Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
que combóios são aqueles que deitam fumo da boca
vim agora da rua e está nevoeiro, não muito cerrado, assim mais ou menos, a rua encontra-se em estado baço, fosse eu personagem de livro e escreveria que andava na rua como se numa exposição de fotografias desfocadas, viam-se as coisas mas não se viam bem, os candeeiros, os passeios, as árvores, e havia também panelas de duas pernas (seriam combóios?) que ferviam por dentro e deitavam fumo pela bocarra, à próxima pessoa que me perguntar 'então, o que andas a fazer?' - que estúpida pergunta, parece que tem de se estar sempre a fazer alguma coisa, nem que seja uma inutilidade, ou uma infelicidade atroz, o que interessa é estar-se a fazer alguma coisa, parar é morrer - ou a mando à merda, ou lhe digo que sim, que o que faço é ver postais de combóios a entrecortar encostas enevoadas - é a verdade e o romance, que venha o diabo e escolha -, já viste os tops de vendas de livros por estes dias?, cadernetas de cromos, biografias trágicas, receitas de culinária, economias da crise e romances de cordel - é a realidade e a sua fuga, que venha o diabo e escolha.
Domingo, 28 de Novembro de 2010
nespresso
Voltaram em força os anúncios da Nespresso. Gosto muito dos anúncios da Nespresso. Como é que Deus consegue fazer aquelas coisas todas - pianos a voar em cima da cabeça do Clooney, chuva em cima de um carro só e etc e etc - e não é capaz de ir ao Chiado comprar clápsulas de Nespresso? É isto que me faz gostar dos anúncios da Nespresso. É a estupidez embrulhada em grande estilo - além de mostrar, e nisso dou valor, Deus em toda a sua incoerência. Eu já sabia disso há muito tempo, não precisei de crescer e saber essas coisas todas das guerras e da maldade e etc e etc. Já no antigamente, ainda era eu chavalo e os meus dias eram enormes, ia para a igreja do Santo Condestável, ali em Campo de Ourique, rezar a Deus para que conseguisse apanhar um dos pardais que andavam naqueles jardins em frente. O que ia fazer com o pardal? Desconversemos. Não era nada de mal. O que interessa é que nunca apanhava nenhum. Foi aí que percebi tudo em relação a Deus. Os anúncios da Nespresso só mo confirmaram - Deus não saber sequer comprar café, obviamente que não me servia de nada para apanhar pardais.
Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010
Terça-feira, 23 de Novembro de 2010
ovos
a feira de doces e licores conventuais de alcobaça é tão saborosa quanto monótona, na medida em que tudo é feito de ovos, do arroz doce às queijadas, dos papos de anjos às maminhas de freira, da aletria aos pães-de-ló, até os ovos moles eram feitos de ovos, os fios de ovos eram feitos de ovos, as trouxas de ovos eram feitas de ovos, tudo era feito de ovos, com algum cuidado apurar-se-ia que as senhoras que estavam a vender também eram feitas de ovos, um dia depois acordei a meio da noite porque me estavam a furar a cabeça com um berbequim, deduzo que para me matar, tentava debater-me mas só abanava os pés, desespero embrulhado em resignação, luta mansa, percebi logo, de modo que me entreguei ao destino e tentei assistir de camarote à minha própria morte, ligeiramente angustiante, mas supremo privilégio, então a pessoa que estava em cima de mim pegou no berbequim e furou-me pacientemente a cabeça, aqui atrás da orelha, de lado, senti a broca a entrar, mas não me doeu nada, nadinha, então é assim que se morre?, não se ouvia um pio, nem de mim nem da pessoa nem da broca, nada, aquilo a que se chama uma calma de morte, só havia uma coisa: um cheiro a queimado, ou a ferrugem, cheiro com sabor a metal, as laranjeiras do mosteiro de alcobaça estão tão carregadas que parecem grávidas prestes a parir, tetas de vaca sobrelotadas de leite, pilas de miúdos à rasca para se aliviarem, se abanarmos um tronco daquelas árvores caem nas nossas cabeças muitos pingos de chuva e muitas pequenas laranjas que parecem bolas de snooker com casca que rolam pelo chão e são pontapeadas pelas crianças que vieram com os pais comer doces feitos de ovos, miúdos tão amarelos que parecem também feitos de ovos, as folhas destas árvores estão cheias de bicho, algumas caíram nos arbustros e estão já decompostas em esqueletos brancos, rendas de folha de laranjeira expostas em móveis verdes, as bolas de snooker com casca que caem dos troncos das árvores do mosteiro de alcobaça também são amarelas, mas não sei se são feitas de ovos, sei que cheiram a laranjas, a sério, cheiram mesmo.
Domingo, 21 de Novembro de 2010
a manifestação
Prossigo, então, a minha saga de manifestações de esquerda, com o único objectivo, recordo, quase como uma busca do Santo Graal, de encontrar pessoas bonitas. Entre a esquerdalha, só isso me interessa. Saber se é possível ser tão triste e desencantado e rancoroso e rezingão (tudo asssim como eu) e ao mesmo tempo ser belo (assim como eu), mas sendo de esquerda (assim como não-eu). Como esperava, na Avenida da Liberdade nada se comparou a isto. A esmagadora maioria dos componentes da manifestação de ontem eram reformados do PCP e da CGTP (passe a redundância) que vieram em excursão de vários pontos do país, em autocarros alugados pelo partido, sempre tão eficaz nestas coisas - tanto que fica prometida a minha inscrição quando for velho a fim de conseguir arranjar uns passeios sem ter muitas chatices.
Os foto-jornalistas portugueses fizeram o seu trabalho de casa. Claramente alarmados pelos seus colegas redactores, alguns (contei uns cinco) vieram munidos de capacetes, para poderem fotografar no meio de uma hipotética chuva de pedras dos anarcas e pessoas afins. Debalde. A única coisa que choveu foi chuva (passe a segunda redundância), o que demonstra mais uma vez que Portugal é um país espectacular para a polícia.
Miguel Sousa Tavares também apareceu por lá para caçar perdizes.
Em baixo, elemento da segurança interna fotografa manifestantes para fazer posters e pôr nas esquadras. Eventualmente, procura também anarcas boazonas para as despir em revistas policiais 'minuciosas', ou, como diz o PCP, em acções bárbaras de tortura.
Agora, umas fotos avulsas para animar a malta.
Este tipo aqui em baixo tem claramente mais uma razão para protestar contra o imperialismo do McDonald's.
A loja da Prada na Avenida da Liberdade, a única toda entaipada. Fiquei na dúvida se a marca tem os responsáveis mais medrosos ou se, pelo contrário, tem o melhor departamento de marketing. Seja como for, os meus parabéns. Quem tem cu tem medo, melhor ainda se for Prada.
E, por falar em medo, eis o McDonald's do Rossio, naquela que foi a acção preventiva mais idiota de sempre. Taparam os logotipos da fachada, como se alguém em Lisboa, se quisesse partir aquilo tudo, não soubesse onde é que fica o McDonald's da Baixa. Nada de mal aconteceu, mas não foi por causa dos autocolantes. Ainda por cima, tiveram a visita, sempre agradável, de uma família de ciganos. É bem feito.
A vinte metros do fast food imperialista, a esquerda caviar abastecia-se de ginjinhas.
Agora, para terminar, mais fotos avulsas. Até para a próxima, amiguinhos.
E a prova de que ainda há velhotas de bigode em Lisboa.
Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010
cão-de-água português
Há hoje uma curiosa imagem de Obama a subir as escadas em São Bento - assim que atinge os primeiros degraus, acelera o passo e sobe o resto da escadaria em passo de corrida. Assim que vê isto, Sócrates, que vinha atrás, acelera também o passo e chega lá em cima todo contente. No final da audiência, Obama não se esqueceu de referir as origens portuguesas do seu animal de estimação.
Terça-feira, 16 de Novembro de 2010
avenida
A Gomes Pereira é a avenida mais triste que vi em Lisboa nos últimos tempos, já fui bastante feliz ali, a faculdade era mesmo lá atrás e vinha passar serões na casa de duas colegas, bebíamos vinho e fumavámos e uma delas cantava Sinatra enquanto comíamos pizzas, ou então ia com o t. jogar snooker e jogar nas máquinas de porrada ali no Alcazar (ontem estava a rever o Chá no Deserto e havia lá um estabelecimento que se chamava Alcazar e lembrei-me do Alcazar da Gomes Pereira, onde um dia perdi a carteira e havia uma casa de banho com um buraco no chão), e onde suava a jogar nas máquinas como um atleta e perdia como um atleta, ou então jantava ali no chinês, que antes não era chinês e depois foi e depois deixou de ser e depois voltou a ser chinês, mas em supermercado, a Gomes Pereira está triste, triste, pareceu-me o espelho disto onde moramos, sítio de sobreviventes, pobres, remediados, desenrascados, gente à espera de alguma coisa, à espera que a tempestade passe, à espera da tal manhã que nunca mais chega, contei três igrejas evangelistas, uma enorme, com muitas cadeiras lá ao fundo, uma loja em segunda mão de móveis em segunda mão, ali em baixo mais uma, outra de produtos dos trezentos, um centro comercial fechado, com a tabuleta à porta a dizer 'vende-se', um jardim sem ninguém, uma padaria sem ninguém, duas lojas de compra de ouro e de prata em troca de notas de cinco para comprar bifes, um prédio devoluto, ali em cima mais um, uma parque de estacionamento de onde vem um cão a correr, e depois baixa os quadris e um fumo branco se levanta do chão, lojas de decoração dos anos quarenta, bafientas, cheias de imitações de quadros de paisagens que por sua vez são imitações de paisagens a sério para as pessoas porem em salas a imitar salas a sério, muitas vezes habitadas por famílias a imitar famílias a sério, uma velha com um cão ao colo, aliás, um cão com uma velha agarrada às patas, dois prédios novos, feitos por aqueles arquitectos que agora há, quando digo arquitectos podia dizer engenheiros civis, mas digo arquitectos que é só para gozar com eles (não iam perceber de qualquer maneira), cinco filas de casas na vertical, algumas por habitar, numa delas estava um candeeiro em forma de globo branco, cá em baixo havia uma câmara de vigilância a apontar para a entrada, que ridiculo, não há nada para roubar nesta avenida, já está tudo roubado.
Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010
a Popota e a Leopoldina
Estas duas personagens causam-me tanta repulsa como aqueles jogos de solidariedade entre grandes estrelas do futebol, em que as receitas revertem a favor dos pobrezinhos - mas as receitas são os bilhetes comprados pelos adeptos e não qualquer parte dos ordenados milionários desses futebolistas, que, ainda por cima, ficam com a imagem para a opinião pública de 'solidários', quando, na verdade, não contribuíram com um tostão. Obviamente que todas as iniciativas para ajudar quem precisa são sempre bem-vindas, mas desde que sejam desinteressadas. Ajudar na perspectiva da ganância e da chica-espertice torna quem o faz naquilo a que aqui chamaria, usando uma linguagem infantil, um mete-nojo (está tudo bem comigo, e não, não me tornei um freak de esquerda). Vamos lá esmiuçar isto.
A Popota é dos supermercados Modelo, que são propriedade da Sonae. A Lepoldina é do Continente, também da Sonae. Qualquer busca rápida no Google dá-vos os seguintes dados. Em 2009, a Sonae teve resultados líquidos de 97 milhões de euros. Nos primeiros seis meses deste ano foram mais 41 milhões. São cerca de 250 mil euros por dia. O que é que este grupo decidiu fazer? Podia, com talvez 0,1% dos seus lucros anuais, mensais ou diários contribuir para a Causa Maior e para a Missão Sorriso. Podia, mas isso não era a mesma coisa. Decidiu aproveitar-se dessas causas para ganhar dinheiro, criando dois bonecos (a tal Popota e a Leopoldina) para aliciar as crianças e, com elas, levar os pais e, com eles, levar-lhes o dinheiro através da compra de livros, cachecóis, roupas, cds, etc, etc, da Popota e da Leopoldina., e, com estes, das compras para a casa que se fazem ao mesmo tempo (além de que, penso, parte da venda deste merchandising das Popotas não vai todo para as causas; o resto fica lá também nos supermercados).
Este sistema é perfeito porque cumpre uma regra fundamental para o ser: todos ganham. Os doentes e os pobrezinhos, que recebem verbas (independentemente da honestidade moral de como elas são obtidas, que é o que está em causa aqui). As crianças, que ficam todas felizes por brincar com as suas Popotas e as suas Lopoldinas, bonecos fofinhos cujas marcas e rostos são bombardeadas hora a hora nas televisões (alguém faz ideia de quanto é que estes supermercados gastam nestas publicidades e de como se podia acabar com esta berraria toda se revertessem esse dinheiro gasto em anúncios para as próprias das causas?). O Modelo e o Continente (a Sonae) também ganham. São, aliás, quem verdadeiramente ganha nesta história, porque aumentam clientes e lucros e ainda ficam com a fama de empresas 'solidárias'. E, finalmente, os pais, que nesta história são os verdadeiros otários. Ser solidário é fixe? É. Podia ser de outra forma? Podia. Podias ir ter directamente com quem precisa? Podia. Porque é que não vais? Porque dá muito trabalho. Além disso, os pobres cheiram mal, as crianças doentes deprimem-me e não temos Metro à porta. Se for ao Modelo e ao Continente é muito mais fácil, e sempre apanhamos uma sopa congelada em promoção.
Veja-se o site da Missão Sorriso (da Leopoldina) e esta frase: "Nestes 7 anos já contribuiu com mais de 4 milhões de euros". Demoraram sete anos para angariar um montante que podiam juntar em duas semanas de lucros do Continente ou uma semana de lucros do Modelo. E se não tivessem gasto tantos milhares (milhões?) em anúncios de televisão, precisavam, se calhar, de apenas um ou dois dias. Mas não, demoraram sete anos, com a preciosa ajuda 'dos portugueses'. E isto só da Leopoldina. Não consegui apurar quanto é que a Popota já 'apurou'. E assim se vê, mais uma vez, que o mundo é dos espertos. Veja-se, novamente, o site da Missão Sorriso, especialmente esta página. E o site da Popota. Se não é de ir às lágrimas, não sei o que seja isso.
A Popota é dos supermercados Modelo, que são propriedade da Sonae. A Lepoldina é do Continente, também da Sonae. Qualquer busca rápida no Google dá-vos os seguintes dados. Em 2009, a Sonae teve resultados líquidos de 97 milhões de euros. Nos primeiros seis meses deste ano foram mais 41 milhões. São cerca de 250 mil euros por dia. O que é que este grupo decidiu fazer? Podia, com talvez 0,1% dos seus lucros anuais, mensais ou diários contribuir para a Causa Maior e para a Missão Sorriso. Podia, mas isso não era a mesma coisa. Decidiu aproveitar-se dessas causas para ganhar dinheiro, criando dois bonecos (a tal Popota e a Leopoldina) para aliciar as crianças e, com elas, levar os pais e, com eles, levar-lhes o dinheiro através da compra de livros, cachecóis, roupas, cds, etc, etc, da Popota e da Leopoldina., e, com estes, das compras para a casa que se fazem ao mesmo tempo (além de que, penso, parte da venda deste merchandising das Popotas não vai todo para as causas; o resto fica lá também nos supermercados).
Este sistema é perfeito porque cumpre uma regra fundamental para o ser: todos ganham. Os doentes e os pobrezinhos, que recebem verbas (independentemente da honestidade moral de como elas são obtidas, que é o que está em causa aqui). As crianças, que ficam todas felizes por brincar com as suas Popotas e as suas Lopoldinas, bonecos fofinhos cujas marcas e rostos são bombardeadas hora a hora nas televisões (alguém faz ideia de quanto é que estes supermercados gastam nestas publicidades e de como se podia acabar com esta berraria toda se revertessem esse dinheiro gasto em anúncios para as próprias das causas?). O Modelo e o Continente (a Sonae) também ganham. São, aliás, quem verdadeiramente ganha nesta história, porque aumentam clientes e lucros e ainda ficam com a fama de empresas 'solidárias'. E, finalmente, os pais, que nesta história são os verdadeiros otários. Ser solidário é fixe? É. Podia ser de outra forma? Podia. Podias ir ter directamente com quem precisa? Podia. Porque é que não vais? Porque dá muito trabalho. Além disso, os pobres cheiram mal, as crianças doentes deprimem-me e não temos Metro à porta. Se for ao Modelo e ao Continente é muito mais fácil, e sempre apanhamos uma sopa congelada em promoção.
Veja-se o site da Missão Sorriso (da Leopoldina) e esta frase: "Nestes 7 anos já contribuiu com mais de 4 milhões de euros". Demoraram sete anos para angariar um montante que podiam juntar em duas semanas de lucros do Continente ou uma semana de lucros do Modelo. E se não tivessem gasto tantos milhares (milhões?) em anúncios de televisão, precisavam, se calhar, de apenas um ou dois dias. Mas não, demoraram sete anos, com a preciosa ajuda 'dos portugueses'. E isto só da Leopoldina. Não consegui apurar quanto é que a Popota já 'apurou'. E assim se vê, mais uma vez, que o mundo é dos espertos. Veja-se, novamente, o site da Missão Sorriso, especialmente esta página. E o site da Popota. Se não é de ir às lágrimas, não sei o que seja isso.
Domingo, 14 de Novembro de 2010
Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010
Adeus a todos
Hoje é o 'Senhor do Adeus', como ontem eram os mineiros do Chile, como anteontem era o António Feio e amanhã será outra coisa qualquer. A comunidade papa-bolos de Lisboa adora estas causas de trazer pelo peito, que ostentam nos blogs, no Facebook, nos sites dos jornais - hoje não se calam com isso, parecem virgens acabadas de foder -, regra geral aproveitando-se em causa própria, de uma forma muito subtil, é vê-los a dizer 'uma vez falei com o António Feio, blá, blá, blá, vou ter muitas saudades dele', para nós ficarmos a pensar que importante deves ser, e que bonito que és agora, assim tão sentido com a morte de um senhor que dizia adeus às pessoas que passavam dentro dos carros, até ontem sempre o viste como um maluco, ias no carro, bem lá dentro, protegido, e dizias para os amigos que iam contigo: 'vamos apitar ao maluco!', mas hoje parece que é um homem que distribuía amor pela cidade, blá, blá, blá, o Diário de Notícias até tem hoje uma página no seu site cujo titulo é 'DN falou com o Senhor do Adeus em 2003', chiça, que inversão de prioridades qua anda por aqui, a cagança subtil de que falei no início do texto chega até ao que devia ser referência, a notícia não é a morte do senhor, a notícia é que o jornal falou com o senhor, tal como os outros quando dizem que falaram com o António Feio há não sei quanto tempo e que o António Feio foi muito simpático e estamos muito tristes, blá, blá, blá, e depois os meus amigos escrevem 'gosto disto' no Facebook e assim ficamos mais contentes e felizes, vamos beber um café e comemos um queque, tomamos um banho e estamos como novos, prontos para outra,
Senhor do Adeus, sabe, não ligue muito a esta gente, eles na verdade estão-se borrifando para si, só querem fazer da sua morte um cravo na lapela, vocé é apenas a causa do momento, para que todos tenham de cagar a sua posta de pescada, desculpe a linguagem, porque se não o fizerem é como se estivessem mortos, ou, pior, é como se não se sensibilizassem com estas coisas, mande-os foder, Senhor do Adeus, não se iluda com tamanha choradeira, amanhã eles entretêm-se com outra coisa, amanhã só, até porque, imagine você, hoje ainda estão consigo, até se vão reunir no Saldanha, para o homenagear, tivesse eu carro e soubesse conduzir e passava também por lá, apitava e dizia-lhes adeus a todos, a todos, mesmo que alguns sejam mesmo seus amigos, amigos mesmo, acredito, mas o resto, não tenha dúvidas, é só folclore, é a chungaria de Lisboa a papar causas tão avidamente como engole bolos nas pastelarias, depois dão-lhes dores de barriga e vão a correr para a casa-de-banho, que amanhã é outro dia e há que estar com a tripa lavadinha.
Senhor do Adeus, sabe, não ligue muito a esta gente, eles na verdade estão-se borrifando para si, só querem fazer da sua morte um cravo na lapela, vocé é apenas a causa do momento, para que todos tenham de cagar a sua posta de pescada, desculpe a linguagem, porque se não o fizerem é como se estivessem mortos, ou, pior, é como se não se sensibilizassem com estas coisas, mande-os foder, Senhor do Adeus, não se iluda com tamanha choradeira, amanhã eles entretêm-se com outra coisa, amanhã só, até porque, imagine você, hoje ainda estão consigo, até se vão reunir no Saldanha, para o homenagear, tivesse eu carro e soubesse conduzir e passava também por lá, apitava e dizia-lhes adeus a todos, a todos, mesmo que alguns sejam mesmo seus amigos, amigos mesmo, acredito, mas o resto, não tenha dúvidas, é só folclore, é a chungaria de Lisboa a papar causas tão avidamente como engole bolos nas pastelarias, depois dão-lhes dores de barriga e vão a correr para a casa-de-banho, que amanhã é outro dia e há que estar com a tripa lavadinha.
verniz branco
estive ontem na sala de consultas de oftalmologia do hospital de santa maria, onde vão as pessoas que têm o problema de haver uma parte do seu corpo, no caso os olhos, que está a viver mais depressa, e por isso a morrer em proporção, que o resto do corpo, está a acontecer o mesmo comigo, os meus olhos estão a morrer mais depressa que as pernas, por exemplo, que continuam bem, ao contrário dos olhos, que estão como este portátil onde escrevo, mimado que anda na bateria, já as minhas costas, apesar de estarem bem, estão claramente mais velhas que, por exemplo, o meu dedo do meio, mas não fui lá por mim, ou, vamos ser romanticamente literais, não fui lá pelos meus olhos - fui lá, é o que interessa saber -,
mesmo à entrada estava uma carcaça de boné e bengala, um velho teso como um carapau curtido ao sol, mantinha-se em posição hirta sentada, imóvel, balões esvaziados onde antes eram maçãs de rosto, a boca semi-aberta, como as plantas carnívoras à espera de mosca-varejeira, os olhos, muito abertos e rígidos, pareciam cristalizados em espanto, um já estava morto, o outro despedia-se de nós e das coisas, de mim e da parede branca em frente, do ecrã das senhas em cima e da casa de banho ao meio, de onde se via, debaixo da porta, um terço de uma roda de uma cadeira de rodas, e todo o corpo dele estava assim morto mas devia ter alguma coisa viva ainda, talvez o coração, como não? - acaso não fosse, que fazia um cadáver numa consulta?, 'senhor doutor, desculpe, as minhas pernas andam, os olhos vêem, a boca come e cospe e fala, o sistema circulatório circula, o sistema digestivo digere, o sistema nervoso enerva-se, desculpe, senhor doutor, estou vivo, preciso de medicação', isto não faz sentido nenhum -, aquele velho estava vivo, garanto-te, porque às vezes via, num dos olhos, a parte branca, a parte cega, a mexer-se, parecia um pequeno berlinde já danificado pelos putos, uma borra de corrector ortográfico que se pegou aos dedos, mexia-se assim, a olhar para mim, com as pestanas em cima, já meio fundidas, a darem ar e ar, como faziam os escravos aos imperadores e aos faraós, com folhas de palmeira, em dias de muito calor, em alexandria e em roma,
mais para trás, as bancadas, o público na fila das senhas para comprar olhos novos para porem nas órbitas, cinco filas de velhos e velhas, todos de frente para o corredor, onde passavam médicas da anatomia de grey, umas giras, outras feias, havia até uma de olhos em bico, um médico era alto e meio tosco, outro podia ser considerado atraente, havia ainda os de folga, que não vi, mas que imagino, estavam lá, portanto, o elenco e o argumento, não fosse o caso de a grey ter touca na cabeça, trinta e tal anos, quase cinquenta, cabelo cortado à escovinha e voz grossa, lá de dentro vinha um homem com cabelo dividido ao meio e fichas de consulta na mão, dizia, bem alto: 'senhora maria da encarnação nunes...',
por vezes, o tráfego de cadeiras de rodas intensificava-se tanto que havia choques de rodas, como brincadeiras de crianças, os ferros pareciam enrolar-se uns nos outros como as cerejas, algumas cadeiras diziam 'recepção' de lado, outras não diziam nada, numa estava uma velha que chuchuva no dedo esquerdo e abanava a mão direita, noutra estava um velho mulato que veio com um velho branco que trazia uma gravata, uma camisa, dois coletes, um casaco e um boné arraçado de árabe, por causa da cor da pele não me pereceram irmãos, acho que eram amigos, amigos de longa data, um, doente, veio à consulta com o outro, veio com o amigo, que terão estes homens já passado juntos?, em frente estava uma freira a ler um livro de freiras, 'senhora maria da encarnação nunes...', voltou o outro a chamar, reparei numa miúda, mais aqui ao pé de mim, acompanhada pela mãe, que apresentava um olho bom e o outro deficiente, os dois eram tristes, mas quem não é triste num hospital?, mesmo as crianças quando nascem gritam de horror, e se não gritam dão-lhes palmadas para gritar, depois são felizes precisamente na altura em que não fazem ideia do que é ser feliz, e a miúda tinha as unhas pintadas de vermelho e branco, vermelho do verniz, branco da amargura que lhe vai crescendo nos cotos, as mãos delas pareciam dez bandeirinhas dos socorros a naúfragos, mais aqui ao lado o homem dos fios de ouro, correntes de ouro, anéis de ouro, sapatos pretos, no pé esquerdo via-se um alto, que era um calo do pé já crescido, tanto que vergara a borracha do sapato, assim como as raízes das árvores vergam as pedras por debaixo da terra e criam ondas nos passeios públicos para a gente tropeçar, 'senhora maria da encarnação nunes',
cá fora, o jovem das senhas, chamo-lhe jovem por causa do telemóvel, atendia os velhos e as velhas no intervalo das mensagens, lembrei-me do segurança que guardava uma das salas de frescos de rafael, no museu do vaticano, o mesmo jovem, o mesmo telemóvel, o mesmo alheamento, talvez aquela indiferença própria dos imbecis, talvez só rotina, 'senhora maria da encarnação nunes...', terá aquele segurança, alheado no seu telemóvel, terá ele já visto e revisto cada pormenor daquelas pinturas?, saberá ele que têm quinhentos anos?, terá ele já assimilado o contexto em que foram feitas?, saberá ele que, mesmo ao lado, a poucos metros, o inimigo de rafael, miguel ângelo, pintava a capela sistina, naquela que foi uma das melhores rivalidades de todos os tempos?, terá ele noção da incalculável fortuna que vigia enquanto tecla bacci e prego e grazie no telemóvel?, saberá ele que trabalha entre quatro das paredes mais amadas, brilhantes e grandiosas alguma vez feitas pelo homem?, 'senhora maria da encarnação nunes',
ao fundo, dois delegados de informação médica, um baixo, outro alto, quarentas e muitos anos, os dois de casaco com botão de punho, gravata, calças de ganga chic, cabelo farto, disciplinado de três em três minutos com pazadas de mão, sapatos castanhos de berloques, ostentavam aquele típico olhar de matador que não mata mas mói, e entretanto, um miúdo, vestido de fato de treino cor-de-rosa, rolava pelo chão enquanto a avó lhe gritava, depois o miúdo começou a gritar também, a avó levantou-se, foi apanhá-lo ali ao meio, quis levá-lo para o lugar, e ele, mimado como a bateria do portátil que me aquece agora as pernas, fez do seu corpo peso-morto, a avó baixou-se, com medo e vergonha de fazer à frente das pessoas o que queria fazer e que o miúdo merecia, todos nós, em silêncio, estávamos de acordo, mas estes códigos que agora há tornaram-nos embaixadores de crianças rainhas, e então a avó pegou o miúdo pela cintura, esperançada que ele colaborasse e a safasse, mas o fato de treino cor-de-rosa escorregou-lhe pelo tronco e o miúdo, já semi-nu, olhou então para cima para ouvir melhor quem acabava de vir lá de dentro, o homem do cabelo dividido ao meio, que agora dizia, bem alto: 'senhora isaura pereira...', parece que a tal maria da encarnação nunes nunca chegou a aparecer.
mesmo à entrada estava uma carcaça de boné e bengala, um velho teso como um carapau curtido ao sol, mantinha-se em posição hirta sentada, imóvel, balões esvaziados onde antes eram maçãs de rosto, a boca semi-aberta, como as plantas carnívoras à espera de mosca-varejeira, os olhos, muito abertos e rígidos, pareciam cristalizados em espanto, um já estava morto, o outro despedia-se de nós e das coisas, de mim e da parede branca em frente, do ecrã das senhas em cima e da casa de banho ao meio, de onde se via, debaixo da porta, um terço de uma roda de uma cadeira de rodas, e todo o corpo dele estava assim morto mas devia ter alguma coisa viva ainda, talvez o coração, como não? - acaso não fosse, que fazia um cadáver numa consulta?, 'senhor doutor, desculpe, as minhas pernas andam, os olhos vêem, a boca come e cospe e fala, o sistema circulatório circula, o sistema digestivo digere, o sistema nervoso enerva-se, desculpe, senhor doutor, estou vivo, preciso de medicação', isto não faz sentido nenhum -, aquele velho estava vivo, garanto-te, porque às vezes via, num dos olhos, a parte branca, a parte cega, a mexer-se, parecia um pequeno berlinde já danificado pelos putos, uma borra de corrector ortográfico que se pegou aos dedos, mexia-se assim, a olhar para mim, com as pestanas em cima, já meio fundidas, a darem ar e ar, como faziam os escravos aos imperadores e aos faraós, com folhas de palmeira, em dias de muito calor, em alexandria e em roma,
mais para trás, as bancadas, o público na fila das senhas para comprar olhos novos para porem nas órbitas, cinco filas de velhos e velhas, todos de frente para o corredor, onde passavam médicas da anatomia de grey, umas giras, outras feias, havia até uma de olhos em bico, um médico era alto e meio tosco, outro podia ser considerado atraente, havia ainda os de folga, que não vi, mas que imagino, estavam lá, portanto, o elenco e o argumento, não fosse o caso de a grey ter touca na cabeça, trinta e tal anos, quase cinquenta, cabelo cortado à escovinha e voz grossa, lá de dentro vinha um homem com cabelo dividido ao meio e fichas de consulta na mão, dizia, bem alto: 'senhora maria da encarnação nunes...',
por vezes, o tráfego de cadeiras de rodas intensificava-se tanto que havia choques de rodas, como brincadeiras de crianças, os ferros pareciam enrolar-se uns nos outros como as cerejas, algumas cadeiras diziam 'recepção' de lado, outras não diziam nada, numa estava uma velha que chuchuva no dedo esquerdo e abanava a mão direita, noutra estava um velho mulato que veio com um velho branco que trazia uma gravata, uma camisa, dois coletes, um casaco e um boné arraçado de árabe, por causa da cor da pele não me pereceram irmãos, acho que eram amigos, amigos de longa data, um, doente, veio à consulta com o outro, veio com o amigo, que terão estes homens já passado juntos?, em frente estava uma freira a ler um livro de freiras, 'senhora maria da encarnação nunes...', voltou o outro a chamar, reparei numa miúda, mais aqui ao pé de mim, acompanhada pela mãe, que apresentava um olho bom e o outro deficiente, os dois eram tristes, mas quem não é triste num hospital?, mesmo as crianças quando nascem gritam de horror, e se não gritam dão-lhes palmadas para gritar, depois são felizes precisamente na altura em que não fazem ideia do que é ser feliz, e a miúda tinha as unhas pintadas de vermelho e branco, vermelho do verniz, branco da amargura que lhe vai crescendo nos cotos, as mãos delas pareciam dez bandeirinhas dos socorros a naúfragos, mais aqui ao lado o homem dos fios de ouro, correntes de ouro, anéis de ouro, sapatos pretos, no pé esquerdo via-se um alto, que era um calo do pé já crescido, tanto que vergara a borracha do sapato, assim como as raízes das árvores vergam as pedras por debaixo da terra e criam ondas nos passeios públicos para a gente tropeçar, 'senhora maria da encarnação nunes',
cá fora, o jovem das senhas, chamo-lhe jovem por causa do telemóvel, atendia os velhos e as velhas no intervalo das mensagens, lembrei-me do segurança que guardava uma das salas de frescos de rafael, no museu do vaticano, o mesmo jovem, o mesmo telemóvel, o mesmo alheamento, talvez aquela indiferença própria dos imbecis, talvez só rotina, 'senhora maria da encarnação nunes...', terá aquele segurança, alheado no seu telemóvel, terá ele já visto e revisto cada pormenor daquelas pinturas?, saberá ele que têm quinhentos anos?, terá ele já assimilado o contexto em que foram feitas?, saberá ele que, mesmo ao lado, a poucos metros, o inimigo de rafael, miguel ângelo, pintava a capela sistina, naquela que foi uma das melhores rivalidades de todos os tempos?, terá ele noção da incalculável fortuna que vigia enquanto tecla bacci e prego e grazie no telemóvel?, saberá ele que trabalha entre quatro das paredes mais amadas, brilhantes e grandiosas alguma vez feitas pelo homem?, 'senhora maria da encarnação nunes',
ao fundo, dois delegados de informação médica, um baixo, outro alto, quarentas e muitos anos, os dois de casaco com botão de punho, gravata, calças de ganga chic, cabelo farto, disciplinado de três em três minutos com pazadas de mão, sapatos castanhos de berloques, ostentavam aquele típico olhar de matador que não mata mas mói, e entretanto, um miúdo, vestido de fato de treino cor-de-rosa, rolava pelo chão enquanto a avó lhe gritava, depois o miúdo começou a gritar também, a avó levantou-se, foi apanhá-lo ali ao meio, quis levá-lo para o lugar, e ele, mimado como a bateria do portátil que me aquece agora as pernas, fez do seu corpo peso-morto, a avó baixou-se, com medo e vergonha de fazer à frente das pessoas o que queria fazer e que o miúdo merecia, todos nós, em silêncio, estávamos de acordo, mas estes códigos que agora há tornaram-nos embaixadores de crianças rainhas, e então a avó pegou o miúdo pela cintura, esperançada que ele colaborasse e a safasse, mas o fato de treino cor-de-rosa escorregou-lhe pelo tronco e o miúdo, já semi-nu, olhou então para cima para ouvir melhor quem acabava de vir lá de dentro, o homem do cabelo dividido ao meio, que agora dizia, bem alto: 'senhora isaura pereira...', parece que a tal maria da encarnação nunes nunca chegou a aparecer.
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