Muitas vezes, há pessoas que vêm parar a este blog absolutamente por acaso. Vão ao Google digitar palavras para uma pesquisa qualquer e o motor de busca direcciona-as para sites onde essas palavras aparecem. Aqui há uns dias já tinha escrito sobre isto. Achei piada e andei a recolher nos últimos dias mais palavras-chaves que as pessoas digitaram no Google e o amigo Google direccionou-as para posts que escrevi aqui. Ei-las:
- quanto mais se pensa mais infeliz se é
- quantos processos teve michael jackson
- o que é acatar
- peniche é feia raul brandão
- fotos de mickael jackson a sair de casa ja de coma
- tony carreira
- granho
- ouvir musica de santo antonio
- fotos mulatas
- que ano santo antonio morreu
- análise do telemovel Samsung f480
- programaçao sic 27 de junho 2009 - videos maichael
- corte sines
- site de velha putas
- porque ele morreu
- a melhor frase que já li
- mickael jackson mudar de cor
- Comentários sobre, mas nao te invejo amor essa indiferença. Que viver neste mundo sem amar. É pior que ser cego de nascença!
- assalto nike dolce vita tejo
- cidade em que Santo antonio morreu
Bom, a senhora minha mãe não lê este blog, mas, seja como for, devo dizer que se alguém veio aqui à procura de “velhas putas” e “fotos mulatas” foi redondamente enganado pelo Google. Ainda vou a tempo, sei-lo bem, mas por enquanto limito-me a falar de velhas, putas, fotos e mulatas, mas não necessariamente umas associadas às outras.
Também não sei nada sobre o Mickael Jackson nem sobre o Santo António, não sei a programação da SIC, conheço uma pessoa que mora no Granho mas não conheço o Granho, não fiz nenhuma análise ao Samsung f480 (apesar de ter um), não sei porque é que Raul Brandão disse que Peniche é feia, não sei qual foi a melhor frase que o amigo leu, não sei “porque ele morreu” (nem sei quem é que morreu), não sou fã de Tony Carreira (mas gostava de ter participado no mega-piquenique porque aquilo havia de ter dado um grande post), não faço ideia quem é que roubou a Nike no Dolce Vita Tejo, não explico o que é acatar apesar do blog ter esse nome e não sei o que quer dizer “corte Sines”.
Posto isto, como se vê, veio cá muita gente ao engano.
Porém, quem fez a busca por...
- Comentários sobre, mas nao te invejo amor essa indiferença. Que viver neste mundo sem amar. É pior que ser cego de nascença!
- quanto mais se pensa mais infeliz se é
... veio ao sítio certo.
PS: Essa das fotos de mulatas... Fiquei chateado de não poder corresponder à curiosidade desse internauta, certamente à procura de uma imagem que lhe ilustrasse o que viu Pêro Vaz de Caminha quando chegou a Terras de Vera Cruz e que o levou a escrever a tão famosa Carta do Achamento. Quando ele escreveu isto:
“Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma. Todos andam rapados até por cima das orelhas...”
Quando leu este trecho de Pêro Vaz de Caminha, o caro internauta precisou urgentemente de fotos de mulatas para visualizar tão encantador cenário do Achamento. Eu percebo. E aqui veio parar. Não quero desiludi-lo, caro amigo. Aqui tem, o que achou Pedro Álvares Cabral e o que Pêro Vaz de Caminha achou do que ele achou:
PS 2: Essa das velhas putas também gostava de não desiludir. Vá, aqui vai uma velha puta também, pronto.
Terça-feira, 30 de Junho de 2009
Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
O português médio e o horror que sente do vazio
No primeiro ano, a garagem do prédio só tem carros. Depois, há um pioneiro que traz qualquer coisa para pôr ao lado do Renault ou do Seat. É só o início. O difícil é começar e ganhar balanço. Nos meses que se seguem, a pilha começa a encher...
Caixas, caixinhas, caixotes, caixotões, uns dentro dos outros aos encontrões,
ferros e ferrugem, ferros de engomar e ferramentas de consertar,
sacos, saquinhos, sacolas e sarapilheiras, cheias de batatas que trouxeram das Beiras,
garrafas, garrafinhas e garrafões, que ajeitam entre os melões,
peças de tudo, disto e daquilo, gostam de guardar para um dia reutilizar,
roupas, sapatos e plásticos, brinquedos, bicicletas e elásticos,
vasos, frascos e martelos, papéis e jornais amarelos...
O vizinho do lado, carcomido até aos ossos pela necessidade de um hobbie, vê ali uma oportunidade e começa também a acumular tralha no seu lugar da garagem. Se este faz porque é que eu não faço também, pensa. O tal pioneiro, até aí em agonia, a viver na angústia do que os vizinhos hão-de pensar, sente neste seguidor um sinal de que não só não foi censurado, como será apoiado.
Com dois vizinhos a acumular tralha, o terceiro sente-se encorajado e vai também. Três vizinhos é o sinal secreto para o prédio todo, o fartar vilanagem para o passatempo preferido do português médio: ocupar o vazio.
Depois, com tanta tralha acumulada, chega-se a um ponto em que é necessária alguma arrumação. Mais uma vez, vem um pioneiro. Começa por pôr uma placa de madeira no chão, como fazem os lojistas à porta da mercearia em dias de inundação. Nesta caso, é para disciplinar a tralha, não vá começar a escapar alguma coisa para debaixo do carro. Mais tarde, já sem espaço em baixo, faz como nas cidades modernas: começa a crescer para cima e constrói arranha-céus. Neste caso, são as prateleiras, que gosta de colocar aos dias de semana depois da meia noite, quando há menos movimento e corre menos riscos de ser apanhado de berbequim na mão.
Mais uma vez, este pioneiro fica na angústia. É que a tralha ainda se pode tirar se houver espiga. Uma prateleira é outro campeonato. Tem furos na parede, parafusos, a estética é alterada, enfim, nunca se sabe se um dia o arquitecto não aparece aí e processa a gente... Ou então são os vizinhos. Nunca se sabe se os sacanas não se juntam todos numa reunião secreta de condóminos em que o ponto único da ordem de trabalhos é tramá-lo, humilhá-lo, fazer queixa, expulsá-lo do prédio. Uma angústia de morte... Mas umas semanas depois, o vizinho do lado também faz prateleiras e a agonia acaba. Em poucos dias recupera o sorriso, ganha vários quilos e anda no prédio de cabeça levantada, a dizer bom dia, boa tarde e boa noite.
Isto, na garagem. Em casa, o princípio é o mesmo. Uma parede despida, só com um quadro? Um horror. Não perdem tempo e encostam móveis com vidros e mini-bares mal bebidos, bengaleiros e chapeleiros, cadeiras, vasos e prateleiras. Se têm uma varanda, não a desfrutam com um sofá, uma espreguiçadeira, livros e muita bebedeira. Preferem ocupá-la com tralha. E depois fecham-na com uma marquise, para proteger do friozinho, da chuvinha e do solzinho, que aleija a cabecinha das criancinhas e estraga muito a tralhazinha.
O português médio é assim: tem um ódio de morte ao vazio.
No fundo, só é feliz se tiver tralha para ostentar. Enquanto não tem o seu pé de meia de tralha vive na angústia de ser um falhado. A tralha representa para a comunidade onde se insere o seu passado de homem de sucesso, homem ocupado e viajado. Não ter nada acumulado é um sinal claro para todos: nada bebi, nada comi, nada guardei, nada comprei, nada viajei, de nada ri, de nada chorei; no fundo, nada vivi.
Caixas, caixinhas, caixotes, caixotões, uns dentro dos outros aos encontrões,
ferros e ferrugem, ferros de engomar e ferramentas de consertar,
sacos, saquinhos, sacolas e sarapilheiras, cheias de batatas que trouxeram das Beiras,
garrafas, garrafinhas e garrafões, que ajeitam entre os melões,
peças de tudo, disto e daquilo, gostam de guardar para um dia reutilizar,
roupas, sapatos e plásticos, brinquedos, bicicletas e elásticos,
vasos, frascos e martelos, papéis e jornais amarelos...
O vizinho do lado, carcomido até aos ossos pela necessidade de um hobbie, vê ali uma oportunidade e começa também a acumular tralha no seu lugar da garagem. Se este faz porque é que eu não faço também, pensa. O tal pioneiro, até aí em agonia, a viver na angústia do que os vizinhos hão-de pensar, sente neste seguidor um sinal de que não só não foi censurado, como será apoiado.
Com dois vizinhos a acumular tralha, o terceiro sente-se encorajado e vai também. Três vizinhos é o sinal secreto para o prédio todo, o fartar vilanagem para o passatempo preferido do português médio: ocupar o vazio.
Depois, com tanta tralha acumulada, chega-se a um ponto em que é necessária alguma arrumação. Mais uma vez, vem um pioneiro. Começa por pôr uma placa de madeira no chão, como fazem os lojistas à porta da mercearia em dias de inundação. Nesta caso, é para disciplinar a tralha, não vá começar a escapar alguma coisa para debaixo do carro. Mais tarde, já sem espaço em baixo, faz como nas cidades modernas: começa a crescer para cima e constrói arranha-céus. Neste caso, são as prateleiras, que gosta de colocar aos dias de semana depois da meia noite, quando há menos movimento e corre menos riscos de ser apanhado de berbequim na mão.
Mais uma vez, este pioneiro fica na angústia. É que a tralha ainda se pode tirar se houver espiga. Uma prateleira é outro campeonato. Tem furos na parede, parafusos, a estética é alterada, enfim, nunca se sabe se um dia o arquitecto não aparece aí e processa a gente... Ou então são os vizinhos. Nunca se sabe se os sacanas não se juntam todos numa reunião secreta de condóminos em que o ponto único da ordem de trabalhos é tramá-lo, humilhá-lo, fazer queixa, expulsá-lo do prédio. Uma angústia de morte... Mas umas semanas depois, o vizinho do lado também faz prateleiras e a agonia acaba. Em poucos dias recupera o sorriso, ganha vários quilos e anda no prédio de cabeça levantada, a dizer bom dia, boa tarde e boa noite.
Isto, na garagem. Em casa, o princípio é o mesmo. Uma parede despida, só com um quadro? Um horror. Não perdem tempo e encostam móveis com vidros e mini-bares mal bebidos, bengaleiros e chapeleiros, cadeiras, vasos e prateleiras. Se têm uma varanda, não a desfrutam com um sofá, uma espreguiçadeira, livros e muita bebedeira. Preferem ocupá-la com tralha. E depois fecham-na com uma marquise, para proteger do friozinho, da chuvinha e do solzinho, que aleija a cabecinha das criancinhas e estraga muito a tralhazinha.
O português médio é assim: tem um ódio de morte ao vazio.
No fundo, só é feliz se tiver tralha para ostentar. Enquanto não tem o seu pé de meia de tralha vive na angústia de ser um falhado. A tralha representa para a comunidade onde se insere o seu passado de homem de sucesso, homem ocupado e viajado. Não ter nada acumulado é um sinal claro para todos: nada bebi, nada comi, nada guardei, nada comprei, nada viajei, de nada ri, de nada chorei; no fundo, nada vivi.
Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
Relatório das prendas do dia de anos
Como devem ter reparado, fiz anos ontem. Obrigado, desde já, pelos parabéns que me deram no post anterior. Não sabia que tinha tanta gente a gostar de mim – a maioria nem me conhece, o que, diga-se, explica tanto entusiasmo.
Relatório de prendas:
- um polo
- uma camisa
- seis livros
- um telemóvel
- um gato abandonado
O polo não tem história. É um polo, não há nada a fazer. A camisa é um bocado amaricada, mas devo usá-la um dia, mamã, juro... Os livros são livros, também não há nada a dizer. Já passei há muito os 1000 livros cá em casa e só li uns 300. Por cada um que leio (e como eu leio...) aparecem-me mais quatro ou cinco. Está bonito, está.
O telemóvel ofereci-me a mim mesmo. Gosto dele, é daqueles com touch screen, um Samsung F480. Digamos que é um aparelho caro, eu acho que é, nunca tinha dispendido um tusto sequer em telemóveis (sempre foram oferecidos), de modo que 300 euros por esta merdinha parece-me um roubo, mas enfim. E acho-o tão caro e é um telemóvel tão pipi que agora parece que ando sempre com um ovo nas mãos, com muito cuidadinho...
O tipo que me vendeu o telemóvel queria-me impingir mais umas "coisinhas”. Pediu-me o e-mail.
- Para quê?
- É para a PhoneHouse lhe enviar uns mails com promoções.
- Não, deixe estar.
- Tem a certeza?
- Tenho. Só quero o telemóvel.
- Mas olhe que às vezes temos descontos de 10%...
- Ainda bem... Mas não quero, obrigado.
- Mas é só um e-mail... Não vai custar nada. Tem a certeza?
- Tenho. Não quero receber e-mails. Só quero o telemóvel.
- E as promoções...
- Não quero promoções. Só quero o telemóvel.
- Pronto...
Depois, volta à carga.
- Caso este telemóvel tenha algum problema tem direito a um telemóvel novo. Qualquer infiltração, roubo... Tem aqui, pode ver a tabela.
- Mas isto é um seguro, certo...?
- Sim.
- Não quero, obrigado. Só quero o telemóvel.
- Tem a certeza?
- Tenho.
- Mas olhe que pode haver um problema com os cristais do ecrã. São telemóveis muito sensíveis...
- Eu sei.
- Pode cair ao chão... São só 14,90 de dois em dois meses. E pode interromper quando quiser.
- Não quero, obrigado. Só quero o telemóvel.
- Olhe que se acontece alguma coisa as reparações são caríssimas. Tem a certeza?
- Tenho.
- Então eu faço-lhe um desconto. As primeiras duas mensalidades só paga 4,90 euros.
- Não quero.
- Mas olhe que acabou de comprar um telemóvel de 60 contos. Pode ser roubado, pode cair, pode ter uma infiltração, basta pôr em cima de uma mesa molhada...
- Bom, oiça, se você acha que vai acontecer isso tudo ao telemóvel o melhor é não comprá-lo mesmo, não acha?
Na mouche...
Ele abalou um bocadinho, senti-lhe as defesas a irem abaixo, cheirei-lhe o sangue, estava quase a cair ao tapete, o suor caía-lhe da testa, a boca inchada, o coração saía-lhe pelas veias, que quase lhe rebentavam no pescoço, o olho direito já não abria, o sangue misturava-se com o suor e ficava vermelho claro, o protecção dos dentes pendia-lhe da boca, a multidão ao rubro chamava o meu nome, pancadaria a rodos entre as duas claques, ergui os braços, pleno de triunfo, leve como uma pena, forte como um touro, olhei para ele, vi-o a erguer o corpo ensanguentado, os olhos esbugalhados, as pernas bambas, e a arranjar forças para tentar mais um golpe...
- Sabe quantos processos tenho aqui só dos últimos dois meses com pessoas que tiveram problemas com os telemóveis?
- Não sei...
- São muitos. Se quiser eu mostro-lhe...
- Pode mostrar, mas depois mostre-me também os casos em que não houve problemas com os telemóveis...
Depois desta, KO. O árbitro levantou-me o braço e fui declarado vencedor.
Mas o combate ainda não acabou. Só vou ganhar isto quando tiver o telemóvel o tempo suficiente para que o valor do seguro que pagaria ultrapasse o próprio valor do aparelho. Já fiz as contas, que eu não brinco nestas coisas do orgulho. Ora, 14,90 euros de dois em dois meses dá 89,40 euros num ano. Para chegar aos 300 euros que custou o bicho tenho de ficar com ele em condições até... Janeiro de 2013. A partir daí, ganhei o combate. Vou conseguir.
Chego a casa, exploro o telemóvel e vejo que já tinha uma mensagem lá escrita, na secção das Enviadas. Ei-la:
“Atao mor td bem? Tou a experimentar um f480. Isso ja acabou? Correu bem? O hilario disse k t viu ontem. Amot muito pekeno.”
Ah, que livro escreveria eu a partir daqui, só com esta deixa...
O que é que já acabou, bebé? O que é que correu bem? Quem raio é o Hilário? Viu o outro a fazer o quê? Onde? Com quem? E você não desconfiou? Não é um bocado parva? Não percebe que lhe estão a enganar? Não vê que enquanto está a experimentar O MEU Samsung F480 o tipo pode está com outra? Ou então o Hilário é o seu marido e você anda com este... “pekeno”. Enfim...
Agora, o gato abandonado. É preto e tem cara de parvo. É verdade, porque é que havia de estar a mentir? Quando deixar de ter cara de parvo sou capaz de lhe postar aqui a fronha. Veio com uma infecção no olho, ou seja, já está a dar trabalho.
Fiquei encarregue de lhe dar o nome. Andava na sala à procura de uma ideia e vi um saco da Pepe Jeans. Pronto, ficas Pepe! Depois, pensei: isso é como se chama aquele gajo do Real Madrid... O gato não pode ficar com nome de futebolista.
De modo que ficou Pepe Jeans mesmo.
Ó gatinho, olha se o saco era do Intermarché, hein? Caramba, há bichos cá com uma sorte...
Relatório de prendas:
- um polo
- uma camisa
- seis livros
- um telemóvel
- um gato abandonado
O polo não tem história. É um polo, não há nada a fazer. A camisa é um bocado amaricada, mas devo usá-la um dia, mamã, juro... Os livros são livros, também não há nada a dizer. Já passei há muito os 1000 livros cá em casa e só li uns 300. Por cada um que leio (e como eu leio...) aparecem-me mais quatro ou cinco. Está bonito, está.
O telemóvel ofereci-me a mim mesmo. Gosto dele, é daqueles com touch screen, um Samsung F480. Digamos que é um aparelho caro, eu acho que é, nunca tinha dispendido um tusto sequer em telemóveis (sempre foram oferecidos), de modo que 300 euros por esta merdinha parece-me um roubo, mas enfim. E acho-o tão caro e é um telemóvel tão pipi que agora parece que ando sempre com um ovo nas mãos, com muito cuidadinho...
O tipo que me vendeu o telemóvel queria-me impingir mais umas "coisinhas”. Pediu-me o e-mail.
- Para quê?
- É para a PhoneHouse lhe enviar uns mails com promoções.
- Não, deixe estar.
- Tem a certeza?
- Tenho. Só quero o telemóvel.
- Mas olhe que às vezes temos descontos de 10%...
- Ainda bem... Mas não quero, obrigado.
- Mas é só um e-mail... Não vai custar nada. Tem a certeza?
- Tenho. Não quero receber e-mails. Só quero o telemóvel.
- E as promoções...
- Não quero promoções. Só quero o telemóvel.
- Pronto...
Depois, volta à carga.
- Caso este telemóvel tenha algum problema tem direito a um telemóvel novo. Qualquer infiltração, roubo... Tem aqui, pode ver a tabela.
- Mas isto é um seguro, certo...?
- Sim.
- Não quero, obrigado. Só quero o telemóvel.
- Tem a certeza?
- Tenho.
- Mas olhe que pode haver um problema com os cristais do ecrã. São telemóveis muito sensíveis...
- Eu sei.
- Pode cair ao chão... São só 14,90 de dois em dois meses. E pode interromper quando quiser.
- Não quero, obrigado. Só quero o telemóvel.
- Olhe que se acontece alguma coisa as reparações são caríssimas. Tem a certeza?
- Tenho.
- Então eu faço-lhe um desconto. As primeiras duas mensalidades só paga 4,90 euros.
- Não quero.
- Mas olhe que acabou de comprar um telemóvel de 60 contos. Pode ser roubado, pode cair, pode ter uma infiltração, basta pôr em cima de uma mesa molhada...
- Bom, oiça, se você acha que vai acontecer isso tudo ao telemóvel o melhor é não comprá-lo mesmo, não acha?
Na mouche...
Ele abalou um bocadinho, senti-lhe as defesas a irem abaixo, cheirei-lhe o sangue, estava quase a cair ao tapete, o suor caía-lhe da testa, a boca inchada, o coração saía-lhe pelas veias, que quase lhe rebentavam no pescoço, o olho direito já não abria, o sangue misturava-se com o suor e ficava vermelho claro, o protecção dos dentes pendia-lhe da boca, a multidão ao rubro chamava o meu nome, pancadaria a rodos entre as duas claques, ergui os braços, pleno de triunfo, leve como uma pena, forte como um touro, olhei para ele, vi-o a erguer o corpo ensanguentado, os olhos esbugalhados, as pernas bambas, e a arranjar forças para tentar mais um golpe...
- Sabe quantos processos tenho aqui só dos últimos dois meses com pessoas que tiveram problemas com os telemóveis?
- Não sei...
- São muitos. Se quiser eu mostro-lhe...
- Pode mostrar, mas depois mostre-me também os casos em que não houve problemas com os telemóveis...
Depois desta, KO. O árbitro levantou-me o braço e fui declarado vencedor.
Mas o combate ainda não acabou. Só vou ganhar isto quando tiver o telemóvel o tempo suficiente para que o valor do seguro que pagaria ultrapasse o próprio valor do aparelho. Já fiz as contas, que eu não brinco nestas coisas do orgulho. Ora, 14,90 euros de dois em dois meses dá 89,40 euros num ano. Para chegar aos 300 euros que custou o bicho tenho de ficar com ele em condições até... Janeiro de 2013. A partir daí, ganhei o combate. Vou conseguir.
Chego a casa, exploro o telemóvel e vejo que já tinha uma mensagem lá escrita, na secção das Enviadas. Ei-la:
“Atao mor td bem? Tou a experimentar um f480. Isso ja acabou? Correu bem? O hilario disse k t viu ontem. Amot muito pekeno.”
Ah, que livro escreveria eu a partir daqui, só com esta deixa...
O que é que já acabou, bebé? O que é que correu bem? Quem raio é o Hilário? Viu o outro a fazer o quê? Onde? Com quem? E você não desconfiou? Não é um bocado parva? Não percebe que lhe estão a enganar? Não vê que enquanto está a experimentar O MEU Samsung F480 o tipo pode está com outra? Ou então o Hilário é o seu marido e você anda com este... “pekeno”. Enfim...
Agora, o gato abandonado. É preto e tem cara de parvo. É verdade, porque é que havia de estar a mentir? Quando deixar de ter cara de parvo sou capaz de lhe postar aqui a fronha. Veio com uma infecção no olho, ou seja, já está a dar trabalho.
Fiquei encarregue de lhe dar o nome. Andava na sala à procura de uma ideia e vi um saco da Pepe Jeans. Pronto, ficas Pepe! Depois, pensei: isso é como se chama aquele gajo do Real Madrid... O gato não pode ficar com nome de futebolista.
De modo que ficou Pepe Jeans mesmo.
Ó gatinho, olha se o saco era do Intermarché, hein? Caramba, há bichos cá com uma sorte...
Terça-feira, 16 de Junho de 2009
Acabou um "grande 31", mas vem aí mais...
Parabéns a mim, aos sítios longe daqui, às coisas maiores do que a vida e aos fantasmas. Vamos todos continuar de mãos dadas.
... e já agora, perdoem os lugares-comuns, parabéns
aos aeroportos e aos bares de hotel,
aos marlboros e aos puros maltes,
ao snooker e aos matraquilhos,
ao passaporte e às hospedeiras de bordo,
à fotografia e aos autores queridos,
aos pormenores e aos maluquinhos,
aos pastéis de belém e ao arroz,
ao estilo e à boa educação,
aos museus de paris e às praças de roma,
aos rios e aos portos,
às conversas parvas entre pessoas inteligentes,
ao taj e ao oriente,
ao café e ao chá,
à sedução e às esplanadas,
aos corpos suados e às manhãs de verão,
à minha adorável almofada,
à lisboa antiga e à caipirinha,
aos óregãos e ao pimento vermelho,
ao diabo e ao picante,
e, oh suprema piroseira, às flores do campo.
Vamos continuar de mãos dadas.
... e já agora, perdoem os lugares-comuns, parabéns
aos aeroportos e aos bares de hotel,
aos marlboros e aos puros maltes,
ao snooker e aos matraquilhos,
ao passaporte e às hospedeiras de bordo,
à fotografia e aos autores queridos,
aos pormenores e aos maluquinhos,
aos pastéis de belém e ao arroz,
ao estilo e à boa educação,
aos museus de paris e às praças de roma,
aos rios e aos portos,
às conversas parvas entre pessoas inteligentes,
ao taj e ao oriente,
ao café e ao chá,
à sedução e às esplanadas,
aos corpos suados e às manhãs de verão,
à minha adorável almofada,
à lisboa antiga e à caipirinha,
aos óregãos e ao pimento vermelho,
ao diabo e ao picante,
e, oh suprema piroseira, às flores do campo.
Vamos continuar de mãos dadas.
Sábado, 13 de Junho de 2009
Assim se declara a morte da noite de Santo António
Desço a avenida, a olhar as marchas por cima das cabeças, a polícia cerca a avenida, polícia por todo o lado, tanta polícia, meu Deus, a guardar grades, putos e velhas, vontade de chegar ao pé de um polícia e perguntar “oiça lá, vem cá a Madonna, é?, e havia um polícia a guardar uma paragem de autocarro vazia, vontade de lhe perguntar “então, a paragem está-lhe a dar muito trabalhinho?”, e depois as claques das marchas, que engraçadas, um beto chega-se ao pé de uma dessas claques e diz aos amigos “ficamos aqui e os gajos começam a gritar ‘e a Mouraria é que é’”, e os amigos ficam contentes, não é todos os dias que entram em contacto com “as pessoas” que vivem nos bairros históricos, sentem-se como se estivessem no estrangeiro, e a claque começa mesmo a gritar:
“E a Mouraria é que ééééééééé...
E a Mouraria é que ééééééééé...”
Para logo de seguida...
“E esta merda é toda nossa, olé, olé!
E esta merda é toda nossa, olé, olé!”
Há quem veja nisto ordinarice, eu não, eu tenho carinho pelos habitantes dos bairros históricos, são os únicos lisboetas que restam, têm de ser preservados, como os linces e os pandas, aquele “esta merda é toda nossa” é uma libertação, é uma revolta, ainda que consentida e temporária, é uma ilusão de liberdade - nós, que vocês acham que somos das barracas, nós, por uma noite invadimos a vossa sala de visitas, tomamos a Avenida de assalto, e que se fodam vocês todos porque esta merda é toda nossa...
Continuo a andar, ando e para trás vai ficando gente estranha, muito estranha, sinto-me Darwin a cartografar espécies novas, brancos de bigode com mulatas de cabelo esticado, chineses betos, estrangeiros em duplas de gays, filhos adolescentes tão gordos, tão gordos, que têm maminhas maiores que as da mãe, e homens de camisas de alças, com o peito a sair, os pêlos vieram ver as marchas também, e dois homens a discutirem, diz um “mas o que é que tu vês na gaja?”, e o outro responde “mas eu só tolero a gaja até certa hora”, já não oiço a contra-resposta, e depois comecei a ouvir um maluco a gritar do outro lado da rua, andei um tempo à procura dele, não o via, e afinal ele estava mesmo ao meu lado, ele gritava e a voz começava do outro lado da rua, só depois é que vinha ter com ele, achei aquilo muito engraçado, porém um bocado estranho,
e no fim da Avenida está sentada uma noiva de Santo António, uma Kátia Raquel qualquer, reconheci-a do casamento que deu de manhã na televisão, ela ainda com o vestido, sentada na berma da estrada, de pernas abertas, tão gorda que era o dobro do noivo, e ainda por cima estava inchada do copo-de-água, a falar mal da Câmara e dos outros casais, e o noivo, coitado, triste, chupadinho, tímido, enforcado, estás tramado, estás,
depois, vem a manada de adolescentes, ficar em casa nos Santos nem pensar, que vergonha!, têm de sair nessa noite, e reúnem-se todos, são os Santos como podia ser outra coisa qualquer, não fazem ideia de quem é o Santo António, vêm em grupos, da Cova da Moura e da Quinta da Marinha, centenas e centenas, elas de mini-saias, com os peitos de fora, pernas forradas a collants, chamam uns pelos outros aos berros, guicham, insultam-se, saltam de banca em banca, em cada banca uma música diferente, nenhuma portuguesa, nenhuma típica, não têm mãos a medir com tantas discotecas diferentes na rua, e depois mijam nas esquinas - desculpem a linguagem, mas os selvagens são mesmo assim: não urinam, mijam - ou então põem-se nos muros e mijam em grupos lá para baixo, para quem está a assar sardinhas, e depois riem-se, abanam mal as pilas, enfiam-nas para dentro das calças e secam as mãos no cabelo, e depois metem a boca em tudo, uns nos outros e nas garrafas, nas ganzas e nas unhacas, partem copos nos pés e nas cabeças uns dos outros, viram as máquinas fotográficas para eles próprios, encostam a fronha uma à outra, deitam a língua de fora como os papa-formigas, e lá sai a foto, cheia de flash, um flash tão grande que o pus das borbulhas fica todo branquinho, e ficamos nós a olhar esta gente no apogeu do acne e a pensar no que alguém disse um dia, que a juventude é demasiado preciosa para desperdiçar nos jovens.
No dia 15 de Agosto de 1195 um tal de António nasceu numa casinha ao pé da Sé de Lisboa. 813 anos depois, em nome de um padre franciscano, a escumalha de Lisboa e arredores reúne-se para libertar os fluídos corporais acumulados ao longo do ano, para gritar aos quatros ventos a sua condição de selvagens.
Jantei na casa de um amigo, rodeado de umas vinte pessoas, tudo ali por volta dos 30 anos, tudo gente civilizada, ninguém mal vestido, mas também ninguém excessivamente bem vestido, ninguém mal encarado, mas também ninguém excessivamente descontraído, falava-se de futebol, política e trabalho, aqui e ali devia ter-se falado de amores e desamores, mas não ouvi, e duas crianças, bem comportadas também, as sardinhas gordas, os pimentos bem assados, as ameijôas casadas com o limão e os coentros, a música boa, mulheres bonitas. Saí por volta da meia noite e tal, apesar dos protestos simpáticos do anfitrião e da cara de desdém dos restantes perante o local onde ia, a noite de Santo António in situ. De facto, há três anos tinha lá ido e saí rapidamente, e voltei a cometer o mesmo erro.
A noite de Santo António de Lisboa está cada vez mais entregue aos selvagens. Aconteceu o mesmo que ao Bairro Alto: a civilização começou a deslocar-se para outro lado. A barbárie tomou de assalto aquilo que era nosso, levaram-nos a noite de Santo António. E agora somos obrigados a festejá-la em casa de amigos ou a procurar becos onde nos aninhamos, como nos condomínios, longe dos animais.
O Santo António ainda é bailarico e gente castiça, são as sardinhas e o vinho, é a broa e o manjerico, é o fado e a batata assada. E somos nós, que gostamos de Lisboa o ano inteiro, e não fazemos de conta que gostamos dela para a tratarmos como uma meretriz de noite única.
“E a Mouraria é que ééééééééé...
E a Mouraria é que ééééééééé...”
Para logo de seguida...
“E esta merda é toda nossa, olé, olé!
E esta merda é toda nossa, olé, olé!”
Há quem veja nisto ordinarice, eu não, eu tenho carinho pelos habitantes dos bairros históricos, são os únicos lisboetas que restam, têm de ser preservados, como os linces e os pandas, aquele “esta merda é toda nossa” é uma libertação, é uma revolta, ainda que consentida e temporária, é uma ilusão de liberdade - nós, que vocês acham que somos das barracas, nós, por uma noite invadimos a vossa sala de visitas, tomamos a Avenida de assalto, e que se fodam vocês todos porque esta merda é toda nossa...
Continuo a andar, ando e para trás vai ficando gente estranha, muito estranha, sinto-me Darwin a cartografar espécies novas, brancos de bigode com mulatas de cabelo esticado, chineses betos, estrangeiros em duplas de gays, filhos adolescentes tão gordos, tão gordos, que têm maminhas maiores que as da mãe, e homens de camisas de alças, com o peito a sair, os pêlos vieram ver as marchas também, e dois homens a discutirem, diz um “mas o que é que tu vês na gaja?”, e o outro responde “mas eu só tolero a gaja até certa hora”, já não oiço a contra-resposta, e depois comecei a ouvir um maluco a gritar do outro lado da rua, andei um tempo à procura dele, não o via, e afinal ele estava mesmo ao meu lado, ele gritava e a voz começava do outro lado da rua, só depois é que vinha ter com ele, achei aquilo muito engraçado, porém um bocado estranho,
e no fim da Avenida está sentada uma noiva de Santo António, uma Kátia Raquel qualquer, reconheci-a do casamento que deu de manhã na televisão, ela ainda com o vestido, sentada na berma da estrada, de pernas abertas, tão gorda que era o dobro do noivo, e ainda por cima estava inchada do copo-de-água, a falar mal da Câmara e dos outros casais, e o noivo, coitado, triste, chupadinho, tímido, enforcado, estás tramado, estás,
depois, vem a manada de adolescentes, ficar em casa nos Santos nem pensar, que vergonha!, têm de sair nessa noite, e reúnem-se todos, são os Santos como podia ser outra coisa qualquer, não fazem ideia de quem é o Santo António, vêm em grupos, da Cova da Moura e da Quinta da Marinha, centenas e centenas, elas de mini-saias, com os peitos de fora, pernas forradas a collants, chamam uns pelos outros aos berros, guicham, insultam-se, saltam de banca em banca, em cada banca uma música diferente, nenhuma portuguesa, nenhuma típica, não têm mãos a medir com tantas discotecas diferentes na rua, e depois mijam nas esquinas - desculpem a linguagem, mas os selvagens são mesmo assim: não urinam, mijam - ou então põem-se nos muros e mijam em grupos lá para baixo, para quem está a assar sardinhas, e depois riem-se, abanam mal as pilas, enfiam-nas para dentro das calças e secam as mãos no cabelo, e depois metem a boca em tudo, uns nos outros e nas garrafas, nas ganzas e nas unhacas, partem copos nos pés e nas cabeças uns dos outros, viram as máquinas fotográficas para eles próprios, encostam a fronha uma à outra, deitam a língua de fora como os papa-formigas, e lá sai a foto, cheia de flash, um flash tão grande que o pus das borbulhas fica todo branquinho, e ficamos nós a olhar esta gente no apogeu do acne e a pensar no que alguém disse um dia, que a juventude é demasiado preciosa para desperdiçar nos jovens.
No dia 15 de Agosto de 1195 um tal de António nasceu numa casinha ao pé da Sé de Lisboa. 813 anos depois, em nome de um padre franciscano, a escumalha de Lisboa e arredores reúne-se para libertar os fluídos corporais acumulados ao longo do ano, para gritar aos quatros ventos a sua condição de selvagens.Jantei na casa de um amigo, rodeado de umas vinte pessoas, tudo ali por volta dos 30 anos, tudo gente civilizada, ninguém mal vestido, mas também ninguém excessivamente bem vestido, ninguém mal encarado, mas também ninguém excessivamente descontraído, falava-se de futebol, política e trabalho, aqui e ali devia ter-se falado de amores e desamores, mas não ouvi, e duas crianças, bem comportadas também, as sardinhas gordas, os pimentos bem assados, as ameijôas casadas com o limão e os coentros, a música boa, mulheres bonitas. Saí por volta da meia noite e tal, apesar dos protestos simpáticos do anfitrião e da cara de desdém dos restantes perante o local onde ia, a noite de Santo António in situ. De facto, há três anos tinha lá ido e saí rapidamente, e voltei a cometer o mesmo erro.
A noite de Santo António de Lisboa está cada vez mais entregue aos selvagens. Aconteceu o mesmo que ao Bairro Alto: a civilização começou a deslocar-se para outro lado. A barbárie tomou de assalto aquilo que era nosso, levaram-nos a noite de Santo António. E agora somos obrigados a festejá-la em casa de amigos ou a procurar becos onde nos aninhamos, como nos condomínios, longe dos animais.
O Santo António ainda é bailarico e gente castiça, são as sardinhas e o vinho, é a broa e o manjerico, é o fado e a batata assada. E somos nós, que gostamos de Lisboa o ano inteiro, e não fazemos de conta que gostamos dela para a tratarmos como uma meretriz de noite única.
Quarta-feira, 10 de Junho de 2009
Aqui fuma-se enquanto se pensa na vida
“Pessoas normais têm a decência de esconder a imagem que dão, a imagem daquilo em que se tornaram, mesmo que sejam uma só pessoa na vida. A que escolheram para viver aos dezoito anos. A que já viu tudo. Pessoas normais gostam de sexo. Pessoas normais bebem vinho. Pessoas normais dizem palavrões e têm sonhos obscenos. Pessoas normais sonham com a mulher de quatro à beira da cama, mas não pedem que ela se ponha de quatro, a bunda erguida como nos filmes. Pessoas normais pensam toda a vida em ter uma vida diferente. Pessoas normais compram quinze dias de férias numa praia de agência de viagens e não vêm ao Rio. Pessoas normais conhecem “Nessun Dorma” cantado pelo Pavarotti. Pessoas normais esquecem todos os dias quem são, só para não se chatearem.Cansei. Não há coisinha mais egoísta que uma pessoa normal. Nem mais perigosa.
Às vezes olho para trás e procuro um lugar, uma data, um momento – aquele instante em que teria deixado de ser uma pessoa normal."
Mónica Marques, "Transa Atlântica", Pág. 29
Segunda-feira, 8 de Junho de 2009
Viagem ao mundo dos chungas
Por um acaso do destino, hoje à tarde fui ao novo Dolce Vita Tejo. Agora que passaram umas semanas e os tugas já foram em horda inaugurar o chão e os vidros das montras, lá fui eu. Pois bem, devo dizer que nunca vi tanto chunga na minha vida, nem no Terceiro Anel do Estádio da Luz, nos tempos em que ia ao Estádio da Luz.
Devo dizer que não tenho nada contra os chungas. Têm todo o direito a existir, tal como eu tenho todo o direito a evitá-los. A democracia é assim. Cada um para seu canto e não há cá confusões. E também não há misericórdia. Isto não é contra os pobres e remediados, porque é perfeitamente possível ser pobre e vestir bem. Isto é contra o mau gosto. Também há na Quinta da Marinha, mas eu ontem fui é ao Casal da Mira, logo...
Os espécimes faziam-se acompanhar pela namorada, regra geral chunga, e pelos familiares, regra geral chungas, incluindo as criancinhas, elas que, coitadas, ainda não pensam, e era um desfilar de brincos, dourados e prateados, bonés enfiados na cabeça, com o cabelo a sair da janelinha que está atrás do boné, ou então com o boné ao contrário, com as madeixas douradas penduradas sobre a testa a espreitar pela janelinha do boné, ou então é sem boné, a mostrar o rabo de cavalo, regra geral viscoso e apanhado por um elástico amarelo ou verde que roubaram na gaveta da irmã, às vezes não é o rabo de cavalo, é aquele corte que eles usam há décadas, passaram de pais para filhos, que é o cabelo curto nos lados e em cima e muito comprido atrás,
e depois os putos, ainda agora saíram dos dez anos e já com bigode, aquilo não é bem bigode, é um buço, que os pais não cortam porque acham que o puto está a ficar um homem, e depois é a cárie a brilhar no amarelo dos dentes, e não páram quietos, os putos, mexem em tudo, mexem, mexem, mexem, mexem, mexem, e depois levam um calduço da mãe, "que é para ver ser páras quieto, raios partam o puto, prá próxima ficas em casa",
e as mães com aquelas calças de ganga clara de cintura descaída, a imitar as filhas, de modo que as banhas lutavam para sair, coitadas, à procura de oxigénio para respirar, para não falar das peles dos pés, sufocadas naquelas socas altíssimas de madeira, ou então naquelas sabrinas de plástico, que compraram do número abaixo, já não havia o número delas, mas compraram na mesma porque estava em promoção e era aproveitar,
e depois carregam aqueles sacos pretos cheios de logotipos da Delta Cafés, já para não falar dos calcanhares todos gretados, com aquelas crostas medonhas, que se falassem teriam muito para contar, as crostas cinzentas querem dizer que aqueles pés andaram descalços em cimento, já os castanhos andaram na terra, os pretos só querem dizer que o dono não toma banho,
e depois o pai na bicha do restaurante a gritar ao filho "tá calado, caralho, que levas uma lambreta no focinho", diz isto ao mesmo tempo que olha para o rabo das miúdas que passam, também elas chungas, e olha descaradamente nas barbas da mulher, por acaso algumas tinham mesmo barbas, ele olha assim porque já estão casados há tanto tempo que já não tem esse tipo de protocolo,
e os rapazes com os fios ao pescoço, geralmente com cruzes, o cabelo lambido com gel e aparado a cuspe, as unhas roídas até aos cotos, a mascarem pastilhas de boca aberta, furiosamente, parece que são bifes que eles mastigam, daqueles bifes ransosos, cheios de nervos, que as mães compraram no Talho do Zé, ou no Talho do Firmino, ou no Talho do Abílio, os talhos deles têm sempre o nome do dono, e os ténis com as palas para fora das calças, palas tão grandes que parecem aquelas protecções que os guarda-redes do hóquei em patins usam nas canelas, e são as t-shirts, quase todas com a marca a gritar Nike, mas aquilo é tão falso que nem se lê Nike, lê-se Nique, t-shirts geralmente compradas aos revendedores autorizados da Nique para os chungas, que são os ciganos da feira, mas como agora não há feiras eles vão vender à porta das pastelarias de maior movimento lá na terrinha,
e as raparigas, cheias de borbulhas, tantas borbulhas, meu Deus, se não são as borbulhas são os buracos, que ficaram das borbulhas que rebentaram com agulhas e das varicelas que curaram à unha, e depois a cara fica assim toda escavacada, e por isso encharcam os buracos da cara com maquilhagem, geralmente das amostras que arrancam nas revistas dos cabeleireiros, pegam naquilo e enchem os buracos da cara como eu faço cá em casa na parede com os buracos dos pregos, pego no estuque e pronto, fica lisinho.
Devo dizer que não tenho nada contra os chungas. Têm todo o direito a existir, tal como eu tenho todo o direito a evitá-los. A democracia é assim. Cada um para seu canto e não há cá confusões. E também não há misericórdia. Isto não é contra os pobres e remediados, porque é perfeitamente possível ser pobre e vestir bem. Isto é contra o mau gosto. Também há na Quinta da Marinha, mas eu ontem fui é ao Casal da Mira, logo...
Os espécimes faziam-se acompanhar pela namorada, regra geral chunga, e pelos familiares, regra geral chungas, incluindo as criancinhas, elas que, coitadas, ainda não pensam, e era um desfilar de brincos, dourados e prateados, bonés enfiados na cabeça, com o cabelo a sair da janelinha que está atrás do boné, ou então com o boné ao contrário, com as madeixas douradas penduradas sobre a testa a espreitar pela janelinha do boné, ou então é sem boné, a mostrar o rabo de cavalo, regra geral viscoso e apanhado por um elástico amarelo ou verde que roubaram na gaveta da irmã, às vezes não é o rabo de cavalo, é aquele corte que eles usam há décadas, passaram de pais para filhos, que é o cabelo curto nos lados e em cima e muito comprido atrás,
e depois os putos, ainda agora saíram dos dez anos e já com bigode, aquilo não é bem bigode, é um buço, que os pais não cortam porque acham que o puto está a ficar um homem, e depois é a cárie a brilhar no amarelo dos dentes, e não páram quietos, os putos, mexem em tudo, mexem, mexem, mexem, mexem, mexem, e depois levam um calduço da mãe, "que é para ver ser páras quieto, raios partam o puto, prá próxima ficas em casa",
e as mães com aquelas calças de ganga clara de cintura descaída, a imitar as filhas, de modo que as banhas lutavam para sair, coitadas, à procura de oxigénio para respirar, para não falar das peles dos pés, sufocadas naquelas socas altíssimas de madeira, ou então naquelas sabrinas de plástico, que compraram do número abaixo, já não havia o número delas, mas compraram na mesma porque estava em promoção e era aproveitar,
e depois carregam aqueles sacos pretos cheios de logotipos da Delta Cafés, já para não falar dos calcanhares todos gretados, com aquelas crostas medonhas, que se falassem teriam muito para contar, as crostas cinzentas querem dizer que aqueles pés andaram descalços em cimento, já os castanhos andaram na terra, os pretos só querem dizer que o dono não toma banho,
e depois o pai na bicha do restaurante a gritar ao filho "tá calado, caralho, que levas uma lambreta no focinho", diz isto ao mesmo tempo que olha para o rabo das miúdas que passam, também elas chungas, e olha descaradamente nas barbas da mulher, por acaso algumas tinham mesmo barbas, ele olha assim porque já estão casados há tanto tempo que já não tem esse tipo de protocolo,
e os rapazes com os fios ao pescoço, geralmente com cruzes, o cabelo lambido com gel e aparado a cuspe, as unhas roídas até aos cotos, a mascarem pastilhas de boca aberta, furiosamente, parece que são bifes que eles mastigam, daqueles bifes ransosos, cheios de nervos, que as mães compraram no Talho do Zé, ou no Talho do Firmino, ou no Talho do Abílio, os talhos deles têm sempre o nome do dono, e os ténis com as palas para fora das calças, palas tão grandes que parecem aquelas protecções que os guarda-redes do hóquei em patins usam nas canelas, e são as t-shirts, quase todas com a marca a gritar Nike, mas aquilo é tão falso que nem se lê Nike, lê-se Nique, t-shirts geralmente compradas aos revendedores autorizados da Nique para os chungas, que são os ciganos da feira, mas como agora não há feiras eles vão vender à porta das pastelarias de maior movimento lá na terrinha,
e as raparigas, cheias de borbulhas, tantas borbulhas, meu Deus, se não são as borbulhas são os buracos, que ficaram das borbulhas que rebentaram com agulhas e das varicelas que curaram à unha, e depois a cara fica assim toda escavacada, e por isso encharcam os buracos da cara com maquilhagem, geralmente das amostras que arrancam nas revistas dos cabeleireiros, pegam naquilo e enchem os buracos da cara como eu faço cá em casa na parede com os buracos dos pregos, pego no estuque e pronto, fica lisinho.
Domingo, 7 de Junho de 2009
O que eu passei para ir votar
Espero que o doutor Paulo Rangel leia isto e dê valor ao meu voto. Que trabalhe a sério em Bruxelas... Se não, sou homem para lhe dar uns tabefes.
Voto em Lisboa, no Lumiar. Por razões do Diabo, moro um “bocadinho” longe, mas continuo a votar no Lumiar. Para chegar ao Lumiar tenho o Metro, mas não tenho o Metro ao pé de casa, logo tinha duas hipóteses: vou de táxi até ao Metro ou vou de táxi até ao Metro. Feito parvo, decidi ir de autocarro até ao Metro. Foi só o começo...
O motorista, vestido com um grande bigode e uma grande barriga, ia a vinte, a conversar com os amigos do lado, um deles a empatar a entrada, com um saco de plástico na mão, transparente, de modo que se via que levava lá dentro uma dúzia de ovos e um pacote de bolachas. Atrás de mim, sentados, dois tipos a gritar um com outro, à minha frente um homem, já velho, cabelos compridos completamente brancos, barba até ao umbigo, cheirava a cabra, quem já andou no campo sabe a que cheira uma cabra, e sempre que a porta de trás abria vinha um ventinho que esbarrava no velho, e depois o velho filtrava o ventinho e quando chegava a mim já não era o ventinho, era a cabra.
Chego ao Metro e tiro bilhete, entro, sento-me a ler um livro (vim prevenido...), cruzo a perna, e é então que vejo de relance, pelo canto do olho, uma mancha cor-de-laranja, viro o olho e vejo que era o meu ténis direito que ainda estava cheio de terra das Minas de São Domingos de há duas semanas, saí a correr de casa e não reparei que os ténis estavam sujos, de modo que já não podia cruzar a perna. Depois dá-me um clique: enganei-me no bilhete. Tirei o de uma coroa, quando devia tirar duas, posso ficar aqui na carruagem, mas depois não vou conseguir sair no Lumiar, portanto saí na estação seguinte, ainda o bilhete dava.
Como é domingo, o metro demora meia hora, por isso ainda fui comprar pastilhas, na papelaria estava um tipo que cheirava que tresandava, eu estava a ver a capa da Nova Gente e veio-me o cheiro ao nariz, quando cheguei ao Correio da Manhã já não aguentei mais, de modo que pedi “umas pastilhas de melão, por favor” e saí rapidamente.
Entrei no Metro outra vez e a senhora do altifalante anuncia que a linha amarela estava encerrada entre o Campo Pequeno e o Rato. Para quem vem do Colégio Militar e quer ir para o Campo Grande tem de dar uma volta do c*** até ao Marquês, e subir pela tal Linha Amarela, mas como a Linha Amarela estava interrompida, tinha de se ir em frente na Azul até à Baixa Chiado e apanhar a Linha Verde até ao Campo Grande e depois descer até à Amarela outra vez, até ao Lumiar... Pensei cá para mim: “eu não vou fazer esta merda; o PSD não merece isto”. Vou-me embora. Não fui.
Entro no metro, começo a ler o livro, é agora que isto vai sossegar, penso eu, mas entra também um casal de jovens, ele a gritar “anda prá aqui”, ela vai, e um minuto depois voltam atrás e sentam-se noutro lado, mesmo à minha frente, e eu a pensar para os meus botões “estou bem fodido, hoje, estou”, e os atrasadinhos começam-se a beijar, nem eram eles que se beijavam, eram as línguas que cuspiam da boca e se lambuzavam uma à outra, eu não tenho nada contra línguas que se lambuzam, até recomendo, acho que é que as línguas precisam de privacidade quando estão nessa actividade, lembrei-me do Oscar Wilde, que dizia que ver os outros a lavar roupa suja em público não o chateava, o que o chateava mesmo era gente que lavava roupa limpa em público, eu também acho isso, começa-me a faltar o ar a ver esta gente, e depois ela dizia-lhe qualquer coisa e ele gritava “aahhhhhh”, ela dizia outra coisa e ele “eeehhhhh”, ele a berrar e eu a pensar “ó meu grande atrasado mental, a gaja está a dez centímetros de ti, estás a gritar porquê, meu grande cabrão?”, eles não ouviram a minha pergunta, e ele começou depois a dar-lhe beijos na boca como os pica-paus fazem nos troncos das árvores, e ela, coitada, ficou toda vermelha, ela era feia, desculpa mas eras, um corpo de foca e uma cabeça de guaxinim, é verdade, não estou aqui para enganar ninguém, se fosses bonita não tinha problemas em dizer que tinhas corpo de foca e cabeça de foca, sim porque eu acho as focas bonitas, o bigode é que acho desnecessário.
Duas horas e tal depois saio então no Lumiar. De repente, deu-me vontade de ir visitar a casa-de-banho do Centro Comercial do Lumiar, só está uma aberta e é no terceiro andar, subo pelas escadas, chego à porta e está um balde com uma esfregona, está em limpeza a casa-de-banho, começo a ficar ligeiramente fodido, preciso de escrever, vou à papelaria e peço um bloco pequeno, aliás, pergunto “tem blocos?”, e a mulher olha para mim e diz-me “tenho...”, e continua a olhar para mim, e obriga-me a dizer “então quero um”, mas o que estava a pensar mesmo era “então vai buscar um bloco, c******, achas que vim aqui ao domingo só para ter perguntar se tinhas blocos e depois ia-me embora?”, de modo que ela olhou para mim e disse, muito pausadamente, “vou buscar...”, e foi, “e queria uma caneta”, disse, e ela trouxe, chegou-se ao balcão, tirou a tampa, não percebi o que ia fazer, ela vira costas e vai buscar uma folha à fotocopiadora, tudo muito lentamente, começa a escrever na folha com a minha caneta e diz “a caneta está boa...”
Vou votar. Claro que apanhei bicha à porta da mesa de voto. Nunca tinha apanhado, hoje tinha de ser, de modo que até tive tempo para ver a folha das listas que estava afixada à entrada, o título dizia “Listas Definitivamente Admitidas”, achei genial o “Definitivamente”, imagino a porrada que houve até as listas serem aceites... definitivamente. Votei. Estiquei-me na cruz, o braço esquerdo e a perna direita ficaram bem, o braço direito e a perna esquerda da cruz ficaram de fora do quadrado, de modo que é possível que o voto seja nulo, dobrei o boletim em quatro e perguntei à senhora “está bem assim ou dobro mais uma?”, ela atirou-me um olhar lascivo e disse-me “dobre mais um, que fica mais aconchegado...”, eu ri-me e só depois é que reparei que o colega dela que estava sentado parecia o Bob Marley com o cabelo do Marco Paulo. Saí e fiquei à porta. Gosto de votar no Lumiar porque tudo se junta, os remediados dos bairros sociais a norte, a classe média do centro e os betos, os doutores e os engenheiros da Quinta do Lambert, a sul.
Agora, era o regresso a casa. Não voltei a ir de Metro, claro. Fui de táxi, sento-me e o homem está a ouvir o "Still Loving You" dos Scorpions, eu não tenho nada contra o "Still Loving You" dos Scorpions, mas é desconfortável ouvi-lo fechado num carro com um desconhecido, ainda mais homem, ainda mais taxista, a chatice é mais nos semáforos, em que está tudo parado, e somos obrigados a partilhar a música a dois, e eu faço tudo por tudo para não cruzar o olhar com o dele no espelho, seria claramente delicado, imagine-se que trocamos olhares na altura do refrão, o "Still Loving You", eu não quero que o taxista me continue a amar, só quero que ele vire ali à esquerda naquela rotunda, por favor.
Andamos uns metros e passamos pelo Museu do Traje, viro a cara e vejo um cu muito branco, muito pequeno, é um puto que está de calças arreadas, rabo virado para os carros que passam na estrada, costas muito arqueadas, o puto com a pilinha apontada à parede, a tentar domá-la com a mão direita, a esquerda estava à cintura, como os toureiros, e o puto assim, indiferente aos carros que passavam, ah, é tão bom ser puto e não ter vergonha de mostar o rabo, o pai estava ao lado, de pé, de costas para ele, de frente para a estrada, de pernas abertas, de plantão, a fumar um cigarro.
Três horas depois cheguei a casa.
PS: O livro chama-se “Para uma menina com uma flor”. É um conjunto de crónicas de Vinicius de Moraes. A terceira era sobre o 6 de Junho de 1944, fez ontem 65 anos, a propósito do desembarque na Normandia, o princípio do fim da II Grande Guerra Mundial. O Rio de Janeiro chorava de alegria porque a Europa foi invadida. “Depois da Guerra vão nascer lírios nas pedras, grandes lírios cor de sangue, belas rosas desmaiadas...” Isto foi a única coisa que fez sentido hoje.
Voto em Lisboa, no Lumiar. Por razões do Diabo, moro um “bocadinho” longe, mas continuo a votar no Lumiar. Para chegar ao Lumiar tenho o Metro, mas não tenho o Metro ao pé de casa, logo tinha duas hipóteses: vou de táxi até ao Metro ou vou de táxi até ao Metro. Feito parvo, decidi ir de autocarro até ao Metro. Foi só o começo...
O motorista, vestido com um grande bigode e uma grande barriga, ia a vinte, a conversar com os amigos do lado, um deles a empatar a entrada, com um saco de plástico na mão, transparente, de modo que se via que levava lá dentro uma dúzia de ovos e um pacote de bolachas. Atrás de mim, sentados, dois tipos a gritar um com outro, à minha frente um homem, já velho, cabelos compridos completamente brancos, barba até ao umbigo, cheirava a cabra, quem já andou no campo sabe a que cheira uma cabra, e sempre que a porta de trás abria vinha um ventinho que esbarrava no velho, e depois o velho filtrava o ventinho e quando chegava a mim já não era o ventinho, era a cabra.
Chego ao Metro e tiro bilhete, entro, sento-me a ler um livro (vim prevenido...), cruzo a perna, e é então que vejo de relance, pelo canto do olho, uma mancha cor-de-laranja, viro o olho e vejo que era o meu ténis direito que ainda estava cheio de terra das Minas de São Domingos de há duas semanas, saí a correr de casa e não reparei que os ténis estavam sujos, de modo que já não podia cruzar a perna. Depois dá-me um clique: enganei-me no bilhete. Tirei o de uma coroa, quando devia tirar duas, posso ficar aqui na carruagem, mas depois não vou conseguir sair no Lumiar, portanto saí na estação seguinte, ainda o bilhete dava.
Como é domingo, o metro demora meia hora, por isso ainda fui comprar pastilhas, na papelaria estava um tipo que cheirava que tresandava, eu estava a ver a capa da Nova Gente e veio-me o cheiro ao nariz, quando cheguei ao Correio da Manhã já não aguentei mais, de modo que pedi “umas pastilhas de melão, por favor” e saí rapidamente.
Entrei no Metro outra vez e a senhora do altifalante anuncia que a linha amarela estava encerrada entre o Campo Pequeno e o Rato. Para quem vem do Colégio Militar e quer ir para o Campo Grande tem de dar uma volta do c*** até ao Marquês, e subir pela tal Linha Amarela, mas como a Linha Amarela estava interrompida, tinha de se ir em frente na Azul até à Baixa Chiado e apanhar a Linha Verde até ao Campo Grande e depois descer até à Amarela outra vez, até ao Lumiar... Pensei cá para mim: “eu não vou fazer esta merda; o PSD não merece isto”. Vou-me embora. Não fui.
Entro no metro, começo a ler o livro, é agora que isto vai sossegar, penso eu, mas entra também um casal de jovens, ele a gritar “anda prá aqui”, ela vai, e um minuto depois voltam atrás e sentam-se noutro lado, mesmo à minha frente, e eu a pensar para os meus botões “estou bem fodido, hoje, estou”, e os atrasadinhos começam-se a beijar, nem eram eles que se beijavam, eram as línguas que cuspiam da boca e se lambuzavam uma à outra, eu não tenho nada contra línguas que se lambuzam, até recomendo, acho que é que as línguas precisam de privacidade quando estão nessa actividade, lembrei-me do Oscar Wilde, que dizia que ver os outros a lavar roupa suja em público não o chateava, o que o chateava mesmo era gente que lavava roupa limpa em público, eu também acho isso, começa-me a faltar o ar a ver esta gente, e depois ela dizia-lhe qualquer coisa e ele gritava “aahhhhhh”, ela dizia outra coisa e ele “eeehhhhh”, ele a berrar e eu a pensar “ó meu grande atrasado mental, a gaja está a dez centímetros de ti, estás a gritar porquê, meu grande cabrão?”, eles não ouviram a minha pergunta, e ele começou depois a dar-lhe beijos na boca como os pica-paus fazem nos troncos das árvores, e ela, coitada, ficou toda vermelha, ela era feia, desculpa mas eras, um corpo de foca e uma cabeça de guaxinim, é verdade, não estou aqui para enganar ninguém, se fosses bonita não tinha problemas em dizer que tinhas corpo de foca e cabeça de foca, sim porque eu acho as focas bonitas, o bigode é que acho desnecessário.
Duas horas e tal depois saio então no Lumiar. De repente, deu-me vontade de ir visitar a casa-de-banho do Centro Comercial do Lumiar, só está uma aberta e é no terceiro andar, subo pelas escadas, chego à porta e está um balde com uma esfregona, está em limpeza a casa-de-banho, começo a ficar ligeiramente fodido, preciso de escrever, vou à papelaria e peço um bloco pequeno, aliás, pergunto “tem blocos?”, e a mulher olha para mim e diz-me “tenho...”, e continua a olhar para mim, e obriga-me a dizer “então quero um”, mas o que estava a pensar mesmo era “então vai buscar um bloco, c******, achas que vim aqui ao domingo só para ter perguntar se tinhas blocos e depois ia-me embora?”, de modo que ela olhou para mim e disse, muito pausadamente, “vou buscar...”, e foi, “e queria uma caneta”, disse, e ela trouxe, chegou-se ao balcão, tirou a tampa, não percebi o que ia fazer, ela vira costas e vai buscar uma folha à fotocopiadora, tudo muito lentamente, começa a escrever na folha com a minha caneta e diz “a caneta está boa...”
Vou votar. Claro que apanhei bicha à porta da mesa de voto. Nunca tinha apanhado, hoje tinha de ser, de modo que até tive tempo para ver a folha das listas que estava afixada à entrada, o título dizia “Listas Definitivamente Admitidas”, achei genial o “Definitivamente”, imagino a porrada que houve até as listas serem aceites... definitivamente. Votei. Estiquei-me na cruz, o braço esquerdo e a perna direita ficaram bem, o braço direito e a perna esquerda da cruz ficaram de fora do quadrado, de modo que é possível que o voto seja nulo, dobrei o boletim em quatro e perguntei à senhora “está bem assim ou dobro mais uma?”, ela atirou-me um olhar lascivo e disse-me “dobre mais um, que fica mais aconchegado...”, eu ri-me e só depois é que reparei que o colega dela que estava sentado parecia o Bob Marley com o cabelo do Marco Paulo. Saí e fiquei à porta. Gosto de votar no Lumiar porque tudo se junta, os remediados dos bairros sociais a norte, a classe média do centro e os betos, os doutores e os engenheiros da Quinta do Lambert, a sul.
Agora, era o regresso a casa. Não voltei a ir de Metro, claro. Fui de táxi, sento-me e o homem está a ouvir o "Still Loving You" dos Scorpions, eu não tenho nada contra o "Still Loving You" dos Scorpions, mas é desconfortável ouvi-lo fechado num carro com um desconhecido, ainda mais homem, ainda mais taxista, a chatice é mais nos semáforos, em que está tudo parado, e somos obrigados a partilhar a música a dois, e eu faço tudo por tudo para não cruzar o olhar com o dele no espelho, seria claramente delicado, imagine-se que trocamos olhares na altura do refrão, o "Still Loving You", eu não quero que o taxista me continue a amar, só quero que ele vire ali à esquerda naquela rotunda, por favor.
Andamos uns metros e passamos pelo Museu do Traje, viro a cara e vejo um cu muito branco, muito pequeno, é um puto que está de calças arreadas, rabo virado para os carros que passam na estrada, costas muito arqueadas, o puto com a pilinha apontada à parede, a tentar domá-la com a mão direita, a esquerda estava à cintura, como os toureiros, e o puto assim, indiferente aos carros que passavam, ah, é tão bom ser puto e não ter vergonha de mostar o rabo, o pai estava ao lado, de pé, de costas para ele, de frente para a estrada, de pernas abertas, de plantão, a fumar um cigarro.
Três horas depois cheguei a casa.
PS: O livro chama-se “Para uma menina com uma flor”. É um conjunto de crónicas de Vinicius de Moraes. A terceira era sobre o 6 de Junho de 1944, fez ontem 65 anos, a propósito do desembarque na Normandia, o princípio do fim da II Grande Guerra Mundial. O Rio de Janeiro chorava de alegria porque a Europa foi invadida. “Depois da Guerra vão nascer lírios nas pedras, grandes lírios cor de sangue, belas rosas desmaiadas...” Isto foi a única coisa que fez sentido hoje.
O melhor das Eleições Europeias
Coisas bizarras dos noticiários das 13:
- A SIC exulta de alegria: "Não há incidentes a registar".
- Paulo Rangel atrasou-se e não apareceu nos resumos.
- Nuno Melo está com umas olheiras inacreditáveis.
- Louçã votou num stand de automóveis.
- Ferreira Leite riu-se.
- Paulo Portas esqueceu-se da voz de falsete.
- Jerónimo de Sousa votou de boca aberta.
- Maria Cavaco Silva começou a votar antes de Cavaco e acabou depois de Cavaco.
- Cavaco Silva foi votar com uma gravata do Chapitô.
- Passa-se algo de estranho com o cabelo de Cavaco Silva.
- Maria Cavaco Silva foi de casaco vermelho a combinar com um vermelho diferente da mala a combinar com um vermelho diferente dos sapatos.
- A jornalista da SIC está a fazer o directo da secção de voto da Lapa, onde votou Cavaco, quando atrás de si passa José Pinto Coelho, líder do PNR. Ninguém lhe liga pevide.
- Sócrates não foi ao Fundão votar. E diz que agora vai ter com os filhos, mas tem pena de não poder ir ao cinema.
- A SIC foi à praia à procura de abstencionistas. Concluiu que não há muitos "porque a água está fria".
- A TVI foi à procura de abstencionistas no Algarve e a repórter concluiu que "estavam de férias".
- O país suspirou de alívio quando o tipo da SIC de Bragança diz que "não há incidentes em Bragança".
- Durão Barroso veio cá dizer que "foi em 1989 que caiu o Muro de Berlim e que foi em 1974 que tivemos democracia".
- Vital Moreira votou com os pés bem assentes no chão, mas a muito custo.
- Finalmente Paulo Rangel foi votar e aproveitou a deixa para dizer que "o tempo no Porto está bom".
- Ilda Figueiredo levou uma camisa dos chineses. Ninguém percebeu o que disse à saída.
- Afinal, há incidentes! Populares bloquearam a secção de voto de Castanheira do Vouga. "A população está revoltada", diz o presidente da câmara, e "a GNR visitou o local...", assegura a RTP. Tudo, diz um popular, "por causa do Magalhães e de outros computadores que não conseguem ligar à Internet e até a caixa do multibanco não liga. As pessoas têm falta destes equipamentos, que hoje em dia são como o lápis e a borracha".
- A TVI diz que "o grosso" dos 375 milhões de europeus vota hoje. A minha parte do "grosso" vai agora depois do almoço.
- A SIC exulta de alegria: "Não há incidentes a registar".
- Paulo Rangel atrasou-se e não apareceu nos resumos.
- Nuno Melo está com umas olheiras inacreditáveis.
- Louçã votou num stand de automóveis.
- Ferreira Leite riu-se.
- Paulo Portas esqueceu-se da voz de falsete.
- Jerónimo de Sousa votou de boca aberta.
- Maria Cavaco Silva começou a votar antes de Cavaco e acabou depois de Cavaco.
- Cavaco Silva foi votar com uma gravata do Chapitô.
- Passa-se algo de estranho com o cabelo de Cavaco Silva.
- Maria Cavaco Silva foi de casaco vermelho a combinar com um vermelho diferente da mala a combinar com um vermelho diferente dos sapatos.
- A jornalista da SIC está a fazer o directo da secção de voto da Lapa, onde votou Cavaco, quando atrás de si passa José Pinto Coelho, líder do PNR. Ninguém lhe liga pevide.
- Sócrates não foi ao Fundão votar. E diz que agora vai ter com os filhos, mas tem pena de não poder ir ao cinema.
- A SIC foi à praia à procura de abstencionistas. Concluiu que não há muitos "porque a água está fria".
- A TVI foi à procura de abstencionistas no Algarve e a repórter concluiu que "estavam de férias".
- O país suspirou de alívio quando o tipo da SIC de Bragança diz que "não há incidentes em Bragança".
- Durão Barroso veio cá dizer que "foi em 1989 que caiu o Muro de Berlim e que foi em 1974 que tivemos democracia".
- Vital Moreira votou com os pés bem assentes no chão, mas a muito custo.
- Finalmente Paulo Rangel foi votar e aproveitou a deixa para dizer que "o tempo no Porto está bom".
- Ilda Figueiredo levou uma camisa dos chineses. Ninguém percebeu o que disse à saída.
- Afinal, há incidentes! Populares bloquearam a secção de voto de Castanheira do Vouga. "A população está revoltada", diz o presidente da câmara, e "a GNR visitou o local...", assegura a RTP. Tudo, diz um popular, "por causa do Magalhães e de outros computadores que não conseguem ligar à Internet e até a caixa do multibanco não liga. As pessoas têm falta destes equipamentos, que hoje em dia são como o lápis e a borracha".
- A TVI diz que "o grosso" dos 375 milhões de europeus vota hoje. A minha parte do "grosso" vai agora depois do almoço.
Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Pela calada da noite...
Se um dia escrever um livro gostava de ter uma personagem destas, daquelas secundárias, sem muita importância mas o suficiente para o leitor pensar que fui eu que a inventei da minha cabecinha, quando na verdade é apenas um dos cromos que me aparecem na vida - há alguns escritores que andam cheios de personagens destas, que "parece" que foram eles que inventaram das suas cabecinhas.
É uma mulher, que não é minha colega, mas anda lá perto.
Quando diz um palavrão abre muito a boca de espanto - "ah, descuidei-me"; "ah, peço desculpa, não era isso que queira dizer". E simula ter ficado cheia de embaraço e vergonha. E eu a imaginá-la sentada, a fechar as pernas, como as crianças, naquela posição muito envergonhada, sinal involuntário de que a asneira tinha a ver com o baixo ventre - tal como quando tapamos a boca depois de ter deixado sair o que não queríamos dizer; tapamos para não sair mais e para a pessoa perceber que foi sem querer, o termos deixado a porta da boca aberta.
Quando, pelo contrário, é outra pessoa a dizer uma asneira, essa tal mulher também abre a boca de escândalo. "Eu sou uma senhora, não posso ouvir essas coisas". E reforça isto com os olhos muito arregalados, a boca muito aberta, a simular o espanto, só não consegue é corar (e é por ser tão má actriz que há-de ser sempre uma personagem secundária).
Seja como for, porque é que esta mulher - cândida - dava uma personagem? Porque na calada da noite esta mulher é uma devoradora de homens.
É uma mulher, que não é minha colega, mas anda lá perto.Quando diz um palavrão abre muito a boca de espanto - "ah, descuidei-me"; "ah, peço desculpa, não era isso que queira dizer". E simula ter ficado cheia de embaraço e vergonha. E eu a imaginá-la sentada, a fechar as pernas, como as crianças, naquela posição muito envergonhada, sinal involuntário de que a asneira tinha a ver com o baixo ventre - tal como quando tapamos a boca depois de ter deixado sair o que não queríamos dizer; tapamos para não sair mais e para a pessoa perceber que foi sem querer, o termos deixado a porta da boca aberta.
Quando, pelo contrário, é outra pessoa a dizer uma asneira, essa tal mulher também abre a boca de escândalo. "Eu sou uma senhora, não posso ouvir essas coisas". E reforça isto com os olhos muito arregalados, a boca muito aberta, a simular o espanto, só não consegue é corar (e é por ser tão má actriz que há-de ser sempre uma personagem secundária).
Seja como for, porque é que esta mulher - cândida - dava uma personagem? Porque na calada da noite esta mulher é uma devoradora de homens.
Quarta-feira, 3 de Junho de 2009
Aqui fuma-se enquanto se pensa na vida
Terça-feira, 2 de Junho de 2009
Feios, porcos e maus
Esta foto (autor: Ali Ali) foi tirada no domingo na Faixa de Gaza.
Este homem de cara tapada pertence às Brigadas Ezzedine Al-Qassam, o braço armado do Hamas, movimento político palestiniano considerado terrorista pela União Europeia, nomeadamente devido aos ataques a Israel, muitas vezes através do recurso a bombistas suicidas que se fazem explodir em autocarros, cafés e mercados, cheios de inocentes.
A nós, "fúteis" dos países ricos e civilizados, custa-nos muito mais ver a desgraça numa pessoa bonita do que numa feia. E custa-nos também acreditar como é que uns olhos tão bonitos podem ter tanto ódio e tanta vontade de matar, mesmo que seja por algo que consideram justo.
É muito mais fácil para nós quando os "Outros" são feios, porcos e maus.
Estamos muito pouco preparados para entender uns olhos destes.
Este homem de cara tapada pertence às Brigadas Ezzedine Al-Qassam, o braço armado do Hamas, movimento político palestiniano considerado terrorista pela União Europeia, nomeadamente devido aos ataques a Israel, muitas vezes através do recurso a bombistas suicidas que se fazem explodir em autocarros, cafés e mercados, cheios de inocentes.A nós, "fúteis" dos países ricos e civilizados, custa-nos muito mais ver a desgraça numa pessoa bonita do que numa feia. E custa-nos também acreditar como é que uns olhos tão bonitos podem ter tanto ódio e tanta vontade de matar, mesmo que seja por algo que consideram justo.
É muito mais fácil para nós quando os "Outros" são feios, porcos e maus.
Estamos muito pouco preparados para entender uns olhos destes.
Segunda-feira, 1 de Junho de 2009
Os tiques do macho quando se encontra na prática do engate
A problemática do engate tem muito mais variantes, claro, mas este caso serve de exemplo corriqueiro.Isto assisti na sexta-feira à tarde. Ela, sentada no degrau. Decote vermelho a esconder um peito tão grande que se podia olhar à vontade sem ser apanhado. Ele, empregado do café, veio cá fora fumar e sentou-se ao pé dela, todo pintas, todo fuínha.
O macho em acção:
- Punha o cigarro na boca com os dois dedos bem esticados e abertos, como fazia o Travolta no Pulp Fiction. Dava uma passa e tirava o cigarro num gesto rápido e brusco. Sinal para a fêmea: sou um tipo mau e decidido.
- Os olhos dele, habitualmente mortos, estavam espertos. Abria muito as órbitas e focava as pontinhas pretas directamente nela. Sinal para a fêmea: sou um tipo que olha nos olhos, sou um matador, um don juan à antiga, sou transparente para ti, querida...
- A presença dele, habitualmente amorfa como uma alga, estava vibrante no palco social. Toda a gente que passava era cumprimentada, a altos berros, claro: “Olá, tás bom?”; “Então, viste aquilo?”; “Isso é que são bons empregos...”; “Olha prá frente se não cais”; “Ó Zé, foste ao café ontem?” Sinal para a fêmea: sou um tipo popular, conheço toda a gente, sou estimado por todos. O cumprimentar toda a gente tinha ainda outro objectivo: mostrar a quem passasse, principalmente aos outros machos, a qualidade da fêmea: sou o maior, olhem-me esta gaja boa que engatei e que estou a fingir de conta que não estou a exibir como um troféu de caça, apesar de ainda não lhe ter posto os garfos em cima.
- Regra geral mole, todo ele era gestos rápidos. Punha o cigarro, tirava o cigarro, o fumo cuspido como uma labareda, olhava-lhe para a cara, depois para o decote, depois cumprimentava quem passava, olhava, sorria, punha o cigarro, tirava, olhava, tudo muito rápido, o fumo cuspido, falava, virava a cara em gestos bruscos e decididos. Sinal para a fêmea: sou um tipo com muita energia, havias de me ver na cama, bebé.
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