Domingo, 3 de Janeiro de 2010

'Uma noite cravou-lhe os dentes na carne,

mordeu-lhe o ombro até fazer sangue porque ele, já um pouco perdido, se deixou levar. Houve um pacto confuso sem palavras, Oliveira sentiu que a Maga esperava dele algo como a morte, algo nela que não era o seu eu consciente, uma forma obscura que reclamava a sua aniquilação, a estocada lenta de boca para cima que rasga as estrelas da noite e devolve o espaço às perguntas e aos terrores. Apenas dessa vez, hipnotizado como um matador mítico para quem matar é como devolver o touro ao mar e o mar ao céu, Oliveira humilhou a Maga durante uma longa noite da qual pouco falaram depois, fê-la Pasifae, virou-a e usou-a como um adolescente, explorou-a e exigiu dela a servidão da puta mais triste, elevou-a a constelação, teve-a entre os seus braços a cheirar a sangue, fê-la beber o sémen que corre pela boca como o desafio do Logos, sorveu a sombra do seu ventre e da sua anca, levando-lha à cara para untá-la de si mesma, parte última do conhecimento que só um homem pode dar a uma mulher, encheu-a de pele, cabelo, saliva e queixas, esvaziou-a até ao fim da sua magnífica força e acabou por atirá-la contra a sua almofada, sentido-a chorar de felicidade contra a sua face que um novo cigarro devolvia à noite do quarto e do hotel.'

'o jogo do mundo', julio cortázar, pág. 46

2 comentários:

Miss Complicações disse...

Muito bom.
Não conhecia.. aliás, nunca linada de Julio Cortázar.

Minha besta: Bom ano para ti ;)

eu... disse...

Estive com esse um bom bocado na mão hoje. Curiosa de ler as duas versões...

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