Os adjectivos, os pontos de exclamação, sociedade adjectivada e exclamativa, lindamente!, brutal!, espectacular!, estamos tão fartos disto, eu e tu, magnífico!, o melhor!, que determinado!, fantástico!, o elogio jorra das bocarras como o primeiro xixi da manhã, adorei!, és o máximo!, odeio!, genuíno!, eu sou muito sincero!, tanta masturbação, tanta bajulação, o reino da bicharada é o facebook, em que é que estás a pensar?, pergunta o facebook, em que é que estás a pensar?, a pergunta mais estúpida de todas, como se alguém fosse sincero a responder a uma coisa destas, por isso respondem as coisas mais parvas da sua existência, os namorados não as fazem felizes mas em que é que elas estão a pensar?, no creme de cenoura que comeram ao almoço, a mãe está muito doente e o que é que eles estão a pensar?, no feijão com arroz que lhes deu gases a noite toda, os amigos adoram, és o máximo!, só tu para me fazeres rir!, lol, lol, lol, lol, em que é que estás a pensar?, é o reino da bicharada, manada em série de domingo ao final da manhã, o reino da animalidade, dos instintos básicos, foder, comer, defecar, masturbar e lamber, fazem isto tudo a eles próprios e aos outros, adoram, chapinham na água e até entram em migração, ao sabor das estações, ao mesmo tempo que os escaravelhos, debaixo das patas deles, fazem bolas de merda e as empurram para as tocas, e também caçam e matam, apanham moscas com a língua comprida, que língua tão comprida, tão comprida, e engolem as moscas a seco, mais tarde regorgitam-nas ao colega do lado, ao vizinho, ao marido, uma mosca agora requentada, já com as asas derretidas pelos ácidos estomacais, mas ainda com a cabecinha intacta, por trincar, uma delícia, supremo amigo que tu és!, a mosca passa assim por várias bocas, bocas sempre abertas, moscas sempre intactas, porque nunca ninguém tem coragem de lhes trincar a cabeça, têm nojo dos pelinhos,
dizia o saul bellow, num livro que li há dias, que todos querem partilhar a sua sina, como qualquer bicho ou planta, da erva daninha à sequóia, da foca à barata, do rato ao albatroz, o objectivo último é a dominação, benditos os que não querem partilhar a sua sina com ninguém, benditos sois os que não querem dominar, tão raros que são, em que é que estás a pensar?, e são as causas solidárias e os filhos lindos e as férias brutais e as fotos benetton com pretinhos em sítios exóticos, o máximo!, super!, adorei!, amei!, uma experiência para a vida!, é a classe média lisboeta à conquista do mundo, angustiados por voltar a casa, mas à descoberta, desconfiados que os pretos e os índios e os indígenas os vão naifar, mas à descoberta, e descobrem as crianças, ah, as crianças, curioso como todas as crianças pobres do mundo têm um 'sorriso lindo', ou um 'brilho no olhar', ah, um brilho no olhar, que suprema delícia é uma foto ao lado de um pretinho (se for amarelo, melhor ainda, porque a ásia fica ainda mais longe) para espichar no reino da animalidade,
e os anúncios na televisão?, estas marcas e estes produtos e estes empresários e estes crânios do marketing e da publicidade, descobriram o filão da antiguidade, põem as próprias avós no asilos mas descobriram-lhes nas arrastadeiras um filão de ouro, a moda nova é o que não é novo, vende-se o passado ao desbarato, embalaram a tradição num saco de plástico e puseram-na à venda nos hipermercados para os saloios de lisboa que nem sabem o que come uma vaca, tudo com muitos pontos de exclamação, como se quer, produto feito manualmente!, as receitas da avó!, directamente da origem!, como se fazia antigamente!, artesanal!, tradicional!, os produtos mais frescos das hortas mais selectas!, depois põem nos anúncios as velhas e os velhos mais baratos que conseguem arranjar nas agências de figurantes, estamos tão fartos distos, eu e tu, não estamos?, tratam-nos como imbecis, a toda a hora, não falo dos políticos porque já não vale a pena, votaria manuel joão vieira se ele quisesse, porque, como ele diz, para ter estes palhaços na política, pelo menos que um seja palhaço profissional,
e as televisões e os jornais e as rádios, masturbam-se à nossa frente, descaradamente, não há recato, não nos protegem das minudências, ferem-nas a vista com as luzes e o produto da autosatisfação sexual e escatológica dos exclusivos!, exclusivos!, exclusivos!, a rtp isto!, o dn aquilo!, a sic isto!, a tvi aquilo!, o correio aquilo!, o jn isto!, a notícia já não é o mundo, a notícia é como eles são bons a ver o mundo, e como foderam os outros, a concorrência, esfobeteiam-nos isso na cara, agridem-nos, como é possível, leitor burro de merda, que não vejas como somos bons?, como é possível, telespectador ignorante, que não vejas o nosso canal todos os minutos de todos os dias de toda a tua existência vazia de conteúdo?, ele perguntam-nos isto assim, retoricamente, aos gritos, com muitos pontos de exclamação, como se eu e tu quiséssemos saber, não queremos, tratam-nos como imbecis, eu e tu, a toda a hora, em que é que estás a pensar?, quantos amigos tens?, quantos seguidores?, quantas visitas ao blog?, quantas mensagens recebeste no natal?, no aniversário?, no ano novo?, é a dominação, dominação, dominação, a sina, a sina, a sina, da erva daninha à sequóia, da foca à barata, do rato ao albatroz, o sucesso de uma vida medida em números e adjectivos e pontos de exclamação, em que é que estás a pensar?,
não estou a pensar nada, aliás, estou, estou a pensar que eu e tu somos os únicos que sobram, que o resto do mundo está todo louco, e eles são tantos, tantos, tantos, mas tantos, que às vezes dá a ideia de que se calhar o problema é nosso, de mim e de ti, mas o que vale, e isso vale muito, vale mesmo, é que isto é uma paródia tal que nos rimos à brava, rir é bom, gosto muito de rir, é verdade, ninguém diria.