Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

anda cinema por aí nas esquinas,

estavam duas asas de pombo aqui num passeio, uma por cima da outra, ainda com penas, ainda frescas, arrancadas do corpo, sem o corpo, mais à frente uma tablete vazia e cor-de-rosa de pílulas atiradas ao chão, mais à frente duas miúdas a sair do talho com fiambre enrolado num papel branco, depois comeram uma fatia, junto à árvore um sapato de mulher sem par, em cima da caixa de electricidade uma torradeira, lá ao fundo um carrinho de supermercado, e o velho que pegou numa taça ao pé do lixo, eu apareço para o papel reclicado e ele vai-se embora, aliás, vai dar uma volta lá abaixo, envergonhado de mim, fui-me embora, olhei para trás e ele tinha regressado ao lixo, estava um livro num saco de jornais, tive vontade de ver que livro era mas tive vergonha de catar sacos à frente dele, e ele de mim, podíamos ter chegado a um acordo, eu vejo este saco, você vê o outro, mas somos todos orgulhosos, eu não vi que livro era, ele teve de ir dar uma volta para disfarçar, mas levou aquela taça, que parecia de prata, e parecia uma saladeira, o que sei é que há pares de sapatos deixados em cima de caixas de electricidade e no dia seguinte já não estão lá, anda aí gente de noite, anda, o que aconteceu ao pombo?, quem te cortou as asas?, de quem era o pé que apareceu numa praia?, vão por mim, meus amigos, anda cinema por aí nas esquinas, há uma janela aqui num prédio ao pé de onde sai uma planta tão grande que parece uma árvore, alguma coisa se passa naquela casa, as fatias de fiambre tinham uma cor esquisita, deviam ser de peru, o que aconteceu ao outro sapato?, e a taça que o homem levou?, taça de quê?, quem ganhou?, quem marcou?, porque a deitaram fora?, anda cinema por aí nas esquinas, olhem bem para o que vos rodeia, usem a cabeça, detenham-se nos pormenores, aprendam a olhar, exercitem a imaginação, armem-se em detectives de algibeira, detectives de lavandaria, detectives de escada, clint eastwoods de talho, peçam seis carcaças como se fossem do fbi, saiam do café como do saloon, já com o bandido morto e vocês ainda de pistola quente, olhem de baixo e de cima, puxem bem do cigarro, ajeitem a gola, olhem ao longe, fixem caras, olhem a roupa estendida nas varandas, olhem as mãos, detenham-se nas unhas, atenção aos sapatos, o que quero dizer é que, além do romantismo de vos querer fazer ver que há cinema e literatura em todas as esquinas, é que a vida, vá, a vidinha, tem de ser levada como as séries de televisão, as anotomias de grey e afins, nós temos muitos dias, trezentos e sessenta e cinco por ano, vezes uma data de anos, ou seja, temos dias a mais para viver, as pessoas que escrevem séries de televisão só têm trezes episódios, treze dias de vida, por isso é que cada episódio tem várias lições de vida, eles têm pouco tempo para desperdiçar, e têm de ser muito bons para terem segunda série de treze episódios, mais treze dias de vida, nós devíamos viver só um ano, escola até um mês, depois três meses a viajar, foder e comer, depois casar, filhos e morrer, vão ver que as coisas correm muito melhor, vão ver que as esquinas deixam de ser banais, isto não ajuda a viver, mas ajuda a suportar a vidinha, o que já é bom, aguentaram este parágrafo tão grande até aqui?, é porque são tolos, só estava a gozar com vocês, mas, agora a sério, passem lá o indicador pelo polegar, assim muito devagar, e vejam lá se não conseguem sentir, são impressões digitais, não são?, não, tolos, são dunas, a vida é isso, é o que está sub-entendido na vidinha, era isto que vos queria dizer, é óbvio que isto é pirosinho, mas tenho bom público, vocês percebem, dois mil e dez continua igual a dois mil e nove.

9 comentários:

eu... disse...

Percebi. Obrigada.

Maya disse...

Pá, como é que eu vim parar só agora aqui?, andava distraída, és bom!

Anónimo disse...

Tenho tantas saudades... bjs enormes

sunshine disse...

Deliciosamente perturbador e reconfortante. Com aquele travo intenso a carne. Profundamente "ser humano".
Profundamente vida.

Obrigada por estes meses!

Estive, estou e estarei de "Olho" nisto.

Obrigada, muito bom.

pixie disse...

o blog é um bom blog. fizeste-me lembrar o lobo antunes nos seus devaneios do quotidiano, na visão. isto era um elogio. grande. abraço.

Zé Goela disse...

igualzinho, madié

o olho disse...

pixie, meu grande maricas, quatro meses depois voltaste a comentar! o teu colega do lado, o árabe do granho, é que não há sinal de vida. mas esse é um bom pai.

abraço, compincha (é assim que se escreve?)

Gajo disse...

É pá, não é normal eu encontrar um blog escrito por um gajo normal e fixar-me na escrita. Do que vi até agora, gostei. É de gajo!

Raitxe disse...

Muito bom

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