'Abundavam pássaros de todo o tipo e deliciávamo-nos a persegui-los com pedras e torrões. Os piscos, em especial, por serem muito confiantes, destruímo-los em grande número. E ninhos de cotovias, cheios de ovos ainda quentes do regaço das mães, reduzíamo-los a fragmentos, espezinhando-os, com especial satisfação, na época adequada do ano.
Mas os nossos amigos dilectos eram os ratos, que habitavam junto ao riacho. Eram compridos e negros. Trazíamos-lhes petistos tirados ao nosso ordinário, como, por exemplo, cascas de queijo e pedaços de cartilagem, e também ovos de pássaros, e rãs, e passarinhos tirados do ninho. Sensíveis a estas atenções, costumavam juntar-se à nossa volta à nossa chegada, com todos os sinais da confiança e da afeição, deslizavam pelas pernas das nossas calças acima e penduravam-se-nos no peito. E então, costumávamos sentar-nos no meio deles, e dar-lhes a comer, da mão, uma bela rã gorda ou um filhote de tordo. Ou, agarrando subitamente um rechonchudo rato jovem, que descansava no nosso peito após o repasto, dávamo-lo a comer à mãe, ou ao pai, ou ao irmão, ou à irmã, ou a algum parente menos afortunado.
Era nessas ocasiões, concluíamos, após uma troca de opiniões, que nos aproximávamos mais de ser Deus.'
Samuel Beckett, ‘Watt’, pág., 178
4 comentários:
Lindooooooooooooo!
São passagens assim que marcam uma pessoa para a vida toda... (além de levarem ao vómito).
Também eu.
Mas que porra vem a ser esta!??????
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