É verdade, é uma desilusão, mas é assim. Há pouco mais de um ano que a sorte não me falha uma. Ultimamente a sorte tem tanto nojo de mim como os marroquinos têm nojo do papel higiénico. À hora a que lêem este post já estou em Lisboa. Esta grande sorte que me acompanha ultimamente levou ao cancelamento da viagem, nos moldes em que a queria fazer (sem recurso a avião). E tudo devido a dois acontecimentos dos últimos dias. Primeiro, os vistos para a Mauritânia. Segundo, o Níger.
Comecemos pelo Níger: já no fim de Marrocos tive a 'pequena' surpresa de saber que o Níger sofreu um golpe de Estado. Uns militares aborreceram-se com a situação política e tomaram o poder, sitiando a capital e decretando, entre outras coisas, recolher obrigatório na cidade e encerramento de todas as fronteiras. O Níger era fundamental na viagem, tal como a sua capital, por onde iria passar. Com o Níger fora de hipóteses, restavam-me duas alternativas. Ou contornava por cima, ou por baixo. Por cima, tinha Argélia, Líbia e Chade. Além de ser um belo trio de países simpáticos (por exemplo, deduzo que não dêem vistos assim do pé para a mão em poucos dias), teria ainda de atravessar o Saara… à boleia.
Contornar o Níger por baixo implicava passar por mais uns cinco países do que o inicialmente previsto, além de ter de atravessar a Nigéria pelo sul (já ia fazê-lo, mas numa pequena faixa do norte, mais calmo). Além de aumentar bastante o perigo, os vistos para estes países iriam fazer disparar as despesas e o tempo da viagem. Quanto ao tempo, é possível fazer o desvio e chegar à África do Sul em final de Maio, mas conduzindo um carro, o que, como sabem, não é o meu caso.
O segundo golpe de sorte que tive foi o endurecimento do Governo da Mauritânia em relação aos vistos (há uma justificação política qualquer, de que não tive paciência de ir ver qual). Depois de demorar uma desgastante semana para descer milhares de quilómetros até ao Saara Ocidental, no fim de Marrocos, quando cheguei à fronteira com a Mauritânia sou informado de que já não é possível obter o visto lá. Uma mudança ocorrida há apenas poucos dias, que me apanhou desprevenido, bem como a vários viajantes que lá estavam. Uma semana antes, passava sem problemas.
Mais perto, só havia a hipótese de tirar o visto em Las Palmas (Espanha) ou Rabat (no topo de Marrocos). De avião, ambas implicavam esgotar em apenas dois dias o orçamento de duas semanas. A Rabat podia ir de autocarro, mas gastava quase tanto dinheiro e perderia muito mais tempo, seguramente mais de uma semana, além do desgaste físico (e psicológico…) de voltar a subir Marrocos todo para depois voltar a descê-lo. Recusei-me a fazê-lo.
Obviamente que também fui um grande azelha. Podia ter tratado do visto para a Mauritânia em Lisboa. Não me custava nada, tinha tempo para o fazer. Não o fiz, porque nunca pensei que isto fosse acontecer, porque o visto para a Mauritânia na fronteira com Marrocos é um 'clássico' de facilidade em África. Na preparação da viagem, tinha tantos países e territórios perigosos para me preocupar e documentar que não liguei importância nenhuma à Mauritânia (mas se o fizesse também estava tudo desactualizado quanto ao visto...). Aquilo que me pareceu sensato, 'controlado', revelou-se um erro. Foi uma tremenda, tremenda, falta de sorte, mas foi também contar com o ovo no cu da galinha. Enfim...
Bom, com estes cenários tive de ponderar muito e decidi cancelar a viagem. Como sabem, o objectivo nunca foi o de atravessar África. Isso era o meio para chegar a um fim específico, que era (e é) o Campeonato do Mundo. Claro que poderia contornar no terreno estes dois imprevistos, mas nunca chegaria a tempo ao Mundial e iria pulverizar o orçamento que tinha. Marrocos foi difícil e mesmo assim tem boas estradas e transportes. A partir de Marrocos, a situação só iria piorar nesses aspectos. Além disso, nesta semana e meia em Marrocos constatei que o material profissional (computador e máquina fotográfica) que levava às costas dificilmente chegaria em condições à África do Sul depois de quatro meses à boleia pelo continente.
Se tivesse mais tempo (ou se tivesse carro) estaria certamente agora pela Mauritânia ou Senegal. Mas não iria (não vou) deitar fora uma acreditação para o Mundial (apesar de não estar totalmente garantida) por causa de uma aventura, atravessar África sem recurso a avião, que posso sempre fazer noutra altura. Não podendo ter as duas coisas (viagem e Mundial) ao mesmo tempo, tive de escolher uma. Optei pelo Mundial.
2 comentários:
Tenho muita, muita pena de ler este post. Eu andava a acompanhar, completamente imersa num estado misto de inveja e admiração a tua enorme aventura. Já era ritual diário vir ver as tuas fantásticas fotografias e ler os teus comentários.
Mas tenho para mim que um dia ainda farás a viagem e eu poderei acompanhar as cenas que desta vez ficaram pelas intenções.
Boa sorte... eu também não ando pródiga com isso, mas desejo-ta sinceramente!
Beijoca
tenho muita pena que tenha chegado ao fim esta primeira tentativa de realizar esta viagem... muita pena mesmo... tremenda coragem, como invejo isso...
Enviar um comentário