Sábado, 30 de Janeiro de 2010
Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010
Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010
passou mais um natal
e ninguém me ofereceu aquele pacote que há na fnac com uns filmes do cassavetes, verdade que nunca disse a ninguém que gosto de cassavetes, mas há coisas que se notam logo, parece-me evidente que sou filho de cassavetes, este vídeo é do 'noite de estreia', realizado em mil novecentos e setenta e sete, ano que começou com o cassavetes a fazer a sua obra prima e que terminou com a morte do chaplin no dia de natal, são demasiadas emoções para um ano só, até porque junho me pariu numa fábrica de lâmpadas que há no centro de lisboa, e assim me vi metido entre a apoteose e o ocaso de quem me fez melhor pessoa, depois descobri os livros e as bolas com creme, mas isso foi mais tarde.
Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010
anda cinema por aí nas esquinas,
estavam duas asas de pombo aqui num passeio, uma por cima da outra, ainda com penas, ainda frescas, arrancadas do corpo, sem o corpo, mais à frente uma tablete vazia e cor-de-rosa de pílulas atiradas ao chão, mais à frente duas miúdas a sair do talho com fiambre enrolado num papel branco, depois comeram uma fatia, junto à árvore um sapato de mulher sem par, em cima da caixa de electricidade uma torradeira, lá ao fundo um carrinho de supermercado, e o velho que pegou numa taça ao pé do lixo, eu apareço para o papel reclicado e ele vai-se embora, aliás, vai dar uma volta lá abaixo, envergonhado de mim, fui-me embora, olhei para trás e ele tinha regressado ao lixo, estava um livro num saco de jornais, tive vontade de ver que livro era mas tive vergonha de catar sacos à frente dele, e ele de mim, podíamos ter chegado a um acordo, eu vejo este saco, você vê o outro, mas somos todos orgulhosos, eu não vi que livro era, ele teve de ir dar uma volta para disfarçar, mas levou aquela taça, que parecia de prata, e parecia uma saladeira, o que sei é que há pares de sapatos deixados em cima de caixas de electricidade e no dia seguinte já não estão lá, anda aí gente de noite, anda, o que aconteceu ao pombo?, quem te cortou as asas?, de quem era o pé que apareceu numa praia?, vão por mim, meus amigos, anda cinema por aí nas esquinas, há uma janela aqui num prédio ao pé de onde sai uma planta tão grande que parece uma árvore, alguma coisa se passa naquela casa, as fatias de fiambre tinham uma cor esquisita, deviam ser de peru, o que aconteceu ao outro sapato?, e a taça que o homem levou?, taça de quê?, quem ganhou?, quem marcou?, porque a deitaram fora?, anda cinema por aí nas esquinas, olhem bem para o que vos rodeia, usem a cabeça, detenham-se nos pormenores, aprendam a olhar, exercitem a imaginação, armem-se em detectives de algibeira, detectives de lavandaria, detectives de escada, clint eastwoods de talho, peçam seis carcaças como se fossem do fbi, saiam do café como do saloon, já com o bandido morto e vocês ainda de pistola quente, olhem de baixo e de cima, puxem bem do cigarro, ajeitem a gola, olhem ao longe, fixem caras, olhem a roupa estendida nas varandas, olhem as mãos, detenham-se nas unhas, atenção aos sapatos, o que quero dizer é que, além do romantismo de vos querer fazer ver que há cinema e literatura em todas as esquinas, é que a vida, vá, a vidinha, tem de ser levada como as séries de televisão, as anotomias de grey e afins, nós temos muitos dias, trezentos e sessenta e cinco por ano, vezes uma data de anos, ou seja, temos dias a mais para viver, as pessoas que escrevem séries de televisão só têm trezes episódios, treze dias de vida, por isso é que cada episódio tem várias lições de vida, eles têm pouco tempo para desperdiçar, e têm de ser muito bons para terem segunda série de treze episódios, mais treze dias de vida, nós devíamos viver só um ano, escola até um mês, depois três meses a viajar, foder e comer, depois casar, filhos e morrer, vão ver que as coisas correm muito melhor, vão ver que as esquinas deixam de ser banais, isto não ajuda a viver, mas ajuda a suportar a vidinha, o que já é bom, aguentaram este parágrafo tão grande até aqui?, é porque são tolos, só estava a gozar com vocês, mas, agora a sério, passem lá o indicador pelo polegar, assim muito devagar, e vejam lá se não conseguem sentir, são impressões digitais, não são?, não, tolos, são dunas, a vida é isso, é o que está sub-entendido na vidinha, era isto que vos queria dizer, é óbvio que isto é pirosinho, mas tenho bom público, vocês percebem, dois mil e dez continua igual a dois mil e nove.
Terça-feira, 5 de Janeiro de 2010
na última gala dos ídolos,
houve um miúdo que foi lá cantar uma música dos anjos. o manuel moura dos santos achou aquilo 'pop foleiro'. como é óbvio neste país, caiu-lhe tudo em cima. hoje, no 24horas, os anjos dão a resposta: 'sentimo-nos altamente insultados. as pessoas precisam de legitimidade para falar e ele é ilegítimo para isto. não conheço nenhum artista conhecido que trabalhe para ele. o rui veloso despediu-o, os motivos pertencem ao foro íntimo e profissional dos dois, mas há coisas no meio da música que todos nós sabemos'.
bom, para que é que trago isto hoje à baila? porque é um típico episódio de como o português pensa, ou melhor, de como o português reage às críticas profissionais. quando alguém diz a um português que o seu trabalho não está bem feito (ou que não gosta de todo) ele fica sem chão, não está à espera, não está habituado a tanta frontalidade, fica nervoso, dói-lhe a barriga, não sabe como reagir. então, o que é que faz? contra-ataca com insinuações privadas. reparem no exemplo dos anjos: ele foi despedido pelo outro..., razões íntimas..., a gente sabe o que é...
é a reacção típica, pelo ataque baixo, muito normal em todas as empresas deste país, o gajo diz que não gosta do meu trabalho mas ele não gosta é de mim, o gajo é feio, o gajo é gordo, o gajo é do benfica, o gajo queria era levar-me para a cama mas não consegue, o gajo está a fazer tudo para me despedir, o gajo foi despedido do trabalho anterior, ninguém gosta dele, não se vê ao espelho..., aquela então é uma puta, dorme com todos, só tem aquele cargo porque andou a dormir com o patrão, e é gorda, e cheira a puta, e por aí fora, os exemplos são muitos.
quando o português é criticado no seu trabalho (ou alguém não se ri das suas piadas, se ficarmos só por aí...) é como se lhe dissessem que a mãe é uma galdéria, e então, como os anjos disseram, sentem-se 'altamente insultados', e até ponderam ir para tribunal, mas antes partem para a única maneira que sabem de se defender: o assassínio de carácter, mas sem a noção consciente disso, o assassínio de carácter de quem lhes faz frente é uma coisa de pele, apreendida desde a infância, não fosse a única maneira de sobrevivência num país que foi e sempre será uma aldeia da roupa branca. muito branca, imaculada...
bom, para que é que trago isto hoje à baila? porque é um típico episódio de como o português pensa, ou melhor, de como o português reage às críticas profissionais. quando alguém diz a um português que o seu trabalho não está bem feito (ou que não gosta de todo) ele fica sem chão, não está à espera, não está habituado a tanta frontalidade, fica nervoso, dói-lhe a barriga, não sabe como reagir. então, o que é que faz? contra-ataca com insinuações privadas. reparem no exemplo dos anjos: ele foi despedido pelo outro..., razões íntimas..., a gente sabe o que é...
é a reacção típica, pelo ataque baixo, muito normal em todas as empresas deste país, o gajo diz que não gosta do meu trabalho mas ele não gosta é de mim, o gajo é feio, o gajo é gordo, o gajo é do benfica, o gajo queria era levar-me para a cama mas não consegue, o gajo está a fazer tudo para me despedir, o gajo foi despedido do trabalho anterior, ninguém gosta dele, não se vê ao espelho..., aquela então é uma puta, dorme com todos, só tem aquele cargo porque andou a dormir com o patrão, e é gorda, e cheira a puta, e por aí fora, os exemplos são muitos.
quando o português é criticado no seu trabalho (ou alguém não se ri das suas piadas, se ficarmos só por aí...) é como se lhe dissessem que a mãe é uma galdéria, e então, como os anjos disseram, sentem-se 'altamente insultados', e até ponderam ir para tribunal, mas antes partem para a única maneira que sabem de se defender: o assassínio de carácter, mas sem a noção consciente disso, o assassínio de carácter de quem lhes faz frente é uma coisa de pele, apreendida desde a infância, não fosse a única maneira de sobrevivência num país que foi e sempre será uma aldeia da roupa branca. muito branca, imaculada...
‘Não estava bêbedo o suficiente para não sentir que tinha desfeito a sua casa,
que dentro dele nada estava no sítio certo, mas que ao mesmo tempo – e era verdade, era maravilhosamente verdade -, pelo chão ou no tecto, por baixo da cama ou a flutuar numa bacia, havia estrelas e pedaços de eternidade, poemas como sóis e caras enormes de mulheres e de gatos onde ardia a fúria das suas espécies numa mistura de lixo e placas de jade, e na sua língua, onde as palavras se entrelaçavam noite e dia em furiosas batalhas de formigas contra centopeias, a blasfémia coexistia com a menção pura das essências e a imagem clara com o pior dos lunfardos. A desordem triunfava e corria pelos quartos com os cabelos suspensos, em madeixas desastrosas, os olhos vítreos, as mãos cheias de baralhos incompletos, missivas às quais faltavam as assinaturas e os cabeçalhos, e os pratos de sopa arrefeciam sobre a mesa, e o chão estava coberto de calças usadas, de maçãs apodrecidas, de ligaduras manchadas. Tudo aquilo crescia de repente e era uma música atroz, maior do que o silêncio felpudo das casas bem arranjadas dos seus familiares imaculados, e a meio da confusão, onde o passado era incapaz de encontrar um botão de camisa e o presente se barbeava com um pedaço de vidro à falta de alguma navalha enterrada num vaso, a meio de um tempo que se abria a qualquer vento como uma vela, um homem respirava até não poder mais, sentia-se viver até ao delírio no próprio acto de contemplar a confusão que o rodeava, perguntando a si próprio se algo em tudo aquilo tinha sentido.’
‘o jogo do mundo’, julio cortázar, pág. 94
‘o jogo do mundo’, julio cortázar, pág. 94
Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
fui à fnac
comprar um livro da taschen sobre arquitectura islâmica que só me custou nove euros e noventa e nove cêntimos, comprei a última edição da national geographic, que este mês é dedicada à china em geral e à ásia em específico, ando a documentar-me porque estou a pensar mudar-me para a ásia, onde as casas são mais baratas e há emprego para todos, na fnac sentei-me a ler o livro de contos do cortázar, mas não gostei, e não comprei, pus-me também a ler um bocado da biografia do nuno álvares, mas não gostei, e não comprei, andei à procura de um livro sobre esparta e não encontrei nenhum, adorava ler um livro sobre o afonso de albuquerque e nada há, gosto muito do afonso de albuquerquer porque ele era pouco português, andava sempre na pancadaria e não tinha medo de ninguém, acho isso bonito, continuam a faltar nas prateleiras alguns livros do hemingway e do roth e do rushdie, ainda não saiu a segunda série do californication, andava no meio das estantes e rocei-me ligeiramente de lado com uma mulher, eu pelo lado esquerdo, ela pelo direito, depois de me passar ela abriu os braços como o cristo rei e pôs-se a olhar para baixo dela, eu fiquei a pensar se ela pensou que eu lhe peguei alguma coisa contagiosa, dois mil e dez continua igual a dois mil e nove, se amanhã houvesse jogo da selecção não podia ser convocado porque apanhei uma chuvada ontem e as costelas encolheram, dói-me tudo ao mínimo movimento, ando de lado para não forçar, ando a fazer como as camisolas de antigamente, a puxar, a puxar, a ver se volto a ter folga de tamanho, neste caso é a respirar, a respirar, como se estivesse a correr em monsanto, ou então nem foram as costelas que encolheram, pode ter sido o coração que ficou maior, ah, tão fofinho, o coração que ficou maior...
Domingo, 3 de Janeiro de 2010
'Uma noite cravou-lhe os dentes na carne,
mordeu-lhe o ombro até fazer sangue porque ele, já um pouco perdido, se deixou levar. Houve um pacto confuso sem palavras, Oliveira sentiu que a Maga esperava dele algo como a morte, algo nela que não era o seu eu consciente, uma forma obscura que reclamava a sua aniquilação, a estocada lenta de boca para cima que rasga as estrelas da noite e devolve o espaço às perguntas e aos terrores. Apenas dessa vez, hipnotizado como um matador mítico para quem matar é como devolver o touro ao mar e o mar ao céu, Oliveira humilhou a Maga durante uma longa noite da qual pouco falaram depois, fê-la Pasifae, virou-a e usou-a como um adolescente, explorou-a e exigiu dela a servidão da puta mais triste, elevou-a a constelação, teve-a entre os seus braços a cheirar a sangue, fê-la beber o sémen que corre pela boca como o desafio do Logos, sorveu a sombra do seu ventre e da sua anca, levando-lha à cara para untá-la de si mesma, parte última do conhecimento que só um homem pode dar a uma mulher, encheu-a de pele, cabelo, saliva e queixas, esvaziou-a até ao fim da sua magnífica força e acabou por atirá-la contra a sua almofada, sentido-a chorar de felicidade contra a sua face que um novo cigarro devolvia à noite do quarto e do hotel.'
'o jogo do mundo', julio cortázar, pág. 46
'o jogo do mundo', julio cortázar, pág. 46
Sábado, 2 de Janeiro de 2010
curioso,
hoje é dia dois de janeiro e nada mudou, há uma árvore aqui em frente da janela que está toda despida de folhas, excepto de uma, que está bem lá no cimo, e tem a forma de um coração, é verdade, tirei uma foto e tudo, apresentarei aqui a prova assim que tiver vagar, que é uma coisa que tenho pouco agora, uma vez que ando ocupadíssimo a pensar no que vou fazer em dois mil e dez, não é o que faço, é o que vou fazer, é diferente e faz toda a diferença, a passagem de ano é excelente, precisamos de barreiras psicológicas para nos fazermos homens, mas depois janeiro é frio e chuvoso, chegamos a março e já só queremos férias e comédias românticas e bolos e pastilhas de morango, a folha em forma de coração no cimo da árvore toda despida é uma boa metáfora, do género o amor resiste a tudo, até à vida invernosa, ou o amor está acima de tudo, e coisas assim que a gente gosta de acreditar, a pensar que os deuses, ou qualquer outra coisa, nos põem à frente um enredo de pistas para a gente deslindar, mas com a idade tornamo-nos uns cínicos, hoje fui tomar o pequeno almoço às quatro da tarde e estava uma rapariga sentada à minha frente a falar ao telefone com a mãe, aliás gritava, eu a vê-la assim e, talvez por isso, a pensar: esta é boa de corpo, o que se confirmou quando se levantou, não era espectacular de mamas, mas tinha a barriga lisa e o rabo em forma de coração, é para verem como o cinismo também é uma coisa boa, sou um desses dos pés à cabeça, dois mil e dez continua igual a dois mil e nove, mas o ano também entrou logo com um fim-de-semana, é conveniente esperar, entretanto vou continuando aqui a pensar no que vou fazer quando estiver calor, desculpem lá este parágrafo tão grande, mas dois mil e dez vai ser o ano dos parágrafos grandes, vai, vai, isto não é uma ameaça, não tenham medo, sou só eu a ser cínico, como o lobo antunes, que em dois mil e nove foi um cínico quando disse 'não sei o que o futuro pensará de mim, sempre me imaginei uma criança a brincar na praia, que às vezes encontra um seixo mais polido, uma conchinha mais bonita, enquanto o grande oceano da verdade permanece intacto à minha frente', ah, a escrita sai tão melhor quando se escreve ao som de música.
Sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010
comportávamo-nos como rafeiros abandonados,
eu andava sozinho, outros iam aos pares, andávamos assim à procura, uns ainda cheios de energia, outros já cansados das voltas pelas esquinas, olhávamos uns para os outros e sentíamos o desespero, a angústia, a tristeza no fundo, já me preparava para regressar a casa, cabisbaixo, quando de repente o encontrei, lindo, luminoso, a pulsar de vida, entrei e lá estavam eles, os meus companheiros de procura, todos felizes, não dizíamos nada uns aos outros, mas sentíamo-nos camaradas, aquele sentimento que só se tem nos bairros de lata do fim do mundo em que somos os únicos turistas e de repente cruzamo-nos com outros turistas, e por momentos sentimos vontade de falar uns com os outros, só para dizer 'olá', ou perguntar 'é seguro?', tolices..., e depois saí, atravessei as ruas e vi uma família dentro de um carro, todos a olhar pelos vidros, desesperados, de repente viram-me e pararam, iam-me perguntar qualquer coisa e eu já sabia o que era, e já sabia que ia começar o ano a fazer um boa acção, e o pai vira-se para mim e pergunta-me o que já estava à espera: 'sabe se hoje há algum café aberto por aqui?'.
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