Domingo, 16 de Maio de 2010
Na última semana em Portugal,
acaso tivesse aqui caído vindo de um tempo qualquer, vindo talvez do tempo da ditadura, ou de mais longe ainda, sentiria irresistivelmente uma sensação de familiaridade, de que tudo está igual, de que nada mudou, um par de mamas enxertadas e uma vagina pêssego bebé causa 'alarme social' e obriga a 'tomar medidas', um país e uma imprensa anestesiados pela visita do santo pastor, que caminha de costas arqueadas do peso que tomou para si de decidir dos corpos dos outros, do peso dos irmãos comedores de cus de rapazes, e um pretendente ao trono real dizendo num jornal que 'tornar obrigatório a educação sexual resume-se a dizer: forniquem à vontade', o sexo, sempre o sexo, o eterno sexo que atormenta os homens iluminados, que tapa, humilha e ridiculariza as mulheres nos livros sagrados, invejo a força e a determinação destes homens que há séculos lutam para tornar a coisa mais natural do mundo no prática mais imoral, amoral e anti-natural de todas, os problemas que suscita um músculo enfiado num buraco é para mim um mistério insondável, não sei, não entendo, preciso de ler mais para saber e entender, zoologicamente o que é que diferencia o pénis de Dom Duarte Pio na vagina de Dona Isabel de Herédia do pénis de um cão encavalitado numa cadela?, nada, interessa-lhes a sobrevivência da espécie e a perpetuação dos genes do macho, o cão quer os seus cachorros nas ruas, Dom Duarte quer os filhos a suceder no trono, nada mais há do que isto, os genes da sobrevivência e da dominação, nas galinhas, nas formigas, nos golfinhos, nos insectos, nas plantas, nos macacos, nos homens, os genes da sobrevivência e da dominação, nada mais do que isto, há milhões e milhões de anos que é assim, que se racionalize o preço do pão, entendo, que se racionalize a construção de um arranha-céus, entendo, que se racionalize a receita do cozido, entendo, custa-me entender os homens iluminados que racionalizam o sexo, a única coisa que ainda temos em comum com os cães, preciso de ler mais para perceber porque é que as religiões são tão úteis quando estamos a morrer e nos perseguem tanto quando estamos vivos.
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