Terça-feira, 6 de Abril de 2010

Não há barulho, a única coisa que incomoda é a relva a crescer

diz o Carlos Miguel, o Fininho, agora na RTP, mais velho, sombra da velha glória, que um cancro precipitou e fez esquecer na memória das pessoas que passam na rua e lhe acham a cara familiar, mas não sabem de onde, Carlos Miguel está menos Fininho, a idade nas pessoas aumenta as orelhas, sopra pelos ouvidos e incha a cara, o nariz abatata e as peles autonomizam-se, lembro-me bem do Fininho no 1,2,3 e lembro-me bem do 1,2,3 no Cinema Europa, em Campo de Ourique, onde havia uns vidros por onde se espreitava e se viam uns adereços que eram de esferovite branca por dentro e de esferovite às cores por fora, o Fininho diz que encontrou a calma e a tranquilidade longe de Lisboa, encontrou o silêncio, o Fininho fazia tantas personagens de tantas cores como tantos eram e tantas cores tinham os adereços que eu espreitava pelos vidros, adereços todos amontoados uns nos outros, já usados e empoeirados, como usadas e empoeiradas estão as personagens do Fininho, de que as pessoas já não lembram, postas a um canto, como os adereços, no silêncio das arrecadações e das memórias,

não sei porquê, lembrei-me do gnu prostado no chão com as hienas de volta, as hienas não têm a misericórdia que os leões têm, os leões sufocam os gnus pelo pescoço ou então sufocam-nos com um longo beijo no focinho, o gnu expira oxigénio de gnu e inspira oxigénio de leão, e depois morre, e só depois os leões o comem,

já as hienas, perseguem o gnu durante quilómetros, cansam-no até à exaustão, atiram-no ao chão e depois falta-lhes paciência para o matar, então vão directamente à parte de trás do gnu e começam a comê-lo ainda vivo, e então o animal, perfeitamente consciente, sente a pele a ser rasgada, as pernas a serem trincadas, os ossos rompidos das articulações, os intestinos e os tendões a serem puxados como cordas, e o sangue desce pelas veias e depois não volta a subir, porque quando chega às pernas, e elas já lá não estão, esguicha das veias como esgoto a sair do cano, quem nunca viu um gnu a ser comido por hienas não sabe de que silêncio está o Fininho a falar, outro dia estava uma noite tão silenciosa que se ouvia a barba a roçar no lençol com a respiração.

2 comentários:

الرجل البسيط disse...

E sabes onde mora o Fininho?
No Granho (não é gozo; é a pura das verdades). Para veres como, de facto, o mundo é demasiado pequeno.
Abç

andré disse...

gostei disto. não me deixam ver programas de vida selvagem: queixam-se que ver animais a comerem-se não e agradável.

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