Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010

Quase nas últimas...


Despeço-me de Essaouira (mais uma foto acima, a propósito) numa maravilhosa praça mais ou menos escondida na medina.
Trinta metros quadrados rendilhados de arcadas. Nesta praça, há alguns séculos, os portugueses compravam escravos, cavalos e demais bens de primeira necessidade. Hoje, está dividida entre o presente e o cheiro do passado. Do lado esquerdo de quem entra, várias esplanadas - fiquei numa que tem chás árabes e deliciosas saladas de inspiração francesa. Do lado direito, vários homens vendem leite em garrafões, carvão e cerâmica. No meio, um homem velho e meio cego toca e canta canções antigas para os turistas - só pára com o chamamento para as orações, que se houve do minarete perto.

Preparava-me para apanhar um autocarro para Layoune, principal cidade do Saara Ocidental. O bilhete custou 27 euros e seria o início de umas incríveis 27 horas seguidas num autocarro, com direito a dormida em hotel de quatro rodas. O bilhete podia ser mais barato, mas teria de escolher outra empresa rodoviária não tão confortável como a CTM, uma espécie de Carris marroquina, com autocarros muito perto do nível europeu e motoristas de fato e gravata.
Na gare de Essaouira impera a livre concorrência de mercado.
Mais de dez empresas lutam para provar que os seus autocarros são menos decrépitos e lentos que os do lado. Para isso, recorrem a agressivos vendedores de bilhetes (que na verdade são rifas). Vá-se lá saber porquê, todos os estrangeiros presentes escolheram a CTM. Depois de comprar o bilhete, voltei à medina para almoçar e foi quando dei com a tal praça.

No caminho, sou abordado por um marroquino de capuz enfiado, trinta anos, cara esburacada, diz-me o nome, que não decorei, mas que é qualquer coisa como Calipo. Durante o caminho tenta ‘oferecer-me’ várias coisas, das quais destaco um intercâmbio cultural com uma mulher berbere, que se desenvolveria à taxa de 450 dirhams por hora (45 euros). Declinei respeitosamente e embarquei a caminho de Agadir, primeiro entre montanhas e vales, depois ao longo da costa.
Entre Casablanca e Essaouira imperam as vacas e as ovelhas. De Essaouira para Agadir reinam as cabras e os burros. As cabras pastam em rebanhos grandes e empoleiram-se em tudo. Como sabem, a cabra é um bicho que quando quer uma coisa é extremamente determinado. Por exemplo, da janela do autocarro vi uma árvore de dez metros cheia de cabras pretas até acima. Quanto aos burros, são seguramente mais que os nativos. Vi tantos burros nesta viagem que posso afiançar, através de um espectacular cálculo mental que fiz do autocarro, que no interior deste país há cerca de 0,73 marroquinos per capita de burro.
A nova arquitectura marroquina é exactamente igual à nova arquitectura portuguesa: ou seja, não é arquitectura, é engenharia civil. É um rectângulo de cimento com rectângulos de janelas ao alto.

Jantei na gare de Agadir, onde ao meu lado estava uma estupenda marroquina. Mais tarde haveria de reparar noutra estupenda marroquina, esta em Layoune, apesar de não ser bonita de cara. Estava com um belíssimo vestido preto e reparei nela por causa do cabelo, um cabelo absolutamente magnífico, preto, brilhante, comprido, um cabelo com vida própria, ainda mais com o vento que estava. Não é por acaso que a praxis masculina muçulmana ‘gosta’ que as mulheres usem véu, porque uns cabelos bem tratados podem fazer muitos estragos a estas tão concentradas mentes de Alá, o Grande – as mesmas mentes que não querem mulheres a rezar com homens nas mesquitas talvez porque a oração árabe implica estar de joelhos e alçar o rabo e isso pode ser complicado de gerir enquanto se ora... De qualquer modo, voltando ao véu, se querem que vos diga, acho também que muitas marroquinas usam véu não por questões religiosas, mas porque não lavam o cabelo há vários dias.

A talhe de foice, diga-se que os guardanapos marroquinos não são como os nossos, absorventes. Os guardanapos marroquinos têm o fabuloso predicado de serem antiaderentes, como as frigideiras. Desde que aqui cheguei que isto me intrigou. Na gare de Agadir tirei dúvidas. O guardanapo marroquino só serve para tirar aquilo a que se chama ‘o maior’ - o resto é limpo com as mãos, que por sua vez são limpas com as calças.

Às terças e quartas e aos sábados e domingos, os homens marroquinos saem das suas casas aos milhares e vão para os cafés ver jogos da Champions League e da Liga Espanhola, cenas que parecem as de Portugal há trinta anos, quando quase ninguém tinha tv em casa. Os marroquinos vão para os cafés ver bola, mas não podem beber álcool por causa da religião. Isso e o facto de não poderem ver decotes nem mini-saias explica talvez porque são um povo tão enjoado. Junte-se o facto de terem sido colonizados por franceses e gera-se aqui um cocktail de imbecilidade.

Atravessei a costa do Saara Ocidental quase todo em 27 horas seguidas, com direito a noite dormida sobre quatro rodas e nascer do sol da janela do autocarro. Pelo meio, as primeiras grandes dunas do deserto e várias bombas de gasolina com cafés a cheirar a gás, com cães a pastar lixo nas dunas e marroquinos a pastá-los com os olhos.
O autocarro foi mandado parar pela policia cinco vezes. Numa delas, o polícia, bem falante de inglês, gostou muito da peta que lhe dei quando disse que era professor de português e abriu muitos os olhos quando lhe disse que ia para a África do Sul. Da última vez, veio um polícia e mandou-me sair do autocarro. Foi comigo até uma casota onde estavam afixadas nas paredes várias folhas com fotografias de marroquinos maus com quem a polícia queria conversar.

Cheguei a Layoune às oito da manhã de um dia destes.
Tinha então duas hipóteses: ou ficava um dia nesta espectacular cidade ou apanhava o mesmo autocarro, que, meia hora depois, seguia para Dakhla, a última grande cidade marroquina antes da Mauritânia. Fui a um hotel ali ao lado, que estava cheio de jipes brancos do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados - tive esperança de encontrar o Toneca Guterres, mas só vi um boliviano cheio de sono. O hotel, que em Lisboa teria diárias de 20 euros, custava uns espectaculares 60 euros, quase tanto como o que paguei uma vez por uma noite no Sheraton do Algarve em pleno Agosto. Mas o senhor fez-me um desconto para 25 euros. Recusei. Fui ao lado. Era um ‘hotel’ onde um quarto custava 7 euros, mas não tinha casa de banho. A retrete era ao fundo do corredor, o chuveiro era ao fundo de outro corredor e custava 10 dirhams o duche. No meio do cocó e do banho ficava um bar, munido de dez cadeiras, balcão e televisão ao fundo. Não sei porquê, mas voltei à gare e fazer mais dez horas de viagem até Dakhla (e mais 16 euros de bilhete), onde escrevo este texto.

Estou num hotel que tem sanita, mas não tem papel higiénico. Tem duche, mas não tem toalhas. Graças a Alá, o Grande, trouxe um rolo de Lisboa. Depois do duche sequei-me a andar de um lado para o outro no quarto - foi aqui, aliás, que lavei as únicas meias que usei até agora, e já lá vão alguns dias. Foi quando me descalcei no autocarro que percebi que estava a precisar de mudanças. Os marroquinos não usam papel higiénico (preferem usar água, que enchem em pequenos baldes), nem apreciam sanitas (preferem um buraco no chão rodeado de azulejos por todo o lado). Baixam as calças, sentam-se no vazio cósmico e tentam o hole in one.

Saí então para jantar nesta linda cidade chamada Dakhla.
Fui a um restaurante com uns espectaculares frangos a virar cu no espeto e esplanadei-me. Esperei uns minutos, olhei lá para dentro e vi o empregado de mesa a jantar. Ele olhou para mim e continuou a jantar. Cinco minutos depois deduzi que teria de esperar que ele jantasse para me vir servir. Levantei-me e fui a outro restaurante, onde fui atendido por um estrábico. Pedi-lhe frango e ele foi buscá-lo ao restaurante do lado. O café foi buscá-lo ao outro lado da rua. Veio uma mulher com uma criança ao colo pedir esmola e recusei. Estendi-lhe a cesta com o pão e ela pegou nele contrariada.

Mais uma vez, pedi um quarto de frango e deram-me a parte da asa. Sou o único estrangeiro da cidade e nem uma perna levo. É a quinta cidade marroquina desta viagem e as pessoas continuam azedas, o que me leva a concluir que há aqui um padrão: Marrocos está muito bem posicionado no ranking dos Povos Mais Enjoados do Mundo. Vender Kompensans aqui pode ser tão lucrativo como fazê-lo nas imediações do Estádio de Alvalade. Pensem nisso.

Pedi a conta ao estrábico e ele deu-ma num papel dobrado em dois com um molho de palitos em cima. Achei tão genial o gesto de simpatia que os contei: dezasseis palitos. Por acaso, dezasseis até é o meu número preferido. Significa que não vem aí coisa boa…

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