Naquela altura, há vinte anos, eu ia ao Estádio da Luz ver o Benfica e nunca pagava, porque jogava nos iniciados de um clube de bairro e tinha um cartão que dava para ir até ao terceiro anel, ou então entrava com o meu pai, que levava sempre uma almofada para pôr debaixo do rabo, fizesse chuva ou sol, não é bem uma almofada, se há pessoas crescidas a ler isto sabem do que estou a falar, se não perguntem aos vossos pais o que são as almofadas que antigamente se levavam para a bola,
naquela altura, também não pagava quando decidia alugar um pai que não conhecia de lado nenhum, punha-me à volta do estádio, escolhia um pai com cara de simpático e perguntava posso entrar consigo?, como se fosse seu filho, isto porque naquela altura as crianças não pagavam se estivessem acompanhadas dos pais, e havia sempre um senhor simpático que me deixava ser filho dele, e então eu entrava com o meu pai e depois de passar os portões dizia obrigado e passava a ser órfão outra vez, de língua de fora a subir as escadas até entrar naquelas bocas para o anfiteatro das bancadas, onde o estádio se abria sempre todo aos meus olhos, a receber-me como um filho, como se fosse a primeira vez, ainda hoje é assim, ainda hoje a entrada no estádio é como se estivesse a entrar num mundo encantado, eu sei que isto é tolice, mas o futebol é assim mesmo, o sítio onde vamos para ser como os tolos,
naquela altura, ocorria muitas vezes o fenómeno de haver mais espectadores do que lugares, vi muitos jogos no colo do meu pai, principalmente contra o sporting ou o porto, que são os nossos rivais, de tal modo que escrevo o nome deles em minúsculas, às vezes estava tão cheio o estádio que nas saídas e entradas lembro-me de olhar para cima e ver as pessoas crescidas a entalarem-me muito e o meu pai a dizer cuidado que está aqui uma criança, o que era uma pena mesmo era estar sempre esganado de fome e ter vergonha de pedir para comer umas queijadinhas de sintra, que eram vendidas por uns senhores de boné,
naquela altura, comprávamos os bilhetes para o anel que queríamos e o lugar era onde houvesse uma nesga, ao contrário dos cinemas da altura, em que tínhamos o lugar marcado, agora é ao contrário, no cinema ficamos onde quisermos e, no estádio, para ver os cabelos ao vento do Aimar é como se fosse cinema,
naquela altura, quando uma parte do estádio enchia podíamos saltar a vedação e ir para outra, lembro-me de mim em puto de dez, onze anos, a subir ao parapeito do estádio, olhava muito lá para baixo e estava a quarenta metros da rua, um perigo tamanho, o coração saltava-me todo mas eu não podia pensar em agarrá-lo porque tinha as mãos ocupadas com a vedação, punha um pé num sector, arqueava a barriga e saltava para o outro lado, muitas vezes os parapeitos tinham uma espécie de pregos e eu muitas vezes aleijava mesmo os pés, que ainda eram pezinhos, se é que me desculpam o parêntesis, mas tudo se fazia para ver o Magnusson e o Valdo, o Silvino e o Diamantino, o Rui Águas e o Manniche, o Bento e o Nené, o Mozer e o Ricardo,
naquela altura, não havia cheerleaders, nem águias a voar, não havia seguranças a pôr o bilhete numa máquina, entrava-se por uma porta muito estreita, em puto entrava bem, conforme fui crescendo tive de começar a rodar o corpo para passar, naquela altura não havia adeptos de fato e gravata como há tantos hoje, acabados de sair dos empregos nos bancos e nos escritórios, até porque naquela altura o Benfica jogava aos domingos às três da tarde e nós vínhamos de t-shirt e calças de ganga, e fazíamos uma coisa que já não se faz, que é toda a gente bater com os dois pés no chão, assim muito depressa, era uma espécie de terramoto, nunca percebi bem a ideia, seria talvez para meter medo aos outros, o que sei é que não houve uma única vez que não ficasse com pavor que o estádio caísse, é hoje que isto vai abaixo, pensava eu, e foi mesmo, o meu Estádio da Luz foi ao chão por causa do progresso e das coisas novas,
mas há coisas que nunca mudam, esta semana vi coisas na Luz que ainda me lembram os meus tempos de miúdo, o Benfica voltou a ser um monstro avassalador de sangue, o árbitro continua a ser o ladrão, ainda há gente que grita remata com força!, assim mesmo, entre o conselho de um amigo e a ordem, ainda se vê a nuvem de fumo dos cigarros a subir toda lânguida pelas bancadas, ainda há os couratos e as bifanas a soprarem na grelha, naquela altura atafulhavam-se em barraquinhas ao lado dos cachecóis, hoje é em roulottes topo de gama com televisão a cores, mas o tempero, isso garanto-vos, ainda é o mesmo, ainda há senhores a vender queijadinhas de sintra e a chatear-nos quando nos pedem para passar, mas agora usam crachás com nome e fotografia,
ainda nos levantamos quando o da frente se levanta e ficamos a contar que o que está atrás de nós se levante também, ainda se grita a este jogador passa a bola àquele, ainda fazemos assim com o braço a dizer-lhe como é que devias ter rematado, como se tu ouvisses alguma coisa aí em baixo, ainda se conversa com o tipo do lado, que no final do jogo já não é um tipo qualquer, é um porreiraço, no fundo tudo pode ser novo e moderno, mas as coisas irracionais ainda lá estão, suponho que com os outros clubes também seja assim, mas com o Benfica é diferente, não venham dizer que não é, porque senão temos aqui zaragata, ah, tantas zaragatas que havia naquela altura...
Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
Terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Post sofrível
Vou à casa de banho lavar as mãos e a casota do lado direito está fechada com alguém lá dentro. Na da esquerda também. De repente, oiço da direita:
- Puuuhhh! Pu!
Silêncio. Um minuto depois, vindo da esquerda:
- Paahh! Bruurr! Puuh!
Como nunca me meto em discussões onde não sou chamado, sequei as mãos e saí discretamente.
- Puuuhhh! Pu!
Silêncio. Um minuto depois, vindo da esquerda:
- Paahh! Bruurr! Puuh!
Como nunca me meto em discussões onde não sou chamado, sequei as mãos e saí discretamente.
Domingo, 25 de Outubro de 2009
A problemática dos jeans de homem em sociedades avançadas
Os jovens machos que vivem em países do primeiro mundo não têm os dramas dos que vivem no terceiro, não se preocupam com a fome, a guerra, a pobreza, os esgotos, os direitos, a liberdade, a tropa obrigatória, a falta de água potável, os bairros de lata, os roubos, misérias, cheiros e horrores. O que nos preocupa são outro tipo de tragédias, como ir ao dentista, cortar o cabelo ou comprar jeans, actividade a que me tenho dedicado desgraçadamente nos últimos dias.
A verdadeira chatice de comprar jeans é que parece que quem escolhe somos nós, mas não somos. Só parece. É a mesma coisa com os deputados, o presidente da república e os presidentes da junta. Somos nós que os escolhemos, mas eles foram previamente escolhidos pelos partidos. Escolhemos aquilo que antes foi escolhido por outros, sob critérios que desconhecemos.
Coisa parecida com os jeans, porque só escolhemos o que alguém desenhou antes, fazendo estes "artistas" inúmeros modelos para nos darem a ilusão de que somos livres na escolha. Dirão que sempre foi assim (pelo menos desde que os alfaiates passaram a museu e a reportagens de 15 páginas na Notícias Magazine), e devem estar correctos. Acontece que, julgo eu, antigamente a roupa de homem era desenhada por homens, parecia de homem, ou pelo menos o conceito de homem era bem menos lato do que é agora.
Com a invasão dos gays nos circuitos de moda, as coisas mudaram um pouco. Produtos que antes eram de senhora, passaram a ser usados por homens. Repare-se nos brincos: os gays começaram a usá-los e anos depois chegaram aos homens de barba rija. É o que vai acontecer com as malas. Basta andar por Lisboa para se verem já meia dúzia de larilas (e alguns metrossexuais) com elas pela mão - daqui a uns anos também estas malas de senhora (mas que as gajas e os maricas que escrevem nas revistas de moda chamam de "malas de homem") chegarão às mãos de grandes mother fuckers que eu admiro como o Petit ou o Sébastian Chabal. Isto parece-me uma tragédia.
A verdadeira chatice de comprar jeans é que parece que quem escolhe somos nós, mas não somos. Só parece. É a mesma coisa com os deputados, o presidente da república e os presidentes da junta. Somos nós que os escolhemos, mas eles foram previamente escolhidos pelos partidos. Escolhemos aquilo que antes foi escolhido por outros, sob critérios que desconhecemos.
Coisa parecida com os jeans, porque só escolhemos o que alguém desenhou antes, fazendo estes "artistas" inúmeros modelos para nos darem a ilusão de que somos livres na escolha. Dirão que sempre foi assim (pelo menos desde que os alfaiates passaram a museu e a reportagens de 15 páginas na Notícias Magazine), e devem estar correctos. Acontece que, julgo eu, antigamente a roupa de homem era desenhada por homens, parecia de homem, ou pelo menos o conceito de homem era bem menos lato do que é agora.
Com a invasão dos gays nos circuitos de moda, as coisas mudaram um pouco. Produtos que antes eram de senhora, passaram a ser usados por homens. Repare-se nos brincos: os gays começaram a usá-los e anos depois chegaram aos homens de barba rija. É o que vai acontecer com as malas. Basta andar por Lisboa para se verem já meia dúzia de larilas (e alguns metrossexuais) com elas pela mão - daqui a uns anos também estas malas de senhora (mas que as gajas e os maricas que escrevem nas revistas de moda chamam de "malas de homem") chegarão às mãos de grandes mother fuckers que eu admiro como o Petit ou o Sébastian Chabal. Isto parece-me uma tragédia.
Ou seja, o lobby gay do continente de que fala Alberto João Jardim tem alguma razão de ser. Alguma, não toda. Eu não quero saber se o tipo que governa a cidade, se este ou aquele deputado, se este ou aquele advogado, se o padeiro ou o talhante são, ou não, mariconços. Não me interessa. Agora, se o lobby gay invadiu as fábricas de jeans, aí temos um problema - na medida em que um larilas tem tendência, no exercício da sua função sindical de larilas, a fazer paneleirices.
Logo, como a escolha dos jeans nunca é, tal como acontece com os deputados, uma escolha livre, se são só os larilas a desenhá-las estamos bem fodidos, porque ou vamos comprar calças às feiras da província e à C&A (duas opções que só desejo aos meus inimigos), ou andamos aí vestidos com jeans larilas, e eu bem olho para a triste figura que os meus camaradas homens andam a fazer... Mas se lhes perguntarem se gostam destas calças amaricadas, elas dizem que adoram, são fashion e o caralho. Quando oiço isto só me apetece fazer uma alegoria tipo Ensaio Sobre a Cegueira.
Há duas ou três marcas que são excepções, como a Levi's ou a Benetton, por exemplo, não fosse o óbice de cada par de calças nestes entrepostos custar aí uns 100 euros. Ou seja, os jeans de homem estão tão raros que andam ao nível de produto de luxo, ou pelo menos fora do alcance massificado dos homens comuns que não ganham fortunas por mês. Resta-lhes, então, lojas de centros comerciais como a Pull&Bear, Zara, Springfield ou Bershka, onde campeiam a 25 euros (valor que nem dá para ir às meninas) os belos jeans 3 em 1: larilas, chungas e bimbos. Não é por acaso, tem tudo a ver com subsconsciente e o negócio: são larilas porque são larilas quem os desenha (aposto eu) e são chungas e bimbos para satisfazer o gigantesco nicho de mercado chunga e bimbo que gravita por cá.
Atenção, que eu não tenho nada contra a paneleiragem, entenda-se, por favor não me chamem homofóbico outra vez. Tem é de se ter cuidado com as pessoas que desenham os jeans que andamos a vestir. Porque o gay é (desculpem a concisão do argumento) uma gaja em corpo de homem, e isso tem necessariamente consequências na maneira como pensa, age e cria. Jeans de homem, por exemplo.
Há duas ou três marcas que são excepções, como a Levi's ou a Benetton, por exemplo, não fosse o óbice de cada par de calças nestes entrepostos custar aí uns 100 euros. Ou seja, os jeans de homem estão tão raros que andam ao nível de produto de luxo, ou pelo menos fora do alcance massificado dos homens comuns que não ganham fortunas por mês. Resta-lhes, então, lojas de centros comerciais como a Pull&Bear, Zara, Springfield ou Bershka, onde campeiam a 25 euros (valor que nem dá para ir às meninas) os belos jeans 3 em 1: larilas, chungas e bimbos. Não é por acaso, tem tudo a ver com subsconsciente e o negócio: são larilas porque são larilas quem os desenha (aposto eu) e são chungas e bimbos para satisfazer o gigantesco nicho de mercado chunga e bimbo que gravita por cá.
Atenção, que eu não tenho nada contra a paneleiragem, entenda-se, por favor não me chamem homofóbico outra vez. Tem é de se ter cuidado com as pessoas que desenham os jeans que andamos a vestir. Porque o gay é (desculpem a concisão do argumento) uma gaja em corpo de homem, e isso tem necessariamente consequências na maneira como pensa, age e cria. Jeans de homem, por exemplo.
Rasgões, desenhos, bainhas viradas, envelhecimento simulado, dobras simuladas, nódoas simuladas, salpicos de tinta simulados, correntes atreladas, bolsos semi-ortogonais, bolsos descaídos, bolsos invertidos, buracos, cintura descaída, desenhos florais, cores desbotadas, costuras nos joelhos, costuras pelas coxas, bom...
... isto tudo era para dizer que o que queria mesmo era uns jeans de homem a sério. Queria comprar uns jeans fortes e com personalidade, robustos e másculos, clássicos e elegantes, depois vesti-los, passar na rua e as pessoas pararem, deliciadas, a dizer:
- Diabos me levem se não é um homem que ali vai!
- Diabos me levem se não é um homem que ali vai!
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Conversa
Agora com o tempo frio o metro ligou o ar condicionado no quente, uma pessoa está na rua e quando começa a descer as escadas leva com um bafo abrasivo, parece que estamos a entrar na boca de um bicho muito grande, ainda por cima a entrada do metro é mesmo uma entrada, tipo uma boca, ah, ah, ah... vou-te comer!
Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
Cinco minutos de fé
Como o edifício onde trabalho é alto e fica virado para poente, a partir do meio dia as janelas estão todas corridas por causa do sol a bater de frente. Ficamos, portanto, todos abrigados da luz e do calor.
Mas entre as 16:47 e as 16:52 os raios de sol conseguem passar naquele intervalo de um centímetro que há aqui entre os estores, eu sei a hora e os minutos exactos porque o sol bate-me mesmo nos olhos, parece uma coisa espiritual, um chamamento divino, ou uma exortação, uma coisa do género:
- Vá, meu grande filho da puta, levanta-te daí e vai-te embora.
Mas, como demoro mais de cinco minutos a decidir, os raios de sol entretanto passam e acabo por ficar.
Mas entre as 16:47 e as 16:52 os raios de sol conseguem passar naquele intervalo de um centímetro que há aqui entre os estores, eu sei a hora e os minutos exactos porque o sol bate-me mesmo nos olhos, parece uma coisa espiritual, um chamamento divino, ou uma exortação, uma coisa do género:
- Vá, meu grande filho da puta, levanta-te daí e vai-te embora.
Mas, como demoro mais de cinco minutos a decidir, os raios de sol entretanto passam e acabo por ficar.
Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
Sinestesia
"Vou comer a minha bola de berlim", disse alguém aqui.
E imediatamente me passou a meninice toda pelo nariz, assim como uma aragem, de tão longe que ela já está, nada de muito forte, mas ainda assim uma aragem a açúcar e a creme caseiro, e a seguir vieram as aragens todas, da escola, dos livros e dos lápis, dos afias e das futeboladas, uma infância toda que passa assim pelo nariz resumida em segundos, rápida e leve, sobe ao cérebro e desce às mãos para vos escrever aqui que, em tempos idos de puto, andava muitas vezes com a boca cheia de grãos de açúcar e que atacava o creme com o mesmo dedo com que depois pedia à professora para falar.
Bastou alguém falar em bola de berlim.
E imediatamente me passou a meninice toda pelo nariz, assim como uma aragem, de tão longe que ela já está, nada de muito forte, mas ainda assim uma aragem a açúcar e a creme caseiro, e a seguir vieram as aragens todas, da escola, dos livros e dos lápis, dos afias e das futeboladas, uma infância toda que passa assim pelo nariz resumida em segundos, rápida e leve, sobe ao cérebro e desce às mãos para vos escrever aqui que, em tempos idos de puto, andava muitas vezes com a boca cheia de grãos de açúcar e que atacava o creme com o mesmo dedo com que depois pedia à professora para falar.
Bastou alguém falar em bola de berlim.
Terça-feira, 13 de Outubro de 2009
Domingo, 11 de Outubro de 2009
Desculpa, mas não te vou dizer isso...
Sempre disse que voto à direita, mais especificamente no PSD. Mas isso não faz de mim um militante do PSD. Apenas voto PSD. Só isso. E quando não gosto do candidato laranja (coisa que tem acontecido muito ultimamente...), ou voto em branco ou voto noutro lado. Digo isto com a mesma naturalidade com que assumo que adoro amêijoas à bulhão pato.
Este ano tem havido muitas eleições, muitas oportunidades portanto para assistir a um fenómeno curioso, e muito típico por cá, que é o de as pessoas não dizerem em quem votam.
- Votas em quem?
- Desculpa, mas não te vou dizer isso...
- Porquê?
- O voto é secreto...
Ah, o voto é secreto! Ou seja, aquilo que numa situação normal seria a assumpção saudável e despretenciosa de uma visão política da sociedade e do que o cidadão acha ou deseja que seja o futuro da mesma, em Portugal o sentido de voto entra no domínio da intimidade mais secreta.
- És de que clube?
- Do Benfica! Até os meus filhos pequenos já são!
- Gostas de couve-flor?
- Como, mas prefiro couve-lombarda.
- Qual é a tua cor preferida?
- Depende das estações. Gosto muito de azulinho no Verão. No Inverno é mais verde escuro.
- Ouve lá, tu dás traques quando estás sozinho em casa?
- Eh, pá, desculpa, mas não te vou dizer isso...
- E babas-te na alfomada?
- Desculpa, mas não te vou dizer isso...
- Votas em quem?
- Desculpa, mas também não te vou dizer isso...
Não se trata de associar o voto à intimidade quase escatológica, entenda-se. Está na mesma onda, mas é outra coisa. Pode ser ignorância (votam naquele mas depois não sabem explicar porquê) ou vergonha (eu, por exemplo, votei PP nestas Legislativas e, aos olhos dos que me rodeavam, parece que tinha peste bubónica). Mas não é bem por aí.
Esta postura é típica de uma sociedade que vive das cunhas e, principalmente, da mania da perseguição. Um tipo que assume votar num partido (acha que) fica automaticamente rotulado e nunca se sabe se um dia não vai ser prejudicado por isso, mesmo que a pessoa em causa seja um zé ninguém.
O sistema, o tão falado sistema, está impregnado na pele do português como o sangue que lhe corre nas veias. Por isso, não gosta de se comprometer sobre o partido em que vota. Nunca se sabe o dia de amanhã (grande frase inventada pelos portugueses), seja no local de trabalho, no condomínio do prédio, nas finanças ou a comprar borrego no talho.
Este ano tem havido muitas eleições, muitas oportunidades portanto para assistir a um fenómeno curioso, e muito típico por cá, que é o de as pessoas não dizerem em quem votam.
- Votas em quem?
- Desculpa, mas não te vou dizer isso...
- Porquê?
- O voto é secreto...
Ah, o voto é secreto! Ou seja, aquilo que numa situação normal seria a assumpção saudável e despretenciosa de uma visão política da sociedade e do que o cidadão acha ou deseja que seja o futuro da mesma, em Portugal o sentido de voto entra no domínio da intimidade mais secreta.
- És de que clube?
- Do Benfica! Até os meus filhos pequenos já são!
- Gostas de couve-flor?
- Como, mas prefiro couve-lombarda.
- Qual é a tua cor preferida?
- Depende das estações. Gosto muito de azulinho no Verão. No Inverno é mais verde escuro.
- Ouve lá, tu dás traques quando estás sozinho em casa?
- Eh, pá, desculpa, mas não te vou dizer isso...
- E babas-te na alfomada?
- Desculpa, mas não te vou dizer isso...
- Votas em quem?
- Desculpa, mas também não te vou dizer isso...
Não se trata de associar o voto à intimidade quase escatológica, entenda-se. Está na mesma onda, mas é outra coisa. Pode ser ignorância (votam naquele mas depois não sabem explicar porquê) ou vergonha (eu, por exemplo, votei PP nestas Legislativas e, aos olhos dos que me rodeavam, parece que tinha peste bubónica). Mas não é bem por aí.
Esta postura é típica de uma sociedade que vive das cunhas e, principalmente, da mania da perseguição. Um tipo que assume votar num partido (acha que) fica automaticamente rotulado e nunca se sabe se um dia não vai ser prejudicado por isso, mesmo que a pessoa em causa seja um zé ninguém.
O sistema, o tão falado sistema, está impregnado na pele do português como o sangue que lhe corre nas veias. Por isso, não gosta de se comprometer sobre o partido em que vota. Nunca se sabe o dia de amanhã (grande frase inventada pelos portugueses), seja no local de trabalho, no condomínio do prédio, nas finanças ou a comprar borrego no talho.
Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
Chuva
Ontem começou a chover e várias coisas mudaram, vou-vos dar dois exemplos, primeiro as janelas já correm melhor, depois sentaram-se três pombos aqui num candeeiro, uma coisa tipo vida social de final de tarde, meia hora de conversa e vão dois à sua vida, fica um, o dono do candeeiro, começa-se a catar todo, com a cabeça a dobrar como uma mola, assim como fazem os gatos, começa a chuviscar e o pombo, no seu à vontade de macho a viver sozinho, decidiu tomar banho à vista de toda a gente, começou a levantar a asa para a chuva lhe molhar o sovaco, depois enfiou a cabeça lá dentro para esfregar com o bico, levantou a outra asa e fez o mesmo, tirei umas fotos e tudo, um dia mostro aqui, tinha outras coisas para dizer sobre a chuva, mas acho melhor estar quieto, aliás, ando um bocado farto destes posts patetas.
Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
"Data", Sophia de Mello Breyner Andresen
"
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo de ameaça
"
Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
Eu não tenho Facebook, não vou ter, não sei como funciona, não me interessa. Mesmo essa história de servir para o engate, é-me mais ou menos indiferente. Aprecio ver esta gente a engatar-se no Facebook da mesma forma que aprecio ver um galo atrás de uma galinha, como vi ontem ali ao pé do Marquês de Pombal (tirei uma foto com o telemóvel, mas não ficou muito boa). Ou seja, espécies com vontade de acasalar sempre houve e haverá, muda apenas o local e o método. E são precisamente essas variantes que me interessam, mas apenas, sublinho, no sentido zoológico do termo.
Mas parece que a finalidade do Facebook, disseram-me e li por aí, é poder ser um instrumento útil de trabalho. O que venho aqui dizer é que tenho constatado à minha volta nos últimos meses que essa designação é imprecisa. O Facebook não é um instrumento útil de trabalho. É um instrumento útil no trabalho. Porque enquanto se está no Facebook não se está a trabalhar.
Aí é que está o meu problema com o Facebook. É que engatar machos e fêmeas é uma ciência social, ou seja, o interesse está na sua não-precisão. Usar o Facebook (ou outra coisa qualquer) para não trabalhar é uma ciência exacta praticada há milénios pelos incompetentes e mandriões, pelos desmotivados da vida e pelos diminuídos. Eu adoro estes espécimes, atenção, mas odeio ciências exactas.
Daí o meu pedido. Trabalhem muito nos vossos empregos e usem o Facebook apenas para satisfazerem as vossas necessidades fisiológicas de animais. Isso eu apoio. Os risos, o cio, as fotos, os comentários, a excitação, as mentirinhas, os amigos, a ilusão, a ira, a tristeza, a vaidade, a recusa, a inveja e, acima de tudo, o entusiasmo pré-ejaculatório da fêmea e do macho, tudo isso acho maravilhoso e tudo isso o Facebook proporciona. Ah, se não fosse o líquido pré-ejaculatório não haveria romance, e depois eu ia falar de quê, que livros leria, que filmes se fariam, que seria de mim?
Mas parece que a finalidade do Facebook, disseram-me e li por aí, é poder ser um instrumento útil de trabalho. O que venho aqui dizer é que tenho constatado à minha volta nos últimos meses que essa designação é imprecisa. O Facebook não é um instrumento útil de trabalho. É um instrumento útil no trabalho. Porque enquanto se está no Facebook não se está a trabalhar.
Aí é que está o meu problema com o Facebook. É que engatar machos e fêmeas é uma ciência social, ou seja, o interesse está na sua não-precisão. Usar o Facebook (ou outra coisa qualquer) para não trabalhar é uma ciência exacta praticada há milénios pelos incompetentes e mandriões, pelos desmotivados da vida e pelos diminuídos. Eu adoro estes espécimes, atenção, mas odeio ciências exactas.
Daí o meu pedido. Trabalhem muito nos vossos empregos e usem o Facebook apenas para satisfazerem as vossas necessidades fisiológicas de animais. Isso eu apoio. Os risos, o cio, as fotos, os comentários, a excitação, as mentirinhas, os amigos, a ilusão, a ira, a tristeza, a vaidade, a recusa, a inveja e, acima de tudo, o entusiasmo pré-ejaculatório da fêmea e do macho, tudo isso acho maravilhoso e tudo isso o Facebook proporciona. Ah, se não fosse o líquido pré-ejaculatório não haveria romance, e depois eu ia falar de quê, que livros leria, que filmes se fariam, que seria de mim?
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