Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Estava agora a tomar um café

numa esplanada perto da casa onde durmo, quando vejo vir lá ao fundo três livros velhos que levavam pela mão um homem ainda mais velho cuja cara me pareceu familiar, familiar não de família, familiar dos jornais e das televisões e da prateleira dos livros, demorou a vir lá de baixo e a passar por mim, demorei a tirar as dúvidas, este calor imenso dilata os corpos e arrasta os passos, sim, era ele, António Lobo Antunes, o velho que os livros levavam pela mão era o António Lobo Antunes, achei-te um caco, sabes, calças de ganga velhas, simplórias, vá, sapatos pretos sem nenhum rasgo, camisa azul berrante, um caco, desculpa a expressão, não tenho medo de ti, corro mais depressa, vinhas a rir, da conversa com o homem que vinha contigo, que imaginei ser o teu editor, provavelmente não era, mas achei que sim, como achei que devias ir ao alfarrabista que há ali em cima, se calhar não, se calhar o homem que ia ao teu lado era um pedinte, se calhar ias a rir porque, se bem te percebo, os loucos não te amedrontam, fascinam-te, divertem-te, deixam-te tranquilo, percebo-te bem, António, e se calhar mais não ias do que ao talho, não interessa, sim, de escritores só se imaginam coisas da escrita, como de um tubarão não se imagina outra coisa que não água e dentes e sangue, não te olhei muito porque, se bem te percebo, deves detestar sentires-te observado, se alguém observa aqui és tu, gente menor não observa, faz como eu, rumina bolos e nabiças ao sol, enquanto nos observas à sombra, contas e nomeias e metaforizas as moscas que enxotamos de cima da merda que cagamos, não te observei muito por causa disso, gado não observa, gado rumina e caga e enxota, estás um caco, António, maravilhosa proeza da humanidade, esta, a de toda a beleza do mundo brotar de um caco velho vestido com umas calças velhas e uma camisa berrante e uns sapatos simplórios, um caco puxado pela mão, a custo, por três livros velhos, maravilhosa proeza, esta, que pena a juventude ser tão estupidamente desperdiçada nos jovens.

Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

Está tudo bem

"Então, nesse instante em que cruzei a galeria, senti intensamente quanto a amava e o que acabara de fazer. Aspiração de luxo, matrimónio distinto, tudo se me evidenciou como uma chaga na minha própria alma. E eu que me oferecia em leilão às feias mundanas com fortuna, que me punha à venda, acabava de cometer o acto mais ultrajante com a mulher que me amou demasiado... Fraqueza no Monte das Oliveiras, o momento vil num homem que não o é, tem o mesmo final: ânsia de sacrifício, da mais alta reconquista do próprio valor. E depois uma imensa sede de ternura, de apagar beijo após beijo as lágrimas da mulher adorada, cujo primeiro sorriso após a ferida que lhe causámos é a mais bela luz que pode inundar o coração de um homem.

E acabou-se! Não me era possível perante mim mesmo voltar a tomar o que acabava de ultrajar dessa maneira; já não era digno dela nem a merecia mais. Num segundo tinha enlameado o amor mais puro que homem algum tinha sentido sobre si e, com Inês, acabava de perder a felicidade, impossível de reencontrar, de possuir quem nos amou intimamente.

Desesperado, humilhado, cruzei a porta pela frente e vi-a deitada no sofá, soluçando a alma inteira sobre os seus braços. Inês! Perdida já! Senti mais funda a minha miséria perante o seu corpo, todo o seu amor, abalado pelos soluços de uma alma morta. Quase sem me dar conta, detive-me.
 - Inês! - chamei-a.

A minha voz já não era a mesma de antes. E ela notou-o bem porque a sua alma sentiu, aumentando o seu soluçar, a desesperada chamada que o meu amor lhe fazia, desta vez sim, imenso amor!
 - Não, não... - respondeu-me. - É demasiado tarde!"

Horacio Quiroga, 'Contos de Amor, Loucura e Morte', págs. 44-45 (este rapaz, uruguaio como o Forlán, faz-se, não fosse o caso de já ter morrido há muito tempo, é uma pena, tem contos bons, o livro está à venda por aí, no sítio onde se vendem livros)

Terça-feira, 6 de Julho de 2010

Lisboa parece um talho,

a carne saiu à rua em lombos que antigamente eram de vaca e agora são de gazelas, antílopes, panteras e leoas, a revolução chegou à cidade, a explosão de corpos é esmagadora, a diferença para os últimos anos é enorme, demoraram, mas chegaram lá, que bonitas que vocês andam, porra, que velocidade andaram, que nos deixaram completamente, irremediavelmente?, para trás, não andem tão depressa, já eram tão mais tudo que nós e agora isto, na África do Sul baixei-me um bocado algures, enfiei a boca num esgoto e aspirei o calor que eles tinham armazenado para Dezembro, na África do Sul o verão é em Dezembro, sabias?, cheguei aqui, abri a bocarra e dei-vos o calor, este calor não é vosso, fui eu que o trouxe de lá, agradeçam-me mais uma vez, a minha mãe mandou-me vender calendários na estrada, penso muito nisso, sabes?, se não for calendários são as coxas, tenho umas boas coxas, coxas de homem, coxas que já andaram tanto como a minha cabeça, o que é curioso, não consigo despregar as coxas da cabeça, havia de ser bonito, a carne e os ossos eram fáceis de resolver, mas as veias, as veias..., as veias, com a sorte que eu tenho na vida, haveriam de ficar enroladas umas nas outras como os fios dos phones, que se encaracolam todos, aquilo só cortando com uma tesoura, voltei aos livros, livros, livros, livros, muitos livros, a agenda social tem sido apertada, as burocracias extra também, com calma vamos lá, ontem comi presunto, vê lá tu, aqui há dias um jornal na África do Sul fazia manchete com uma senhora que tinha a sanita partida e tinha portanto de usar a da vizinha, recurso que a incomodava sobremaneira, o que compreendo, o jornal não especifica as razões do incómodo, será do cheiro?, será do barulho?, será do papel gasto?, Nelson Mandela disse um dia que um homem só é um homem quando tiver a sua própria casa, acaso o tivesse dito por estes dias e acrescentaria que é preciso que a casa tenha uma sanita em condições, então a tal mulher, conta o jornal, para evitar o constrangimento de ter de cagar na casa da vizinha, decidiu só comer pão, há um mês que só come pão, vê a monotonia, o jornal não especifica que tipo de pão era, merda de jornais, estes, é que há pão com sementes e passas que podem ser explosivos, a mulher tentava então assim prender o seu ventre tão bem preso como o Mandela o foi pelos brancos maus numa ilha ao largo da Cidade do Cabo, a história da humanidade é isto, pequenas ou grandes misérias, o certo é que as coisas que nos incomodam são assim escondidas em buracos negros, como a tal ilha, chamada Robben Island, ou o ânus de uma sul-africana constrangida, pelo cheiro?, pelo barulho?, pelo papel gasto?, nunca saberemos, hoje o jornal A Bola tem uma reportagem do seu director na Robben Island, acho bonito e percebo, a ocupação de tempos livres dos directores de jornais é um assunto sério, sabias?, mais à frente o mesmo director tem um artigo de opinião intitulado 'O que eu senti em Robben Island', acho isto uma ternura, que pena o ânus da senhora Ntombosindiso, é este o seu nome, não poder ser visitado assim tão incautamente, fosse esse o caso e haveria eu de ler com o mesmo gosto um artigo de opinião do director d'A Bola intitulado 'O que eu senti no ânus da senhora Ntombosindiso'.

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