Terça-feira, 25 de Maio de 2010

É uma da manhã e daqui a sete horas estarei acordado,

não que precise, porque o voo é só às seis da tarde, mas o voo demora doze horas e quero sentar-me no avião pedrado de sono, não vá aparecer a Cate Blachett encaixada numa farda da TAP e conseguirei o objectivo de atravessar África a dormir, mas que venha a Cate, e que venha o gordinho que tradicionalmente apanho sentado ao meu lado nestas grandes aventuras aéreas, não faz mal, faço de bicho-de-conta e adormeço como um tolinho, de boca aberta, cabeceando o ar, babando-me da boca, pés descalços, rabo vincado nas calças, calças vincadas no rabo, calças e rabo colados como macho e fêmea depois da queca, chego ao destino amanhã às seis da manhã, esperando-me um mundo novo de aventuras e contratempos, mais contratempos do que aventuras, mais azar do que sorte, já sabem o que esta casa gasta, entretanto, de manhã, esta manhã, que ainda há-de ser, porque escrevo à uma da manhã, terei de tomar várias decisões fulcrais para a minha vida futura, coisas que já devia ter decidido, mas que andei a adiar e a adiar até à última, mas que agora tem de ser, vou ter de decidir nomeadamente se levo sabonete ou gel de banho, ou os dois, se levo dois pares de ténis ou três, quantas t-shirts levo, que casacos escolho, e coisas assim,

Lisboa despediu-se de mim em grande, ontem, fundi mais uma lâmpada em casa, a décima quarta este ano, além disso, à tarde, dois balões de água entraram pela janela do quarto, devidamente aberta por mim, oportunamente apetitosa para meia dúzia de garotos a brincar a um Carnaval tardio, ou antecipado, fui à janela mas já não os vi, um dos balões rebentou contra o armário e molhou o chão, calhou bem porque precisava mesmo de o limpar, então peguei na esfregona, passei-a pelas partes molhadas e assim fica já um bocado limpo, menos sobra para hoje, o outro balão de água entrou também pela janela do quarto, mas não bateu no armário, passou pela porta, que fica no enfiamento da janela, atravessou o hall e passou a grande velocidade pela sala, indo imobilizar-se aos saltinhos nas pernas da mesa, intacto, fiquei alguns segundos à espera que a granada explodisse, mas um olhar apurado informou-me, desiludido, que não era uma granada, nem de fumo, nada, era mesmo isso, um mero balão de água que não rebentou,

vou para uma cidade tida como uma das mais violentas do mundo, mas não me assusto, apesar de, sinceramente, não me apetecer muito ser assassinado nos próximos dias, mas, olha, se for já sabes porque deixei de escrever aqui, há um blog que costumo visitar cujo dono deixou de escrever durante uns tempos, pensei que tinha acabado com o blog, mas estava apenas gravemente doente, isso fez-me pensar nisso, não é o meu caso mas há pessoas que têm blogs com milhares de visitantes, imagine-se que essa pessoa morre, o blog deixa de ser actualizado e as pessoas pensam que o dono assim quis, mas não, aconteceu que o dono morreu, e como com ele morreram as passwords não há ninguém que depois possa lá ir escrever assim um post:

'Lamentamos informar, mas este blog acabou
devido ao falecimento do proprietário.
A família.'

3 comentários:

eu... disse...

Boa viagem, não sejas assassinado nem assaltado nem nada acabado em -ado. Aproveita tudo e volta para contar!

Rei da Lã disse...

Diverte-te!

Carochinha disse...

Pois deixa-me que te diga que conheço um blog que informa, no próprio dia, que o seu "proprietário" faleceu nessa manhã, minutos depois do derradeiro post.
Isto foi possível graças ao simples facto dos comentários serem automaticamente aceites, independentemente da vontade do seu fiel propietário....

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