra e sai de lá um escritor. Hoje de manhã também, depois de um sono mal dormido (acordei porque estava a sonhar que andava num pântano cheio de cobras grandes, algumas com mais de vinte metros, que vi uma lá ao fundo a apanhar sol, tive muito medo, que é que julgas?), dei de caras com o valter hugo mãe. O valter hugo mãe é, para quem não sabe, um tipo que escreve em minúsculas, de tal forma que o seu próprio nome, valter hugo mãe, é em minúsculas. Que se escreva em minúsculas até percebo, eu também gosto, agora o próprio nome já me faz confusão. E é por isso que sempre achei que o valter hugo mãe andava na rua só de cuecas. Não sei porquê. Pois que hoje de manhã estava de calças, o que me baralhou bastante a teoria. Está tudo bem.

PS: Para não falar que valter hugo mãe me parece uma corruptela de um diálogo do Vítor Hugo com a sua mãe, que, coitada, parecendo sofrer de Alzheimer, pergunta ao filho como é que ele se chama.

Wat Phra Kaew 2 - a pornografia da cor


Se alguma foto estiver desfocada ou tremida, coisa que não acredito, telefona para a ERC. Mais informações sobre este local podem, por exemplo, ser lidas aqui, ainda que em estrangeiro.

o call center

- ERC, boa tarde, o meu nome é Estrela Serrano, tenho o prazer de estar a falar com o senhor...
- Boa tarde, minha senhora. O meu nome é Lúcio Vitorino.
- Ora então muito boa tarde, senhor Lúcio Vitorino, em que lhe posso ser útil?
- Olhe, minha senhora, eu estava a ligar para me bufar.
- Perdão?
- Quero-me bufar, senhora!
- Desculpe, não estou a perceber...
- Quero-me B-U-F-A-R! Desculpe, mas não estou a ligar para a ERC?
- Olhe, desculpe, está sim, mas não precisa de ser malcriado. Com licença...
- ...

Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

cabelo

já cortei o cabelo, já não há mariconço que me consiga segurar a cabeça por trás, estou a ler um livro sobre a Mossad e amanhã começo a ler outro, aprecio muitos as coisas que vêm de Israel e ao mesmo tempo gosto bastante da cultura árabe, de modo que sou o gajo perfeito para pacificar aquela merda, mas ninguém me convida, deve ser porque não tenho Facebook, estou cada vez mais isolado, eu ia lá para a Palestina ou lá o que é aquilo e fazia uma coisa que os gajos no Porto adoram fazer, que é um cordão humano, um gajo se quiser vender um teatro à iurd, ou mandar abaixo um palacete, ou uma merda dessas, está bem fodido, porque os gajos no Porto estão organizados de uma forma que os gajos em Lisboa nem sonham, em Lisboa está-se tudo cagando, é como comparar a Mossad com o SIS, ou comparar cagalhões com nêsperas, os gajos no Porto começam logo por fazer uma coisa que deixa sempre o país (Lisboa) de boca aberta: que é o tal filho da puta do cordão humano, há sempre um cordão humano metido ao barulho no Porto, que é uma coisa bastante improvável em Lisboa, para não dizer impossível, porque aqui em Lisboa as pessoas têm nojo de dar as mãos umas às outras, pelo menos falo por mim, sou capaz de dar a mão a meia dúzia de pessoas que conheço, dez, vá, vinte no máximo, mais a Soraia Chaves, e acabou, e depois em Lisboa faz sempre calor e as mãos ficam logo a suar e as televisões nunca mais chegam e um gajo fica ali naquilo e é uma chatice, no Porto é diferente, está sempre frio e aquilo agarra-se sempre bem, depois os gajos têm estas merdas já definidas por etapas, os gajos no Porto têm um plano, uma merda escrita a lápis e escondida numa cave qualquer da Avenida da Boavista, que é uma avenida feia como à putassa, tirando ali a parte da Casa da Música, que é um aborto, e o Parque da Cidade, que tem uns patos muita loucos, e o Castelo do Quejio, que desemboca lá abaixo e depois vira-se à direita e é Leça, e isso já gosto à brava, e Matosinhos e Miramar, mas para Miramar tem de se passar aquela ponte medonha, feita por um engenheiro civil, perdão, por um arquitecto qualquer, bom, então o plano é o seguinte, isto é como uma batalha, o que é que se faz primeiro numa batalha?, mandam-se os negociadores, que são uns maricas de cabelo comprido, todos janotas montados num pónei, vestidos com saias e com umas bandeirinhas espetadas num pau, então a primeira fase dos cordões humanos no Porto é convocar a Rosa Mota, é o equivalente ao polícia-bom dos interrogatórios, é o maricas montado no pónei com a bandeirinha, no Porto é a Rosa Mota, sempre com o JN e o Jogo e aqueles jornais que há no Porto de volta dela, se isto não resulta, eles passam à fase dois, que é atirar setas, que no Porto é aquela turma do Manuel Serrão, do Rui Moreira, do Daniel Serrão, do Burmester, da Merche Romero, da Sónia Araújo e do emplastro, enfiam essa malta toda e cá vai disto, o gajo dos Blind Zero, o vocalista, não me lembro do nome, anda a ver se entra no clube, mas ninguém gosta do gajo, que já me disseram, então isto é a malta dos archotes, ou das setas, e se isto não resulta vem a infantaria, o que é a infantaria no Porto?, é um cordão humano com o Domingos Gomes, o Domingos Gomes é um tipo respeitável mas o que conta aqui é que é o médico do FC Porto, portanto, um gajo quando mete o Domingos Gomes ao barulho está já a sugestionar os Super Dragões, então se isto tudo não resulta, os gajos no Porto recorrem à ultima fase do plano, que é pegarem no telefone e ligarem ao Pedro Abrunhosa, é a cavalaria a chegar, é a solução final para espantar a bicharada toda, o Pedro Abrunhosa é o equivalente à doninha fedorenta que aparece sempre nos filmes de desenhos animados da Disney quando os heróis estão quase a ser comidos pelo urso, aparece então a doninha, larga a bombinha, e fica tudo salvo, puta que pariu mais ao urso, estou cada vez mais malcriado e já me esqueci do que é que estava a falar.

Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

genocídio higiénico

Já não sou Virgem, recuso-me a ser Sagitário, já não sou Leão, recuso-me a ser Carneiro. Não se ouve mais nada, não se lê mais nada. Curioso como, ainda há dias, o outro matou o outro e disse: "Já não sou gay." Mas este, antes de o dizer, matou alguém - o alguém que personificava o que ele era mas afinal não era. Má sorte alguém saber o que é. Façam o mesmo que ele. Juntem-se todos, meus filhos, e antes de dizerem que já não são seja o que for, matem o que estiver ao vosso lado direito, e deixem-se depois matar pelo que estiver ao vosso lado esquerdo, e assim sucessivamente. Quando só restar um, que venha ter comigo. Eu próprio o mato. Ficaremos assim todos livres desta gente, que sabe o que é.

cá estamos

o frango assado do pingo doce do fonte nova é tão gorduroso que sinto a garganta a ficar como o gargalo de uma garrafa de óleo Fula, já o frango assado do continente do colombo é tão bom que tenho de comprar só um de cada vez, porque se compro dois sou capaz de os comer aos dois no mesmo dia, estou a pensar tomar soporíferos para poder resistir, se é que eu sei o que é um soporífero, nunca tomei um, há marcas disso?, ou chega-se à farmácia e diz-se é um soporífero, se faz favor, dois pacotes de leite e duas caixas de café Nespresso saquetas custam cinco euros na mercearia ali da Av. do Uruguai, mas as mesmas duas caixas de Nespresso saquetas mais os dois pacotes de leite já custam menos de três euros no continente do colombo, estou outra vez em Bangkok, ontem comi um gardanapo, o bolo, além de um queque e de uma coisa com chouriço, estou mais magro, está tudo bem, já decidi em quem vou votar, vou votar no gajo da madeira, ainda não decorei o nome dele, mas encaro isso como um bom sinal, hoje vou a outra pastelaria, não vou ao Golo quase há um mês, ao Califa fui antes do verão, eu Tarzan, tu Jane, o gordo viu-me na rua e fez de conta que não me viu, já o maricas, o outro, também me viu outro dia no Chiado e fez de conta que não me viu, até pôs o saquinho da Zara na mão esquerda, precisamente o lado por onde ia passar ao meu lado, como se pondo um saquinho da Zara fosse possível inviabilizar um cumprimento, e logo comigo, que ando doido para arranjar um amigo maricas, estão precisamente trinta e três livros em cima desta mesa, isto com calma lei-os a todos, o Picoas Plaza pôs agora mesas dentro do Picoas Plaza, gosto muito do Picoas Plaza, tem uma esplanada enorme onde se pode fumar, tem a Bertrand e cafés vários, alguns servidos por brasileiras várias, o Roth, coitado, ficou a meio, faltam-me dois do Bellow, mais o norueguês esfomeado, os porcos do Orwell, o Brandão, e mais umas merdas que não posso dizer que é para continuar a parecer que sou burro como um calhau, está tudo aqui em cima da mesa, esta semana comprei três livros sobre a guerra colonial na esperança que houvesse lá mulatas de mamas ao léu, mas nada, o Lobo Antunes, descobri ontem, começa um capítulo do Cus de Judas com a frase "Cá estamos.", gostei muito, é de mestre, cá estamos, foda-se, o Pessoa morou aqui na Gomes Pereira!?, li esta semana algures, eu que já morei na Rua do Arco do Carvalhão e por causa disso sempre achei que nunca poderia ser escritor, agora, com esta da Gomes Pereira, fiquei mais esperançado, é como diz o outro: cá estamos, gostava de ver este documentário e este filme, aquela pastelaria ali como quem vai para o coiso tem agora lá um empregado novo que recebe as pessoas sempre com um "olá, bom dia, seja muito bem-vindo", todos os dias isto, acho excessivo, aborrece-me, como se fosse lá fazer um empréstimo para a casa, só quero um bolo e café duplo, camarada, está tudo bem, não é preciso exagerar, comprei também o Ana Catarina, do Leão, mas não é o do Sporting, é o russo, mas não é o Izmailov, é o outro, que é meu primo do interior, já tenho uma base nova para pôr debaixo do rato do portátil, é a Notícias Magazine deste domingo, é uma revista fininha, óptima para estas coisas, tem a Scarlett Johansson na contracapa, agora passo-lhe o rato por cima, na zona das maminhas, onde diz Dolce&Gabbana.

prioridades

Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

um anjo pela cidade

Tenho andado a pensar nisto. Parece que o Carlos Castro morreu com um teclado enfiado na cabeça e o outro ainda lhe meteu um saca-rolhas para tirar os tomates como se faz com aquelas roscas para tirar os escargots. Bom, estava a pedi-las, com esta mania das grandezas e dos luxos. Eu, quando vou ao estrangeiro, fico muitas vezes em hotéis de tal forma deploráveis que nem papel higiénico têm, quanto mais teclados e saca-rolhas. Saca-rollhas? Porra. Já estive em vários hotéis de luxo e nunca na minha vida lá vi um saca-rolhas, mas enfim. O gajo também veio de Cantanhede, não é? Na volta foi para o Intercontinental de Nova Iorque com um garrafão de tinto e saca-rolhas. Os tugas não perdoam nessas merdas.

Isto para dizer que fui então ao Chiado, mais propriamente à Hemeroteca. Eu tinha aqui muitas coisas para dizer sobre as pessoas que trabalham na Hemeroteca de Lisboa, principalmente dos cavalheiros do andar de baixo, mas não digo porque, com a sorte que tenho na vida, dos nove leitores que tenho neste blog, dois serão certamente filhos destes senhores e vão-se chibar logo (além disso, por acaso, hoje até foram simpáticos). De modo que fico sugadito no meu canto e não me estico, que ainda tenho de lá voltar mais vezes. De qualquer modo, só para referir que esta entidade paga com o dinheiro dos nossos impostos não tem, por exemplo, todas as revistas de domingo do Correio da Manhã, que é só o jornal mais vendido aqui no burgo. Precisei de ir lá ver umas merdas e, dos dois últimos anos, só havia umas vinte revistas. Faltam, portanto, à volta de oitenta edições - repare-se que não são edições raríssimas de alfarrabistas do século XIX, são de 2009 e 2010 -, mas tudo bem. Um gajo vai a uma tasca atrás de uma pedra no Portugal profundo e está lá um Correio da Manhã debaixo de um pires de tremoços, mas à Hemeroteca de Lisboa chega às mijinhas. Mas tudo bem. Sou da paz. O que me salvou o dia foi a primeira revista que me apareceu:
Portanto, um estupendo par de mamas para abrir as hostilidades e parar de pensar no Carlos Castro. Ao lado, dentro da caixa, uma mosca varejeira morta, provavelmente macho e aí eu percebo bem o porquê da morte. E o título: Sexo no Verão. Tudo muito bem e, eis se não quando, folheio mais umas revistas e tungas: um déjà vu (segunda expressão em francês deste post)
O Correio da Manhã sabe o que é bom (é sexo no verão e são as histórias da concorrência para copiar à sucapa), de tal forma que repete uma capa (e título) poucos meses depois, com o cuidado, vá lá, de, desta vez, nos espetar com um cu fenomenal, ficando eu agora na dúvida se a mosca morreu do cu ou se foi das mamas.

Isto para dizer que já abriu a esplanada do quiosque do Largo de São Roque.

Este largo tem uma estátua, que é a do cauteleiro. Se não estou em erro, não tem uma placa a identificar nada. É o costume. Tenho muitas coisas a dizer sobre isto. Lisboa é uma cidade bonita, mas podia ser qualquer coisa de estrondoso se não lhe tivesse ocorrido na vida dois pequenos detalhes. O primeiro foi um filho da puta de um terramoto, que destruiu património incalculável. O segundo têm sido as pessoas que nela habitam, uma massa de gente incapaz, ao longo dos séculos, de criar uma elite (como há no Porto, por exemplo) que se interesse pela cidade e se imponha a defendê-la. Pior, além de não haver elites, os lisboetas têm sido extremamente sábios a escolher os seus autarcas, que aquilo tem sido um pior do que o outro. Este que lá está, coitado, até é boa pessoa, mas não tem cheta para mandar cantar um cego.

E eu também fui responsável, atenção, que um dia votei no Santana Lopes. É verdade, estava farto do João Soares e votei Santana Lopes. Quéquefoi? Quéquefoi? Já está, já está. É uma vergonha, eu sei, mas o que me safa da chacota pública é o voto ser secreto. Votar Santana Lopes foi a minha contribuição alfacinha mais deplorável de sempre. Nem os cocós que, em puto, fazia na praia de Carcavelos (especialmente quando as marés estavam para Cascais) suplantam isso no que diz respeito a actos obrigatórios de cidadadia.

Isto para deixar aqui uma ideia aos autarcas que era pegarem nos livros sobre Lisboa - para não vos dar muito trabalho, peguem nos Lisboa Desaparecida - e façam dez, vinte, trinta estatuetas como esta do cauteleiro e espalhem-nas pela cidade. E há tantas figuras marcantes, tantas, tantas. A última delas é o Senhor do Adeus. As cidades fazem-se também das figuras populares que as marcaram e não há ninguém em Lisboa que faça justiça às fadistas, às varinas, ao Burnay, à Preta Fernanda, às Manas Perliquitetes, ao Gaspar da Viola, ao Pai Cândido, ao Anão dos Assobios, ao Luciano das Ratas, aos vendedores de leite, aos de água, às de azeitonas, aos ardinas, a tanta gente, tanta gente. Está tudo documentado, é tão simples. Já que deitaram abaixo palacetes, igrejas, teatros e tutti quanti (expressão em italiano desta vez) que façam esta coisa simples e prometo que nunca mais voto Santana Lopes.

Isto para dizer que encontrei o Gonçalo M. Tavares na rua. É verdade. Eu a brincar com o homem aqui e saio da barraca e esbarro com ele (eu não digo que Lisboa é pequena? - de certeza que há um leitor que é filho de um dos gajos da Hemeroteca). Bom, o homem que o Público e o DN dizem que vai ganhar o Nobel da Literatura ia a falar ao telemóvel ali como quem vai para o coiso. Ainda estive para lhe ir por trás e dar uma chapada nas costas: "Então, caralho, já recebeste o Nobel ou não? Vai aos Correios, foda-se, que deve estar lá de certezinha!" Mas achei melhor não. Desculpem a linguagem, mas quando fico com o cabelo comprido torno-me um ordinarão. Deve ser uma coisa bairrista. É o meu lado Madragoa. Estou com o cabelo tão comprido que até já me apareceram caracolinhos de lado. Pareço aqueles anjos do Rafael e do Botticelli, mas com barba de quatro dias, ou seja, sou uma contradição ambulante.

Isto para dizer que Lisboa já tem um pedinte com piada.
Pediu-me para publicitar o site dele, e eu acedi, que eu sou como o Alfaiate Lisboeta nestas merdas. Aqui está. Vagabundo com site na internet... Isto é como a história do Carlos Castro: está mesmo a pedi-las.

arquivo

Tecnologia da Blogger.