Tenho tido a riquíssima capacidade de gerar odiozinhos de estimação. Amor, algum, sim, claro - ódio, em proporção igual. A este ritmo e chegarei a velho contando no dominó que fui um tipo de se amar ou odiar. Pedantismo, portanto. Mas é raro lembrar-me do porquê das zangas. Tenho memória de rato - é por isso que tiro tantas fotos e compro tanta merda nos sítios onde vou. Ainda num jantar recente me cruzei com um. Alguém me perguntou porque é que nos zangámos e não soube responder. Não faço ideia. Esqueci-me. Se me estivessem a agarrar os tomates, exigindo respostas mais precisas, diria que 'provavelmente fui uma besta com o tipo'. Regra geral é isso. De riso rarefeito, apesar da ortodontia me ser ciência estranha, ainda por cima gosto de fazer críticas destrutivas ao trabalho dos que me rodeiam. Faço-o, claro, quando julgo necessário e sempre seguindo a doutrina de Shiva, conhecido estroina indiano cria a partir da destruição - uma acção implicando e justificando a outra. Acontece que, por cá, este tipo de 'religião' equivale a dizer que a mãe do nosso interlocutor é uma rameira. Por isso passei também a medir a inteligência de determinada pessoa pela capacidade, ou não, que tem de perceber que a frontalidade dos que a rodeiam é a uma benção e uma oportunidade, nunca uma ameaça.
Houve uma altura em que esta bipolaridade social me chateava, depois passou a ser divertido. Especialmente os pormenores - o tempero dos insultos, a imaginação dos boatos, a infantilidade das petas. O mundo é pequeno e Lisboa é uma aldeia que cabe numa cave à beira da crel- sabe-se quase tudo. Outro dia, alguém me disse que fulano tal disse que eu tinha sido um filho da puta numa ocasião qualquer. Achei porreiro. Não é que o tenha sido. Achei porreiro porque certos insultos vindos de certas pessoas são elogios litúrgicos. Percebi isso muito cedo. Não é que às vezes não seja verdade, o insulto não seja merecido. Às vezes, poucas, é. Percebo essas coisas um bocado tarde demais, mas percebo. No último sítio onde trabalhei, por exemplo. Águas passadas. O que fica, tem ficado, é uma pequena legião de malta que, de bom grado, na impossibilidade legal de me aniquilar fisicamente, pelo menos me esterilizaria, a fim de que não deixe descendência. Bom, mas, regra geral, a minha fraqueza de memória é tal que nem me lembro que eles existem, até me cruzar com um num jantar, ver outro na rua, alguém falar de outro numa conversa. Às vezes, imagino-os todos juntos reunidos numa associação, vizualizo o sócio número um, bigode farto, careca farta, patilhas fartas, barriga farta, as caras carregadas, sofridas, as ordens de trabalho, as acções de luta, os tribunais marciais, mas é tudo paródia, isto penso em flashes quando os vejo, tal como ainda há bocado fui à janela e as extremidades dos estendais da roupa me pareceram louva-a-Deus de ferro a escalar as paredes. Isto são ácidos, drogas psicotrópicas, podia fazer como no Afeganistão com as papoilas para lhes extraírem o ópio: faço um corte no cérebro com uma faca afiada, extraio o líquido e ponho a secar ao sol para exportação. Depois, esta malta sai-me do campo de visão, e então reduzo-me à minha insignificância - como se a existência deles fosse a minha grandeza. O rato, diligente, vai fazendo o seu trabalho cá dentro, roendo de madrugada as sinapses que me ligaram em tempos a estas pessoas. E tudo fica bem outra vez, mais enfadonho, é certo, mas bem.
5 comentários:
Ter o poder de gerar odiozinhos de estimação por onde quer que se passe não pode ser uma qualidade, se bem que quem lê este texto depreenda que vês nisso uma qualidade. O que é normal. Está muito em voga hoje em dia. É fashion ser-se um cabrãozinho filho da puta à mínima oportunidade. A vítima chama-lhe cabrão, e quem assiste acha o máximo.
Shiva quando destruía, criava a seguir. Esse é um ponto importante. Shiva cria, Shiva rege, Shiva destrói. Ora parece que a tua semelhança com Shiva é mesmo apenas no ponto da destruição. O que é pena.
Shiva teria dito ao sujeito que ele escreveu certo texto com os pés, mas depois explicaria e apontava os erros e acompanharia o tipo até ele fazer aquilo como deve de ser.
Fazer uma crítica ácida e provocar que uma avalanche caia em cima de alguém, é giro. Deixa marca (na pessoa), mas na realidade não serve absolutamente para nada. Não cria nada. Não tem mérito nenhum.
Não obstante, gostei do texto no geral e da parte dos louva-a-deus em particular.
gostaste do texto? porra, estou muito mais aliviado.
como já estive nas duas pontas da tua lâmina afiada, reconheço-te nas palavras. e se o conceito te faz feliz... (ainda fiquei a haver o copo, certo?)
não faz nada feliz. quanto muito, diverte. grande diferença.
certo, desde que vá com o decibel mais baixo... Acabaram-se-me os comprimidos.
És um exagero! Gosto tanto de ti!
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