mas o Benfica já me aborrece, farto-me de tanta vitória, de tanta alegria, precisava de um pouco mais de emoção, podia falar-vos dos dois elevadores aqui do prédio, o da direita já me transportou 30 vezes este mês e o da esquerda 41, parece que está a ganhar o do esquerda, mas não se iludam, acontece que subir vale mais pontos (dois) que descer (um), porque, obviamente, custa mais, cansa mais o elevador, e aqui o da direita tem vantagem porque das 30 vezes que me levou 25 foram a subir e 5 a descer (total: 55 pontos), e o da esquerda, das 41 vezes que me transportou, 12 foram a subir e 29 a descer (total: 53 pontos) - como vêem, isto sim é uma competição a sério, muito mais renhida que este campeonato nacional e este Benfica, que me aborrecem sobremaneira,
estou prestes a entrar no quarto livro de Beckett e posso-vos dizer que para Beckett o mundo dos vivos (que, para quem esteja distraído, informo que é... agora) é um longo e penoso Inverno, a vida é a dor e são as trevas, onde nos vamos arrastando até à morte, e com essa morte entramos finalmente no mundo... da Luz (calma, amigos benfiquistas, é 'a outra' Luz...), o mundo dos mortos de Beckett consola um ateu dos quatros costados como eu, o mundo dos mortos de Beckett é diferente do Paraíso e do Inferno, das reencarnações asiáticas ou das virgens árabes, o mundo dos mortos de Beckett é simplesmente... um domingo de Verão,
provavelmente, imagino eu, com café quente de manhã e ovos mexidos e passarinhos a cantar,
ele não o diz nestes termos, sou eu que o deduzo do que tenho lido, podia dizer-vos mais coisas sobre Beckett, mas não me apetece, ou, aliás, apetece-me, mas prefiro guardar para mim, senão ficam a saber tanto como eu, mando-vos só mais um bocado do lado ternurento dele:
'Desabotoava-me, discretamente, para me coçar. Coçava-me de baixo para cima, com quatro unhas. Puxava pelos pêlos para me aliviar. E o tempo ia passando enquanto me coçava. Coçarmo-nos bem é melhor do que masturbarmo-nos, acho eu. Uma pessoa pode masturbar-se até aos cinquenta anos, e mesmo muito para além disso, mas acaba sempre por ser um mero hábito. Para me coçar não me bastavam as duas mãos. Tinha chatos por todo o lado, nas partes, nos pêlos até ao umbigo, debaixo dos braços, no cu, e também tinha placas de eczema e de psoríase que podia inflamar só de pensar nelas. Era no cu que sentia maior satisfação. Enfiava o indicador no cu, até ao metacarpo. Se depois tinha de cagar, a dor era de morrer. Mas já quase não cagava. De tempos a tempos, passava um avião, com pouca velocidade, parecia-me. Muitas vezes, ao fim do dia, descubria a bainha das calças molhada. Deviam ser os cães. Eu quase não mijava. Se por acaso tinha vontade, atenuava-a deixando cair um fiozinho na braguilha.'
'Novelas e textos para nada', págs 73-74
Tenham um bom domingo e que Deus Nosso Senhor vos alumie o caminho.
6 comentários:
e é sempre bom ler um texto inspirador como este para ser um bom domingo
Só não percebo a mania de descreverem um café pela manhã sempre com ovos mexidos! Porquê ovos mexidos??? Isso não alegrava nada o meu café da manhã!
cala-te, pá, sabes lá o que é bom.
saudadinhas suas.
A parte final do texto está em perfeita consonância com o Benfica...
Quero agradecer-te todos os excertos que tens postado de Beckett.
Isto é melhor que ler as contracapas, fiarmos-nos no Prémio Nobel ou no facto de o escritor ser de renome...
Obrigada, a sério... de que outra forma eu poderia ter a tamanha certeza de que jamais comprarei um livro dele?
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Gosto de ovos mexidos ao pequeno almoço, btw... não são verdadeiramente ovos mexidos porque uso quatro claras e apenas meia gema... mas é aproximado.
E pronto.
Vou estragar-te o post: um elevador faz mais esforço a descer do que a subir.
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