Vendedor de couves e pinheiros de natal no largo do Chafariz de Benfica, construído no longínquo ano de 1788. Destas bicas vinha água desviada do Aqueduto das Águas Livres para alimentar as pessoas e o gado. Estes chafarizes também se chamavam aguadeiros e eram fundamentais numa Lisboa setentista e oitocentista, onde não havia saneamento básico.
Este aguadeiro, apesar de ser um dos poucos monumentos do bairro de Benfica, está votado ao abandono. Não tem uma placa a explicar a sua história, não tem nada. A única coisa que lá puseram foi aquela tabuleta branca espetada no meio a dizer para não alimentarem os pombos.
Por aqui, por este aguadeiro, passou nos últimos três séculos muita gente pobre, camponeses, operários, mas também condes, aristocratas, burgueses, cléricos (a igreja de Benfica, que começou a ser construída em 1750, fica trinta metros abaixo), os grandes escritores do século dezanove, comerciantes abastados, políticos. Muitos viviam por aqui, outros (a maioria) vinham almoçar, jantar, cear ou passar férias campestres nos palacetes da zona. Passavam de tipóia vindos do Chiado ou indo a caminho dele. Alguns passeavam a pé com as damas, eles desembainhando as bengalas no ar, elas fazendo rastos na terra com as sombrinhas.
A memória destas coisas não está, nunca esteve, nunca estará, a cargo dos autarcas que nos têm governado e que sempre foram destruindo a cidade em nome do 'progresso'. A memórias está apenas nos livros, e está nestes tempos difícies que levam a que postais de antigamente ganhem cores de século vinte e um. Ei-lo, o vendedor de hortaliças, esperando clientes para as suas couves. Trezentos anos depois.