Hoje é o 'Senhor do Adeus', como ontem eram os mineiros do Chile, como anteontem era o António Feio e amanhã será outra coisa qualquer. A comunidade papa-bolos de Lisboa adora estas causas de trazer pelo peito, que ostentam nos blogs, no Facebook, nos sites dos jornais - hoje não se calam com isso, parecem virgens acabadas de foder -, regra geral aproveitando-se em causa própria, de uma forma muito subtil, é vê-los a dizer 'uma vez falei com o António Feio, blá, blá, blá, vou ter muitas saudades dele', para nós ficarmos a pensar que importante deves ser, e que bonito que és agora, assim tão sentido com a morte de um senhor que dizia adeus às pessoas que passavam dentro dos carros, até ontem sempre o viste como um maluco, ias no carro, bem lá dentro, protegido, e dizias para os amigos que iam contigo: 'vamos apitar ao maluco!', mas hoje parece que é um homem que distribuía amor pela cidade, blá, blá, blá, o Diário de Notícias até tem hoje uma página no seu site cujo titulo é 'DN falou com o Senhor do Adeus em 2003', chiça, que inversão de prioridades qua anda por aqui, a cagança subtil de que falei no início do texto chega até ao que devia ser referência, a notícia não é a morte do senhor, a notícia é que o jornal falou com o senhor, tal como os outros quando dizem que falaram com o António Feio há não sei quanto tempo e que o António Feio foi muito simpático e estamos muito tristes, blá, blá, blá, e depois os meus amigos escrevem 'gosto disto' no Facebook e assim ficamos mais contentes e felizes, vamos beber um café e comemos um queque, tomamos um banho e estamos como novos, prontos para outra,
Senhor do Adeus, sabe, não ligue muito a esta gente, eles na verdade estão-se borrifando para si, só querem fazer da sua morte um cravo na lapela, vocé é apenas a causa do momento, para que todos tenham de cagar a sua posta de pescada, desculpe a linguagem, porque se não o fizerem é como se estivessem mortos, ou, pior, é como se não se sensibilizassem com estas coisas, mande-os foder, Senhor do Adeus, não se iluda com tamanha choradeira, amanhã eles entretêm-se com outra coisa, amanhã só, até porque, imagine você, hoje ainda estão consigo, até se vão reunir no Saldanha, para o homenagear, tivesse eu carro e soubesse conduzir e passava também por lá, apitava e dizia-lhes adeus a todos, a todos, mesmo que alguns sejam mesmo seus amigos, amigos mesmo, acredito, mas o resto, não tenha dúvidas, é só folclore, é a chungaria de Lisboa a papar causas tão avidamente como engole bolos nas pastelarias, depois dão-lhes dores de barriga e vão a correr para a casa-de-banho, que amanhã é outro dia e há que estar com a tripa lavadinha.
18 comentários:
Como eu concordo! Tenho lido montes de blogs a falarem no mesmo e até fiquei espantada com tanta importância que um homem a acenar na rua adquiriu de repente...
Ui que corrosivo!
Será que fazem isso para esquecer a crise ou essa é só outra coisa mais do mesmo?
Coitado do homem, parecia boa pessoa. :P
Verdade pura!
alguém que diga o que ando a pensar. obrigadinha, ogre. beijo.
ogre é a tua tia.
Tenho q concordar, ontem qnd li a noticia em tantos sitios nem percebi o pq de ser noticia, mas achei q era eu q estava a ser má:) afinal n sou a unica :)
É feio chamar ogre ás tias das outras pessoas.
Eu nunca tinha ouvido falar nesse senhor, porque tenho o imenso privilégio de morar na província.
Mas ontem quando vi as reportagens, foi mesmo essa a ideia que me foi transmitida, um maluquinho que acenava ás pessoas. Pronto.
tenho inúmeras. e são todas ogres, de facto. daí reconhecer quando o vejo.
Ó diabo, este blog tinha desaparecido do alcance do meu browser, é bom saber que voltou, como um Titanic (no cinema, claro). bfds
Vou-te dizer uma coisa: se tu não fosses tão lúcido eras mais feliz. Comias mais queques e tinhas as caganeiras comuns dos amigos do facebook (até tinhas facebook vê lá tu!) e tinhas carro e chamavas maluco ao senhor e apitavas... E hoje eu vinha aqui e tu tinhas escrito algo completamente diferente, num blog provavelmente cor de rosa ou azulinho. Mas não tinha a mesma graça. O shreck ao pé di, não é ninguém!
Ahahah! Gosto disto!!!
(e pôrra, sou de Lisboa, frequento o Saldanha e nunca vi esse senhor...)
Daqui a uns tempos há-de andar um vídeo no youtube que mostrará que o fantasma do senhor do adeus continua a dizer adeus a condutores embriagados que passam no Saldanha em excesso de velocidade nas madrugadas de Sexta e Sábado.
Mas o mais caricato foram as noticias dos telejornais que se ficavam apenas com o título "o Sr do Adeus morreu", e mostravam reportagens sem texto e com uma música de fundo lamechas! ... como se toda a gente do país soubesse quem era essa figura... mostrando que esses jornalistas não passam de uns tacanhos, mais ignorantes que as pessoas da província; acham que o país é lisboa e toda a gente conhece o que lá se passa... como se tivesse alguma importancia o que lá se passa! Mas pior, pior, é jornalistas armarem-se em realizadores de cinema e passarem reportagens tipo filme melodramático! Haja pachorra para tanta mediocridade e falta de assunto!
Eu só soube quem era depois de ler nos blogs. Vai daí, teve alguma utilidade. Soube que existia e que deixou de existir ao mesmo tempo. Fica sempre bem.
Zhu Di: quem não gosta, não lê. A não ser que sejam fãs de sado-maso... (confesso-me fã do Shrek).
N sei bem porquê mas este Post fez-me lembrar de uma musica de Mata-Ratos que é do tempo do cú de judas, que se chama "Eu tenho um Pobre" e tem uma parte assim:
Na esquina da rua escura
No centro da cidade
Há um pobre a pedir esmola
Marginal da sociedade
Mas todos os dias
Lhe dao esmola
E seguindo em fila
Vão-se com a consciência tranquila
Eu tenho um pobre
Eu tenho um pobre
Eu tenho um pobre
Eu tenho um pobre
, digamos que neste momento podemos adequá-la á situação e poderia ser algo assim:
Na rotunda principal da avenida
No centro da cidade
Há um pobre a fazer adeus
Marginal da sociedade
Mas todos os dias
Lhe dao esmola
E seguindo em fila
Vão-se com a consciência tranquila
Eu tenho um pobre
Eu tenho um pobre
Eu tenho um pobre
Eu tenho um pobre
.. hoje em dia as pessoas só se lembram dos malucos quando passam por eles ou entao quando lhes fica bem dizer (seja no facebook ou jornais) que há um louco na terra deles..infelizmente é a sociedade em que vivemos..e a podridão em muitos destes casos continua a reinar...Nunca vi o "senhor do adeus" nem sabia que ele existia..mas esta atenção toda que repentinamente encheu jornais e redes sociais, penso que seja demais...coitado do Senhor que deve ter dado umas voltas no caixão com tanta "fama"....
pois, talvez tenha raspado na questão, mas acho que ao de leve... é que, no fim das contas, tanto os criticados como os críticos acabam por partilharem pontos de partida muito próximos se não o mesmo (e se calhar movidos pelo mesmo ímpeto inicial)... ah, pois é, uns falaram no acontecimento e outros criticam os que falaram... deste tipo de "sincronismo" não se escapa tão facilmente, só mesmo deixando de andar por cá
;)
sim, talvez. até ao contrário: se ninguém tivesse falado, eu tb não falaria. talvez...
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