Terça-feira, 6 de Julho de 2010

Lisboa parece um talho,

a carne saiu à rua em lombos que antigamente eram de vaca e agora são de gazelas, antílopes, panteras e leoas, a revolução chegou à cidade, a explosão de corpos é esmagadora, a diferença para os últimos anos é enorme, demoraram, mas chegaram lá, que bonitas que vocês andam, porra, que velocidade andaram, que nos deixaram completamente, irremediavelmente?, para trás, não andem tão depressa, já eram tão mais tudo que nós e agora isto, na África do Sul baixei-me um bocado algures, enfiei a boca num esgoto e aspirei o calor que eles tinham armazenado para Dezembro, na África do Sul o verão é em Dezembro, sabias?, cheguei aqui, abri a bocarra e dei-vos o calor, este calor não é vosso, fui eu que o trouxe de lá, agradeçam-me mais uma vez, a minha mãe mandou-me vender calendários na estrada, penso muito nisso, sabes?, se não for calendários são as coxas, tenho umas boas coxas, coxas de homem, coxas que já andaram tanto como a minha cabeça, o que é curioso, não consigo despregar as coxas da cabeça, havia de ser bonito, a carne e os ossos eram fáceis de resolver, mas as veias, as veias..., as veias, com a sorte que eu tenho na vida, haveriam de ficar enroladas umas nas outras como os fios dos phones, que se encaracolam todos, aquilo só cortando com uma tesoura, voltei aos livros, livros, livros, livros, muitos livros, a agenda social tem sido apertada, as burocracias extra também, com calma vamos lá, ontem comi presunto, vê lá tu, aqui há dias um jornal na África do Sul fazia manchete com uma senhora que tinha a sanita partida e tinha portanto de usar a da vizinha, recurso que a incomodava sobremaneira, o que compreendo, o jornal não especifica as razões do incómodo, será do cheiro?, será do barulho?, será do papel gasto?, Nelson Mandela disse um dia que um homem só é um homem quando tiver a sua própria casa, acaso o tivesse dito por estes dias e acrescentaria que é preciso que a casa tenha uma sanita em condições, então a tal mulher, conta o jornal, para evitar o constrangimento de ter de cagar na casa da vizinha, decidiu só comer pão, há um mês que só come pão, vê a monotonia, o jornal não especifica que tipo de pão era, merda de jornais, estes, é que há pão com sementes e passas que podem ser explosivos, a mulher tentava então assim prender o seu ventre tão bem preso como o Mandela o foi pelos brancos maus numa ilha ao largo da Cidade do Cabo, a história da humanidade é isto, pequenas ou grandes misérias, o certo é que as coisas que nos incomodam são assim escondidas em buracos negros, como a tal ilha, chamada Robben Island, ou o ânus de uma sul-africana constrangida, pelo cheiro?, pelo barulho?, pelo papel gasto?, nunca saberemos, hoje o jornal A Bola tem uma reportagem do seu director na Robben Island, acho bonito e percebo, a ocupação de tempos livres dos directores de jornais é um assunto sério, sabias?, mais à frente o mesmo director tem um artigo de opinião intitulado 'O que eu senti em Robben Island', acho isto uma ternura, que pena o ânus da senhora Ntombosindiso, é este o seu nome, não poder ser visitado assim tão incautamente, fosse esse o caso e haveria eu de ler com o mesmo gosto um artigo de opinião do director d'A Bola intitulado 'O que eu senti no ânus da senhora Ntombosindiso'.

10 comentários:

Um ex-fumador disse...

Bem... Sê bem vindo :D
Gostei do que escreveste pelo uso da ironia
Se calhar lias com mais gosto o artigo de opinião do director d'A Bola...
Abraço

S* disse...

Por acaso andamos bonitas sim senhora. E com o calor, uma gaja fica mais entusiasmada.

Tens umas coxas boas? Ora mostra aí esse material, como no talho...

Zhu Di disse...

tou a gozar, pá. na verdade, sou anão.

Inês disse...

Fiquei muito preocupada com a asenhora sem sanita... Para quando novos desenvolvimentos???

Zhu Di disse...

não temos.

Peanut disse...

obrigada pelo calor... fecha lá um bacadito a bocarra, que 40 graus já é demais.
gostei muito do texto

الرجل البسيط disse...

Welcome. Como podes constatar, nada mudou neste país. Verás como depressa sentirás uma necessidade extrema de voltares a ser emigrante. Portugal cansa.
Abraço.

Diza disse...

e áfrica aqui tão longe...;)

ufffffff

sê bem revindo...

... disse...

Extraordinário....o que me ri com isto...nem tenho palavras..
Ainda bem que isto não acabou.
CM

Zhu Di disse...

ah, um elogio...

já não estava habituado.

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