Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

a vantagem de se estar desempregado...

... é que, em vez de um, já se consegue ler dois capítulos de um livro na casa-de-banho
... é que se deixa de comer nas máquinas automáticas e passa-se a ter uma alimentação mais cuidada,
... é que se ganha uma boa desculpa para não comprar prendas de natal, é que se pode cortar as unhas dos pés com calma,
... é que as melhores maçãs estão sempre disponíveis no pingo doce, porque quem está no desemprego vai ao pingo doce aos dias de semana, onde só apanha as velhotas, que não chegam lá acima, lá onde estão as melhores maçãs.



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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Pirata

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

Sophia, 'Obra Poética I', pág. 217

Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

que pena a segunda não estar cotada em bolsa...

com as prioridades políticas deste governo, é altamente recomendado canalizar a carteira de investimentos para acções da mota engil e da ilga.

é que a produção de sacas de cimento e de larilas vai subir em flecha em 2010.

a época dos sonsos

eu se tivesse um hipermercado também criava uma popota e uma leopoldina para dizer que parte das receitas revertiam a favor dos pobrezinhos, benditos pobrezinhos que dão tanto jeito no natal para chamar os papalvos a virem cá ao meu supermercado, que tem lucros milionários, mas que gosta muito de contar com a vossa ajuda para ser solidário, ah pois é, vejam lá tantas campanhas de solidariedade que a gente faz, ainda por cima criamos umas mascotes muito giras para as criancinhas gostarem muito delas, ah, toda a gente fica feliz, ah, gosto tanto do natal.

Duellum

Correram dois guerreiros um prò outro, as armas
Salpicaram o ar de luzes e de sangue.
Nesse jogo retinem os ferros, o alarde
Dos jovens defrontando o amor balbuciante.

Estão partidos os gládios! Pra nós, meu amor,
Findou a juventude! Mas unhas afiadas
E dentes vingarão as espadas traidoras -
- Ó corações adultos plo amor ulcerados!

Num covil frequentado por linces, leopardos,
Abraçados com fúria, caíram os heróis
E a sua pele fará florir as próprias sarças-

- Essa gruta é o inferno, onde estão os que amamos!
Desumana amazona, sem medo desçamos,
A fim de eternizar o ardor do nosso ódio!

Baudelaire, 'As Flores do Mal', pág. 113

Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Adeus, minha Fantasia!

Adeus, minha Fantasia!
Adeus querida companheira, minha amada!
Vou, mas não sei para onde vou,
Nem qual será a minha sorte, nem se alguma vez nos voltaremos a ver,
Por isso, adeus, minha Fantasia!

Agora, a minha última vontade - deixa-me olhar para trás por um instante;
Cada vez mais lento e leve o tiquetaque do relógio dentro de mim,
Retirada, anoitecer, e em breve surda palpitação que pára.

Convivemos, alegrámo-nos e consolámo-nos durante muito tempo;
Foi magnífico! - Agora separamo-nos - Adeus, minha Fantasia!

Mas não me devo apressar,
É verdade que muito convivemos, dormimos, purificámo-nos, fundimo-nos num verdadeiramente;
Então, se temos de morrer, morramos juntos (sim, continuaremos a ser um),
Se a algum lado temos de ir que o façamos juntos para enfrentar o que acontecer,
Talvez sejamos mais afortunados e felizes, e aprendamos alguma coisa,
Talvez sejas tu quem me mostra agora o caminho para os verdadeiros cantos (quem sabe?),
Talvez sejas tu quem me faz girar a maçaneta da porta mortal - por isso, finalmente,
Adeus, e boa viagem, minha Fantasia!

Walt Whitman, 'Folhas de Erva', pág. 388

Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

uma pergunta pertinente

depois de sair da fnac, desço as escadas rolantes e vai à minha frente um casal cheio de sacos nas mãos, levavam também um filho, a mãe ia à frente, o pai atrás, o miúdo, pequenino, ia no meio, e o miúdo decide então escangalhar-se nas escadas rolantes ainda elas estão direitas, logo ali no início, depois começa-se a descer e o tapete passa a escada, é quando a mãe vê o puto aos coices, agarra-lhe pela perna, o pai, que vai no degrau acima, pega no puto pela camisa e fica assim o chavalo pendurado entre o pai e a mãe, uma imagem de poucos segundos, mas magnífica, puro cinema em slow motion, excelentes imagens para aqueles vídeos de casamentos e funerais em que se faz o balanço das nossas vidas com músicas de filmes de domingo à tarde,

mas depois as calças escapam-se pelos dedos da mãe e zás, a bacia do juvenil espeta-se no bico da escada, com a queda a mão do pai descola-se da camisa, mas o pai, rapidíssimo, ainda lhe agarra num braço, isto enquanto se equilibra com os sacos que leva na outra mão, chegam então as escadas ao fim, o miúdo já de pé e a chorar, olha para cima e o pai pergunta-lhe:

então, p'ra que é que foi isso?

fui à fnac comprar dezasseis euros de agustina,

pedi depois dois quilos de philip roth, que estavam a sete e meio, olhei para o lado e reparei na esplendorosa cor do cabrera infante, pareceu-me muito fresco e mandei cortar três fatias bem gordas para fazer maminha, o que me deu uns 17 euros,

depois, peguei na carne e fui à caixa pagar, onde fui atendido por uma mulher tão gira, tão gira, tão gira, e tão competente, tão competente, tão competente, e tão boa, tão boa, tão boa, e tão amável, tão amável, tão amável, que tive umas ganas enormes de lhe dar um murro na cara.

Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

recebi isto no mail

A TUA VIDA DE ESTRELA COMEÇA AGORA
Tens aqui a tua password para aproveitares ao máximo tudo o que a comunidade Salsa Star tem para te oferecer:
Password: ******
A partir de agora já podes aceder à tua área pessoal, ver o teu perfil e consultar os teus movimentos de pontos e tudo o que fizeres com a Salsa te dá FAMA. Em breve serás contactado, para te comunicarmos as novas funcionalidades disponíveis. E, já sabes, quanto mais FAMA tiveres mais sobes nos níveis de estrelas até te tornares num cliente 5 ESTRELAS. Lembra-te também que quanto mais FAMA tiveres mais hipóteses tens de ganhar uma viagem a Los Angeles, com tudo o que uma estrela tem direito.

porque é que a salsa me trata por tu? não quero ser contactado, não quero saber as novas funcionalidades, não quero password, área pessoal, nem perfil, pontos, movimentos, ou comunidade salsa, nem da fama, muito menos da fama escrita em maiúsculas, num mail escrito numa linguagem imbecil, e também não quero saber de viagens a los angeles, a não ser que mas dêem sem me chatearem. de resto, da salsa só quero calças. queria esta deste número, posso experimentar?, vou levar, quanto é?, adeus e obrigado. não quero saber de mais,

como destas fotocopiadoras novas só quero fotocópias, simples, vou à máquina e escolho o tamanho, a cor e o número de cópias, não quero mais, mas tanto mais têm elas para dar agora...

como dos comandos só quero os botões dos canais e do som, e do ligar e desligar, e porque é que as pizzas têm tantos ingredientes diferentes, tantos tamanhos, tantas promoções e combinações de promoções? porque é que me estão sempre a perguntar se tenho cartão continente, se tenho cartão fnac, se tenho cartão disto e daquilo?, e porque é que, aqui no trabalho, quando imprimo uma coisa o computador me manda uma mensagem a dizer 'this document was sent to the printer', claro que foi, eu acabei de o mandar imprimir, eu sei que foi, qual é a necessidade de me dizerem que fiz uma coisa dois segundos depois de a fazer?,

e gostava que o computador novo que tenho em casa se limitasse a computar e que não me abrisse constantemente janelas por tudo e por nada, constantemente a avisar-me do que acabei de fazer e a alertar-me para o que de mal me pode acontecer, só queria um computador que não seja meu pai, que não me trate como uma criança, que não me peça passwords por tudo e por nada, e que não me divida em sub-computadores para diferentes utilizadores, porque é que os fabricantes de computadores supõem que a nossa vida é uma confusão e que desconfiamos de tudo e de todos, e que devemos ter os computadores protegidos, não, não desconfiamos, não, a nossa vida é simples e organizada, e se houver problemas a culpa é nossa, não se ralem connosco, somos tão crescidos, limitem-se a fazer coisas boas e simples,

porque é que toda a gente, todas as organizações, neste país e neste mundo decidiram ser uns grandessímos chatos?, não há mais ninguém que faça aquilo que sabe?, que dê aquilo que lhe pedem?, que diga aquilo que lhe perguntam?, porque é que têm que acrescentar sempre qualquer coisa mais?, porque é que complicam?, porque é que não nos deixam em paz?

antigamente o mundo era tão mais simples.

pronto, já desabafei. vou comer uma queijada de leite a ver se acalmo os nervos.

isto se conseguir discernir uma queijada de leite entra os trezentos tipos de queijadas que há agora, enfiadas entre os trezentos bolos diferentes expostos nas trezentas pastelarias que há na cidade, quem disse que a liberdade de escolha e o mercado aberto são uma libertação dos indivíduos enganou-vos muito bem, tudo isto é a morte da comunicação por excesso e não é definitivamente o fim da história que prognosticou o hegel e o palhaço do fukuyama,

porque ainda é possível o modelo utópico de só haver uma pastelaria central em lisboa com uma qualidade apenas de queijadas, ah, isso sim, seria a minha felicidade extrema, uma pastelaria no marquês de pombal, com um largozinho, umas árvores, os velhos a jogar o dominó, eu a entrar e a pedir um café e uma queijada de leite, com aquela tranquilidade serena de quem sabe que em resposta não vai ouvir o 'que queijada quer? olhe, temos aqui, fresquinhas, queijadinhas de cenourinha, de cajuzinho, de limãozinho, de leitinho, de amêndoazinha, temos ainda queijadinhas de ovozinhos, de laranjinha, de requeijãozinho, de cenourinha e de cocôzinho...', sim, é possível acreditar que isto um dia vai acabar e que vou ser feliz.

isto hoje está mau.

Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

confesso que

tinha um desejo secreto que ronaldo, queiroz e sus muchachos fossem à vida, à custa de uma nação jovem, vítima de tantos massacres recentes, mas, talvez por isso mesmo,

é-me particularmente difícil perceber como é que uma população que conquistou a sua independência à custa de tanto sangue e há tão pouco tempo se pode comportar assim em palcos onde a sua presença só é efectiva porque eles mesmo lutaram por ela e, repito, há tão pouco tempo,

devia haver, mesmo perdendo, muita alegria, entusiasmo, fervor e desportivismo, mas em vez disso houve insultos, cuspidelas e agressividade por todos os poros, por isso mudei rapidamente de desejos e torci pela eliminação desta bósnia, cujos adeptos explicaram extremamente bem porque é que os balcãs são o cancro da europa há tantos anos.

as cobras dos esgotos que jantaram com a minha coca-cola

bom, conforme recomendado por vocês em posts anteriors, lá comprei a coca-cola para desentupir o cano. fiquei foi na dúvida se a diet também servia ou não. pelo seguro, optei pela coca-cola normal. ainda olhei para a pepsi, mas eu levo muito a sério aqueles testes que fazem a diferenciar as duas. a pepsi pode, eventualmente, ser boa para o motor do carro, mas não deve ser recomendada para xarope de esgoto, como me disseram que é a coca-cola.

acho que se a pepsi desse para desentupir canos ter-me-iam feito referência expressa nesse sentido. toda a gente me disse: 'usa coca-cola'. ninguém disse coca-cola diet, nem coca-cola zero, muito menos pepsi. foi coca-cola. isto pensei eu durante milésimos de segundos enquanto escolhia a marca. ainda me debati sobre o tamanho da garrafa (ninguém me falou na quantidade...), mas não vos quero maçar mais.

diga-se, no entanto, que optei pela coca-cola apenas por uma questão económica, havia lá uma coisa mesmo própria para os canos, mas custava quatro euros, e dar quatro euros em remédio para tubos é uma coisa que me faz confusão.

achei caro porque tinha acabado de comer uma pita shoarma por cinco euros e já vinha com molho branco, batatas fritas e tudo. acaso tivesse ido jantar ao gambrinus a história seria diferente - até trazia dois frascos deste laxante desentupidor porque a gente nunca sabe o dia de amanhã.

mas como fui comer uma pita no colombo por apenas cinco euros optei por desentupir canos com coca-cola, que só me custou um euro e tal. a vida não é isto mesmo, porra? o homem é a sua circunstãncia ou não é?

ou, como dizia o kierkegaard, 'a ética não dispõe de nenhum acaso, nem de nenhum velho servo'.

vamos ver se a sabedoria popular acerta com esta coisa da coca-cola para canos. estou fisgado que sim, que as velhotas nunca se enganam nestas coisas.


ps: se algum dos meus estimados leitores for agarrado ao dinheiro e gostar de borlas, fica aqui a informação que a coca-cola que despejei no cano ontem à noite vai desaguar na praia da cruz quebrada por volta das 11h30.

ps2: a citação de kierkegaard é só para impressionar. abri ao acaso um dos livros desse esbelto dinamarquês que tenho cá em casa (o 'temor e tremor'; também tenho 'o banquete', mas não gostei do título; 'temor e tremor' pareceu-me mais indicado para canos entupidos). abri então o livro e calhou na página 111, de onde transcrevi para aqui a frase que me soou melhor.

Terça-feira, 17 de Novembro de 2009

"preciso de

acreditar que algo de extraordinário é possível."

Domingo, 15 de Novembro de 2009

a fifa acaba de suspender o maradona dois meses...

... porque, aqui há umas semanas, o maradona mandou os jornalistas chupar. não disse onde é que eles deviam ir chupar, disse-lhes simplesmente 'chupem'.

uma pessoa dizer 'chupem' é a mesma coisa que dizer 'proporcionem prazer aos outros'. ver no acto de chupar uma humilhação é uma parvoíce. nas nossas sociedades avançadas, chupar é altruismo, e sobrevivência, já agora, porque quase se pode dizer que quem não chupa não mama.

hoje toda a gente chupa e quase nunca nem é preciso pedir. faz parte. é como alguém dizer 'bom dia' e a outra pessoa responder 'bom dia'. só uma visão retrógrada é que pode permitir ver as coisas de outra forma.

ainda mais quando não se sabe onde é que o maradona mandou os jornalistas chupar. imagine-se que o maradona mandou chupar nos seios da prima. um tipo é suspenso por desejar o melhor aos outros?

o problema do maradona é que depois pediu desculpa a todas as mulheres do mundo. ou seja, denunciou-se. afinal ele estava a mandar os jornalistas chupar no pénis dele, do maradona, nos pénis dos colegas deles, ou, quanto muito, chupar nos pénis que há, hipoteticamente, na fifa. isso aí é que já não se admite.

Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

a problemática urbana do cocó de cão

tenho constatado ultimamente que parece ter-se implantado nos passeios lisboetas a actividade lúdica de certas pessoas de apanhar os cocós dos seus cães com sacos de plástico, mas tudo, diga-se, ainda muito envergonhado, com as pessoas a olhar o tipo a apanhar a poia do chão e com o cão de volta, todo pimpão (ou não tivesse acabado de se aliviar). estas cenas ainda feitas com pouca naturalidade fazem-me lembrar os primeiros tempos dos telemóveis quando alguém atendia no autocarro. bom, adiante.

antes de aflorar (por acaso vou mesmo falar de flores) o tema, devo referir que eu nunca toquei num cagalhoto de cão com as mãos, a não ser acidentalmente em brincadeiras de criança, mas foram sempre aqueles cocós já em forma de pilha alcalina, escondidos na relva, meio brancos e a desfazerem-se, ou seja, sequinhos, nem cheiro tinham.

nunca toquei com a mão num cagalhoto ainda húmido e quente, acabado de sair do recto de um pantufas, o máximo que toquei foi com a sola do sapato, que, como se sabe, é uma pele que a gente usa nos pés muito mais grossa do que a das mãos exactamente para prevenir este tipo de coisas que há nas nossas cidades. se fosse no campo, as formigas e as moscas devoravam tudo tão bem que depois lá no sítio nasciam muitos cogumelos, que as velhas apanham e usam nas compotas, agora nas cidades não há este tipo de fauna em quantidade devida.

daí que, nas cidades, os cagalhotos de cão não terem hipóteses de serem reciclados pela natureza. ou vêm os almeidas varrer ou vão agarrados nas nossas solas. o que quero aqui dizer é que esse transporte nos nossos sapatos é inútil, ao contrário do que se passa na natureza, onde, por exemplo, há o caso de algumas sementes que caem das árvores para os rios e mares e são transportadas para muito longe pelas correntes para colonizar outros sítios,

outro exemplo da natureza, que vem mais ao caso, é o daquelas plantas que abrem as pernas para serem fodidas pelos pássaros, deixam-se comer nos lupanares que montam nos galhos, ao mesmo tempo que, sub-repticiamente, injectam nos pássaros uma espécie de laxante ao retardador, os pássaros comem a flor e, umas horas depois, dão-lhes umas dores de barriga tais que cagam as sementes nos sítios para onde entretanto voaram, daí a lógica do laxante ao retardador, não fazia sentido o pássaro comer a semente e cagá-la logo ali ao lado, resumindo, o objectivo da planta é usar o sistema digestivo dos piu-pius como agente polinizador, isto aprendi tudo no bbc vida selvagem,

como os cagalhotos de cão não têm sementes é inútil o seu transporte nos nossos sapatos, ou seja, se o nosso cão se aliviou na avenida da liberdade não vale a pena limpar a sola no rossio porque não vai nascer lá nenhuma árvore de fruto. portanto, é inútil pisar merda de cão, além de que não cheira bem nem dá bom aspecto.

eu aprovo bastante esta técnica de levar o cão à rua e o dono apanhar-lhe o cocó, o que não deixa de ser irónico sobre o papel do homem, supostamente o chefe do cão, ou seja, o homem passou a ser o melhor amigo do cão e não o contrário, como se ensinava às crianças, eu se tivesse um tipo a apanhar-me os cagalhotos também o designaria de meu melhor amigo.

o que me faz impressão é que os saquinhos que os lisboetas andam a usar serem aqueles normalíssimos, que usamos no supermercado para meter as laranjas e os pimentos, aqueles saquinhos muito fininhos e transparentes.

então, o cão expulsa a sua poia e o dono agacha-se e vai lá com a mão enfiada no saquinho, agarra no cagalhoto, aconchega-o com a mão, sente-lhe o calor, tentando não o esborrachar, e zás, está pescado. isto parece-me um nojo. é óbvio que entre o cagalhoto e a mão há a intermediação do saco, mas, atendendo a que estes sacos são tão fininhos... aliás, estou a escrever isto e está-me a vir ao nariz o cheiro a merda, se bem que, diga-se, por trás desta capa de durão, eu sou um grande sentimental e tenho um forte impulso paternal,

se um dia tiver um cão, vou naturalmente repetir o ritual do saquinho, mas não farei como estes lisboetas insensíveis, à procura do caixote de lixo mais próximo assim que pegam no excremento, eu farei isso também, mas antes vou olhar para dentro do saco e vou analisar o cocó, dando-lhe também um ligeiro aperto com os dedos, tudo para aquilatar da saúde do meu bóbi, afinal era assim que a minha mãe fazia quando me assoava, olhava sempre para a cor e para a consistência do meu ranho, e como eu posso dizer que fui bem educado pela minha mãezinha, vou aplicar a mesma receita quando tiver um cão, porque a saúde do nosso corpo reflecte-se sempre na merda que dele expulsamos.

Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

a vida na cidade tem tanta tensão como um western spaghetti

vou-me entretendo com isto, com os suspenses, aqueles segundos em que estamos ali no limiar entre a normalidade e bestialidade, com o pé em cima de parapeito.

à tarde, estava eu a fumar na rua e veio ter comigo um senhor, aliás chamou-me, porque ele mal podia andar, de bengala e saco na mão, olhos muito abertos, sem dentes na frente, cabelo desarrumado, ar de vagabundo, deu logo nas vistas, havia várias pessoas a fumar e como me chamou senti-me logo observado por todos, como quem entra numa sala de espera, estava, portanto, em plena actuação no palco. pergunta-me ele, bem alto

- posso-lhe pedir um favor?
- pode.
- se for preciso eu pago pelo favor...

(é um louco ou não é um louco? vou ter aqui um filme à frente do trabalho ou não? o suspense é isto, a tensão. é aqui que o pé assenta no parapeito)

- não precisa de pagar... (ri-me)
- (ri-se) é que queria pedir-lhe um cigarro, por favor...
- desculpe... só tenho este.
- ah, não faz mal. obrigado na mesma, jovem.

e foi-se embora.

à noite, na fnac, estou ao balcão, peço uma queijada de leite e um café. só havia uma queijada. o empregado não a tirou logo. foi tirar o café primeiro. enquanto isso, chega um homem, a falar à fanhoso, 'ignora' que estou à frente dele e pergunta bem alto, como um louco

- esta queijada é de leite?
- é (responde o empregado).
- ok, é isso mesmo.

entretanto, o empregado tira o café, vai buscar um prato, tira a queijada, põe-a no prato e dá-ma.

(o pé volta, então, ao precipício. afinal, a única queijada vai para mim. o louco vai reagir? vai armar confusão? vai tirar satisfações?)

o empregado regista, diz-me quanto é, pago, espero pelo troco e levo o café e a queijada num tabuleiro para a mesa. estes procedimentos todos e eu à espera do ataque iminente, do louco, que sentia atrás de mim. mas não oiço nada. deve ter escolhido outra coisa.

prevenido, nestas duas situações de tensão pus a mão direita no fundo das costas. mas, felizmente, em nenhuma delas tive necessidade de sacar da pistola.

Domingo, 8 de Novembro de 2009

declaração de interesses

ontem estive no bairro alto a tomar um copo à porta de um bar gay. se alguém me viu lá, é para saber que não sou sócio do estabelecimento, não tenho conta aberta ao balcão, não conhecia nenhum dos presentes, nem sabia sequer que se faziam gays em portugal, quanto mais que havia bares de gays.

Sábado, 7 de Novembro de 2009

ao t. e à t.

gostei muito daqueles dez minutos no carro, só os três, outra vez juntos, ontem à noite íamos a ouvir a nova dos muse

como há dez anos ouvíamos outras coisas, ontem matei muitas saudades dos tempos em que éramos patetas assim, gostei muito, eu estava no banco de trás, mas estava-me a rir baixinho, não sei se perceberam, e durante dez minutos estive calmo e feliz outra vez, era só para vos dizer isso, que gosto de vocês à brava.

Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

desabafo

petições para isto, campanhas para aquilo, donativos para isto, cordões humanos para aquilo, cancros da mama, fome, pobreza, necessitados, blá, blá, blá...

... há duas semanas que os packs de seis minis da super bock estão esgotados no pingo doce e ninguém protesta, ninguém faz nada, como é que querem que o país vá pr'à frente?

a solidão é isto

apetecia-me mandar alguém para a puta que o pariu, mas agora não tenho aqui ninguém a jeito.

bons tempos

há cerca de 2200 anos, as tropas cartaginesas do temível aníbal, rei e senhor da ibéria na altura, fizeram desembarcar 24 elefantes de guerra em portimão, vindos directamente de barco do norte de áfrica. o objectivo: derrotar roma.

A propósito de António Sérgio

A morte de alguém que é uma referência da geração que está à minha frente desperta-me um certo sentimento de pesar genuíno, porque sempre é um ser humano que morre, mas é um pesar cínico, não porque tenha algum sentimento sádico de desejar o mal aos outros, mas porque sou uma máquina de competição e de dominância, mal de que sofrem todos os bichos e plantas, das ervas daninhas às sequóias,

a minha geração luta pelo seu lugar, com um olho virado para trás, de medo de ser ultrapassado pelos mais novos, e outro virado para a frente, à espera que a ordem natural das coisas definhe os mais velhos e que nós lhes tomemos o lugar,

daí que a morte dos seus ídolos, das suas referências, é encarada meramente como política, baixa política, realpolitik se quiserem, é sinal de que a geração à minha frente está a ficar sem os seus trunfos, sem forças, é sinal de que está a chegar a nossa hora, obrigado pelo que nos ensinaram, mas saiam da frente que nós estamos aqui, fortes e pujantes, também temos os nossos Antónios Sérgios, não nos digam que antigamente é que era bom, agora é que é,

não nos perguntem é no quê.

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