Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

Não deixa de ser curioso

que Sócrates use com os jornalistas a mesma táctica que eu uso nas discussões laborais. Sócrates debita a cassete e depois pira-se logo a grande velocidade com um 'boa noite' para não responder às perguntas incómodas, eu fazia o mesmo nas discussões: 'oh pá, vai pó c******, e virava costas rapidamente, satisfeito por ter ficado com a palavra final, que é, basicamente, como se sabe, o que conta.

Ontem estive no cinema

e tinha uma mulher do meu lado direito (tinha outra do lado esquerdo, mas essa passou pelas brasas durante o filme...) que fazia questão de fungar nos momentos cómicos, um fungar de riso, além de que, naturalmente, havia (e há, e haverá) quem se ria mesmo, com gargalhadas, nada de mal, mas acho sempre engraçado esta mania que as pessoas têm de, num cinema, ou noutros locais semelhantes, comunicarem às pessoas do lado, e atrás, e à frente, que estão vivinhas e que reagem a estímulos externos, o silêncio deve ser prova de morte nestas nossas sociedades avançadas, haverá alguém que consiga dar uma gargalhada sem emitir um único som?, eu consigo rir imenso sem fazer barulho, nem um fungar sequer, não me importo nada que achem que não estou a respirar, não fosse o facto de me estar sempre a mexer na cadeira e talvez pensem isso mesmo, também é da maneira que não me aborrecem, também sou capaz de sofrer imenso (snif, snif) sem derramar uma lágrima, mas sobre isso abstenho-me de desenvolver, não vá pensarem que este blog vai enveredar por caminhos facilitistas, ou que o seu autor anda a ler Nicholas Sparks, curiosamente rio-me bastante, às vezes alarvemente, quando falo com maluquinhos, os maluquinhos têm imensa piada, e mais uma vez ando em contraciclo com os comuns mortais, que gostam de se fazer de mortos quando são abordados por maluquinhos, mas no que toca a verem filmes no cinema ou a comerem esparregado, ah, aí eles riem e gritam e choram e dizem a todos como estão vivinhos, não deixa de ser curioso.

Sábado, 24 de Abril de 2010

Às tantas da noite de um dos dois dias do (6 palavras começadas por d, 4 delas seguidas...) fim-de-semana passado,

não vou dizer qual, tentem adivinhar, é fácil, têm cinquenta por cento de hipóteses de acertar, ou foi no sábado, ou no domingo, isto é o máximo que aqui consigo ter daquilo a que se chama 'um passatempo', estava eu sentado numa estação de metro, que só não estava completamente vazia devido à minha presença - se me considerarem um mito então estava mesmo completamente vazia - e encontrava-me sentado mais ou menos a meio da estação, quando apareceram três mulheres lá ao longe, ouvi-as a descer as escadas e depois a entrarem na plataforma, andaram, andaram, andaram, e decidiram parar precisamente ao meu lado, eu estava a ler um livro e só nisso encontro explicação, talvez para as mulheres da cidade um homem com um livro na mão tenha o mesmo ar ameaçador de um animal recém-nascido, aquelas mulheres sentiram, numa esconsa estação de metro deserta às tantas da noite, sentiram naquele sentir sexto que só as mulheres sentem: 'ora aqui está um simpático bezerro',

mesmo sendo-se portador de barba de uma semana há certas máscaras que caem assim ingloriamente, por causa de um pormenor despiciendo, um livro, mesmo que se chame 'Malone está a morrer' e que, curiosamente, comece assim: 'Dentro em breve estarei apesar de tudo bem morto finalmente. Talvez para o mês que vem. Será então o mês de Abril ou de Maio.' Um livro onde, por falar em barba, tem na página 116 uma das duas ou três (reparem na 'acidental' sequência uma-duas-três) frases que resumem os livros de Beckett, que são solidamente iguais uns aos outros: 'Mas entre ele e esses homens severos e graves, primeiro de barbas, depois de bigodes, havia a seguinte diferença: a sua semente pessoal nunca fizera mal a ninguém - portanto estava ligado à sua espécie apenas pelo lado dos ascendentes, que todos tinham morrido, julgando ter-se perpetuado.' Ou, na 176: 'Tudo está a postos. Menos eu. Nasço dentro da morte, se me atrevo a dizê-lo. É essa a minha impressão. Gestação invulgar. Os pés saíram já, da grande cona da existência. A minha cabeça morrerá em último lugar. A meu repeito acabou-se. Não tornarei a dizer eu.'

Pode alguma coisa ser assim tão áspera, azeda e deprimente e ao mesmo tempo tão bonita? Pode.

'... ao meu país, que não conheço, como não conheço o país onde os homens vão para as suas casas e vêm de suas casas, por estradas que eles próprios fizeram, para poderem visitar-se uns aos outros com mais comodidade e rapidez, à luz de inúmeros e variados candeeiros que lá vão mijando por turnos para a escuridão, pelo que nunca está escuro, nunca está deserto, deve ser horrível.'
O Inominável, pág. 42

E pronto, acabou-se.

Quinta-feira, 22 de Abril de 2010

A sala de jogos do Casino de Lisboa

parece uma sucursal do Millenium BCP com aquelas fardas cor-de-rosa dos empregados (pouco simpáticos, diga-se) e o ambiente asséptico. Não fosse o grupo de chineses (japoneses?, sul-coreanos?, martim monizenses?) a jogar poker e estaria quase a ir ao engano e a actualizar a caderneta.

Não fui lá, naturalmente, jogar. Não sei como se joga um único jogo. Tenho uma ideia, mas só de ver nos filmes: sei que a roleta rola, o poker tem cartas e a slot machine slota. O que domino mesmo são matraquilhos, sueca, dominó, berlinde, escondidas, mamã dá licença e snooker, mas nenhum destes jogos ancestrais se encontra representado nos casinos, pormenor que me afasta fatalmente deste tipo de antros de podridão, a não ser por mera questão de curiosidade, precisamente por serem podres e antros, dois pormenores que o Casino de Lisboa não apresenta, pelas razões aventadas (adoro tergiversações à volta do verbo 'aventar' e gosto também da palavra 'tergiversações') no post anterior.

O comentador Sérgio anda-me a picar (mas simpaticamente, vá) e ontem fez-me um comentário num post antigo a dizer isto: 'Ao ler os teus iluminados posts parece-me que tu sentes que és metade daquilo que querias ser e daí vem muito (não todo) desse "azedume".'

Acabei de explicar tudo, meu caro.

Segunda-feira, 19 de Abril de 2010

A vossa ajuda

Aquilo a que se tem chamado de 'Tragédia da Madeira' foi há mais de dois meses e ainda não acabaram as campanhas de solidariedade, principalmente na RTP, onde, entre outras coisas, são usadas expressões como 'vamos TODOS ajudar' e 'OS PORTUGUESES mostraram uma vez mais como são solidários'.

Percebendo a indirecta, e uma vez que ainda não ajudei nada e que, como vocês sabem, sou um fervoroso adepto destas desinteressadíssimas campanhas de solidariedade, venho aqui pôr à venda vários objectos muito pessoais. As instruções para compra estão no final do post. Eis os objectos, cujas fotos obrigaram, e espero que tenham isso em conta, a alguma 'produção':

Onze cartões (quase dá para fazer tráfico...) Lisboa Viva. A preços de mercado custam 50 cêntimos. Vendo a 25 cada um.

Um cartão cliente da Bertrand. Está bom e tem alguns pontos. Vendo a 2 euros.

Um espectacular cartão do senhor João Ramada. Vendo a 2,70 euros.

Um Pack de Jornalista Moderno que inclui um gravador, mini-cassetes, mini-pilhas, uma garrafa de whisky fresco, um pacote de Pastilhas Lol e uma tesoura e cola. Com este pack fica perfeitamente apto para o exercício da profissão. Vendo a 38 euros.

Uma nunca-se-sabe-quando-pode-ser-útil caixa de cotonetes. Vendo a 1 euro (cada cotonete).

Um boletim da Febre Amarela. Vem no meu nome, mas não há problema porque em África os brancos parecem todos iguais. Vendo a 6 euros

O meu passaporte. Dinheiro fácil: pode ser revendido para falsificação. Vendo por 112 euros.

Um esbelto agrafador de design italiano com agrafos banhados em ouro. Vendo por 20 cêntimos.

Um coiso de cheiro. Já vem com bomba lá dentro e tudo. Vendo por 1,50 euros.

Uma almofada de phones. Vendo por 30 cêntimos. 
~

Uma embalagem de Nescafé Clássico saquetas. Vendo por 2 euros.

Quinze esqueiros, catorze deles esquecidos pelos amigos nos meus bolsos. Vendo a 2 euros (os pequenos), 3 euros (os médios) e 5 euros (os grandes). Atenção que os amarelos têm tido muita saída e já só tenho um.

Um boletim do Euromilhões já preenchido com cinco apostas que nunca deram nada (mas nunca se sabe o dia de amanhã). Vendo a 10 euros.

65% de uma pêra. Limitado ao stock existente. Vendo a 2 euros.

Um incrível desentupidor de canos Continente. Vendo por 8 euros.

Uma embalagem de buchas grandes e uma de buchas pequenas. Vendo a 12 euros.

Um saboroso frango do Pingo Doce. Vendo por 6 euros.

Dois cus de frango, uma iguaria só para verdadeiros apreciadores. Vendo cada cu por 5 euros.

Quem quiser comprar algum (ou alguns, não há problema, basta irem enchendo o cesto) mande-me um mail, depois eu indico o meu NIB, transferem e depois mando-vos um mail a dizer 'boa!'. Obrigado, amigos, vamos TODOS ajudar a Madeira!

Domingo, 18 de Abril de 2010

Marta Leite Castro entrevista agora Joana Amaral Dias no Só Visto

Marta Leite Castro: Mééé mmmmééééééé mé?
Joana Amaral Dias: Méééémmmmmmmmmmméééé.
Marta Leite Castro: Mmmmméééééé mmméééééééééé?
Joana Amaral Dias: Mé!
Marta Leite Castro: Mé?
Joana Amaral Dias: Mé, mé...
Marta Leite Castro: Mmmmmééééééééé?
Joana Amaral Dias: Mééé mmmméééé´ mmmmméééééé, mé mé mé mé mé, méééémmmmmmmmmmméééé méééémmmmmmmmmmméééé, mééé .

Sábado, 17 de Abril de 2010

Quinta-feira, 15 de Abril de 2010

A grande vaca

Escrevo este texto depois de ver cinco minutos de um programa de conversa com jovens e adolescentes que dá agora à noite na RTP2. Já lá vou. Deste tipo de programas, quase só consigo gostar com crianças e com velhos, as crianças porque não sabem nada de nada e só dizem disparates, os velhos porque já não se ralam e por isso também só dizem disparates, mas as crianças e os velhos só vão à televisão para serem imbecilizados, e raramente aparecem nos talk shows noutra condição que não essa, programas onde os reis são jovens adultos ou adultos de meia idade que, com raras excepções, vão à televisão fazer aquilo que já fazem nos seus empregos, nas suas casas, nas suas vidas sociais, e que se pode chamar, resumidamente, de... mamar,

e mamar numa teta imaterial que eles não sabem a quem pertence, de que é feita e quanto leite tem para dar, mas que está lá e é isso que importa, apenas querem baixar os quadris, levantar o queixo, fazer boquinha e esperar que caia alguma coisa dessa vaca, cada vez mais sagrada, que hoje os alimenta a todos, mais do que nunca, claustrofobicamente, uma vaca que lhes permite ascender das charcutarias para os blogues, dos blogues para os jornais, dos jornais para as assessorias, das assessorias para os ministérios, dos ministérios para as televisões, e assim, vendedoras de salsichas escrevem em jornais e enamoram-se de nutricionistas, sapateiros tornam-se ministros das pescas e deitam-se com manequins, futebolistas escrevem livros e desfloram catedráticas, pasteleiros dirigem jornais e vivem com apanhadoras de ameijôa, a surpresa é estranha porque a causa é óbvia, conheceram-se todos debaixo da grande vaca, a Mediocridade, e formam um esplêndido rebanho democrático de vitelos e seus padrastos, que ruminam erva rasteira à beira da estrada, entre as pedras, as putas e o tampo dos esgotos,

e depois há então o caso específico dos programas de conversa com 'adolescentes' ou com 'jovens', que é causa primeira de suicídio em pessoas como eu, na medida em que este tipo de programa é um exercício semelhante a entabular uma conversação com ovelhas, perguntamos-lhe uma coisa e eles respondem... 'mmméééééé', perguntamos outra e eles... 'mmmmmééééé', insistimos, reformulamos, damos o flanco, mudamos o tom, alteramos a abordagem, mas nada feito, eles afastam a franja, chocalham as pulseiras, abrem a boca e... 'mmmméééééé', não me perguntem em que consiste este estranho balido porque nunca fui jovem nem adolescente, passei rapidamente de criança a velho - apesar de alguns (ainda assim frequentes) ataques epilépticos de criancice - e deste salto antes de tempo vem o aborrecimento de ser velho e não poder dizer 'já não me ralo'.

Quarta-feira, 14 de Abril de 2010

Para o caso de acharem que morri

ou que estou ocupado com outro blog, como já ouvi (e me ri e me perguntei: o que é que podem inventar mais sobre mim?), venho aqui expressamente informar que estão redondamente enganados: não tenho absolutamente nada a ver com outro blog, muito menos espero vir a ter alguma coisa a ver com a minha morte. Não tenho vindo aqui porque, simplesmente, estou com tosse.

Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

O homem da pastelaria onde

vou comprar bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças... é meu vizinho no prédio, descobri há dias quando me cruzei com ele à entrada, nunca mais voltei à pastelaria e agora vou comprar bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças e bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças bolos e cafés duplos e bolos e cafés duplos e carcaças a outro lado.

Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

Eu uma vez na catequese (sim, eu fiz catequese)

estava tudo a rezar à volta de uma mesa assim rectangular e virados todos uns para os outros, então eu, com o espírito de liderança chicóesperta que já na altura me caracterizava, perguntei assim retoricamente: 'porque é que não rezamos virados para ele?', ele era um senhor que estava pregado numa cruz que por sua vez estava pregada numa parede que por sua vez estava pregada num pilar que por sua vez estava pregado num prédio que por sua vez estava pregado num terreno e por aí fora, numa cadeia impressionante de gente e coisas pregadas umas nas outras e a sofrer atrozmente, então a senhora irmã disse assim: 'boa ideia!', e por causa disso passámos todos a rezar para o tal senhor, e nessa noite tive direito a dois beijinhos e tudo, a questão é esta: esses dois beijinhos podem ser considerados assédio sexual?, se sim, qual é o número do Correio da Manhã?, e alguém conhece algum advogado bom?, obrigado.

PS: isto porque há anos que me quero vingar dos padres, uma vez na Primeira Comunhão (sim, eu fiz a Primeira Comunhão; no meu caso foi a primeira e última), o senhor padre da igreja de Campo de Ourique deu-me um diploma a atestar a minha presença na cerimónia, mas estava com o nome de outro puto, eu, que na altura usava óculos e risco ao lado e era feio que nem um trovão (sim, sim, sim, já fui tão diferente do que sou hoje), vi o nome errado e voltei para trás (em plena cerimónia) e disse assim ao senhor padre: 'olhe que isto não é meu...', e o senhor padre empertigou-se todo e respondeu assim: 'volte já para o seu lugar...', fiquei danado, danado, danado, e desde aí que sempre quis sacar uma massas a estes gajos.

PS2: para não falar que ia para a igreja de Campo de Ourique rezar para que Deus fizesse o possível para que eu conseguisse apanhar um pardal no jardim que havia lá em frente e bem podia ter esperar sentado, que pardais apanhados com a ajuda de Deus nem um, foi quando percebi que os caminhos da fé não eram para mim.

Terça-feira, 6 de Abril de 2010

Não há barulho, a única coisa que incomoda é a relva a crescer

diz o Carlos Miguel, o Fininho, agora na RTP, mais velho, sombra da velha glória, que um cancro precipitou e fez esquecer na memória das pessoas que passam na rua e lhe acham a cara familiar, mas não sabem de onde, Carlos Miguel está menos Fininho, a idade nas pessoas aumenta as orelhas, sopra pelos ouvidos e incha a cara, o nariz abatata e as peles autonomizam-se, lembro-me bem do Fininho no 1,2,3 e lembro-me bem do 1,2,3 no Cinema Europa, em Campo de Ourique, onde havia uns vidros por onde se espreitava e se viam uns adereços que eram de esferovite branca por dentro e de esferovite às cores por fora, o Fininho diz que encontrou a calma e a tranquilidade longe de Lisboa, encontrou o silêncio, o Fininho fazia tantas personagens de tantas cores como tantos eram e tantas cores tinham os adereços que eu espreitava pelos vidros, adereços todos amontoados uns nos outros, já usados e empoeirados, como usadas e empoeiradas estão as personagens do Fininho, de que as pessoas já não lembram, postas a um canto, como os adereços, no silêncio das arrecadações e das memórias,

não sei porquê, lembrei-me do gnu prostado no chão com as hienas de volta, as hienas não têm a misericórdia que os leões têm, os leões sufocam os gnus pelo pescoço ou então sufocam-nos com um longo beijo no focinho, o gnu expira oxigénio de gnu e inspira oxigénio de leão, e depois morre, e só depois os leões o comem,

já as hienas, perseguem o gnu durante quilómetros, cansam-no até à exaustão, atiram-no ao chão e depois falta-lhes paciência para o matar, então vão directamente à parte de trás do gnu e começam a comê-lo ainda vivo, e então o animal, perfeitamente consciente, sente a pele a ser rasgada, as pernas a serem trincadas, os ossos rompidos das articulações, os intestinos e os tendões a serem puxados como cordas, e o sangue desce pelas veias e depois não volta a subir, porque quando chega às pernas, e elas já lá não estão, esguicha das veias como esgoto a sair do cano, quem nunca viu um gnu a ser comido por hienas não sabe de que silêncio está o Fininho a falar, outro dia estava uma noite tão silenciosa que se ouvia a barba a roçar no lençol com a respiração.

Lisboa, que te estragam com mimos... VIII

Segunda-feira, 5 de Abril de 2010

A mama esquerda da mulher dos frangos assados

esteve este fim-de-semana momentaneamente à venda por cinco euros e dezoito cêntimos, começou tudo quando eu cheguei lá e, sem surpresa, lhe disse assim: 'bom dia, são dois frangos', o primeiro que ela pegou era pequeno (ainda situado cronologicamente algures entre o pós-pinto e o pré-galo), ela espetou-lhe a pinça adentro e depois desfraldou-o para mim como uma bandeira, como que a perguntar: 'gostas destes, bonitão?', eu fiz assim com a cabeça como que a dizer: 'gosto, gosto',

com o segundo frango já fiz questão de lhe dizer que pretendia um grande, eu na verdade não gosto de frangos pequenos e não sei porque é que lhe disse que o primeiro podia ir, talvez porque nunca antes na vida me tinham desfraldado um frango como uma bandeira, ainda mais num local público e talvez essa tenha sido a causa do lapso, em tempo de guerra isto é aquilo a que se chama uma  'manobra de diversão', na verdade ela queria despachar o espécime mais enfezado da vitrine encetando para isso a tarefa imprevista e manhosa de o desfraldar à frente de toda a gente para me encaralhar em público, este lapso veio provar que ainda não estou totalmente apto para a vida na cidade, mas é ir aprendendo com os erros e seguir em frente,

e então ela trinchou os frangos com a tesoura e depois meteu-os em duas embalagens de plástico pretas em baixo e transparentes em cima, as embalagens tinham uma forma parecida à do pavilhão atlântico, mas em vez de cantores de rock iam asas, peitos e coxas de frango, então ela pegou nos dois pavilhões atlânticos e pesou-os numa balança electrónica que cuspiu logo um papel com o preço, que dava os tais cinco euros e dezoito cêntimos, estava tudo a correr bem quando ela pegou nos dois pavilhões atlânticos de uma só vez e a parte de cima de um deles se soltou,

ela viu-se de repente no dilema que eu às vezes tenho quando carrego os sacos do supermercado a caminho de casa, doem-me os braços mas não posso parar, porque se páro perco o ritmo das pernas, mas se não páro desfaleço dos dedos, ou seja é o dilema dos vários problemas que nos aparecem ao mesmo tempo e, em vez de se porem em fila indiana para a gente os resolver um a um de cada vez, vêm ter connosco por todos os flancos,

ela estava, então, com os dois pavilhões atlânticos cheios de frango prestes a desmoronarem-se nas mãos e uma balança electrónica a stressar com um papel na boca, quando, após pensar um bocado, equilibrou os dois pavilhões atlânticos numa só mão e com a outra tirou o papel da máquina e colou-o na mama esquerda, assim, zás, sem um mínimo de sensualidade ou qualquer slow motion ou olhar lânguido, pôs o autocolante na mama como um carimbo que se põe numa folha, como uma luz que se apaga e acende no interruptor, como um prego que se empurra com o martelo, como um dente que se crava na entremeada, uma coisa mecânica, prática,

os cinco euros e dezoito cêntimos ficaram assim ao ritmo do arfar do peito, ela inspirava e o preço se elevava, ela expirava e o preço se rebaixava, inspira, expira, eleva, rebaixa, inspira, expira, eleva, rebaixa, então ela pôs ordem nos pavilhões atlânticos, tirou o preço da digníssima mama (que voltou à condição de gratuita), paguei cinco euros e dezoito cêntimos com a maquia de cinco euros e vinte cêntimos, perdoei os dois cêntimos de troco, ela agradeceu e fui-me embora, e foi isto, meus amigos, boa semana, pessoas bonitas.

Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

Curioso também

que, em dia de jogo do Benfica, a zona de Benfica (curiosa coincidência de nomes) começa a ficar cheia, logo desde manhã, com autocarros vindos de todo o país, e com os autocarros vêm pessoas de verdade de todo o país, e com as pessoas de verdade vêm merendas de todo o país, e com as merendas vêm garrafas de todo o país, e com as garrafas vêm vinhos de todo o país, vinhos, esses, que são bebidos pelos autocarros e depois pelas pessoas e depois pelas merendas e depois pelas garrafas (não necessariamente por esta ordem),

isto para dizer que nos jogos do Benfica há feiras gastronómicas à vista de todos nos caixotes do lixo de Benfica (reforço a curiosa coincidência de nomes), sem direito a apoios governamentais, regionais ou locais, e sem directos da Praça da Alegria ou do Portugal do Coração, uma injustiça, uma cegueira colectiva, um escândalo abafado pelo 'sistema', vêm vinhos de todo o país e vinha também eu de corpinho bem feito pela rua quando, eis senão quando, ei-la: uma garrafa de Trás-os-Montes, e ali outra: do Alentejo, e outra ali, e mais outra, rótulos bonitos, brancos e manchados de mãos peludas, e carrascões sem rótulos bonitos e brancos e manchados de mãos peludas,

tantas garrafas, tanto vinho, meus amigos, e as garrafas todas nos lixos, lixos feitos vidrões por pessoas feitas adegas, e quando enchem os lixos as pessoas de verdade que vêm nos autocarros e trazem merendas empilham as garrafas no chão junto aos caixotes cheios, cuidadosamente, muito cuidadosamente, as pessoas que vêm da província não querem sujar a capital, tantos pudores têm elas com a velha senhora, ah, que bom seria Lisboa só com esta gente, e o seu vinho, vinho e mais vinho, vinho que vem ver o Benfica sem pagar bilhete, vem de borla nas goelas, é cuspido nos bordões e transpirado nos casacos e nos abraços, ah, grandes bêbedos, haja alguma coisa que vos aqueça o sangue e vos alegre o coração.

Quinta-feira, 1 de Abril de 2010

Curioso,

o Benfica marcou dois golos, mas aos meus ouvidos foram seis, porque os sons dos golos não me chegaram ao mesmo tempo, primeiro vieram da televisão, depois do rádio e depois da multidão no estádio, que fica a quinhentos metros de casa, o que quer dizer que os gritos de sessenta mil pessoas demoram mais tempo a fazer quinhentos metros do que o sinal da televisão, que vai de Benfica até ao céu e depois volta para baixo até casa.

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