Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

Oásis

Estive estive a desistir várias vezes no último dia, aguentei-me, mas, por ironia, desisti mesmo, mas por motivos alheios à minha vontade, como vos contei no post anterior. Nesse dia, ia entrar na Mauritânia. Estava em Dakhla (lê-se Dárrlá), a última cidade marroquina antes da fronteira. É uma cidade incaracterística, cheia de marroquinos enjoados e imbecis - como todo o país, aliás - e situada na costa do Saara Ocidental. Apesar de ser o último povoado marroquino, fica a 340 quilómetros da dita fronteira. Não há transportes públicos e, por isso, só tinha duas hipóteses: táxi ou boleia. De táxi, eram uns 40 euros. Escolhi tentar a boleia numa estrada onde, vim a constatar mais tarde, passa um carro por hora.

Saí do hotel manhã cedo e fiz-me à estrada com as duas mochilas às costas. Sem nenhuma ideia do que ia encontrar, sem ter estudado bem o mapa (estupidez…), só na estrada percebi que Dakhla é uma extremidade de terra saída da costa, uma pila de 40 quilómetros pendurada no mapa do país e eu estava na ponta dela. À volta, só deserto.
Na verdade, quem vinha do norte e ia para a Mauritânia não precisava de passar por Dakhla. Ou seja, antes mesmo de pedir boleia para a Mauritânia tinha de pedir boleia para sair de Dakhla. Foi nestes 40 quilómetros que estive para desistir várias vezes. Desistir porque achei que não tinha necessidade nenhuma de estar a passar por aquilo, não tinha de provar nada. Ou pensava em mandar aquilo tudo às malvas ou então pensava em voltar para Dakhla e pagar o táxi.

Estive várias horas sob um sol tórrido (mesmo de manhã), caminhei vários quilómetros numa estrada deserta e entretanto fiquei sem água para beber (porque não me abasteci, porque pensava que seria fácil arranjar boleia). De Dakhla até à estrada para a Mauritânia são 40 quilómetros, como vos disse. Nesse ponto, as duas estradas ligam e há lá uma bomba de gasolina, que eles chamam precisamente Quarante. Só cheguei a Quarante depois de cinco boleias - e eu que nunca tinha pedido uma boleia na vida. Foram todas dadas por marroquinos (houve outros que pararam, mas pediam dinheiro). Um levava-me até aqui, outro até ali, outro até acolá, outro mais à frente. Fiz assim os 40 quilómetros. Pelo meio, esperei horas ao sol, caminhei com mais de vinte quilos às costas, suava por todo o lado, não havia sombras em lado nenhum, tinha a boca seca de sede.

Passaram por mim dezenas e dezenas de auto-caravanas com casais de franceses lá dentro (Dakhla está cheio deles). Auto-caravanas modernas, grandes, espaçosas, confortáveis, de vidros fechados por causa do ar condicionado fresco. Apesar disso, nem um sequer parou para me perguntar onde ia. Todos me ignoraram. Dezenas e dezenas. Viram-me numa estrada no meio do deserto, ao sol, e nem abrandaram. Quando vi a primeira auto-caravana pensava que o facto de ser europeu e não ser propriamente um maltrapilho me iria ajudar, mas enganei-me redondamente. Percebi rapidamente que estes franceses estavam a milhares de quilómetros de França, mas - metidos nas suas auto-caravanas francesas, cheias de comida francesa e televisão por satélite francesa - na verdade nunca tinham saído de França, da mesma maneira que os ingleses que vão para as Albufeiras e Quarteiras nunca chegam a sair de Inglaterra.

Foi na minha última boleia, de um marroquino que me pediu dinheiro ou um souvenir (dei-lhe uma gillete descartável), que soube que até à fronteira com a Mauritânia eram mais de 300 quilómetros. Se fazer 40 foi isto, imagine-se fazer 300. Já tinha decidido voltar para Dakhla na tal bomba de gasolina e pagar um táxi. Mas quando chego lá vejo que estava um carro parado com um tipo ao lado, alto e barbudo, magro, de mãos nos bolsos, enquanto o homem da bomba lhe abastecia o depósito. Fui ter com ele e disse-lhe bom dia em francês. Ele disse-me bom dia, sorridente, e depois perguntei-lhe.

- Por acaso não vais para a Mauritânia…?
- Vou.
- A sério? Dás-me boleia!?
- Claro! Deixa-me perguntar à minha namorada.

Ela estava sentada no carro e nem por um segundo hesitou. Uma sorte incrível. No preciso momento em que precisava de um anjo da guarda no deserto, apareceram-me dois. Depois de arranjarem espaço no carro - para mim e para as mochilas - partimos. Mal acreditava na sorte que tivera. Estas três ou quatro horas até à fronteira foram, de facto, as únicas que valeram a pena nesta viagem, que se revelou um fiasco. François e Sabine são o casal mais simpático do mundo. E tive a sorte de os encontrar. Cinco minutos mais tarde, uma boleia a menos, ou a mais, e já não os apanhava na bomba de gasolina. Fomos a ouvir música francesa, Orishas e The Doors. Ofereceram-me tabaco e comida. Fomos a falar de política (eles são de esquerda e detestam Sarkozy; eu de direita e adepto da comicidade do petit Nicolas) e de viagens pelo mundo, principalmente da que fizeram de carro pelo Irão. Eles arranhavam mal o inglês, eu arranhava mal o francês, muitas vezes misturávamos as duas línguas na mesma frase, mas entendemo-nos.

Mas a sorte ainda não tinha acabado, como percebi depois. Sabine e François vinham de França, iam para a Mauritânia, mas o destino final era o Senegal, onde iriam ter com um amigo dali a dois dias. Ainda não lhes tinha pedido, mas, se o fizesse, tinha a certeza que me levavam com eles até lá. Não só resolvia o problema dos tais 300 quilómetros até à fronteira com a Mauritânia, como tinha ao mesmo tempo uma boleia para a atravessar e ainda chegar a Dakar. E sempre em excelente companhia. Poupava muito tempo, poupava muito dinheiro, divertia-me e ia bem. Era sorte a mais, era o Euromilhões ganho com uma aposta única.

Como lerem no post anterior, a sorte acabou depressa (aliás, já estava traçada quando os encontrei): eles tinham o visto no passaporte, eu não. François ajudou-me a falar francês com os polícias de Marrocos, mas nada feito. Sem o visto para a Mauritânia nem sequer podia sair de Marrocos, quanto mais chegar à fala com os polícias mauritanos. Fui barrado e tinha de voltar para trás, voltar a fazer a desértica estrada dos 300 quilómetros, mais os 40 até Dakhla. Dali a pouco anoitecia e só tinha duas hipóteses: ou voltava de táxi ou dormia no deserto, na berma da estrada.

Além desse problema logístico imediato, a minha desilusão era total, como devem calcular. Uma semana de autocarros marroquinos deitada no lixo e a viagem (nos moldes em que a queria fazer) em evidente risco de terminar já ali (é que havia ainda o golpe de estado no Níger, que acontecera na véspera). Tinha de fazer muitas contas de cabeça, ponderar tempos, dinheiros e objectivos que realmente interessavam. Do que decidi, e que expliquei no post anterior, tive muito tempo para o pensar.

De facto, não me vim logo embora. Enquanto Sabine e Françoi ainda ficaram várias horas à espera na fronteira (extraordinária a eficiência da polícia marroquina…) eu também fiquei à espera de um táxi para regressar a Dakhla. Havia lá vários, mas, escolhendo um, tinha de o partilhar com outras pessoas, que haveriam de chegar em cinco minutos (demoraram duas horas). Se quisesse um táxi só para mim pagava... 120 euros (que é o preço de uma viagem ida-e-volta de avião Lisboa-Londres e ainda sobra para outra). Se pagasse só o 'assento' eram 20 euros.

Nesta longa espera, François e Sabine ofereceram-me comida, deram-me um banco para me sentar à sombra, deram-me uma cerveja para beber, eu dei-lhes o meu guia de África da Lonely Planet, eles ficaram muito tristes por eu ter de voltar para trás.

O táxi foi partilhado por… sete pessoas. Sete homens corpulentos metidos num carro, quatro deles atrás (onde estava eu), espremidos, sem se poderem mexer, durante quase 350 quilómetros, mais do que fazer a A1 entre Lisboa e o Porto. Foi a pior viagem da minha vida. Porque ao desalento somava-se a dor física.
A partir dos dez quilómetros a perna direita começa a ficar dormente, depois sobe pela anca até ao pescoço. Aos cem quilómetros é a planta do pé esquerdo que começa a ficar dormente e depois sobe tudo pelo corpo, como veneno de cobra a espalhar-se no sangue. Chega a uma altura em que as dores são tantas que nos habituamos a elas e se entra num estado de desespero mudo, em que se desiste de lutar e se aguenta. Só aguenta… Fecha-se os olhos para tentar dormir, mas nunca se consegue adormecer, porque a dor não deixa o cérebro sossegado. Mas fez-se a viagem e ninguém se queixou - afinal, éramos sete homens de barba rija.

Sabine e François têm quase trinta anos e vivem em Paris. Ela desenha acessórios de moda, ele está ligado à construção civil. Nas obras em França conheceu muitos emigrantes portugueses e foi graças a eles que decorou duas palavras na nossa língua, as únicas que sabe dizer: fôdásse e cárálhô. Não podia haver duas palavras melhores para acabar esta viagem.

Eu ando com muita falta de sorte e o mundo anda com muita falta de centelhas de generosidade como o François e a Sabine. Perguntaram-me se estava a fazer algum blog da viagem e disse que sim. Dei-lhes o endereço e por isso fica aqui o meu merci, ou, como eles diziam, óbrrigádô.

Quase nas últimas...


Despeço-me de Essaouira (mais uma foto acima, a propósito) numa maravilhosa praça mais ou menos escondida na medina.
Trinta metros quadrados rendilhados de arcadas. Nesta praça, há alguns séculos, os portugueses compravam escravos, cavalos e demais bens de primeira necessidade. Hoje, está dividida entre o presente e o cheiro do passado. Do lado esquerdo de quem entra, várias esplanadas - fiquei numa que tem chás árabes e deliciosas saladas de inspiração francesa. Do lado direito, vários homens vendem leite em garrafões, carvão e cerâmica. No meio, um homem velho e meio cego toca e canta canções antigas para os turistas - só pára com o chamamento para as orações, que se houve do minarete perto.

Preparava-me para apanhar um autocarro para Layoune, principal cidade do Saara Ocidental. O bilhete custou 27 euros e seria o início de umas incríveis 27 horas seguidas num autocarro, com direito a dormida em hotel de quatro rodas. O bilhete podia ser mais barato, mas teria de escolher outra empresa rodoviária não tão confortável como a CTM, uma espécie de Carris marroquina, com autocarros muito perto do nível europeu e motoristas de fato e gravata.
Na gare de Essaouira impera a livre concorrência de mercado.
Mais de dez empresas lutam para provar que os seus autocarros são menos decrépitos e lentos que os do lado. Para isso, recorrem a agressivos vendedores de bilhetes (que na verdade são rifas). Vá-se lá saber porquê, todos os estrangeiros presentes escolheram a CTM. Depois de comprar o bilhete, voltei à medina para almoçar e foi quando dei com a tal praça.

No caminho, sou abordado por um marroquino de capuz enfiado, trinta anos, cara esburacada, diz-me o nome, que não decorei, mas que é qualquer coisa como Calipo. Durante o caminho tenta ‘oferecer-me’ várias coisas, das quais destaco um intercâmbio cultural com uma mulher berbere, que se desenvolveria à taxa de 450 dirhams por hora (45 euros). Declinei respeitosamente e embarquei a caminho de Agadir, primeiro entre montanhas e vales, depois ao longo da costa.
Entre Casablanca e Essaouira imperam as vacas e as ovelhas. De Essaouira para Agadir reinam as cabras e os burros. As cabras pastam em rebanhos grandes e empoleiram-se em tudo. Como sabem, a cabra é um bicho que quando quer uma coisa é extremamente determinado. Por exemplo, da janela do autocarro vi uma árvore de dez metros cheia de cabras pretas até acima. Quanto aos burros, são seguramente mais que os nativos. Vi tantos burros nesta viagem que posso afiançar, através de um espectacular cálculo mental que fiz do autocarro, que no interior deste país há cerca de 0,73 marroquinos per capita de burro.
A nova arquitectura marroquina é exactamente igual à nova arquitectura portuguesa: ou seja, não é arquitectura, é engenharia civil. É um rectângulo de cimento com rectângulos de janelas ao alto.

Jantei na gare de Agadir, onde ao meu lado estava uma estupenda marroquina. Mais tarde haveria de reparar noutra estupenda marroquina, esta em Layoune, apesar de não ser bonita de cara. Estava com um belíssimo vestido preto e reparei nela por causa do cabelo, um cabelo absolutamente magnífico, preto, brilhante, comprido, um cabelo com vida própria, ainda mais com o vento que estava. Não é por acaso que a praxis masculina muçulmana ‘gosta’ que as mulheres usem véu, porque uns cabelos bem tratados podem fazer muitos estragos a estas tão concentradas mentes de Alá, o Grande – as mesmas mentes que não querem mulheres a rezar com homens nas mesquitas talvez porque a oração árabe implica estar de joelhos e alçar o rabo e isso pode ser complicado de gerir enquanto se ora... De qualquer modo, voltando ao véu, se querem que vos diga, acho também que muitas marroquinas usam véu não por questões religiosas, mas porque não lavam o cabelo há vários dias.

A talhe de foice, diga-se que os guardanapos marroquinos não são como os nossos, absorventes. Os guardanapos marroquinos têm o fabuloso predicado de serem antiaderentes, como as frigideiras. Desde que aqui cheguei que isto me intrigou. Na gare de Agadir tirei dúvidas. O guardanapo marroquino só serve para tirar aquilo a que se chama ‘o maior’ - o resto é limpo com as mãos, que por sua vez são limpas com as calças.

Às terças e quartas e aos sábados e domingos, os homens marroquinos saem das suas casas aos milhares e vão para os cafés ver jogos da Champions League e da Liga Espanhola, cenas que parecem as de Portugal há trinta anos, quando quase ninguém tinha tv em casa. Os marroquinos vão para os cafés ver bola, mas não podem beber álcool por causa da religião. Isso e o facto de não poderem ver decotes nem mini-saias explica talvez porque são um povo tão enjoado. Junte-se o facto de terem sido colonizados por franceses e gera-se aqui um cocktail de imbecilidade.

Atravessei a costa do Saara Ocidental quase todo em 27 horas seguidas, com direito a noite dormida sobre quatro rodas e nascer do sol da janela do autocarro. Pelo meio, as primeiras grandes dunas do deserto e várias bombas de gasolina com cafés a cheirar a gás, com cães a pastar lixo nas dunas e marroquinos a pastá-los com os olhos.
O autocarro foi mandado parar pela policia cinco vezes. Numa delas, o polícia, bem falante de inglês, gostou muito da peta que lhe dei quando disse que era professor de português e abriu muitos os olhos quando lhe disse que ia para a África do Sul. Da última vez, veio um polícia e mandou-me sair do autocarro. Foi comigo até uma casota onde estavam afixadas nas paredes várias folhas com fotografias de marroquinos maus com quem a polícia queria conversar.

Cheguei a Layoune às oito da manhã de um dia destes.
Tinha então duas hipóteses: ou ficava um dia nesta espectacular cidade ou apanhava o mesmo autocarro, que, meia hora depois, seguia para Dakhla, a última grande cidade marroquina antes da Mauritânia. Fui a um hotel ali ao lado, que estava cheio de jipes brancos do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados - tive esperança de encontrar o Toneca Guterres, mas só vi um boliviano cheio de sono. O hotel, que em Lisboa teria diárias de 20 euros, custava uns espectaculares 60 euros, quase tanto como o que paguei uma vez por uma noite no Sheraton do Algarve em pleno Agosto. Mas o senhor fez-me um desconto para 25 euros. Recusei. Fui ao lado. Era um ‘hotel’ onde um quarto custava 7 euros, mas não tinha casa de banho. A retrete era ao fundo do corredor, o chuveiro era ao fundo de outro corredor e custava 10 dirhams o duche. No meio do cocó e do banho ficava um bar, munido de dez cadeiras, balcão e televisão ao fundo. Não sei porquê, mas voltei à gare e fazer mais dez horas de viagem até Dakhla (e mais 16 euros de bilhete), onde escrevo este texto.

Estou num hotel que tem sanita, mas não tem papel higiénico. Tem duche, mas não tem toalhas. Graças a Alá, o Grande, trouxe um rolo de Lisboa. Depois do duche sequei-me a andar de um lado para o outro no quarto - foi aqui, aliás, que lavei as únicas meias que usei até agora, e já lá vão alguns dias. Foi quando me descalcei no autocarro que percebi que estava a precisar de mudanças. Os marroquinos não usam papel higiénico (preferem usar água, que enchem em pequenos baldes), nem apreciam sanitas (preferem um buraco no chão rodeado de azulejos por todo o lado). Baixam as calças, sentam-se no vazio cósmico e tentam o hole in one.

Saí então para jantar nesta linda cidade chamada Dakhla.
Fui a um restaurante com uns espectaculares frangos a virar cu no espeto e esplanadei-me. Esperei uns minutos, olhei lá para dentro e vi o empregado de mesa a jantar. Ele olhou para mim e continuou a jantar. Cinco minutos depois deduzi que teria de esperar que ele jantasse para me vir servir. Levantei-me e fui a outro restaurante, onde fui atendido por um estrábico. Pedi-lhe frango e ele foi buscá-lo ao restaurante do lado. O café foi buscá-lo ao outro lado da rua. Veio uma mulher com uma criança ao colo pedir esmola e recusei. Estendi-lhe a cesta com o pão e ela pegou nele contrariada.

Mais uma vez, pedi um quarto de frango e deram-me a parte da asa. Sou o único estrangeiro da cidade e nem uma perna levo. É a quinta cidade marroquina desta viagem e as pessoas continuam azedas, o que me leva a concluir que há aqui um padrão: Marrocos está muito bem posicionado no ranking dos Povos Mais Enjoados do Mundo. Vender Kompensans aqui pode ser tão lucrativo como fazê-lo nas imediações do Estádio de Alvalade. Pensem nisso.

Pedi a conta ao estrábico e ele deu-ma num papel dobrado em dois com um molho de palitos em cima. Achei tão genial o gesto de simpatia que os contei: dezasseis palitos. Por acaso, dezasseis até é o meu número preferido. Significa que não vem aí coisa boa…

Fim de viagem

É verdade, é uma desilusão, mas é assim. Há pouco mais de um ano que a sorte não me falha uma. Ultimamente a sorte tem tanto nojo de mim como os marroquinos têm nojo do papel higiénico. À hora a que lêem este post já estou em Lisboa. Esta grande sorte que me acompanha ultimamente levou ao cancelamento da viagem, nos moldes em que a queria fazer (sem recurso a avião). E tudo devido a dois acontecimentos dos últimos dias. Primeiro, os vistos para a Mauritânia. Segundo, o Níger.

Comecemos pelo Níger: já no fim de Marrocos tive a 'pequena' surpresa de saber que o Níger sofreu um golpe de Estado. Uns militares aborreceram-se com a situação política e tomaram o poder, sitiando a capital e decretando, entre outras coisas, recolher obrigatório na cidade e encerramento de todas as fronteiras. O Níger era fundamental na viagem, tal como a sua capital, por onde iria passar. Com o Níger fora de hipóteses, restavam-me duas alternativas. Ou contornava por cima, ou por baixo. Por cima, tinha Argélia, Líbia e Chade. Além de ser um belo trio de países simpáticos (por exemplo, deduzo que não dêem vistos assim do pé para a mão em poucos dias), teria ainda de atravessar o Saara… à boleia.

Contornar o Níger por baixo implicava passar por mais uns cinco países do que o inicialmente previsto, além de ter de atravessar a Nigéria pelo sul (já ia fazê-lo, mas numa pequena faixa do norte, mais calmo). Além de aumentar bastante o perigo, os vistos para estes países iriam fazer disparar as despesas e o tempo da viagem. Quanto ao tempo, é possível fazer o desvio e chegar à África do Sul em final de Maio, mas conduzindo um carro, o que, como sabem, não é o meu caso.

O segundo golpe de sorte que tive foi o endurecimento do Governo da Mauritânia em relação aos vistos (há uma justificação política qualquer, de que não tive paciência de ir ver qual). Depois de demorar uma desgastante semana para descer milhares de quilómetros até ao Saara Ocidental, no fim de Marrocos, quando cheguei à fronteira com a Mauritânia sou informado de que já não é possível obter o visto lá. Uma mudança ocorrida há apenas poucos dias, que me apanhou desprevenido, bem como a vários viajantes que lá estavam. Uma semana antes, passava sem problemas.

Mais perto, só havia a hipótese de tirar o visto em Las Palmas (Espanha) ou Rabat (no topo de Marrocos). De avião, ambas implicavam esgotar em apenas dois dias o orçamento de duas semanas. A Rabat podia ir de autocarro, mas gastava quase tanto dinheiro e perderia muito mais tempo, seguramente mais de uma semana, além do desgaste físico (e psicológico…) de voltar a subir Marrocos todo para depois voltar a descê-lo. Recusei-me a fazê-lo.

Obviamente que também fui um grande azelha. Podia ter tratado do visto para a Mauritânia em Lisboa. Não me custava nada, tinha tempo para o fazer. Não o fiz, porque nunca pensei que isto fosse acontecer, porque o visto para a Mauritânia na fronteira com Marrocos é um 'clássico' de facilidade em África. Na preparação da viagem, tinha tantos países e territórios perigosos para me preocupar e documentar que não liguei importância nenhuma à Mauritânia (mas se o fizesse também estava tudo desactualizado quanto ao visto...). Aquilo que me pareceu sensato, 'controlado', revelou-se um erro. Foi uma tremenda, tremenda, falta de sorte, mas foi também contar com o ovo no cu da galinha. Enfim...

Bom, com estes cenários tive de ponderar muito e decidi cancelar a viagem. Como sabem, o objectivo nunca foi o de atravessar África. Isso era o meio para chegar a um fim específico, que era (e é) o Campeonato do Mundo. Claro que poderia contornar no terreno estes dois imprevistos, mas nunca chegaria a tempo ao Mundial e iria pulverizar o orçamento que tinha. Marrocos foi difícil e mesmo assim tem boas estradas e transportes. A partir de Marrocos, a situação só iria piorar nesses aspectos. Além disso, nesta semana e meia em Marrocos constatei que o material profissional (computador e máquina fotográfica) que levava às costas dificilmente chegaria em condições à África do Sul depois de quatro meses à boleia pelo continente.

Se tivesse mais tempo (ou se tivesse carro) estaria certamente agora pela Mauritânia ou Senegal. Mas não iria (não vou) deitar fora uma acreditação para o Mundial (apesar de não estar totalmente garantida) por causa de uma aventura, atravessar África sem recurso a avião, que posso sempre fazer noutra altura. Não podendo ter as duas coisas (viagem e Mundial) ao mesmo tempo, tive de escolher uma. Optei pelo Mundial.

Adeus, Essaouira

Os jogadores que vão com as marés

Os marroquinos são doidos por futebol, os cafés têm as televisões sintonizadas, as camisolas dos clubes europeus estão ao virar de cada esquina, principalmente do Barcelona e do Real Madrid. Na praia de Essaouira joga-se na areia e quando a maré enche pega-se na balizas de casacos e vai-se para outro lado.

O respeito, como já não há

Nas incursões pela medina de Essaouira entrei por um beco e dei com este treino de miúdos de basquetebol. O treinador era exigente, gritava, abria os olhos e os putos olhavam-no com o respeito pelos mais velhos que ainda vai havendo nas sociedades árabes.

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