Saí do hotel manhã cedo e fiz-me à estrada com as duas mochilas às costas. Sem nenhuma ideia do que ia encontrar, sem ter estudado bem o mapa (estupidez…), só na estrada percebi que Dakhla é uma extremidade de terra saída da costa, uma pila de 40 quilómetros pendurada no mapa do país e eu estava na ponta dela. À volta, só deserto.
Na verdade, quem vinha do norte e ia para a Mauritânia não precisava de passar por Dakhla. Ou seja, antes mesmo de pedir boleia para a Mauritânia tinha de pedir boleia para sair de Dakhla. Foi nestes 40 quilómetros que estive para desistir várias vezes. Desistir porque achei que não tinha necessidade nenhuma de estar a passar por aquilo, não tinha de provar nada. Ou pensava em mandar aquilo tudo às malvas ou então pensava em voltar para Dakhla e pagar o táxi.
Estive várias horas sob um sol tórrido (mesmo de manhã), caminhei vários quilómetros numa estrada deserta e entretanto fiquei sem água para beber (porque não me abasteci, porque pensava que seria fácil arranjar boleia). De Dakhla até à estrada para a Mauritânia são 40 quilómetros, como vos disse. Nesse ponto, as duas estradas ligam e há lá uma bomba de gasolina, que eles chamam precisamente Quarante. Só cheguei a Quarante depois de cinco boleias - e eu que nunca tinha pedido uma boleia na vida. Foram todas dadas por marroquinos (houve outros que pararam, mas pediam dinheiro). Um levava-me até aqui, outro até ali, outro até acolá, outro mais à frente. Fiz assim os 40 quilómetros. Pelo meio, esperei horas ao sol, caminhei com mais de vinte quilos às costas, suava por todo o lado, não havia sombras em lado nenhum, tinha a boca seca de sede.
Passaram por mim dezenas e dezenas de auto-caravanas com casais de franceses lá dentro (Dakhla está cheio deles). Auto-caravanas modernas, grandes, espaçosas, confortáveis, de vidros fechados por causa do ar condicionado fresco. Apesar disso, nem um sequer parou para me perguntar onde ia. Todos me ignoraram. Dezenas e dezenas. Viram-me numa estrada no meio do deserto, ao sol, e nem abrandaram. Quando vi a primeira auto-caravana pensava que o facto de ser europeu e não ser propriamente um maltrapilho me iria ajudar, mas enganei-me redondamente. Percebi rapidamente que estes franceses estavam a milhares de quilómetros de França, mas - metidos nas suas auto-caravanas francesas, cheias de comida francesa e televisão por satélite francesa - na verdade nunca tinham saído de França, da mesma maneira que os ingleses que vão para as Albufeiras e Quarteiras nunca chegam a sair de Inglaterra.
Foi na minha última boleia, de um marroquino que me pediu dinheiro ou um souvenir (dei-lhe uma gillete descartável), que soube que até à fronteira com a Mauritânia eram mais de 300 quilómetros. Se fazer 40 foi isto, imagine-se fazer 300. Já tinha decidido voltar para Dakhla na tal bomba de gasolina e pagar um táxi. Mas quando chego lá vejo que estava um carro parado com um tipo ao lado, alto e barbudo, magro, de mãos nos bolsos, enquanto o homem da bomba lhe abastecia o depósito. Fui ter com ele e disse-lhe bom dia em francês. Ele disse-me bom dia, sorridente, e depois perguntei-lhe.
- Por acaso não vais para a Mauritânia…?
- Vou.
- A sério? Dás-me boleia!?
- Claro! Deixa-me perguntar à minha namorada.
Ela estava sentada no carro e nem por um segundo hesitou. Uma sorte incrível. No preciso momento em que precisava de um anjo da guarda no deserto, apareceram-me dois. Depois de arranjarem espaço no carro - para mim e para as mochilas - partimos. Mal acreditava na sorte que tivera. Estas três ou quatro horas até à fronteira foram, de facto, as únicas que valeram a pena nesta viagem, que se revelou um fiasco. François e Sabine são o casal mais simpático do mundo. E tive a sorte de os encontrar. Cinco minutos mais tarde, uma boleia a menos, ou a mais, e já não os apanhava na bomba de gasolina. Fomos a ouvir música francesa, Orishas e The Doors. Ofereceram-me tabaco e comida. Fomos a falar de política (eles são de esquerda e detestam Sarkozy; eu de direita e adepto da comicidade do petit Nicolas) e de viagens pelo mundo, principalmente da que fizeram de carro pelo Irão. Eles arranhavam mal o inglês, eu arranhava mal o francês, muitas vezes misturávamos as duas línguas na mesma frase, mas entendemo-nos.
Mas a sorte ainda não tinha acabado, como percebi depois. Sabine e François vinham de França, iam para a Mauritânia, mas o destino final era o Senegal, onde iriam ter com um amigo dali a dois dias. Ainda não lhes tinha pedido, mas, se o fizesse, tinha a certeza que me levavam com eles até lá. Não só resolvia o problema dos tais 300 quilómetros até à fronteira com a Mauritânia, como tinha ao mesmo tempo uma boleia para a atravessar e ainda chegar a Dakar. E sempre em excelente companhia. Poupava muito tempo, poupava muito dinheiro, divertia-me e ia bem. Era sorte a mais, era o Euromilhões ganho com uma aposta única.
Como lerem no post anterior, a sorte acabou depressa (aliás, já estava traçada quando os encontrei): eles tinham o visto no passaporte, eu não. François ajudou-me a falar francês com os polícias de Marrocos, mas nada feito. Sem o visto para a Mauritânia nem sequer podia sair de Marrocos, quanto mais chegar à fala com os polícias mauritanos. Fui barrado e tinha de voltar para trás, voltar a fazer a desértica estrada dos 300 quilómetros, mais os 40 até Dakhla. Dali a pouco anoitecia e só tinha duas hipóteses: ou voltava de táxi ou dormia no deserto, na berma da estrada.
Além desse problema logístico imediato, a minha desilusão era total, como devem calcular. Uma semana de autocarros marroquinos deitada no lixo e a viagem (nos moldes em que a queria fazer) em evidente risco de terminar já ali (é que havia ainda o golpe de estado no Níger, que acontecera na véspera). Tinha de fazer muitas contas de cabeça, ponderar tempos, dinheiros e objectivos que realmente interessavam. Do que decidi, e que expliquei no post anterior, tive muito tempo para o pensar.
De facto, não me vim logo embora. Enquanto Sabine e Françoi ainda ficaram várias horas à espera na fronteira (extraordinária a eficiência da polícia marroquina…) eu também fiquei à espera de um táxi para regressar a Dakhla. Havia lá vários, mas, escolhendo um, tinha de o partilhar com outras pessoas, que haveriam de chegar em cinco minutos (demoraram duas horas). Se quisesse um táxi só para mim pagava... 120 euros (que é o preço de uma viagem ida-e-volta de avião Lisboa-Londres e ainda sobra para outra). Se pagasse só o 'assento' eram 20 euros.
Nesta longa espera, François e Sabine ofereceram-me comida, deram-me um banco para me sentar à sombra, deram-me uma cerveja para beber, eu dei-lhes o meu guia de África da Lonely Planet, eles ficaram muito tristes por eu ter de voltar para trás.
O táxi foi partilhado por… sete pessoas. Sete homens corpulentos metidos num carro, quatro deles atrás (onde estava eu), espremidos, sem se poderem mexer, durante quase 350 quilómetros, mais do que fazer a A1 entre Lisboa e o Porto. Foi a pior viagem da minha vida. Porque ao desalento somava-se a dor física.
A partir dos dez quilómetros a perna direita começa a ficar dormente, depois sobe pela anca até ao pescoço. Aos cem quilómetros é a planta do pé esquerdo que começa a ficar dormente e depois sobe tudo pelo corpo, como veneno de cobra a espalhar-se no sangue. Chega a uma altura em que as dores são tantas que nos habituamos a elas e se entra num estado de desespero mudo, em que se desiste de lutar e se aguenta. Só aguenta… Fecha-se os olhos para tentar dormir, mas nunca se consegue adormecer, porque a dor não deixa o cérebro sossegado. Mas fez-se a viagem e ninguém se queixou - afinal, éramos sete homens de barba rija.
Sabine e François têm quase trinta anos e vivem em Paris. Ela desenha acessórios de moda, ele está ligado à construção civil. Nas obras em França conheceu muitos emigrantes portugueses e foi graças a eles que decorou duas palavras na nossa língua, as únicas que sabe dizer: fôdásse e cárálhô. Não podia haver duas palavras melhores para acabar esta viagem.
Eu ando com muita falta de sorte e o mundo anda com muita falta de centelhas de generosidade como o François e a Sabine. Perguntaram-me se estava a fazer algum blog da viagem e disse que sim. Dei-lhes o endereço e por isso fica aqui o meu merci, ou, como eles diziam, óbrrigádô.


11 comentários:
só agora vi...:(
lamento...
mas vê o positivo da coisa: estás a dormir numa cama confortável e logo à noite bebes umas geladinhas que te vão saber ainda melhor do que se estivesses com 40 à sombra...;)
Bj
e claro falta-me acrescentar:
fôdásse e cárálhô
Comentário totalmente egoísta: estava a adorar viajar à boleia confortavelmente sentada no meu sofá!
Comentário mesmo egoista II - que bem me sabia abrir o blog...
Trocadilho estúpido I - essa desilusão há-de passar, a travessia no deserto não há-de ser longa (desculpa, mas não resisti)
Palavras de conforto e incentivo I - Respira fundo e acredita que és maior do que uma viagem por África. Segue em frente, o futuro espera-te para mais e melhor!
Gabo-te a coragem. Sozinho. Renunciando ao conforto, á segurança, á garantia de uma viagem tranquila. Mesmo que tenhas sido obrigado a regressar e te sintas frustrado. Gabo-te a coragem.
Muito corajoso até ao fim.
Continuarei a espreitar o blogue, desejosa de ler outras "viagens", na certeza de outros detalhes ainda a ser revelados.
Contagem decrescente para o Mundial ...
Voltaste??? Marca lá um café, quero saber tudo.
??
e agora estás de ressaca??
queremos posts!!!
mesmo que seja daqueles de "curtir frustração"
és bom em qualquer registo! :)
volta!volta!volta!
Tenho muita pena que não tenhas chegado ao fim. Agora só o tempo fará com que a desilusão passe (tao cliché e tão verdade).
e agora que eu ia conhecer mais alguma África sem ter de ligar a Tv... :-)
pelo menos ganhaste mais calo para a próxima aventura...
é realmente uma pena, para nós, mas sobretudo para ti.
boa sorte
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