Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Informações úteis

Fui fumar e estava um senhor a ler O Jogo, que folheava com um sopro, juntava a página que estava a ler com a seguinte e soprava no meio, soprou quatro vezes enquanto fumei o cigarro.

Informações úteis

Diálogo matinal entre dois colegas hoje:

- Baixa a bolinha...
- Baixa a bolinha o quê?
- Baixa a bolinha...
- Baixa a bolinha o quê?
- Vai pró caralho!
- Vai tu! Vai-ta foder!

Quinta-feira, 30 de Julho de 2009

Informações úteis

Hoje o meu director demissionário acabou de arrumar o gabinete, despediu-se das pessoas, inclusive de mim, deu-me um aperto de mão tão forte que tive necessidade de lhe dizer que a gente vê-se por aí, que é como quem diz não me estejas a apertar a mão assim porque ninguém vai morrer.

Informações úteis

Ontem fui fumar e estava uma rapariga sentada num degrau com uma saia branca muito curta, com as pernas semi-abertas, via-se as cuecas, que eram pretas, e as pernas, que não tinham celulite.

Portas de Santo Antão, Lisboa, junto ao Coliseu e ao Politeama, com os Restauradores e o D. Maria II lá por trás

Sugestão: a não ser que queiram comprar uns quilos de artesanto africano, haxixe, flores, mais artesanato africano, mais flores, cigarros, bandeletes com luzes, bonecos a pilhas e cocaína não se sentem numa das pontas destes restaurantes. É só um conselho.

Segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Parêntesis

Hoje, dez da noite, saio do metro e vou em direcção à praça de táxis, como sempre sou estudado de alto a baixo pelo taxista, tento o ar mais inocente do mundo, se tenho as mãos nos bolsos, tiro, não vá ele pensar que estou a esconder a faca, se vou com uma revista debaixo do braço, abro-a, assim o suficiente para ele perceber que não tenho a pistola lá encondida, o casting corre sempre bem, mas mesmo assim, quando ele arranca e olha para os colegas fico sempre com a ideia que fez um sinal com os olhos, “chamem a guarda, que este gajo vai-me naifar”, adiante,

isto para dizer que ia a aproximar-me do carro e a tentar perceber o motorista, que eu também estudo os tipos, e este não estava a ver, também era de noite, mas não estava a ver, só quando chego mesmo ao pé é que o vejo assim de relance, entro e vejo que não era um homem, era uma mulher, vi logo que ia ter festa,

ela estava ao telefone, assim que abro a porta vira a cara, o corpo dela responde ao movimento da cabeça e também vira, e depois abre muito os olhos, assento o rabo e sinto-lhe os olhos, olho para ela e só vejo olhos, ponho a outra perna para dentro e sinto os olhos, fecho a porta e os olhos..., grandes, pretos, banais, olhos de carneiro, olhos de sebo, olhos de cigarro, olhos grandes, gordos, grotescos, esboço o sorriso e ela nada, só os olhos, calculo a pessoa suspensa do outro lado do telefone, à espera do veredicto, a porta fica mal fechada, abro e sinto os olhos, fecho e sinto os olhos, digo o destino:

- “É para X, por favor.”

mas o que eu tinha mesmo vontade de lhe dizer era:

- “É ali para trás, que te vou rasgar a garganta.”

mas não disse isso, disse apenas:

- “É para X, por favor.”

ela pisca os olhos e diz ao telefone, muito baixinho, o veredicto:

- “É para X. Um rapaz...”

não demorei a perceber porque é que não conseguia vê-la de fora do carro, era pequena, ainda mais enterrada no banco, o que explica os olhos fixados, chegava a muito custo ao espelho retrovisor e era-lhe mais fácil virar-se, a guiar era mais complicado, para ver para trás tinha de se levantar e esticar o pescoço, lembro-me do Darwin, da evolução das girafas, que ficaram assim com o pescoço para chegarem às ramas mais altas, e eu a pensar que se ficares um milhão de anos no carro a olhar para o espelho vais ver que consegues chegar lá sem esticar a perninha,

digo o meu destino e ela arranca, na verdade o carro descai cinco metros no arranque, lembro-me das piadas das mulheres ao volante, lembro-me só, não digo, ela tinha o cabelo pelos ombros, sujos, no meio tinha a marca de um elástico, que estava no pulso e era amarelo, pendurado na chave da ignição ia um amuleto, que era um ténis, branco, nem era um ténis pequenino, era grande e dava para calçar uma criança pequena, ao lado do banco tinha um saco da farmácia, que escondia uma fortuna em moedas de cêntimos, num viaduto mais à frente íamos tendo um choque frontal, ela não percebe, só ouve a buzinadela do outro, que foi quem se desviou,

ela era tão pequenina que via a estrada bem esticada para a frente, e como o banco estava bem esticado para trás, formava-se ali um V entre o banco ratado e a costas dela, que estavam vestidas por um pólo de homem, ela era tão pequenina que procurava a estrada a espreitar por cima do volante, às vezes cansava-se e tentava espreitar por entre o volante, naquela meia-lua, achei piada quando lhe disse “ali, é à esquerda” e ela fez como o meu gato à procura das moscas, esticou o pescoço e fez assim muito depressa com a cabeça, à caça da saída à esquerda, depois disse “é à direita” e foi a mesma coisa,

para a minha casa vai-se por um estrada muito grande, é sempre em frente, se apanhamos um autocarro estamos bem tramados, não dá para ultrapassar porque vem sempre gente de frente, desta vez não é o autocarro, é uma carrinha branca, diz “Frutas Ferreira” nos lados, vai muito devagar, acho estranho, estas carrinhas comerciais são guinadas por homicidas, esta vai devagar, mais intrigante: de piscas ligados, eu, feito tonto, digo assim para a taxista: “aqueles devem estar com medo de esborrachar as meloas”, nós não tínhamos falado ainda desde o ínício da viagem, achei tanta graça àquilo que não resisti a fazer a piada, ela olha para mim e responde-me desprezo, uma piada tão boa e nada, nunca na minha vida metera conversa com um taxista, são sempre eles, na primeira vez foi nada,

entre nós e o “Frutas Ferreira” vai uma arca de gelados Olá puxada por uma moto, montada por uma mulher, portanto o enredo é este: nós, a arca de gelados Olá e o “Frutas Ferreira”, todos assim em comitiva, com o líder à frente a fazer pisca, ainda me lembrei de fazer uma piada com os carros quando vêm dos casamentos, mas achei melhor não abusar do humor com esta senhora, meia hora depois o “Frutas Ferreira” vira à direita e começo a ver que tinha uma corda atada na traseira, afinal o “Frutas Ferreira” vinha devagar porque ia a rebocar os gelados, quando os passamos reparo que a corda estava ratada, mais cinco minutos e morria com a arca espatifada em cima, mas não morri, mas também se morresse ela morria primeiro, porque ia de cabeça esticada à procura da estrada,

o que não disse ainda é que o carro é um Mercedes, velho, há uma subida grande para a minha casa e o Mercedes quase vai abaixo, começa a andar a cinco à hora, numa recta a subir longuíssima, estou bem tramado, estou, penso eu, já não me bastava a fruta e agora isto, mas a animação volta depressa quando, de repente, o carro que vinha atrás começa a ultrapassar-nos, era um Fiat todo escavacado, que não andava a cinco, andava a seis, de modo que acho engraçado ver os dois fogareiros picados na subida, quando chegamos ao semáforo põe-se ao lado outro carro, era um branco a ouvir música africana aos gritos, ele era novo, mas já tinha a boca e as orelhas todas escavacadas de brincos, levava um chapéu, onde tinha a cabeça cuidadosamente encaixada, tinha um crucifixo pendurado no espelho, a minha taxista também tinha um, de modo que achei piada que naquele ponto do Universo infinito duas pessoas se juntaram num semáforo com o Cristo pendurado, duas pessoas tão diferentes, dois parêntesis na normalidade, uma mulher em profissão de homem, um branco em papel de negro, dois parêntesis assim como este que aqui vos escrevo, o humor dos outros metido à força entre a minha tristeza.

Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Gatinho lindo...

Uma pessoa entra em casa e enrola-se aos pés, hoje fiquei cá uma vontade de te enfiar um pontapé pelo cu acima a ver se não ias bater com os cornos na parede, ai batias, batias, ainda por cima és leve e encaixas mesmo bem no pé, só não levaste porque tenho lá pendurado um espelho que comprei no Egipto, agora deste em comer as plantas, a tua sorte é que me estou cagando para as plantas, senão dava-te a provar pela boca adentro um sortido de cactos que tenho cá em casa, a ver se gostavas de todas as espécies de plantas, já para não falar que me comeste uma das cabeças dos phones, agora tenho de estar sempre a alternar de ouvido, que é para não estar sempre a ouvir no mesmo e ainda fico surdo, e ando nesta merda enquanto não arranjo tempo e paciência para ir à loja comprar outros, e tudo por tua causa, meu grande cabrão, já não basta o dinheiro que levas em latas de comida ainda me fodes a cabeça de um phone, se não tivesses as unhas tão compridas fazia-te como aos cordões dos calções, enfiava-te um fio pelo cu adentro e saí-te a outra ponta pela boca, a ver se gostavas de ouvir a minha música, meu grande cabrão, mas também não esperas pela demora, que estás a chegar aos seis meses e é altura de te secar os tomatinhos.

Sábado, 18 de Julho de 2009

Um post óbvio

A.-m. d. e c. t. d. n. n. l..

Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

As beatas que dão leite não vão para o Céu

Ontem, no elevador. Entro e estão lá três mulheres, todas com mais de quarenta anos. Trabalham no edifício, não faço ideia onde. Só lhes conheço a cara. Paramos no segundo andar e entra outra mulher. De outra secção. As quatro começam a falar, dizem umas piadas sobre o trabalho, riem-se, nota-se que se dão bem, que há ali muita cumplicidade de anos a trabalhar no mesmo edifício. O elevador pára. A quarta mulher vai sair. Despedem-se cordialmente. Atiram uma última piada. Riem-se. As portas do elevador fecham-se totalmente. A quarta mulher já não se vê.

Silêncio entre as três... Ainda não é seguro falar. Nunca se sabe se a outra não ficou à porta a ouvir.

O elevador recomeça a subir. Agora já podem falar à vontade.

A líder do grupo baixa a cabeça e diz, entre os dentes, muito baixinho, baixinho, baixinho, baixinho (não vá Deus Nosso Senhor ouvir), sobre a que saiu: "Grande vaca..."

Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Um dia isto acaba tudo, um dia é que vai ser, um dia é que vamos ser felizes, vocês vão ver

Gente que aguenta, aguenta, aguenta, à espera que melhore, um dia isto acaba tudo, um dia é que vai ser, um dia é que vamos ser felizes, vocês vão ver.

Gente que aguenta o marido, a mulher, a escola, o patrão, gente que aguenta quem se senta ao lado no autocarro, sem coragem de se levantar e mudar, andamos a aguentar, a aguentar, um dia largamos tudo e vamos correr mundo de cabelos ao vento, sentir a brisa à beira-mar, comer nos cafés de rua, mergulhar em águas quentes, fazer amigos do outro lado, rir, rir, rir, dizer disparates, fazer asneiras, ser criança, um dia fazemos isso, um dia isto acaba tudo, um dia isto melhora, um dia vamos ser felizes, vocês vão ver.

Gente que aguenta, aguenta, aguenta, um dia atrás do outro, fartos deste emprego, do patrão que não olha, não repara, não elogia, dos outros, que são sempre os culpados, os outros, os outros, os outros, culpa daquele e daquela, que vão para a cama com este e aquela, gente que aguenta, que se arrasta onde antes foi feliz, onde chegou porque queria ou por acaso, e foi ficando, ficando, ficando, um dia acorda a arrastar os pés, de um lado para o outro, zombies, cadáveres, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, gente a quem apetece chorar, chegar a casa e explodir, a perguntar onde foi que erraram, sem poder voltar atrás, gente a trabalhar numa prisão, das nove às cinco, com vontade de gritar que se fodam vocês, mas não pode, não deve, são as contas para pagar, contas, contas, contas, uma vida inteira a pagar contas, e por isso aguenta, aguenta, gente que diz um dia vou-me embora, um dia sai-me a lotaria, um dia vou ter o meu negócio, nunca mais me dão ordens, um dia isto acaba tudo, um dia isto melhora, um dia vamos ser felizes, vocês vão ver.

Gente que aguenta a relação, aguenta, aguenta, é mais prático, dá trabalho separar, dividir, magoá-la, magoá-lo, gente que muda, que fica diferente, mas que ninguém repara, em revolta com quem não muda, com quem já não vai ao nosso lado, ficou para trás, ficou para a frente, já não damos as mãos, mas a gente aguenta, aguenta, aguenta, um dia isto passa, é uma fase, são assim as relações, é o que nos dizem, gente que tem medo do tempo, da guilhotina da maternidade, de ficarem velhos e velhas e não terem filhos novos, medo de não encontrar mais ninguém, medo terrível da solidão, de não voltar a ser feliz, de enfrentar o incerto de punhos fechados, gente com medo, quanto mais velho mais medo de deitar tudo para trás, medo de dizer acabou, paciência, não tenho ressentimentos, não tenhas tu, sê feliz porque eu também quero ser, medo disto e daquilo, de tudo e de nada, e por isso a gente aguenta, aguenta, aguenta, um dia isto acaba tudo, um dia isto melhora, um dia vamos ser felizes, vocês vão ver.

Gente amordaçada, em revolta com o mundo, revolta surda-muda, cá dentro, em guerra com tudo e todos, em guerra com este e aquele, comigo e contigo, gente que não aguenta a cara ao espelho, a sofrer horrores, impotente, sem forças, conformada, roubada de todos os sonhos loucos, gente que já não grita pela vida, gente carcomida pela angústia, pelo medo, pelo desgosto de já não ser feliz, gente que gosta disto mas queria mais qualquer coisa, que não sabe bem o que é, mas que quer, gente com o sangue coagulado, vermelho escuro e parado, gente frágil, tão frágil, à procura de força, força, força, sabe-se lá onde onde esta gente frágil vai buscar tanta força, gente à procura de quem perceba que andamos a mentir quando respondemos que está tudo bem, gente que se deita todas as noites a pensar que amanhã vamos ser felizes, amanhã, vocês vão ver, vou-me embora, vou acabar, começar, chegar, ficar, decidir, gente que amanhã vai fazer alguma coisa, mas não faz, tapam-lhe a boca, cordas atadas, fica para amanhã, amanhã é que é, gente que aguenta mais um dia, um dia não é nada, aguenta, aguenta, aguenta, um dia isto acaba tudo, um dia isto melhora, um dia vamos ser felizes, vocês vão ver.

Antes a loucura ou a morte rápida a este sofrimento todo.

Mas um dia isto acaba tudo, vocês vão ver. Um dia.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

As novas amantes do sr. Basílio, o taxista

Para quem não sabe, de vez em quando apanho um taxista aqui na minha zona, o sr. Basílio, que, apesar da sua provecta idade de 50 e muitos anos, mantém o corpo e o espírito de um jovem. Como se pode ver nestes posts mais antigos (aqui e aqui), o sr. Basílio é um taxista que gosta de estender os seus serviços para além do fixado no taxímetro. A senhoras, naturalmente. Na última vez que falámos, andava enrabichado por uma brasileira. Que, naturalmente, já passou à história.

Há um mês contou-me que andava de volta de uma fogosa senhora portuguesa, a quem o marido não dava a atenção devida. Aliás, contou-me isto poucas horas depois de a ter ido “visitar”, bem cedinho, por volta das oito da manhã. Fez questão de me dizer onde morava a senhora, os trajes que envergava quando lhe abriu a porta (“nuazinha...”), o que lhe disse (“vem depressa, por favor”) e os cuidados que teve quando saiu do prédio, não vá esbarrar com algum vizinho. Adiante.

Na terça-feira voltei a apanhar o sr. Basílio, que continua em grande forma. Peço desculpa às senhoras pela linguagem, mas certos termos não podem ser omitidos sob pena de descaracterizar a personagem. Mesmo assim, apesar de não ser dado a puritarismos, vi-me na necessidade de colocar alguns *******. Alerto ainda para o facto de que algumas passagens podem ser consideradas de profundo mau gosto.

- Então, como é que isso vai de amores?
- Oh, pá, isto agora ando aí com uma....
- Então?
- Oh, oh... A gaja mandou-me agora uma mensagem, a puta. Eu ontem mandei-lhe uma mensagem: “adorava ver os biquinhos das tuas mamas...”. Dizia eu. A gaja respondeu-me há bocado... Quer saber o que é que esta puta me responde??? É mesmo só para me deixar em brasa...
- O que é que ela disse?
- “Fiquei com vontade de me penetrares. Tu ficaste com tusa, eu também. Ficar excitada e não comer...” Tá a ver? Oh, pá, é o que eu lhe digo, as gajas querem é foder.
- Hum...
- Mas oiça, eu dou uma foda nelas e ponho-as a andar. Que depois eu é que fico maluco e na quero cá essas coisas.
- Pois... E o que é que ela faz?
- Não faz nada.
- Conheceu-a como?
- Aqui no carro. Eu estico-me logo...
- Ela trabalha no quê?
- Diz que trabalha em cafés...
- Hum...
- Eu sei lá. Tive aí uma que dizia que trabalhava num lar. De manhã estava no lar, depois à tarde... Essa fodi-a duas vezes.
- Hum...
- Elas são umas vacas, pá. Umas vaquinhas daquelas redondinhas.
- Redondinhas...?
- É, redondinhas. Vacas redondinhas. Você nunca ouviu falar nas vacas redondinhas?
- Não.
- Você tem quantos anos?
- 32.
- Pronto, deixe lá.
- Ok. Então mas essa do café vive do café?
- Eu sei lá. Outro dia pediu-me vinte euros. Foda-se! Eu nunca paguei pra foder.
- E ela?
- Ela diz-me que era para ajudar na renda. “Mas ficas o tempo que quiseres”, diz-me a gaja a seguir.
- E deu?
- Dei. Mas ela depois fez-me tudo... Mam**-me na pi****a, pus-lhe na c*** e depois tomámos banho juntos.
- Hum...
- Pois... As brasileiras... um gajo é simples de engatar. Um gajo fala duas ou três vezes com elas e já está a ir à c*** a elas. Não há mulher que não venha para Portugal que não esteja já fodida. Mesmo miúdas, já vêm fodidas.

Lembra-se, então, de outra brasileira, a quem decide ligar. Pega no telemóvel e procura o número. Tem alguma dificuldade em encontrar...

- ... porque tenho de pôr o nome das gajas em código se não a minha mulher vem ao telemóvel e tou fodido.
- Essa brasileira é outra?
- É, é. Esta tem umas mamas... Booooooas. Parecem bombas de enchimento. Ela um dia vira-se para mim: “estou toda rapadinha”. Oh pá, mas eu gosto é delas pentelhudas. E ela: “Mas se quiseres não pagas”.
- Hum...

Entretanto, encontra o número, cujo discreto nome de código no telemóvel é “brasileira de Caneças”. Mas tem pouca sorte...

- Não atende...
- Deve estar a dormir...
- Deve estar é a foder, pá.

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Cristiano Ronaldo apresentado no Real Madrid: o melhor de...

# Depois de séculos de humilhação histórica, depois da invasão económica dos últimos anos, finalmente Portugal vinga-se. Espanha já tem o papo-seco do Ronaldo e acha o máximo.
# Mas basicamente é isto.
# Clara de Sousa e o presidente do Sporting (em estúdio) acham que não é por acaso que o Real Madrid montou uma passadeira verde no estádio: é para lembrar o Sporting.
# Ronaldo foi dar um beijinho a uma jornalista espanhola loira. Não aparece no ecrã, mas é possível que o cunhado Zé Manel lá tenha ido depois para lhe pedir o contacto.
# Contra as minhas expectativas, Ronaldo esteve bem no discurso.
# O site da SIC tem uma coisa que se chama "apresentação do Real Madrid minuto a minuto". É feito pelos repórteres, mas também permite comentários de visitantes do site sobre o assunto. Como estes:
"isto é tudo uma palhaçada"
"olá filho"
"ja tinha visto a Drª Clara de Sousa ao vivo e acho eu que na TV penso que seja mais gorda no real , Clara , és a mulher mais elegante da SIC ( penso Eu) perdoem-me as lindas mulheres da SIC."
"se o cristiano tivesse o coração da princesa diana ja n havia fome em africa..."
"Olá , sinto-me orgulhoso em ter um ex-visinho como o Melhor Jogador do mundo , adorava dar um grande abraço com emoção. Parabens meu amigo e ex-vizinho. "
"morreram 140 activistas na china e so da ronaldo.. ta bonito"
"antes de mais, muito boa tarde..."
"o ronaldo vai ser o 69 pa cativar as garinas!!! "
"Cristiano Ronaldo e Paris Hilton a lápis! http://bit.ly/FDugv "
"Adoro-te Ronaldo. Só de pensar que estives-te a meu lado no Colombo. Um beijo e força"
"mas o que é que eu faço aqui!!!"
"Ó RODz cala-te"
"deus era justo se ele caisse aliii hahahahah"
"ALÁ, MAdrid"? Mas... É muçulmano?
"A Transmissão está a tornar-se patética!"
"fcportoooooo"
"ganda pinta de jantar.. ja nao vou ao mcdonalds!!!"
"e aí.... me gusta...xica mia"
"Na minha cama ele tava melhor"
"ai que fomeca.. nao se janta hoje??"

# A SIC precisava de alguém que contasse em estúdio o que os sites internacionais estão a dizer sobre Cristiano Ronaldo e, à falta de melhor, trouxe Martim Cabral, o especialista da SIC em política internacional.
# A câmara da SIC volta a focar o seu repórter mascote, Nuno Luz, a dar uma entrevista a uma televisão estrangeira. Pedro Mourinho diz que Nuno Luz "tem sido também um ponto de atracção".
# Em estúdio, perante um especialista de marketing, Clara de Sousa cerrou os olhos e fez uma pergunta muito acutilante, que nunca tinha sido feita e que nunca foi respondida nos últimos cinco anos: "O Cristiano Ronaldo não é em si uma marca?"
# A SIC tem um orgasmo televisivo porque os seus repórteres conseguiram dois exclusivos mundiais: Nuno Luz foi "o primeiro repórter português que falou com Cristiano Ronaldo" e Pedro Mourinho foi o primeiro repórter português que falou com "o primeiro repórter português que falou com Cristiano Ronaldo". Está a acontecer agora, às 18:43. Nuno Luz conta a Pedro Mourinho o que falou com Ronaldo:
"Boa sorte, pá!"
"Boa sorte porquê? Hoje não é dia de jogo..."
"Eu sei, pá..."
Em pleno site do Real Madrid, percebe-se porque é que o "jornalista" Nuno Luz consegue sempre estas coisas de ser "o primeiro repórter português que falou com Cristiano Ronaldo". Quem quiser ler o que diz o "jornalista" Nuno Luz, está aqui. Se não quiserem ler, deixo-vos uma frase do "jornalista" Nuno Luz sobre Cristiano Ronaldo: "Se preocupa mucho por su salud, su imagen y la comida. Es un campeón haciendo batidos..."
# Ronaldo dá os primeiros autógrafos em Madrid...
... onde, depois do beijinho e da assinatura, é possível que aproveite para publicitar a marca de cosméticos que o maquilhou
# Uma t-shirt branca da Nike Sportswear foi fazer testes médicos:
# Ronaldo chega a Madrid de boca aberta:

# Madrid está ao rubro, com a chegada do homem mais sexy de Portugal:

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

O português médio e o horror que sente do silêncio

Aqui há tempos dissertei sobre o horror que o português médio tem ao vazio, entendido este como o espaço físico da sua casa. Há outros vazios, entenda-se. Hoje queria falar do horror que o português médio tem em viver no silêncio, que, como se sabe, é o vazio dos surdos-mudos e das pessoas estranhas. O português médio não é nenhum destes.

O horror do português médio ao silêncio começa quando nasce, em que sai das Trevas e entra na Luz, ou seja, quando desponta da escuridão lodosa da barriga da mãe e enfrenta as paredes amarelecidas da maternidade. Ainda mal refeito do susto e com poucos segundos de vida, o português médio leva duas bofetadas no focinho para ver se chora. O choro é essencial ao recém-nascido para respirar, é o primeiro sinal de que está saudável. Num país civilizado, a coisa fica por aí, mas para o português médio essa asssociação entre ser saudável e gritar a plenos pulmões irá acompanhá-lo em todas as etapas da vida.

Assim, tal como a acumulação de tralha na sua casa é um sinal para a sociedade de que o seu passado foi bem-sucedido, este português médio recém-nascido aprende no seu primeiro dia que falar e berrar é um sinal para sociedade de que o seu presente está a ser vivido de boa saúde.

Além disso, este português médio irá aprender rapidamente com a educação laxista dos pais que para alcançar sucesso na vida terá de se reger por um outro princípio elementar: o de que quem não chora não mama.

Em conclusão, o português médio irá reger a sua vida toda a ocupar o silêncio com dois objectivos claros: para o presente (tenho de mostrar que estou vivo e saudável) e para o futuro (se quiser mamar tenho de chorar). E quanto mais falar mais hipóteses tem de ser bem sucedido. Exteriorizar de forma bastante audível o que sente tem ainda outros obejctivos. Quanto mais alto rir, mais cria a ilusão de que é divertido e popular entre os seus. Quanto mais alto grita, mais cria a ilusão de que é destemido e duro.

Regido por estes princípios entranhados na pele, o português médio entra em pânico, falta-lhe o ar, não percebe, acha que há qualquer coisa de errado, quando se depara com uma coisa esquisita que é uma pessoa que fala pouco ou que, em dada situação temporária, se encontra em silêncio. É então que explodem na sua cabeça teorias e conjecturas sobre estas pessoas estranhas:

“Este está a preparar alguma...”

“Estás bem? Dói-te a cabeça?”

“Este gajo é um cínico, de certeza...”

“Que tipo mal disposto!”

“Podes falar, que eu não te mordo.”

“Que mosca morta...”

“É maluco. Vão ver que um dia vai entrar aí de caçadeira e matar a gente todos...”

“Porque é que não falas comigo? Fiz alguma coisa de mal?”

“Cuidados com os calados...”

“Podias ser mais social e falar com as pessoas...”

“Já não gostas de mim?”

Mesmo que essa pessoa estranha lhe explique que simplesmente não gosta de falar pelos cotovelos, ou que aprecia o silêncio, ou que não se passa nada de mal, o português médio acha que o estão a enganar e que se aquela pessoa está calada, das duas uma: ou está em sofrimento ou prepara o terreno para o tramar.

Por falar em tramar, é para esse fim que o português médio subverte determinados adágios populares que enaltecem as qualidades do silêncio:

“Pela boca morre o peixe...”

“O segredo é a alma do negócio.”

“Quanto mais falas, mais te enterras...”

O português médio socorre-se destas frases, não para glorificar o silêncio, mas para ridiculariar os outros ou para se armar em bom.

Contudo, esta conjectura do horror ao vazio e da necessidade de o preencher com palavras depara-se com um problema dilacerante: o português médio fala muito e alto, mas isso não quer dizer que ele goste de falar. Na verdade, o português médio é tímido, é melancólico, não sabe o que dizer, é triste e inculto. Para ele, falar é apenas uma necessidade de sobrevivência, como beber, comer, defecar, procriar e cuspir.

É por isso que o português médio gosta tanto de encher de barulho os espaços onde se insere ou de se movimentar em locais ruidosos, onde a sua necessidade de encher os silêncios decresce consideravelmente. A televisão acesa na sala é alguém que está ali a falar por ele com a família a quem já nada tem a dizer, a música no elevador ajuda a evitar as malditas conversas de elevador, o bar com música ajuda a preencher o silêncio quando a conversa com os amigos chegou ao fim.

Só quando morre, o português médio mergulha nas profundezas do silêncio.

No entanto, ainda no funeral, tal como o seu cadáver ainda não arrefeceu, também o horror ao silêncio permanece morno. Se um familiar ou amigo não exterioriza o choro da sua morte é porque não gostava dele. Se alguém não dá os pêsames aos familiares corre o sério risco de ser censurado porque não disse nada nesse momento difícil de dor.

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