Domingo, 28 de Março de 2010

Podia falar aqui de muita coisa, do Benfica, por exemplo,

mas o Benfica já me aborrece, farto-me de tanta vitória, de tanta alegria, precisava de um pouco mais de emoção, podia falar-vos dos dois elevadores aqui do prédio, o da direita já me transportou 30 vezes este mês e o da esquerda 41, parece que está a ganhar o do esquerda, mas não se iludam, acontece que subir vale mais pontos (dois) que descer (um), porque, obviamente, custa mais, cansa mais o elevador, e aqui o da direita tem vantagem porque das 30 vezes que me levou 25 foram a subir e 5 a descer (total: 55 pontos), e o da esquerda, das 41 vezes que me transportou, 12 foram a subir e 29 a descer (total: 53 pontos) - como vêem, isto sim é uma competição a sério, muito mais renhida que este campeonato nacional e este Benfica, que me aborrecem sobremaneira,

estou prestes a entrar no quarto livro de Beckett e posso-vos dizer que para Beckett o mundo dos vivos (que, para quem esteja distraído, informo que é... agora) é um longo e penoso Inverno, a vida é a dor e são as trevas, onde nos vamos arrastando até à morte, e com essa morte entramos finalmente no mundo... da Luz (calma, amigos benfiquistas, é 'a outra' Luz...), o mundo dos mortos de Beckett consola um ateu dos quatros costados como eu, o mundo dos mortos de Beckett é diferente do Paraíso e do Inferno, das reencarnações asiáticas ou das virgens árabes, o mundo dos mortos de Beckett é simplesmente... um domingo de Verão,

provavelmente, imagino eu, com café quente de manhã e ovos mexidos e passarinhos a cantar,

ele não o diz nestes termos, sou eu que o deduzo do que tenho lido, podia dizer-vos mais coisas sobre Beckett, mas não me apetece, ou, aliás, apetece-me, mas prefiro guardar para mim, senão ficam a saber tanto como eu, mando-vos só mais um bocado do lado ternurento dele:

'Desabotoava-me, discretamente, para me coçar. Coçava-me de baixo para cima, com quatro unhas. Puxava pelos pêlos para me aliviar. E o tempo ia passando enquanto me coçava. Coçarmo-nos bem é melhor do que masturbarmo-nos, acho eu. Uma pessoa pode masturbar-se até aos cinquenta anos, e mesmo muito para além disso, mas acaba sempre por ser um mero hábito. Para me coçar não me bastavam as duas mãos. Tinha chatos por todo o lado, nas partes, nos pêlos até ao umbigo, debaixo dos braços, no cu, e também tinha placas de eczema e de psoríase que podia inflamar só de pensar nelas. Era no cu que sentia maior satisfação. Enfiava o indicador no cu, até ao metacarpo. Se depois tinha de cagar, a dor era de morrer. Mas já quase não cagava. De tempos a tempos, passava um avião, com pouca velocidade, parecia-me. Muitas vezes, ao fim do dia, descubria a bainha das calças molhada. Deviam ser os cães. Eu quase não mijava. Se por acaso tinha vontade, atenuava-a deixando cair um fiozinho na braguilha.'

'Novelas e textos para nada', págs 73-74

Tenham um bom domingo e que Deus Nosso Senhor vos alumie o caminho.

Quinta-feira, 25 de Março de 2010

A ver se me oriento com isto,

estava um tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além sentado à minha frente no metro de cabeça baixa e a mexer no telemóvel velho, de repente: puuummm!, o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além deixou cair o telemóvel, então baixou-se para o apanhar, mas a cabeça estava tão determinada que parecia uma bússula a apontar para baixo, ele levantava-a e ela a apontar, ele levantava-a e ela a apontar, achei isto engraçado, porém repetitivo, de modo que virei o olhar para outro lado e foi então que, de repente, puuuummm!,

telemóvel no chão outra vez, e então o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além voltou a baixar-se, e depois foi a história da bússola que já vos contei, dois minutos depois: puuuummm!, telemóvel no chão outra vez e então o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além voltou a baixar-se e depois foi a história da bússola que já vos contei, estávamos quase a chegar à estação e o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além levantou-se (extremamente relutante e aborrecido, digo-vos eu, que vi tudo, com estas contrariedades de ter de se levantar, não estando disponível no momento qualquer forma de teletransporte),

para se manter de pé decidiu pedir ajuda àquelas forcas de ferro que estão no tecto do metro e que servem para este tipo de pessoas se aguentarem nas canetas, estava então o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além agarrado com uma mão apenas, mas agora já não era a cabeça que apontava para baixo, era o corpo todo feito bússola a apontar para sul, isto às vezes acontece-me com os sacos do supermercado, que me puxam os braços com toda a força que conseguem para irem ao chão, se levar só rolos de cozinha não pedem muito, mas se for fruta ou pacotes de leite é um martírio os sacos a fazer força para baixo, da inversa forma que as crianças no chão pedem com toda a força para ir para os nossos colos,

então, estava o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além com um braço apenas a segurar o corpo todo quando ele decide que precisava rapidamente de mais ajuda e para tal decidiu que a hipótese mais consensual e com o melhor rácio qualidade/preço seria usar o seu outro braço, que, no caso, era o esquerdo, que estava estendido, pesado e vertical ao longo do corpo, como um reluzente fio de prumo, então o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além cerrou os dentes e iniciou a empreitada da vida, erguer o braço esquerdo até à forca pendurada no tecto do metro,

primeiro, digo-vos eu, que vi tudo, entortou-o, e então a linha recta do braço começou a fazer um ângulo obtuso, várias pessoas no metro acompanharam comigo a acção, algumas ouvindo talvez a Dança das Valquírias, a mão chegou à cintura, sinal de que o braço estava já a caminho de fazer um ângulo recto, com o cotovelo em vértice, depois começou a tarefa de virar a mão e começar a subi-la, e ao mesmo tempo que a mão subia, subiam também a pele e os pêlos e os dedos e os ossos, e conforme sobe isto tudo sobe também o sangue, litros e litros, sendo que o sangue não faz como a pele e os pêlos e os dedos e os ossos, o sangue chega lá acima aos dedos e depois atira-se todo cá para baixo, a grande velocidade (o sangue diverte-se tanto!), de tal forma que chega aos pés e com o balanço volta a subir até aos dedos e depois atira-se cá para baixo outra vez e assim sucessivamente,

e a mão começou a subir, a subir, a subir, a subir, tudo muito lento, tudo muito arrastado, e finalmente agarrou-se à forca, e eu pensei cá para comigo: 'porra, que estava difícil...', a mulher que estava ao lado do tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além não partilhava da minha boa disposição e estava ligeiramente receosa que ele a fosse molestar, e então o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além ficou assim uns minutos nesta luta, o corpo fazia assim esta forma em <, a ponta de cima eram os dedos e a forca, a ponta de baixo eram os pés e o chão, o vértice a meio era a cintura espetada para fora, metade do corpo puxava-o violentamente para o chão, e a outra metade estava agarrada à forca, só com as mãos e a pele e os pêlos e os dedos e os ossos, onde o sangue se divertia à grande, yupiiii, yupiii, de cima para baixo, de baixo para cima.

Ternura

'Abundavam pássaros de todo o tipo e deliciávamo-nos a persegui-los com pedras e torrões. Os piscos, em especial, por serem muito confiantes, destruímo-los em grande número. E ninhos de cotovias, cheios de ovos ainda quentes do regaço das mães, reduzíamo-los a fragmentos, espezinhando-os, com especial satisfação, na época adequada do ano.

Mas os nossos amigos dilectos eram os ratos, que habitavam junto ao riacho. Eram compridos e negros. Trazíamos-lhes petistos tirados ao nosso ordinário, como, por exemplo, cascas de queijo e pedaços de cartilagem, e também ovos de pássaros, e rãs, e passarinhos tirados do ninho. Sensíveis a estas atenções, costumavam juntar-se à nossa volta à nossa chegada, com todos os sinais da confiança e da afeição, deslizavam pelas pernas das nossas calças acima e penduravam-se-nos no peito. E então, costumávamos sentar-nos no meio deles, e dar-lhes a comer, da mão, uma bela rã gorda ou um filhote de tordo. Ou, agarrando subitamente um rechonchudo rato jovem, que descansava no nosso peito após o repasto, dávamo-lo a comer à mãe, ou ao pai, ou ao irmão, ou à irmã, ou a algum parente menos afortunado.

Era nessas ocasiões, concluíamos, após uma troca de opiniões, que nos aproximávamos mais de ser Deus.'

Samuel Beckett, ‘Watt’, pág., 178

Quarta-feira, 24 de Março de 2010

Ontem estava no Chiado

a tomar café com dois ex colegas e um deles diz assim: 'ih, lá vem o maluquinho que estava lá em baixo', o maluquinho andava pelas mesas a vender as desgraças privadas, que nem eram caras, diga-se, era uma vida em saldo, em promoção, é sempre agradável para quem vai dar um passeio à rua adquirir assim por boa maquia (umas moedinhas) ou um ou outro género (um cigarrinho) uma boa vida de desgraças, este era tipo para resumir a vida em meia dúzia de maleitas em meia dúzia de minutos por meia dúzia de tostões, sinceramente já vi negócios mais desaconselhados, eu gosto de maluquinhos, às vezes dou-lhes moedas mas aprecio (exijo!) saber as desgraças, pus no pés, dívidas, braços rotos, pernas decepadas, mães putas, irmãs putas, primos putas, pais putas, qualquer coisa serve, sidas e tuberculoses de preferência, quero é histórias, que eu não dou dinheiro a ninguém (excepto velhos) sem ter alguma coisa em troca, mas isto faço quando estou sozinho e tenho tempo, o que não era o caso de ontem ao final da tardinha naquele quiosque dos refrescos que a maravilhosa Catarina pôs no Camões,

andava o maluquinho pelas mesas e depois chegou à nossa e pediu um cigarro, alguém deu e o maluquinho começou a dizer que a vida dele estava um desgraça, e nós também, diz que sim, que ele vai-se já embora, e depois o maluquinho diz assim 'a minha vida está uma desgraça, a minha mulher está com uma depressão, já pensei atirar-me para baixo do metro, chego a casa todos os dias e vou ao meu diário de bordo...', eu aqui com esta do diário de bordo atiro uma gargalhada porque achei muito engraçado o maluquinho com um diário de bordo, o camarada sentado ao meu lado faz-me um sorriso amarelo como quem diz 'pões-te a rir e agora é que o maluquinho não se vai embora...', o maluquinho diz assim: 'vou ao diário de bordo e escrevo o que vou fazer amanhã...', eu começo-me a rir outra vez e digo-lhe 'isso é um diario de bordo? isso não é uma agenda?', e o meu camarada do lado faz um sorriso ainda mais amarelo que é como quem diz 'agora é que estamos bem fodidos...',

por acaso não estávamos, porque o maluquinho diz assim 'não, não, é um diário de bordo!' e eu digo 'tá bem, tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus e tá bem tá bem e adeus' e o maluquinho foi-se embora, hoje este blog faz um ano, beijinhos para mim e para a 'mãe espiritual' do Acatar, a senhora dona L., que por acaso está à espera do segundo filho, a senhora dona L. é uma grande parideira, em mais ou menos dois anos deu à luz dois filhos (todos dela) e três blogs (um meu, e dois dela, um deles a caminho, tal como um dos filhos), qualquer dia é objecto de reportagem na rubrica Famílias Numerosas do semanário Sol, que Deus a guarde a ela e a vocês todos, benditos sejam.

Terça-feira, 23 de Março de 2010

A mulher que anda a incendiar a elite burguesa de Lisboa

chama-se Inês Fonseca Santos, é esta rapariga acima reproduzida numa das poucas fotos dela que há para roubar na Internet, de facto a Inês é muito agradável, e o que nela é ainda mais agradável, além do seu ar de francesa de França, é que a Inês é apresentadora do telejornal cultural diário da RTP 2, cujo nome se me escapa agora porque eu só vejo telenovelas, ou seja, além do seu evidente ar de tesuda (com todo o respeito), a Inês parece que lê coisas e escreve livros (Inês, eu li a tua 'Antologia do Humor Português'), inclusive é licenciada e mestrada e essas coisas que se tiram de dia, eu também gosto muito da Inês, se a visse na rua era capaz de virar o pescoço, e eu raramente viro o pescoço, o que venho aqui dizer é que a Inês, quando se desloca à casa de banho para defecar, fá-lo provavelmente acompanhada por um livro de poesia, isto a crer no que ouvi dela numa recente entrevista na rádio, mais ou menos interrogada (ela a si própria, retoricamente) por as pessoas só defecarem na casa de banho acompanhadas de um jornal (quiçá, desportivo) ou de uma revista (quiçá, feminina) e não de um Withman, um Baudelaire, um Drumond, ou, para não irmos mais longe, um Álvaro de Campos;

seja como for, quero aqui realçar que ela não dizia defecar, ela dizia 'as pessoas irem à casa-de-banho', que, como se sabe, é uma maneira chique que as pessoas chiques têm para dizer: 'as pessoas irem defecar'; ou seja, omitem a intenção e focam-se no local da intenção subentendendo a intenção pelo local em causa como se na casa-de-banho não fosse possível fazer outra coisa que não defecar, independentemente de ser com um livro de poesia ou com um jornal (quiçá, desportivo) ou com uma revista (quiçá, feminina), adiante,

eu sei que a elite masculina burguesa de Campo de Ourique e das Avenidas Novas não imagina a Inês Fonseca Santos de cuequinha (que, tenho a certeza, será de algodão puro com moranguinhos estampados) arreada no tapete oval da casa-de-banho ao mesmo tempo que as suas alvas carnes traseiras estão em contacto com o halo cerâmico Revigres, mas, a imaginá-la assim neste quadro dantesco, é sempre reconfortante saber, ainda por cima por ela, que é possível que nestas alturas difíceis da sua vida, cartase bonzinha sobre o buraco negro, Inês se socorre de um livro de poesia, sexy e levemente dependurado nos seus dedos de pianista francesa de França;

como vêem, meus amigos, nem tudo é pestilento e mau nesta vida, é o que se pode concluir de mais este episódio da vida na cidade.

Segunda-feira, 22 de Março de 2010

Para quem dizia que eu agora não escrevia...

Estou a ver o debate dos candidatos ao PSD e estava a pensar que se fosse militante do PSD estava bem tramado, no Rangel nunca votaria porque não voto em pessoas baixas, não é nada contra pessoas baixas, é só por causa das fotografias nas cimeiras internacionais, quando andava lá o Guterres e o Vitorino enchia-me de vergonha, os povos pequenos não podem ter primeiros-ministros pequenos, é uma questão de bom senso, como diz o Beckett 'tudo é figura e fundo' (sou bom a fazer citações), agora vamos ao Pedro Passos Coelho, o Pedro Passos Coelho não é pequeno, também não é altíssimo, mas imaginem o Pedro Passos Coelho a ser fotografado numa cimeira internacional, dá ou não dá uma imagem errada (logo, boa) de Portugal?, o Pedro Passos Coelho tem bom aspecto, não me interessa o que defende, a ele também não e às pessoas de verdade também não, porque o Pedro Passos Coelho não traz nada de relevante e vai ser igual aos outros, espero estar muito enganado, agora, tenho a dizer-vos, votava nele, só porque é mais bonito e alto que o Rangel, mas há um problema: acontece que o Pedro Passos Coelho não tem lábios, o que é uma coisa que me deixa inquieto, não é que algum dia o vá beijar na boca e não encontre substância, mas incomoda-me ter um primeiro-ministro com lábios tão finos, porém, devo ser justo, as patilhas do Pedro Passos Coelho são muito mais compridas que as do Rangel, mas não suficientemente compridas como as dos pescadores, as do Passos Coelho não chegam a passar os lóbulos, enquanto as patilhas do Rangel ficam no terço superior da orelha, o Castanheira Barros é de longe o candidato mais coerente na sua beleza, tem um certo ar de político americano, não fosse o caso de ser do Cacém ou lá o que é, e isso vê-se nas patilhas, se repararem o Castanheira Barros não tem patilhas, é tudo cortado rente, o que é uma coisa deveras angustiante, o Aguiar-Branco tem o handicap de o nome ser ligado por um hífen, e se o virem bem a falar espreitem para dentro da boca e verão um pequeno grande dente de vampiro lá ao fundo espetado para baixo, e tem um dente à frente todo sobressaltado, encavalitado, feito tremor de terra, tão levantado que parece que não está lá, parece uma ponte levadiça que emperrou lá em cima, e tem os cabelos brancos e as sobrancelhas pretas, ou seja Aguiar-Branco envelhece às postas, os penteados de todos os candidatos têm risco ao lado esquerdo, as entradas do Rangel são maiores do que as dos outros, e o Rangel tem mãos pequenas, tão pequeninas que parecem as de uma criança, e está muito gordinho, deu agora um plano de trás e via-se um pneu de gordura de volta do cachaço, este é o balanço que importa do debate.

Estava eu hoje a travar conhecimento com uma cerveja

ali para os lados da Baixa de Lisboa, quando vem um cego a bater com a bengala e a apregoar 'olhó 69! quem quer o 69?!", vem um grupo precisamente composto por menos de seis velhos e velhas e mais de quatro velhos e velhas e pedem uma quantia precisa algures entre duas cautelas e quatro cautelas do 69, depois uma das velhas pede o 27 e o cego faz ali em meia dúzia de minutos dez, vinte, trinta euros, uma das velhas voltou para trás e pediu para trocar uma nota de vinte, então o cego foi ao bolso, acariciou os mamilos das notas, detectou as de dez e deu duas à velha, que em troca lhe deu uma de vinte, isto vi eu, já o cego, como não vê, para se certificar que a velha não estava aprofundar ainda mais o handicap que ele tem para a vida na cidade, apalpou o mamilo da nota de vinte e viu logo que era uma nota de vinte, e assim ficou tudo bem entre estas pessoas de verdade, ao meu lado estava um bêbedo a falar com os pombos, vinha um pombo e ele dizia assim: 'eehhh...!', que é como quem diz 'eh, tás cá hoje?', depois o pombo comia uma migalha e o bêbedo ria-se 'ahahaha!', que é como quem diz 'és cá um sacana, não tens remédio!', depois ia a passar ali em baixo e estavam dois bêbedos, um dizia para o outro: 'Acham que estou morto! Olha, pelo menos fiquei sem dívidas...', o outro ria-se, ando absolutamente fascinado com as pessoas que se põem atrás dos políticos quando eles falam para as câmaras, não me interessa o que os políticos dizem e a cara que fazem e os truques que usam, só fico vidrado nos que estão atrás, tenho de perceber melhor aquilo, estive constipado, mas agora já estou bem, obrigado.

Lisboa, que te estragam com mimos... IV

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