Sábado, 11 de Dezembro de 2010

memória

Um dia, há muitos dias, muitos dias mesmo, dei uns livros a alguém e entre esses livros estavam alguns do Vargas Llosa. Acho que sim, que dei. Não os encontro - devem ter ido nessa remessa. Porquê? Porque nunca tinha lido nada dele (continuo sem ler - estão em fila de espera) e julgava que era um jornalista-de-esquerda-caviar-sul-americano-que-nunca-ia-ser-alguém-realmente-importante-na-literatura-assim-ao-género-do-Sepúlveda. Há muitos dias, como se vê, era ainda mais ignorante do que hoje. Tudo disparate, excepto ser sul-americano.

Lembro-me de uma entrevista do Vargas Llosa, se não me engano no DNA, aquela suplemento que saía com o Diário de Notícias ao sábado, há muitos anos, muitos mesmo, talvez uns vinte anos. Lembro-me de uma coisa que ele disse sobre uma passagem por Lisboa (engraçado como me esqueço de tudo na minha vida e me lembro de coisas assim). O Presidente da República era Mário Soares. Os dois eram amigos e foram jantar fora. Já no carro oficial, a caminho do restaurante, Mário Soares diz-lhe qualquer coisa como isto: 'A ver se arranjamos mesa..."

Com toda a certeza, digo eu, era só o humor de Soares em grande estilo, mas Vargas Llosa, que quase toda a vida lutou contra ditaduras e tiranos (hoje já sei estas coisas, hoje nunca dava um livro teu), impressionou-se muito com aquela frase, com todo o despojamento de poder que ela representa e, acima de tudo, porque lhe levou ao cérebro, como uma sinestesia, aquele perfume que se respira nos sítios que são livres, o perfume da liberdade, que não cheira a nada, mas sabe a tudo. Nunca me esqueci desta história.

Vargas Llosa recebeu ontem o Nobel da Literatura. O seu discurso foi, como se esperava num sul-americano, emotivo e bonito. Esta é a parte em que dedica o prémio à mulher, em que chora com ela, e em que diz outras coisas mais à frente, que prefiro guardar para mim. Há coisas que nunca se esquecem.

4 comentários:

F Nando disse...

A nossa memória é fantástica!

marie disse...

Por curiosidade e por forma a conhecer o prémio nobel comprei um livro dele, "A Tia Julia e o escrevedor", até à data estou a gostar! Sem dúvida um homem charmoso e emocionado...

Anónimo disse...

"travessuras de uma menina má" é uma delícia...;)

leitora nº9

Bípede Falante disse...

Agora, sim, você tem boas razões para comprá-lo e dá-lo!!! Começe de novo, vá às compras e distribua antes do Natal :)

arquivo

Tecnologia da Blogger.