Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

o nosso carlos de inglaterra

Coitado do Gonçalo M. Tavares. O Público escreveu há uma semana que o homem era candidato ao Nobel e o Diário de Notícias, que é por causa das merdas, diz a mesma coisa hoje. Pior, convida-o para dirigir o jornal, que o jornal faz anos hoje. E o Gonçalo, coitado, vai a todas - mas depois faz sempre aquelas poses com a cabeça virada, meio vagabundo-chique, meio intelectual de café, meio falso-modesto, aquela pose que eu às vezes faço, que é a de fazer de conta que não gosto dos elogios que me fazem. Coitado do Gonçalo, um homem que escreveu 30 livros em dez anos ou lá o que é, parece uma fábrica, está a cair na esparrela que estes gordinhos dos jornais lhe estão a meter, e ele, coitado, vai continuar a escrever livros, uns atrás dos outros, feito Carlos de Inglaterra, à espera uma vida inteira, uma vida inteira!, que a mãe morra para ser Rei, com algum azar à mistura e ainda vais morrer antes dela, estou cá para ver, somos quase da mesma idade, Gonçalo, quem te avisa teu amigo é.

Gonçalo, amigo, vou-te dizer uma coisa: quem disse que eras candidato ao Nobel foi o Saramago. Qual foi a parte que não percebeste? Não faço essa pergunta aos patetinhas que pegaram nisso. Eles não entendem. Mas tu pareces inteligente. Vá, repito, qual foi a parte que não percebeste?

o caso ensitel

Eu, que odeio manadas e 'as causas do momento' (que agora é a Ensitel), até era para vir aqui elogiar, pelo menos uma vez na vida, a acção de uma manada, mas sai-me uma coisa relacionada com uma empresa que eu nem sabia que ainda existia. Ia jurar que a Ensitel era uma loja de venda de electrodomésticos a poucos metros da Electroneves em Campo de Ourique. Agora anda tudo a cuspir na Ensitel (alguém se lembra da chacina popular no 'Por Quem os Sinos Dobram'?) e eu não me posso juntar à manada.

Como dizia o António Gedeão (nuns escritos diarísticos que estavam escondidos, foram descobertos e acabaram de ser publicados e que custam quase 50 euros ou lá o que é), "não tenho vocação para viver".

é triste não fazer parte de uma manada.

Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

freud? bambo? jung? maya?

Depois de Albufeira a organizar os Jogos Olímpicos e da Leopoldina a ganhar o Nobel da Literatura, hoje sonhei que tinha uma chita em casa e que estava a alimentá-la com metade de um cabrito.

Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

uma homenagem ao facebook


Deixei de ser uma bisnaga vira-bicos. Estou mais focado. Desde que coma um bolo a intervalos de oito horas está tudo bem.

Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

Há muitos anos... atrás - Parte VIII

Bom dia. Voltemos então a esta rubrica, desta vez com aquilo a que se pode chamar 'declarações parvas'. Já comi um bolo hoje e estou bem disposto.

18 de Junho de 1989, jornal A Bola. Alfredo. Primeira pergunta: quem é o Alfredo? Bom, o Alfredo é o Alfredo - e isso diz tudo. Guarda-redes raçudo, apanhado um dia num controlo anti-doping, confessa ao jornal, ao mesmo tempo que "veste com à-vontade t-shirt roxa Nike e uns calções azuis e calça ténis", que não percebe como. A entrevista é muito boa. Alfredo diz que só fumou um charro uma vez, que isso até lhe deu sono (atenção que os charros em 89 ainda não eram muito bons), e aventa a hipótese de a cocaína que o controlo anti-doping acusou ter vindo de uma mezinha feita por um vizinho para lhe passar uma dor de dentes. Parece-me perfeitamente pacífico. E fora os "15 cigarros por dia", mais nada. Mas "há momentos em que as lágrimas parecem assomar aos olhos deste rapaz de vinte e seis anos...", diz o jornalista. Melhor, diz o Alfredo, "quando petisco, umas moelas, um presunto, um salpicãozinho, bebo um copinho de 'verde'. É essa a minha droga, que me alimenta o espírito e o corpo" - uma declaração que faria inveja a Gonçalo M. Tavares, que é candidato ao Nobel da Literatura, diz o Público hoje. Está tudo bem com o Alfredo. O Alfredo é o Alfredo. Gosto de coisas simples.


E por falar em doping, assunto pelo qual sou completamente nabo, na medida em que não conduzo nem sou professor: dois recortes muito pitorescos sobre a pobremática, ambos de 1984, 1985, por aí. Atenção que uma das caixas está assinada por Rui Santos, notando-se já aqui, pelo título interrogativo, tudo o que viria aí mais tarde. Do que eu gosto na outra peça é o começo do texto: "Temos impressão que o processo acelerativo do 'xi-xi'..." Bom, como disse a Primeira-Dama agora na televisão, "o Natal é vida" e o Gonçalo M. Tavares é candidato ao Nobel. Ou, como se diz numa das peças, "não somos contra a cerveja".


2 de Junho de 1983. Tinha eu 6 anos, estava a entrar na primária e António Cachola debatia-se em Lisboa contra "bares, boîtes, garotas, cabarets e o diabo". Bom, comecemos pelo fim: quem é o António Cachola? Simples, António Cachola é António Cachola. "O facto de eu ser solteiro e de ter vindo sozinho para Lisboa - um mundo completamente diferente do que estava habituado - influenciaram a minha desconcentração como atleta." O que gosto destas declarações... É sempre digno de admiração como os atletas (principalmente os futebolistas, perdão, os profissionais de futebol) tentam compor os seus discursos com palavras caras para combater os preconceitos intelectuais que há sobre eles. Mas não há problema, eu traduzo o jargão empregue por Cachola: "Tive uns resultados de merda porque andei metido nas putas."

Terminamos com um "curioso, atrevido e picante depoimento de Kostov". Dezembro de 1983, há 27 anos. Bom, quem é Kostov? O Kostov é um búlgaro que jogou no Sporting e que pode provar a sua idade "através de papéis". Está tudo bem. A entrevista é banal. O que interessa é a caixa, em baixo. Parece que Kostov casou sem conhecer a mulher - não percebo o alarido, isso é um drama que afecta 90% dos homens e 98% das mulheres.









Confesso aqui agora a minha falta de arquivo para o seguinte. Não sei se esta noiva que ele não conhece é a mesma ou não. O que sei é que este simpático Kostov búlgaro, que perorava contra as festanças dos jogadores do Benfica, viria, apenas dois anos mais tarde, a ser pai deste belo rebento, nem mais que Sara Kostov, uma rapariga que viria a fazer furor pelas melhores razões (e que é, pessoalmente, uma simpatia, diga-se de passagem). A vida dá muitas voltas.Voltarei. 



Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Roma, o meu nome é a minha casa, a minha casa é o meu nome

Em Portugal, esta campainha estaria assim:
1.º Esq.- Caixa Geral de Depósitos
1.º Dir.- BPI
2.º Esq.- Caixa Geral de Depósitos
2.º Dir.- BCP
3.º Esq.- BES
3.º Dir.- Caixa Geral de Depósitos

freud? bambo? jung? maya?

Depois de ter sonhado que Albufeira tinha conseguido a organização dos Jogos Olímpicos, hoje sonhei que o Nobel da Literatura tinho ido para... a Leopoldina.

Está tudo bem.

Domingo, 19 de Dezembro de 2010

de bem

Um dia, João César Monteiro disse numa entrevista (mais uma daquelas coisas de que me lembro de anos) que tinha um sonho - que fosse a tribunal e quando o juiz lhe dissesse:

"Levante-se o réu."

ele respondesse:

"Levante-se você, seu filho da puta!"

O meu sonho é parecido. Gostava de ser uma daquelas pessoas que agora estão sempre atrás dos políticos, umas rindo, outras sorrindo, outras mirando-os com aquele ar de bois idólatras. Eu gostava de ser um desses, para, de repente, assim mesmo, de repente, à frente das televisões, lhe desse uma grande chapada na cabeça, assim por trás, e lhe perguntasse:

"Então, c***lho, isso diz-se?"

Sábado, 18 de Dezembro de 2010

Há muitos anos... atrás - Parte VII

Voltemos, então, a falar de futebol, assunto de que não falo aqui há muito, mais propriamente a esta rubrica, que me tornou famoso no meu prédio (quem não sabe o que é, basta clicar na etiqueta 'Futebol' no fim do post). Hoje trago coisas ligadas à família, apenas e só porque está a chover lá fora.

Record, quase há trinta anos, Março de 1982. O país era ainda largamente conservador. Mulheres a conduzir era não só um perigo, como uma certa raridade. Daí talvez que uma mulher a abrir nas estradas nacionais 'sem complexos' tenha até merecido manchete do Record, naquele que terá sido caso único na história dos jornais desportivos para este desporto. A apimentar o caso, o facto de a maluca ser francesa e um 'borracho', o que provocou 'actos de cavalheirismo' em alguns concorrentes. Uma manchete que deu certamente tesão a milhares de portugueses. 


Verão de 1989, A Bola. Uma primeira página revista Caras, com direito a espectacular título, "Ai meu S. Futebol Casamenteiro." Trata-se dos casamentos de Toni e Rui Barros com as respectivas mulheres, sendo que neste último caso, o jornal, numa muito subtil piada, chama "casalinho", fazendo, obviamente, alusão à baixa estatura de Rui Barros e sua consorte. As duas molduras dão o toque final a uma primeira página comovedora.

Junho de 1987 e eis um dos meus títulos preferidos de sempre (também gosto muito do "petiscou caracoletas" no ante-título), não só pelo conteúdo, como pelo estilo telegráfico 'Eu Tarzan, Tu Jane, 18 anos, Ermesinde!' - responsabilidade do jornalista d'A Bola, certamente, que, diga-se, aparece ao lado do entrevistado numa das fotos, uma mania que havia na altura, que se perdeu um pouco, mas que voltou agora em força. Diga-se que a 'piada' de Futre com os "únicos" sete clubes em que estava interessado constitui uma daquelas alturas em que uma pessoa mais vale estar calada - recorde-se que ele acabou por ir para o Atl. Madrid. Mas um homem com aqueles óculos escuros não vê bem as coisas.


Numa das edições anteriores desta rubrica, já tinha falado de José Mourinho. Eis o pai, Félix Mourinho, em 1980 - há 30 anos. Da próxima vez que falarem do estilo de José Mourinho, lembrem-se destas imagens (três iguais em contra-espelho naquilo que é uma espectacular paginação) e digam lá se esse estilo pode ou não ser herdado.

Este recorte é muito antigo. Não sei a data porque tive aqui uma falha a catalogá-lo. Mas é antigo, hein? Bom. É uma reportagem com Venceslau Fernandes, grande ciclista, que comemora 45 anos (ah, afinal, é fácil saber o ano deste recorte). O engraçado disto é, obviamente, a foto com as duas filhas - uma delas é, nem mais, a futura campeã mundial Vanessa Fernandes. Se o jornalista soubesse...


Por falar nisso, veja-se este Record de Janeiro de 1983 com 'Os Pastilhas' - um nome que ficaria muito conhecido. Exactamente por isso parei nesta página. Reparei na foto, no ano e lá está, na legenda: "De pé, Luís Filipe, Inácio, Assis..." Quem é este Luís Filipe? É nem mais que Luís Filipe Madeira Caeiro Figo com onze anos. O jornalista nunca poderia imaginar que, numa banal reportagem num banal clube da Cova da Piedade, iria dar de caras com um puto que, anos mais tarde, ser tornaria o melhor jogador do mundo. Há tanta coisa que a gente só percebe anos mais tarde...

Tinha aqui mais coisas, mas isto já está a ficar muito longo. Voltarei.

Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

uma homenagem ao Alfaiate Lisboeta

Ia começar a subir a rua, quando a vi de relance, lá ao fundo, ao virar da esquina, e pensei logo para comigo:
tenho de a fotografar. Corri, toquei-lhe no ombro, embaracei-me, ela também, depois sorrimos, eu primeiro, ela depois, ganhei coragem, talvez lata, e pedi-lhe uma foto, ela hesitou, eu também, falámos, falámos, falámos, bom, ainda falámos um bocadão, depois ela quis, eu também, quisemos.
O estilo vê-se nos pormenores. Macaca Joana sabe disso como ninguém.
Joana, uma macaca romena numa rua de Sete Rios.
A elegância com que se move na multidão..., e a roupa, a roupa..., um fato-de-macaco dourado fino, quentinho, quentinho, tão bom com este friozinho que nos racha os lábios, com pregas muitas e folhos muitos, e nos pés..., Louboutin Lady Gaga de biqueira preta, e nas mãos, nas mãos... todo o requinte da Luvaria Ulisses, ah, a moda, a moda..., a moda urbana no seu requinte, ao mesmo tempo personalizado e cosmopolita, enfim..., a Rua Augusta e a Quinta Avenida resumidas numa macaca apenas.
Joana até fez a habitual pose do agora-vou-fazer-de-conta-que-não-sei-que-me-estás-a-fotografar.
Macaca Joana irradia do rosto todo o brilho dos que pertencem a famílias-felizes-com-casas-no-campo. Gosto. Ela também. Gostamos. Calma, Zé... Respira fundo, Zé...
O andar é clássico, mas ao mesmo tempo jovial, como um morango silvestre colhido pela fresca, ainda com as gotas do orvalho lambuzando o vermelho vivo, aqui e ali esbatendo-o em tonalidades várias, numa paleta de cores tal que nos chega a dar fome.
Por onde passa, Macaca Joana deixa tudo e todos, principalmente o tudo, de queixo caído. Natural. Não custa adivinhar porquê.
Até à próxima, numa esquina qualquer. Agarra-te bem, filha.
Abraço, meu caro.

Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

tragédia

não sei se é normal, ou apenas um fenómeno associado ao Inverno e a estar céu limpo, mas a partir das duas manhã, mais ou menos, da minha janela de Benfica, virada a Sul, continuo a ver estrelas cadentes a suicidaram-se lá ao fundo, umas atrás das outras, nunca antes tinha visto tantas, mas elas suicidam-se todas no Barreiro, coitadas.

Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

Domingo, 12 de Dezembro de 2010

crina

Estava a dar um programa de hipismo na televisão. Apareciam os cavaleiros montados no cavalo e dizia o locutor:

"Jean Pièrre Moulin monta Barbarossa Van Pierse, filho de Black Thunder e, da parte da mãe, de Belle de Jour, uma famosa égua que participou nos Jogos Olímpicos de Pequim, tendo ganho a medalha de bronze, logo atrás, precisamente, do seu irmão, Rouge-Rouge, montado por Nicolas Sebé."

Depois, vinha outra parelha e dizia o locutor:

"Eis Anne Baptiste Vichésse, montada em Blanc Potté, um explêndido macho capado, filho de Dérniere Coucu e, da parte da mãe, de La Princesse."

Assim, constatei, curioso, que os cavalos eram apresentados contextualizando-os através do nome do pai e da mãe. Fiquei a perceber que o mundo dos cavalos funciona da mesma forma que o mundo très chic de Cascais. Só não sei é qual dos dois começou primeiro.

Sábado, 11 de Dezembro de 2010

memória

Um dia, há muitos dias, muitos dias mesmo, dei uns livros a alguém e entre esses livros estavam alguns do Vargas Llosa. Acho que sim, que dei. Não os encontro - devem ter ido nessa remessa. Porquê? Porque nunca tinha lido nada dele (continuo sem ler - estão em fila de espera) e julgava que era um jornalista-de-esquerda-caviar-sul-americano-que-nunca-ia-ser-alguém-realmente-importante-na-literatura-assim-ao-género-do-Sepúlveda. Há muitos dias, como se vê, era ainda mais ignorante do que hoje. Tudo disparate, excepto ser sul-americano.

Lembro-me de uma entrevista do Vargas Llosa, se não me engano no DNA, aquela suplemento que saía com o Diário de Notícias ao sábado, há muitos anos, muitos mesmo, talvez uns vinte anos. Lembro-me de uma coisa que ele disse sobre uma passagem por Lisboa (engraçado como me esqueço de tudo na minha vida e me lembro de coisas assim). O Presidente da República era Mário Soares. Os dois eram amigos e foram jantar fora. Já no carro oficial, a caminho do restaurante, Mário Soares diz-lhe qualquer coisa como isto: 'A ver se arranjamos mesa..."

Com toda a certeza, digo eu, era só o humor de Soares em grande estilo, mas Vargas Llosa, que quase toda a vida lutou contra ditaduras e tiranos (hoje já sei estas coisas, hoje nunca dava um livro teu), impressionou-se muito com aquela frase, com todo o despojamento de poder que ela representa e, acima de tudo, porque lhe levou ao cérebro, como uma sinestesia, aquele perfume que se respira nos sítios que são livres, o perfume da liberdade, que não cheira a nada, mas sabe a tudo. Nunca me esqueci desta história.

Vargas Llosa recebeu ontem o Nobel da Literatura. O seu discurso foi, como se esperava num sul-americano, emotivo e bonito. Esta é a parte em que dedica o prémio à mulher, em que chora com ela, e em que diz outras coisas mais à frente, que prefiro guardar para mim. Há coisas que nunca se esquecem.

Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

em que é que estás a pensar?

Os adjectivos, os pontos de exclamação, sociedade adjectivada e exclamativa, lindamente!, brutal!, espectacular!, estamos tão fartos disto, eu e tu, magnífico!, o melhor!, que determinado!, fantástico!, o elogio jorra das bocarras como o primeiro xixi da manhã, adorei!, és o máximo!, odeio!, genuíno!, eu sou muito sincero!, tanta masturbação, tanta bajulação, o reino da bicharada é o facebook, em que é que estás a pensar?, pergunta o facebook, em que é que estás a pensar?, a pergunta mais estúpida de todas, como se alguém fosse sincero a responder a uma coisa destas, por isso respondem as coisas mais parvas da sua existência, os namorados não as fazem felizes mas em que é que elas estão a pensar?, no creme de cenoura que comeram ao almoço, a mãe está muito doente e o que é que eles estão a pensar?, no feijão com arroz que lhes deu gases a noite toda, os amigos adoram, és o máximo!, só tu para me fazeres rir!, lol, lol, lol, lol, em que é que estás a pensar?, é o reino da bicharada, manada em série de domingo ao final da manhã, o reino da animalidade, dos instintos básicos, foder, comer, defecar, masturbar e lamber, fazem isto tudo a eles próprios e aos outros, adoram, chapinham na água e até entram em migração, ao sabor das estações, ao mesmo tempo que os escaravelhos, debaixo das patas deles, fazem bolas de merda e as empurram para as tocas, e também caçam e matam, apanham moscas com a língua comprida, que língua tão comprida, tão comprida, e engolem as moscas a seco, mais tarde regorgitam-nas ao colega do lado, ao vizinho, ao marido, uma mosca agora requentada, já com as asas derretidas pelos ácidos estomacais, mas ainda com a cabecinha intacta, por trincar, uma delícia, supremo amigo que tu és!, a mosca passa assim por várias bocas, bocas sempre abertas, moscas sempre intactas, porque nunca ninguém tem coragem de lhes trincar a cabeça, têm nojo dos pelinhos,

dizia o saul bellow, num livro que li há dias, que todos querem partilhar a sua sina, como qualquer bicho ou planta, da erva daninha à sequóia, da foca à barata, do rato ao albatroz, o objectivo último é a dominação, benditos os que não querem partilhar a sua sina com ninguém, benditos sois os que não querem dominar, tão raros que são, em que é que estás a pensar?, e são as causas solidárias e os filhos lindos e as férias brutais e as fotos benetton com pretinhos em sítios exóticos, o máximo!, super!, adorei!, amei!, uma experiência para a vida!, é a classe média lisboeta à conquista do mundo, angustiados por voltar a casa, mas à descoberta, desconfiados que os pretos e os índios e os indígenas os vão naifar, mas à descoberta, e descobrem as crianças, ah, as crianças, curioso como todas as crianças pobres do mundo têm um 'sorriso lindo', ou um 'brilho no olhar', ah, um brilho no olhar, que suprema delícia é uma foto ao lado de um pretinho (se for amarelo, melhor ainda, porque a ásia fica ainda mais longe) para espichar no reino da animalidade,

e os anúncios na televisão?, estas marcas e estes produtos e estes empresários e estes crânios do marketing e da publicidade, descobriram o filão da antiguidade, põem as próprias avós no asilos mas descobriram-lhes nas arrastadeiras um filão de ouro, a moda nova é o que não é novo, vende-se o passado ao desbarato, embalaram a tradição num saco de plástico e puseram-na à venda nos hipermercados para os saloios de lisboa que nem sabem o que come uma vaca, tudo com muitos pontos de exclamação, como se quer, produto feito manualmente!, as receitas da avó!, directamente da origem!, como se fazia antigamente!, artesanal!, tradicional!, os produtos mais frescos das hortas mais selectas!, depois põem nos anúncios as velhas e os velhos mais baratos que conseguem arranjar nas agências de figurantes, estamos tão fartos distos, eu e tu, não estamos?, tratam-nos como imbecis, a toda a hora, não falo dos políticos porque já não vale a pena, votaria manuel joão vieira se ele quisesse, porque, como ele diz, para ter estes palhaços na política, pelo menos que um seja palhaço profissional,

e as televisões e os jornais e as rádios, masturbam-se à nossa frente, descaradamente, não há recato, não nos protegem das minudências, ferem-nas a vista com as luzes e o produto da autosatisfação sexual e escatológica dos exclusivos!, exclusivos!, exclusivos!, a rtp isto!, o dn aquilo!, a sic isto!, a tvi aquilo!, o correio aquilo!, o jn isto!, a notícia já não é o mundo, a notícia é como eles são bons a ver o mundo, e como foderam os outros, a concorrência, esfobeteiam-nos isso na cara, agridem-nos, como é possível, leitor burro de merda, que não vejas como somos bons?, como é possível, telespectador ignorante, que não vejas o nosso canal todos os minutos de todos os dias de toda a tua existência vazia de conteúdo?, ele perguntam-nos isto assim, retoricamente, aos gritos, com muitos pontos de exclamação, como se eu e tu quiséssemos saber, não queremos, tratam-nos como imbecis, eu e tu, a toda a hora, em que é que estás a pensar?, quantos amigos tens?, quantos seguidores?, quantas visitas ao blog?, quantas mensagens recebeste no natal?, no aniversário?, no ano novo?, é a dominação, dominação, dominação, a sina, a sina, a sina, da erva daninha à sequóia, da foca à barata, do rato ao albatroz, o sucesso de uma vida medida em números e adjectivos e pontos de exclamação, em que é que estás a pensar?,

não estou a pensar nada, aliás, estou, estou a pensar que eu e tu somos os únicos que sobram, que o resto do mundo está todo louco, e eles são tantos, tantos, tantos, mas tantos, que às vezes dá a ideia de que se calhar o problema é nosso, de mim e de ti, mas o que vale, e isso vale muito, vale mesmo, é que isto é uma paródia tal que nos rimos à brava, rir é bom, gosto muito de rir, é verdade, ninguém diria.

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

já agora, voltando ao livro, diga-se que

as coisas me correm tão bem que o site da fnac consegue a proeza de se ter enganado no meu nome. Para se ter uma ideia, imaginemos que me chamo Tiago Mota - o nome que aparece é... Abílio Mota. Mas vá, acertaram no apelido - nem tudo me corre assim tão mal. É esta mania de ser pessimista que não me larga.

Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

saíram mais resultados internacionais de educação

Já não há dúvidas. Uma súbita bactéria alastrou pelas maternidades portuguesas em meados de 1990, quando nasceram os actuais adolescentes. Não se sabe ainda por que buraco foi (investigadores de Harvard estão inclinados para o esfíncter rectal após uso das latrinas), mas o certo é que as bactérias entraram no corpo das grávidas lusitanas e danificaram irremediavelmente os seus fetos, muitos deles já em avançado estado de desenvolvimento. Prestes a nascer preguiçosos, ligeiramente retardados, desorganizados, molegões, baixos, gordos e feios, a bactéria - cujo nome científico é bacterium socratys choné - transformou estas crianças em génios, com resultados educativos que deixam o mundo a abrir a boca de espanto. Se se confirmar a teoria de Harvard, o mundo abrirá também o cu, a ver se esta bacterium socratys choné também por lá entra.

sortido

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