Bom dia. Voltemos então a esta rubrica, desta vez com aquilo a que se pode chamar 'declarações parvas'. Já comi um bolo hoje e estou bem disposto.

18 de Junho de 1989, jornal A Bola. Alfredo. Primeira pergunta: quem é o Alfredo? Bom, o Alfredo é o Alfredo - e isso diz tudo. Guarda-redes raçudo, apanhado um dia num controlo anti-doping, confessa ao jornal, ao mesmo tempo que "veste com à-vontade t-shirt roxa Nike e uns calções azuis e calça ténis", que não percebe como. A entrevista é muito boa. Alfredo diz que só fumou um charro uma vez, que isso até lhe deu sono (atenção que os charros em 89 ainda não eram muito bons), e aventa a hipótese de a cocaína que o controlo anti-doping acusou ter vindo de uma mezinha feita por um vizinho para lhe passar uma dor de dentes. Parece-me perfeitamente pacífico. E fora os "15 cigarros por dia", mais nada. Mas "há momentos em que as lágrimas parecem assomar aos olhos deste rapaz de vinte e seis anos...", diz o jornalista. Melhor, diz o Alfredo, "quando petisco, umas moelas, um presunto, um salpicãozinho, bebo um copinho de 'verde'. É essa a minha droga, que me alimenta o espírito e o corpo" - uma declaração que faria inveja a Gonçalo M. Tavares, que é candidato ao Nobel da Literatura, diz o Público hoje. Está tudo bem com o Alfredo. O Alfredo é o Alfredo. Gosto de coisas simples.


E por falar em doping, assunto pelo qual sou completamente nabo, na medida em que não conduzo nem sou professor: dois recortes muito pitorescos sobre a pobremática, ambos de 1984, 1985, por aí. Atenção que uma das caixas está assinada por Rui Santos, notando-se já aqui, pelo título interrogativo, tudo o que viria aí mais tarde. Do que eu gosto na outra peça é o começo do texto: "Temos impressão que o processo acelerativo do 'xi-xi'..." Bom, como disse a Primeira-Dama agora na televisão, "o Natal é vida" e o Gonçalo M. Tavares é candidato ao Nobel. Ou, como se diz numa das peças, "não somos contra a cerveja".

2 de Junho de 1983. Tinha eu 6 anos, estava a entrar na primária e António Cachola debatia-se em Lisboa contra "bares, boîtes, garotas, cabarets e o diabo". Bom, comecemos pelo fim: quem é o António Cachola? Simples, António Cachola é António Cachola. "O facto de eu ser solteiro e de ter vindo sozinho para Lisboa - um mundo completamente diferente do que estava habituado - influenciaram a minha desconcentração como atleta." O que gosto destas declarações... É sempre digno de admiração como os atletas (principalmente os futebolistas, perdão, os profissionais de futebol) tentam compor os seus discursos com palavras caras para combater os preconceitos intelectuais que há sobre eles. Mas não há problema, eu traduzo o jargão empregue por Cachola: "Tive uns resultados de merda porque andei metido nas putas."

Terminamos com um "curioso, atrevido e picante depoimento de Kostov". Dezembro de 1983, há 27 anos. Bom, quem é Kostov? O Kostov é um búlgaro que jogou no Sporting e que pode provar a sua idade "através de papéis". Está tudo bem. A entrevista é banal. O que interessa é a caixa, em baixo. Parece que Kostov casou sem conhecer a mulher - não percebo o alarido, isso é um drama que afecta 90% dos homens e 98% das mulheres.
Confesso aqui agora a minha falta de arquivo para o seguinte. Não sei se esta noiva que ele não conhece é a mesma ou não. O que sei é que este simpático Kostov búlgaro, que perorava contra as festanças dos jogadores do Benfica, viria, apenas dois anos mais tarde, a ser pai deste belo rebento, nem mais que Sara Kostov, uma rapariga que viria a fazer furor pelas melhores razões (e que é, pessoalmente, uma simpatia, diga-se de passagem). A vida dá muitas voltas.

Voltarei.
4 comentários:
isto devia ser noticia de abertura do telejornal novamente.
agree.
O João Alves da Costa que assina alguns destes textos é filho do Aurélio Márcio, ontem falecido...
Olá Grande prazer a ver estes jornais. O autor do blog ou alguém que queira me ajudar com uma pesquisa? jm5psc@hotmail.com
Obrigado
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