Quinta-feira, 15 de Abril de 2010

A grande vaca

Escrevo este texto depois de ver cinco minutos de um programa de conversa com jovens e adolescentes que dá agora à noite na RTP2. Já lá vou. Deste tipo de programas, quase só consigo gostar com crianças e com velhos, as crianças porque não sabem nada de nada e só dizem disparates, os velhos porque já não se ralam e por isso também só dizem disparates, mas as crianças e os velhos só vão à televisão para serem imbecilizados, e raramente aparecem nos talk shows noutra condição que não essa, programas onde os reis são jovens adultos ou adultos de meia idade que, com raras excepções, vão à televisão fazer aquilo que já fazem nos seus empregos, nas suas casas, nas suas vidas sociais, e que se pode chamar, resumidamente, de... mamar,

e mamar numa teta imaterial que eles não sabem a quem pertence, de que é feita e quanto leite tem para dar, mas que está lá e é isso que importa, apenas querem baixar os quadris, levantar o queixo, fazer boquinha e esperar que caia alguma coisa dessa vaca, cada vez mais sagrada, que hoje os alimenta a todos, mais do que nunca, claustrofobicamente, uma vaca que lhes permite ascender das charcutarias para os blogues, dos blogues para os jornais, dos jornais para as assessorias, das assessorias para os ministérios, dos ministérios para as televisões, e assim, vendedoras de salsichas escrevem em jornais e enamoram-se de nutricionistas, sapateiros tornam-se ministros das pescas e deitam-se com manequins, futebolistas escrevem livros e desfloram catedráticas, pasteleiros dirigem jornais e vivem com apanhadoras de ameijôa, a surpresa é estranha porque a causa é óbvia, conheceram-se todos debaixo da grande vaca, a Mediocridade, e formam um esplêndido rebanho democrático de vitelos e seus padrastos, que ruminam erva rasteira à beira da estrada, entre as pedras, as putas e o tampo dos esgotos,

e depois há então o caso específico dos programas de conversa com 'adolescentes' ou com 'jovens', que é causa primeira de suicídio em pessoas como eu, na medida em que este tipo de programa é um exercício semelhante a entabular uma conversação com ovelhas, perguntamos-lhe uma coisa e eles respondem... 'mmméééééé', perguntamos outra e eles... 'mmmmmééééé', insistimos, reformulamos, damos o flanco, mudamos o tom, alteramos a abordagem, mas nada feito, eles afastam a franja, chocalham as pulseiras, abrem a boca e... 'mmmméééééé', não me perguntem em que consiste este estranho balido porque nunca fui jovem nem adolescente, passei rapidamente de criança a velho - apesar de alguns (ainda assim frequentes) ataques epilépticos de criancice - e deste salto antes de tempo vem o aborrecimento de ser velho e não poder dizer 'já não me ralo'.

6 comentários:

Sergio disse...

Já há uns tempos que não lia aqui nada de jeito. Gostei.

Zhu Di disse...

curioso. não gosto grande coisa deste texto.

Sergio disse...

Se gostasses é que eu me admirava. Tão previsível.

Sergio disse...

e agora retira os comentários...ou não como fui eu que sugeri.

Zhu Di disse...

be cool, camarada. ninguém está aqui para stressar.

Sergio disse...

No stress :)
Era mais uma provocação, get it?

arquivo

Tecnologia da Blogger.