Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
que combóios são aqueles que deitam fumo da boca
vim agora da rua e está nevoeiro, não muito cerrado, assim mais ou menos, a rua encontra-se em estado baço, fosse eu personagem de livro e escreveria que andava na rua como se numa exposição de fotografias desfocadas, viam-se as coisas mas não se viam bem, os candeeiros, os passeios, as árvores, e havia também panelas de duas pernas (seriam combóios?) que ferviam por dentro e deitavam fumo pela bocarra, à próxima pessoa que me perguntar 'então, o que andas a fazer?' - que estúpida pergunta, parece que tem de se estar sempre a fazer alguma coisa, nem que seja uma inutilidade, ou uma infelicidade atroz, o que interessa é estar-se a fazer alguma coisa, parar é morrer - ou a mando à merda, ou lhe digo que sim, que o que faço é ver postais de combóios a entrecortar encostas enevoadas - é a verdade e o romance, que venha o diabo e escolha -, já viste os tops de vendas de livros por estes dias?, cadernetas de cromos, biografias trágicas, receitas de culinária, economias da crise e romances de cordel - é a realidade e a sua fuga, que venha o diabo e escolha.
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