Sábado, 24 de Abril de 2010

Às tantas da noite de um dos dois dias do (6 palavras começadas por d, 4 delas seguidas...) fim-de-semana passado,

não vou dizer qual, tentem adivinhar, é fácil, têm cinquenta por cento de hipóteses de acertar, ou foi no sábado, ou no domingo, isto é o máximo que aqui consigo ter daquilo a que se chama 'um passatempo', estava eu sentado numa estação de metro, que só não estava completamente vazia devido à minha presença - se me considerarem um mito então estava mesmo completamente vazia - e encontrava-me sentado mais ou menos a meio da estação, quando apareceram três mulheres lá ao longe, ouvi-as a descer as escadas e depois a entrarem na plataforma, andaram, andaram, andaram, e decidiram parar precisamente ao meu lado, eu estava a ler um livro e só nisso encontro explicação, talvez para as mulheres da cidade um homem com um livro na mão tenha o mesmo ar ameaçador de um animal recém-nascido, aquelas mulheres sentiram, numa esconsa estação de metro deserta às tantas da noite, sentiram naquele sentir sexto que só as mulheres sentem: 'ora aqui está um simpático bezerro',

mesmo sendo-se portador de barba de uma semana há certas máscaras que caem assim ingloriamente, por causa de um pormenor despiciendo, um livro, mesmo que se chame 'Malone está a morrer' e que, curiosamente, comece assim: 'Dentro em breve estarei apesar de tudo bem morto finalmente. Talvez para o mês que vem. Será então o mês de Abril ou de Maio.' Um livro onde, por falar em barba, tem na página 116 uma das duas ou três (reparem na 'acidental' sequência uma-duas-três) frases que resumem os livros de Beckett, que são solidamente iguais uns aos outros: 'Mas entre ele e esses homens severos e graves, primeiro de barbas, depois de bigodes, havia a seguinte diferença: a sua semente pessoal nunca fizera mal a ninguém - portanto estava ligado à sua espécie apenas pelo lado dos ascendentes, que todos tinham morrido, julgando ter-se perpetuado.' Ou, na 176: 'Tudo está a postos. Menos eu. Nasço dentro da morte, se me atrevo a dizê-lo. É essa a minha impressão. Gestação invulgar. Os pés saíram já, da grande cona da existência. A minha cabeça morrerá em último lugar. A meu repeito acabou-se. Não tornarei a dizer eu.'

Pode alguma coisa ser assim tão áspera, azeda e deprimente e ao mesmo tempo tão bonita? Pode.

'... ao meu país, que não conheço, como não conheço o país onde os homens vão para as suas casas e vêm de suas casas, por estradas que eles próprios fizeram, para poderem visitar-se uns aos outros com mais comodidade e rapidez, à luz de inúmeros e variados candeeiros que lá vão mijando por turnos para a escuridão, pelo que nunca está escuro, nunca está deserto, deve ser horrível.'
O Inominável, pág. 42

E pronto, acabou-se.

4 comentários:

Diza disse...

falta dizer o que fizeste às três mulheres... :)

Rei da Lã disse...

Mas alguém te tratou mal, pá?!

Zhu Di disse...

:)

não, pá

Rei da Lã disse...

:)

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