e a ela incendiei-lhe parte do cabelo quando lhe tentei acender um cigarro - de repente, numa fracção de segundo, metade da cabeleira estava bem enquanto a outra metade ardia vigorosamente em labaredas de cor amarelo claro. Mantive o sangue frio e salvei-a de morrer imolada apagando-lhe o fogo dos cabelos com fulgurantes e sucessivas chapadas na cabeça. Ficou tudo bem, excepto um ligeiro cheiro a porco.
Depois, fomos à festa de lançamento da novíssima revista Penthouse, no Silk, estabelecimento de convívio social très chic de Lisboa onde nunca tinha estado antes (que vergonha...), e onde ontem estive apesar de não ter convite, lacuna que ultrapassei ludibriando os seguranças ao colar-me a um fotojornalista meu conhecido que entretanto chegara (nem sequer me pediram carteira profissional, que por acaso não tinha trazido ontem) - o que me leva a concluir que a selecção de entradas no Silk não está a fugir ao que é habitual nestes estabelecimentos, algo semelhante aos telemóveis de última geração: começam sempre muito caros e exclusivos, mas depois vão baixando o preço e, um ano depois, ficam acessíveis a toda a escumalha, como eu.
Na dita festa, a mesma sensação escaldante e suína: muitas loiras de cabelo loiro e algumas loiras de cabelo moreno, inúmeras grandes-mamas-grandes trespassadas a meio por decotes brancos de blusas brancas, decotes tão impediosos que deixavam metade das tetas ao frio, e que frio vinha da esplanada do Silk, porra, aquele ar que vem quente do Algarve, sabes, mas que esfria no Barreiro, uma aragem gélida que tornava visível na parte de baixo dos decotes estupendos mamilos, que vinham sempre aos pares e tinham a forma de paralelepípedos engelhados, todos eles apontados contra o algodão das blusas, quase como que a querem respirar, sufocados, como quando se vêem os contornos de uma cara que está a ser asfixiada por um saco de plástico. Vi também gostosas e faladoras bocas enxertadas de carne de hambúrger e magníficas tatuagens tribais a começarem nas costas e a acabarem em espectaculares rabos empinados, suspensos no ar devido os ossos do ofício, se é que me estou a fazer entender.
Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
Terça-feira, 26 de Outubro de 2010
Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010
Proselitismo
Moça minha amiga fez-se acompanhar do filho de quatro anos no referido jantar - um petiz com quem, já a noite ia avançada, desenvolvi uma saudável troca de insultos.
Eu:
- És um bêbado!
Ele:
- Tolinho!
- Bêbado!
- És cocó!
- Socialista!
- Totó!
- Porco socialista!
- Pateta!
- Cala-te, socialista!
- És totó!
- E tu és um bêbado!
- Cocó!
- Socialista!
- Totó!
- Socialista!
Hoje, a mãe pergunta-me: 'O que faz uma mãe quando o filho chama socialista à educadora?'
Eu:
- És um bêbado!
Ele:
- Tolinho!
- Bêbado!
- És cocó!
- Socialista!
- Totó!
- Porco socialista!
- Pateta!
- Cala-te, socialista!
- És totó!
- E tu és um bêbado!
- Cocó!
- Socialista!
- Totó!
- Socialista!
Hoje, a mãe pergunta-me: 'O que faz uma mãe quando o filho chama socialista à educadora?'
O rato
Tenho tido a riquíssima capacidade de gerar odiozinhos de estimação. Amor, algum, sim, claro - ódio, em proporção igual. A este ritmo e chegarei a velho contando no dominó que fui um tipo de se amar ou odiar. Pedantismo, portanto. Mas é raro lembrar-me do porquê das zangas. Tenho memória de rato - é por isso que tiro tantas fotos e compro tanta merda nos sítios onde vou. Ainda num jantar recente me cruzei com um. Alguém me perguntou porque é que nos zangámos e não soube responder. Não faço ideia. Esqueci-me. Se me estivessem a agarrar os tomates, exigindo respostas mais precisas, diria que 'provavelmente fui uma besta com o tipo'. Regra geral é isso. De riso rarefeito, apesar da ortodontia me ser ciência estranha, ainda por cima gosto de fazer críticas destrutivas ao trabalho dos que me rodeiam. Faço-o, claro, quando julgo necessário e sempre seguindo a doutrina de Shiva, conhecido estroina indiano cria a partir da destruição - uma acção implicando e justificando a outra. Acontece que, por cá, este tipo de 'religião' equivale a dizer que a mãe do nosso interlocutor é uma rameira. Por isso passei também a medir a inteligência de determinada pessoa pela capacidade, ou não, que tem de perceber que a frontalidade dos que a rodeiam é a uma benção e uma oportunidade, nunca uma ameaça.
Houve uma altura em que esta bipolaridade social me chateava, depois passou a ser divertido. Especialmente os pormenores - o tempero dos insultos, a imaginação dos boatos, a infantilidade das petas. O mundo é pequeno e Lisboa é uma aldeia que cabe numa cave à beira da crel- sabe-se quase tudo. Outro dia, alguém me disse que fulano tal disse que eu tinha sido um filho da puta numa ocasião qualquer. Achei porreiro. Não é que o tenha sido. Achei porreiro porque certos insultos vindos de certas pessoas são elogios litúrgicos. Percebi isso muito cedo. Não é que às vezes não seja verdade, o insulto não seja merecido. Às vezes, poucas, é. Percebo essas coisas um bocado tarde demais, mas percebo. No último sítio onde trabalhei, por exemplo. Águas passadas. O que fica, tem ficado, é uma pequena legião de malta que, de bom grado, na impossibilidade legal de me aniquilar fisicamente, pelo menos me esterilizaria, a fim de que não deixe descendência. Bom, mas, regra geral, a minha fraqueza de memória é tal que nem me lembro que eles existem, até me cruzar com um num jantar, ver outro na rua, alguém falar de outro numa conversa. Às vezes, imagino-os todos juntos reunidos numa associação, vizualizo o sócio número um, bigode farto, careca farta, patilhas fartas, barriga farta, as caras carregadas, sofridas, as ordens de trabalho, as acções de luta, os tribunais marciais, mas é tudo paródia, isto penso em flashes quando os vejo, tal como ainda há bocado fui à janela e as extremidades dos estendais da roupa me pareceram louva-a-Deus de ferro a escalar as paredes. Isto são ácidos, drogas psicotrópicas, podia fazer como no Afeganistão com as papoilas para lhes extraírem o ópio: faço um corte no cérebro com uma faca afiada, extraio o líquido e ponho a secar ao sol para exportação. Depois, esta malta sai-me do campo de visão, e então reduzo-me à minha insignificância - como se a existência deles fosse a minha grandeza. O rato, diligente, vai fazendo o seu trabalho cá dentro, roendo de madrugada as sinapses que me ligaram em tempos a estas pessoas. E tudo fica bem outra vez, mais enfadonho, é certo, mas bem.
Domingo, 24 de Outubro de 2010
Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010
"Para Raul Ruiz, há dois caminhos opostos:
o filme em três actos e o folhetim. Por detrás de cada um está uma maneira de ver o mundo, e Ruiz há muito que escolheu a sua. 'Acho que os filmes em três actos - aqueles que começam, desenvolvem-se e terminam em torno de um conflito central - estão demasiados impregnados de ideologia liberal. Um filme em três actos força-nos a pegar numa personagem que quer alguma coisa de concreto e que sabe o que quer - isto exclui à partida 80 por cento da população. E se essa personagem luta pelo que quer, isso ainda exclui mais gente. No final, o protagonista é alguém que corresponde a dez por cento da população', diz, rindo."
(...)
"Mas não é realizador para organizar um casting clássico. Explica o seu método: 'A coisa mais difícil para um actor é estar calado, ficar em silêncio. A pior prova numa escola de teatro é pedir a alguém 'fique aí e não faça nada'. O nada não existe. As mãos mexem sempre um pouco, ou então ficamos como se estivéssemos a guardar a bandeira nacional. Por isso, quando pedimos a um actor para não fazer nada, estamos a aprender tudo sobre ele. Conhecemo-lo pior quando está a representar do que quando não está.'"
Ípsilon, hoje.
(...)
"Mas não é realizador para organizar um casting clássico. Explica o seu método: 'A coisa mais difícil para um actor é estar calado, ficar em silêncio. A pior prova numa escola de teatro é pedir a alguém 'fique aí e não faça nada'. O nada não existe. As mãos mexem sempre um pouco, ou então ficamos como se estivéssemos a guardar a bandeira nacional. Por isso, quando pedimos a um actor para não fazer nada, estamos a aprender tudo sobre ele. Conhecemo-lo pior quando está a representar do que quando não está.'"
Ípsilon, hoje.
Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010
Domingo, 17 de Outubro de 2010
Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010
Viola
Assim se chama o movimento social de contestação a Berlusconi. Viola, No Berlusconi Day, Il Popolo Viola, três maneiras de dizer uma coisa que vos posso resumir como 'pessoas que acham que o Berlusconi é mau'. Se quiserem saber mais pormenores, é digitar uma destas expressões no Google. Apanhei no início de Outubro uma manifestação dos Viola - uma palavra que em italiano não dá música nem prisão. É uma cor, violeta, roxo, púrpura, lilás, cor de burro quando foge, uma cor bonita, por sinal, tanto que só em Itália é que até nestas coisas há bom gosto (por cá, escolheriam certamente um amarelo torrado, um cinzento metalizado, um verde alface, um castanho caju, um salmão desovado). O bom tom deste Viola até me levou a comprar um cachecol a um dos indianos que lá os andavam a vender (o homem que está sentado na moto, numa das fotos, tem um igual). E assim andei, de cor Viola ao pescoço, no meio da esquerdalha italiana, entre comunas, anarquistas, ecologistas e afins, todos eles pensando que eu era um deles (não é a esquerda a ideologia das ilusões?). Não quero falar de política. Falemos só das pessoas. Ei-las. Bonitas, elegantes, simples. Nunca em Portugal uma manifestação da esquerdalha podia ser assim. Nem no Berloque de Esquerda, movimento burguês cujos líderes espitituais são acusados (alguns injustamente) de tomarem banho todos os dias. Aqui, até os cães vão bem vestidos. Há muitas mulheres nas fotos, mas não se pense que lá não havia homens. Havia. Bonitos, muito bonitos, mas a minha máquina desfocou-os a todos. É uma pena. Mas sim, confirmo, os homens italianos são os mais bonitos do mundo. E elas também. Sim, Itália é o país mais bonito do mundo.
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