Terça-feira, 16 de Novembro de 2010
avenida
A Gomes Pereira é a avenida mais triste que vi em Lisboa nos últimos tempos, já fui bastante feliz ali, a faculdade era mesmo lá atrás e vinha passar serões na casa de duas colegas, bebíamos vinho e fumavámos e uma delas cantava Sinatra enquanto comíamos pizzas, ou então ia com o t. jogar snooker e jogar nas máquinas de porrada ali no Alcazar (ontem estava a rever o Chá no Deserto e havia lá um estabelecimento que se chamava Alcazar e lembrei-me do Alcazar da Gomes Pereira, onde um dia perdi a carteira e havia uma casa de banho com um buraco no chão), e onde suava a jogar nas máquinas como um atleta e perdia como um atleta, ou então jantava ali no chinês, que antes não era chinês e depois foi e depois deixou de ser e depois voltou a ser chinês, mas em supermercado, a Gomes Pereira está triste, triste, pareceu-me o espelho disto onde moramos, sítio de sobreviventes, pobres, remediados, desenrascados, gente à espera de alguma coisa, à espera que a tempestade passe, à espera da tal manhã que nunca mais chega, contei três igrejas evangelistas, uma enorme, com muitas cadeiras lá ao fundo, uma loja em segunda mão de móveis em segunda mão, ali em baixo mais uma, outra de produtos dos trezentos, um centro comercial fechado, com a tabuleta à porta a dizer 'vende-se', um jardim sem ninguém, uma padaria sem ninguém, duas lojas de compra de ouro e de prata em troca de notas de cinco para comprar bifes, um prédio devoluto, ali em cima mais um, uma parque de estacionamento de onde vem um cão a correr, e depois baixa os quadris e um fumo branco se levanta do chão, lojas de decoração dos anos quarenta, bafientas, cheias de imitações de quadros de paisagens que por sua vez são imitações de paisagens a sério para as pessoas porem em salas a imitar salas a sério, muitas vezes habitadas por famílias a imitar famílias a sério, uma velha com um cão ao colo, aliás, um cão com uma velha agarrada às patas, dois prédios novos, feitos por aqueles arquitectos que agora há, quando digo arquitectos podia dizer engenheiros civis, mas digo arquitectos que é só para gozar com eles (não iam perceber de qualquer maneira), cinco filas de casas na vertical, algumas por habitar, numa delas estava um candeeiro em forma de globo branco, cá em baixo havia uma câmara de vigilância a apontar para a entrada, que ridiculo, não há nada para roubar nesta avenida, já está tudo roubado.
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13 comentários:
Tanta melancolia.
Esta descrição assentaria bem em quase todas as ruas de Lisboa. Lojas de chineses, restaurantes de chineses, prédios de luxo que ficam anos com os cartazes de "vende-se" porque custam mais de 400.000€, entre os outros todos podres, quase em ruínas. Pouca gente quer viver em Lisboa e percebe-se porquê.
Não sei onde esta cidade vai parar. Agora que acabou a especulação imobiliária talvez houvesse uma pequena esperança na reabilitação mas com as leis que temos, será impossível.
Merda de país este. Porque é que eu não saio daqui? Pergunto-me todos os dias. Se não tenho família rica, não tenho cunhas, não sou corrupto, não entre em grupos, não tenho paciência para gente burra, invejosa, tacanha e que só sabem dizer mal de algo que desconhecem ou de qualquer ideia ou projecto novo. Vou, que é o melhor que eu faço.
Desculpa lá o desabafo.
sabes que esse desabafo tem centenas de anos.
isto não melhora, sabes.
só há duas hipóteses: ou vamos embora, ou, ficando cá, é gozar o prato.
aliás, o post acaba mal, porque há coisas nesta rua que continuam a ser roubadas: precisamente o que falas, o preço das casas. imagino quanto custa cada casa naqueles prédios novos, mesmo que sejam pareçam pré-fabricados (ainda que revestidos a pedra de boa qualidade e bons acabamentos), mais ainda sim latas de sardinha, e mesmo que fiquem numa rua tão triste.
eqt isso, antónio costa ana mais preocupado com obras de fachada. úris, é verdade, algumas concordo, mas era mesmo porreiro que se lembrasse de quem adorava viver em Lisboa e não pode.
Pois no geral tem centenas anos mas em Lisboa não é assim há tanto tempo. Só há 25 anos atrás era uma cidade com muito mais vida, onde não havia uma loja de chinês em cada esquina a ocupar as melhores lojas, onde a Baixa era um grande centro comercial e empresarial, onde havia muito mais habitantes. Onde se via gente nas ruas e os restaurantes estavam cheios (agora só se safa o Bairro Alto) onde dava gosto passear. Agora vês turistas (poucos), paneleiros e chineses em carros de luxo. Não tenho nada contra chineses, tenho é contra as facilidades que lhes são dadas em termos fiscais e com os meios que utilizam para oferecerem produtos tão baratos (não valem nada mas o povo gosta)
Só aqui é que se vê isto. Em várias grandes cidades da europa não vês uma única loja de chineses como deves saber. Mas pronto alguém tem que alugar casas e lojas.
o meu conhecimento da Europa é limitado. só conheço paris e roma. Mas o que costuma haver são chinatowns, coisa completamente diferente do que existe cá.
as lojas de chineses existem tanto cá por vários motivos. porque só os chineses se conseguem organizar 'secretamnete' para emprestarem dinheiro uns aos outros e asssim abrirem tantas lojas. porque o país está em crise e as pessoas vão comprar lá coisas mais baratas e asssim prosperam estes negócios. e os produtos chineses são mais baratos porque são feitos na china, onde os direitos dos trabalhadores são de tal forma comidos que os produtos têm um custo de produção equivalente ao da uva mijona. é um círculo imbatível.
PORTUGAL NAO TEM SOLUCAO.
TUDO AFECTADO AOS CENTROS COMERCIAIS, TA TUDO NA MAO DE UNS, O PAIS A SAQUE, NA MISERIA, NA PENURIA, TUDO A AFUNDAR.
NAO POSSO FALAR MAIS SOBRE ISTO, AQUELA RUGA DO NOJO ASSOMA-ME AO LABIO E A TRISTEZA INUNDA-ME POR COMPLETO. EU JA FUGI. NAO PODIA FAZER MAIS POR ESSE PAIS, NESSE PAIS QUE ME COMIA A ALMA.
Sem conhecer nenhum de vocês: se Portugal é um sítio assim tão mau: mudem. Cuidado, ainda podem ter vontade de voltar, não vá acontecer "o estrangeiro" não ser um mar de rosas. Crítica é coisa boa, mas se for construtiva, caso contrário, é mais perda de tempo que outra coisa.
Concordo com quase tudo do que aqui foi dito.
Mas acredito que fugir não é solução, nunca foi. Um dia quereremos voltar, e não contribuimos em nada para a melhora. Então saiam e não voltem.
O problema do povinho português é que tudo se queixa ao vizinho, no supermercado, na esquina, do alto do parapeito da janela...mas nas eleições é vê-los fazer fila para votar.
Somos nós, povo, quem manda (apesar de não parecer) então teremos de ser nós a dizer basta!
Urge fazer alguma coisa, hoje, agora, e não ficar a espera que alguém o faça por nós.
Temos medo de quê? Pior do que está não fica (já dizia o Tiririca).
Sou do tempo do Alcazar! :)
para que ano?
Caro Anónimo/a, mudar implica arriscar e se o estrangeiro como diz não ser um mar de rosas podemos sempre voltar para o inferno. Mas este risco é calculado pois não vou/vamos para pior mas sim para países que comprovadamente têm melhores salários, menos injustiça social, mais oportunidades de emprego, mais retorno visível dos impostos que pagamos, etc.
Não ficamos é estagnados apenas a dizer mal de quem tenta mudar com a velha frase: "vejam lá se voltam a correr para cá..."
Quantos emigrantes conhece que tenham voltado por "não ser um mar de rosas"? Poucos de certeza. Portugal é um excelente país para quem tem dinheiro, para lavar dinheiro, viver relativamente seguro e com sensação de impunidade e para passar férias mais NADA.
Concordo com o segundo anonimo- embora tenhamos de ter cuidado com a confusão de anónimos- por isso vou lhe chamar o anónimo numero 2.
Depois discordo da Carochinha e de mais alguns e discordo em vários pontos: o Português vota pouco e a taxa de abstenção prova isso mesmo, mesmo sem desculpa aparente, pois vota ao domingo! O pior de tudo (E o Tiririca não passa disso mesmo dum Tiririca de cachorro) é que vai piorar, aliás quando se pensa que não pode piorar mais eis a lei de Murphy a provar a sua existência aos Portugueses...Não tem falhado muito.
Estrangeiro mar de rosas? com certeza, com todos os espinhos que lhe estão inerentes.
Crítica sobre Portugal é crítica, construtiva só se o povo se juntasse, como ninguém se junta, só resta criticar(o que do ponto d evista de construç]ao ou destrução nem interessa nada, pois já dizia o Gel, vai tudo abaixo!!) caraças, não tirem isso também ao pessoal!!
Para finalizar, temos medo de quê? ler Hoje- O Medo de Existir de José Gil, está lá tudo explicado.
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