Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

verniz branco

estive ontem na sala de consultas de oftalmologia do hospital de santa maria, onde vão as pessoas que têm o problema de haver uma parte do seu corpo, no caso os olhos, que está a viver mais depressa, e por isso a morrer em proporção, que o resto do corpo, está a acontecer o mesmo comigo, os meus olhos estão a morrer mais depressa que as pernas, por exemplo, que continuam bem, ao contrário dos olhos, que estão como este portátil onde escrevo, mimado que anda na bateria, já as minhas costas, apesar de estarem bem, estão claramente mais velhas que, por exemplo, o meu dedo do meio, mas não fui lá por mim, ou, vamos ser romanticamente literais, não fui lá pelos meus olhos - fui lá, é o que interessa saber -,

mesmo à entrada estava uma carcaça de boné e bengala, um velho teso como um carapau curtido ao sol, mantinha-se em posição hirta sentada, imóvel, balões esvaziados onde antes eram maçãs de rosto, a boca semi-aberta, como as plantas carnívoras à espera de mosca-varejeira, os olhos, muito abertos e rígidos, pareciam cristalizados em espanto, um já estava morto, o outro despedia-se de nós e das coisas, de mim e da parede branca em frente, do ecrã das senhas em cima e da casa de banho ao meio, de onde se via, debaixo da porta, um terço de uma roda de uma cadeira de rodas, e todo o corpo dele estava assim morto mas devia ter alguma coisa viva ainda, talvez o coração, como não? - acaso não fosse, que fazia um cadáver numa consulta?, 'senhor doutor, desculpe, as minhas pernas andam, os olhos vêem, a boca come e cospe e fala, o sistema circulatório circula, o sistema digestivo digere, o sistema nervoso enerva-se, desculpe, senhor doutor, estou vivo, preciso de medicação', isto não faz sentido nenhum -, aquele velho estava vivo, garanto-te, porque às vezes via, num dos olhos, a parte branca, a parte cega, a mexer-se, parecia um pequeno berlinde já danificado pelos putos, uma borra de corrector ortográfico que se pegou aos dedos, mexia-se assim, a olhar para mim, com as pestanas em cima, já meio fundidas, a darem ar e ar, como faziam os escravos aos imperadores e aos faraós, com folhas de palmeira, em dias de muito calor, em alexandria e em roma,

mais para trás, as bancadas, o público na fila das senhas para comprar olhos novos para porem nas órbitas, cinco filas de velhos e velhas, todos de frente para o corredor, onde passavam médicas da anatomia de grey, umas giras, outras feias, havia até uma de olhos em bico, um médico era alto e meio tosco, outro podia ser considerado atraente, havia ainda os de folga, que não vi, mas que imagino, estavam lá, portanto, o elenco e o argumento, não fosse o caso de a grey ter touca na cabeça, trinta e tal anos, quase cinquenta, cabelo cortado à escovinha e voz grossa, lá de dentro vinha um homem com cabelo dividido ao meio e fichas de consulta na mão, dizia, bem alto: 'senhora maria da encarnação nunes...',

por vezes, o tráfego de cadeiras de rodas intensificava-se tanto que havia choques de rodas, como brincadeiras de crianças, os ferros pareciam enrolar-se uns nos outros como as cerejas, algumas cadeiras diziam 'recepção' de lado, outras não diziam nada, numa estava uma velha que chuchuva no dedo esquerdo e abanava a mão direita, noutra estava um velho mulato que veio com um velho branco que trazia uma gravata, uma camisa, dois coletes, um casaco e um boné arraçado de árabe, por causa da cor da pele não me pereceram irmãos, acho que eram amigos, amigos de longa data, um, doente, veio à consulta com o outro, veio com o amigo, que terão estes homens já passado juntos?, em frente estava uma freira a ler um livro de freiras, 'senhora maria da encarnação nunes...', voltou o outro a chamar, reparei numa miúda, mais aqui ao pé de mim, acompanhada pela mãe, que apresentava um olho bom e o outro deficiente, os dois eram tristes, mas quem não é triste num hospital?, mesmo as crianças quando nascem gritam de horror, e se não gritam dão-lhes palmadas para gritar, depois são felizes precisamente na altura em que não fazem ideia do que é ser feliz, e a miúda tinha as unhas pintadas de vermelho e branco, vermelho do verniz, branco da amargura que lhe vai crescendo nos cotos, as mãos delas pareciam dez bandeirinhas dos socorros a naúfragos, mais aqui ao lado o homem dos fios de ouro, correntes de ouro, anéis de ouro, sapatos pretos, no pé esquerdo via-se um alto, que era um calo do pé já crescido, tanto que vergara a borracha do sapato, assim como as raízes das árvores vergam as pedras por debaixo da terra e criam ondas nos passeios públicos para a gente tropeçar, 'senhora maria da encarnação nunes',

cá fora, o jovem das senhas, chamo-lhe jovem por causa do telemóvel, atendia os velhos e as velhas no intervalo das mensagens, lembrei-me do segurança que guardava uma das salas de frescos de rafael, no museu do vaticano, o mesmo jovem, o mesmo telemóvel, o mesmo alheamento, talvez aquela indiferença própria dos imbecis, talvez só rotina, 'senhora maria da encarnação nunes...', terá aquele segurança, alheado no seu telemóvel, terá ele já visto e revisto cada pormenor daquelas pinturas?, saberá ele que têm quinhentos anos?, terá ele já assimilado o contexto em que foram feitas?, saberá ele que, mesmo ao lado, a poucos metros, o inimigo de rafael, miguel ângelo, pintava a capela sistina, naquela que foi uma das melhores rivalidades de todos os tempos?, terá ele noção da incalculável fortuna que vigia enquanto tecla bacci e prego e grazie no telemóvel?, saberá ele que trabalha entre quatro das paredes mais amadas, brilhantes e grandiosas alguma vez feitas pelo homem?, 'senhora maria da encarnação nunes',

ao fundo, dois delegados de informação médica, um baixo, outro alto, quarentas e muitos anos, os dois de casaco com botão de punho, gravata, calças de ganga chic, cabelo farto, disciplinado de três em três minutos com pazadas de mão, sapatos castanhos de berloques, ostentavam aquele típico olhar de matador que não mata mas mói, e entretanto, um miúdo, vestido de fato de treino cor-de-rosa, rolava pelo chão enquanto a avó lhe gritava, depois o miúdo começou a gritar também, a avó levantou-se, foi apanhá-lo ali ao meio, quis levá-lo para o lugar, e ele, mimado como a bateria do portátil que me aquece agora as pernas, fez do seu corpo peso-morto, a avó baixou-se, com medo e vergonha de fazer à frente das pessoas o que queria fazer e que o miúdo merecia, todos nós, em silêncio, estávamos de acordo, mas estes códigos que agora há tornaram-nos embaixadores de crianças rainhas, e então a avó pegou o miúdo pela cintura, esperançada que ele colaborasse e a safasse, mas o fato de treino cor-de-rosa escorregou-lhe pelo tronco e o miúdo, já semi-nu, olhou então para cima para ouvir melhor quem acabava de vir lá de dentro, o homem do cabelo dividido ao meio, que agora dizia, bem alto: 'senhora isaura pereira...', parece que a tal maria da encarnação nunes nunca chegou a aparecer.

19 comentários:

Carochinha disse...

Olha, não gostei desta última que te passou pela cabeça de só poder aceder ao teu blogue quem fosse convidado!
Acho que está mal.
E perguntas tu: "Mas o que é que eu tenho a ver com isso?"....nada.

Anónimo disse...

http://biscoitointerrompido.blogspot.com/2010/11/descoberto-intelectual-portugues-que.html~

Sem te conhecer isto fez-me lembrar de ti...

Nunca percebi os homens que não têm carta de condução. Tinha que haver uma explicação e acho que encontrei. Os sintomas realmente são quase sempre os mesmos. :) «- isto significa que é uma piada.

Crente disse...

Não escreveste por um acaso um livro que ande perdido por aí, não?
Gosto de te ler (já sei, digo sempre a mesma treta, é só elogios e afins). Mas gosto mesmo. Imagino-me a ler-te em livro de muitas páginas.
Deve ser o único blog em que leio os posts até ao fim, tim tim por tim tim, mesmo quando parecem ser enormes e imensos e cheios de palavras. Mas estes posts, neste blog, merecem ser longos, porque gosto de te ler.
Era isso. Um livro dava jeito.

Zhu Di disse...

um livro dava jeito? Nem fazes ideia de como sou capaz de tratar disso já para a semana...

só uma justificaçãozinha: o blog não esteve vedado a ninguém. só esteve fechado para obras.

a parte do intelectual, não fosse uma tonteria e considerá-la-ia uma ofensa.

Crente disse...

Vou optar por achar que falas sério. E, assim sendo, não te esqueças depois de avisar. É que dava mesmo jeito.

sem importância alguma disse...

troglodita de merda, que escreves assim e me deixas de quatro por ti. apaixono-me de caixão à cova - para pouco depois outro dislate dos teus me acordar do torpor enamorado e duvidar até que sejas a mesma pessoa. às vezes queria abanar-te até soçobrar-te na pele este que escreve assim, para que o pudesse beijar e sentir-lhe a emoção crua que o consome. e depois sustenho o gesto. da mesma forma como hoje sustenho o nome. talvez fiques na dúvida de quem sou. talvez não. e a verdade é que não tem importância nenhuma.

Zhu Di disse...

acredita que não dá jeito nenhum. o livro é sobre saladas para engordar.

Crente disse...

Vem mesmo a calhar, que ando a precisar de acrescentar uns kgs.

Peanut disse...

não vestissem um fato de treino cor de rosa ao miúdo e pronto, estava tudo bem...

Claudia disse...

Conheço essa dinâmica das consultas no Hospital Santa Maria.

E qual Lobo Antunes qual quê, isto é muito melhor!!! :)

Claudia disse...

E já agora tb manifesto o meu desagrado pelo facto de este blog ter estado acessível apenas a convidados! Então e o povão não tem direito???? Hum?

Anónimo disse...

Sobre o intelectual vs carta de condução:

Porque achas uma tonteria? Primeiro não era nenhuma tentativa de ofensa pois apenas está a rotular/parodiar os intelectuais (ou pseudo) mais ou menos como tu (e eu) rotulas tanta gente, por exemplo as pessoas que têm Facebook, os que vão chorar e idolatrar o velho que morreu, os que comem bolos os paneleiros e tantos outros. Como te toca, mesmo que ligeiramente, já não gostas.

Nem sei os motivos de não teres carta mas para quem não te conhece e lê este blog há muito tempo já percebeu que tens 30 e tal anos, heterosexual, interessado em livros e escrita, culto, orgulhoso da sua formação, viajado e aspirante a sociólogo ou crítico social (amador), com dificuldade em se realizar profissionalmente e SEM CARTA. Ora isto enquadra-se mais ou menos na descrição do post do blog que te enviei. Se é assim ou não, não me interessa. É o que passa para quem lê.
Deves saber que as mulheres não vão muito à bola com homens sem carta. Vai-se lá saber porquê....essas materialistas.
Mas isto sou eu que sou um básico.

Destination disse...

Mas que raio de poder de observação...eu não tenho paciencia para ler livros descritivos mas se algum dia escreveres um livro avisa... deverás ser o primeiro em que possivelmente conseguirei ler os parágrafos intermináveis de descrição até ao fim!

Anónimo disse...

censura? caguinchas.

Zhu Di disse...

verdade. mas gostei.

com e sem importância disse...

gostaste. e vais fazer alguma coisa a respeito? lol

Zhu Di disse...

não.

importância relativa disse...

fico tão mais descansada. temi processo ou arma de fogo.

Laura Ferreira disse...

Gostei imenso. Voltarei.

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