Segunda-feira, 5 de Abril de 2010

A mama esquerda da mulher dos frangos assados

esteve este fim-de-semana momentaneamente à venda por cinco euros e dezoito cêntimos, começou tudo quando eu cheguei lá e, sem surpresa, lhe disse assim: 'bom dia, são dois frangos', o primeiro que ela pegou era pequeno (ainda situado cronologicamente algures entre o pós-pinto e o pré-galo), ela espetou-lhe a pinça adentro e depois desfraldou-o para mim como uma bandeira, como que a perguntar: 'gostas destes, bonitão?', eu fiz assim com a cabeça como que a dizer: 'gosto, gosto',

com o segundo frango já fiz questão de lhe dizer que pretendia um grande, eu na verdade não gosto de frangos pequenos e não sei porque é que lhe disse que o primeiro podia ir, talvez porque nunca antes na vida me tinham desfraldado um frango como uma bandeira, ainda mais num local público e talvez essa tenha sido a causa do lapso, em tempo de guerra isto é aquilo a que se chama uma  'manobra de diversão', na verdade ela queria despachar o espécime mais enfezado da vitrine encetando para isso a tarefa imprevista e manhosa de o desfraldar à frente de toda a gente para me encaralhar em público, este lapso veio provar que ainda não estou totalmente apto para a vida na cidade, mas é ir aprendendo com os erros e seguir em frente,

e então ela trinchou os frangos com a tesoura e depois meteu-os em duas embalagens de plástico pretas em baixo e transparentes em cima, as embalagens tinham uma forma parecida à do pavilhão atlântico, mas em vez de cantores de rock iam asas, peitos e coxas de frango, então ela pegou nos dois pavilhões atlânticos e pesou-os numa balança electrónica que cuspiu logo um papel com o preço, que dava os tais cinco euros e dezoito cêntimos, estava tudo a correr bem quando ela pegou nos dois pavilhões atlânticos de uma só vez e a parte de cima de um deles se soltou,

ela viu-se de repente no dilema que eu às vezes tenho quando carrego os sacos do supermercado a caminho de casa, doem-me os braços mas não posso parar, porque se páro perco o ritmo das pernas, mas se não páro desfaleço dos dedos, ou seja é o dilema dos vários problemas que nos aparecem ao mesmo tempo e, em vez de se porem em fila indiana para a gente os resolver um a um de cada vez, vêm ter connosco por todos os flancos,

ela estava, então, com os dois pavilhões atlânticos cheios de frango prestes a desmoronarem-se nas mãos e uma balança electrónica a stressar com um papel na boca, quando, após pensar um bocado, equilibrou os dois pavilhões atlânticos numa só mão e com a outra tirou o papel da máquina e colou-o na mama esquerda, assim, zás, sem um mínimo de sensualidade ou qualquer slow motion ou olhar lânguido, pôs o autocolante na mama como um carimbo que se põe numa folha, como uma luz que se apaga e acende no interruptor, como um prego que se empurra com o martelo, como um dente que se crava na entremeada, uma coisa mecânica, prática,

os cinco euros e dezoito cêntimos ficaram assim ao ritmo do arfar do peito, ela inspirava e o preço se elevava, ela expirava e o preço se rebaixava, inspira, expira, eleva, rebaixa, inspira, expira, eleva, rebaixa, então ela pôs ordem nos pavilhões atlânticos, tirou o preço da digníssima mama (que voltou à condição de gratuita), paguei cinco euros e dezoito cêntimos com a maquia de cinco euros e vinte cêntimos, perdoei os dois cêntimos de troco, ela agradeceu e fui-me embora, e foi isto, meus amigos, boa semana, pessoas bonitas.

3 comentários:

Gingerbread Girl disse...

Isto é demasiado longo para as 10:19h da manhã.

Volto mais tarde.

S* disse...

Estás tolo. Tanto por causa de dois pitos.

Anónimo disse...

5 euros por dois frangos???
ahahah
deviam era ser pintainhos daqueles muito queridos que são borrifados com cores pastel...
Susana

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