Quinta-feira, 25 de Março de 2010

A ver se me oriento com isto,

estava um tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além sentado à minha frente no metro de cabeça baixa e a mexer no telemóvel velho, de repente: puuummm!, o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além deixou cair o telemóvel, então baixou-se para o apanhar, mas a cabeça estava tão determinada que parecia uma bússula a apontar para baixo, ele levantava-a e ela a apontar, ele levantava-a e ela a apontar, achei isto engraçado, porém repetitivo, de modo que virei o olhar para outro lado e foi então que, de repente, puuuummm!,

telemóvel no chão outra vez, e então o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além voltou a baixar-se, e depois foi a história da bússola que já vos contei, dois minutos depois: puuuummm!, telemóvel no chão outra vez e então o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além voltou a baixar-se e depois foi a história da bússola que já vos contei, estávamos quase a chegar à estação e o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além levantou-se (extremamente relutante e aborrecido, digo-vos eu, que vi tudo, com estas contrariedades de ter de se levantar, não estando disponível no momento qualquer forma de teletransporte),

para se manter de pé decidiu pedir ajuda àquelas forcas de ferro que estão no tecto do metro e que servem para este tipo de pessoas se aguentarem nas canetas, estava então o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além agarrado com uma mão apenas, mas agora já não era a cabeça que apontava para baixo, era o corpo todo feito bússola a apontar para sul, isto às vezes acontece-me com os sacos do supermercado, que me puxam os braços com toda a força que conseguem para irem ao chão, se levar só rolos de cozinha não pedem muito, mas se for fruta ou pacotes de leite é um martírio os sacos a fazer força para baixo, da inversa forma que as crianças no chão pedem com toda a força para ir para os nossos colos,

então, estava o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além com um braço apenas a segurar o corpo todo quando ele decide que precisava rapidamente de mais ajuda e para tal decidiu que a hipótese mais consensual e com o melhor rácio qualidade/preço seria usar o seu outro braço, que, no caso, era o esquerdo, que estava estendido, pesado e vertical ao longo do corpo, como um reluzente fio de prumo, então o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além cerrou os dentes e iniciou a empreitada da vida, erguer o braço esquerdo até à forca pendurada no tecto do metro,

primeiro, digo-vos eu, que vi tudo, entortou-o, e então a linha recta do braço começou a fazer um ângulo obtuso, várias pessoas no metro acompanharam comigo a acção, algumas ouvindo talvez a Dança das Valquírias, a mão chegou à cintura, sinal de que o braço estava já a caminho de fazer um ângulo recto, com o cotovelo em vértice, depois começou a tarefa de virar a mão e começar a subi-la, e ao mesmo tempo que a mão subia, subiam também a pele e os pêlos e os dedos e os ossos, e conforme sobe isto tudo sobe também o sangue, litros e litros, sendo que o sangue não faz como a pele e os pêlos e os dedos e os ossos, o sangue chega lá acima aos dedos e depois atira-se todo cá para baixo, a grande velocidade (o sangue diverte-se tanto!), de tal forma que chega aos pés e com o balanço volta a subir até aos dedos e depois atira-se cá para baixo outra vez e assim sucessivamente,

e a mão começou a subir, a subir, a subir, a subir, tudo muito lento, tudo muito arrastado, e finalmente agarrou-se à forca, e eu pensei cá para comigo: 'porra, que estava difícil...', a mulher que estava ao lado do tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além não partilhava da minha boa disposição e estava ligeiramente receosa que ele a fosse molestar, e então o tipo-que-parecia-estar-bêbedo-mas-se-estivesse-também-drogado-não-me-admiraria-por-aí-além ficou assim uns minutos nesta luta, o corpo fazia assim esta forma em <, a ponta de cima eram os dedos e a forca, a ponta de baixo eram os pés e o chão, o vértice a meio era a cintura espetada para fora, metade do corpo puxava-o violentamente para o chão, e a outra metade estava agarrada à forca, só com as mãos e a pele e os pêlos e os dedos e os ossos, onde o sangue se divertia à grande, yupiiii, yupiii, de cima para baixo, de baixo para cima.

2 comentários:

Not a Lady disse...

há dois dias que não ria tanto... muito bom!

Maya disse...

Ouve lá tu andas desnorteado ou quê? Depois não consigo concentrar-me no resto do texto. :)

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