Sábado, 30 de Maio de 2009

Aqui fuma-se enquanto se pensa na vida

- É um homem feliz?
- Não acredito no conceito de felicidade. É uma nivelação por baixo daquilo que se pode esperar da vida - e o que se pode esperar da vida é a capacidade de tirar prazer da existência humana, sabendo coabitar ao mesmo tempo com o sofrimento que é inerente à espécie. Felizes podem ser, talvez, os besouros...

Carlos Amaral Dias, "Única", 9 de Maio, pág. 24

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Representação

Há várias pessoas que conheço que têm blogues e daquilo que as conheço e daquilo que leio noto uma certa discrepância.

- Pessoas muito "fofinhas" no blog e depois na vida real são implicativas e chatas como a merda.
- Pessoas muito "patetas", mas com blogues intelectualmente profundos.
- Pessoas que escrevem empadões enormes no blog e depois andam caladas o dia todo.
- Pessoas que escrevem mal no trabalho e bem no blogue. E vice-versa.
- Pessoas muito “consternadas” no seu blog com a problemática do amor entre homens e mulheres e depois na vida real estão mais preocupadas em comer o próximo sem escrúpulos.

Muitas (algumas...) pessoas criam no blog uma personagem que gostavam de ter na vida real, mas que não conseguem. Ou não podem... Enfim, isto não é nada de novo. Acontece com escritores, músicos e por aí fora. Mas com esses não nos cruzamos no dia-a-dia e não lhes conhecemos as rugas de perto.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Passou bem...

Os homens são patéticos em quase tudo, principalmente nas manifestações da sua masculinidade.

Aqui há cerca de quinze anos começou a circular pelos jornais e revistas (naqueles artigos de "comportamento") a grandessíssima peta de que a personalidade de um homem se via muito pelo aperto de mão.

Se aperta forte e determinado, então, meus amigos, estamos perante um homenzarão. Melhor: um líder. Se aperta molezinho e folgado, eis-nos perante um coninhas.

Resultado: há quinze anos que as minhas mãozinhas (másculas, diga-se...) são esmagadas e trucidadas em apertos de mão dados por pintos armados em galos.

Por favor, já chega, sim?

Faz sonhar

É tão boa esta brisa quente que se sente hoje...

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Aqui fuma-se enquanto se pensa na vida

Ponham-no no emprego que ele quiser, que ele vai querer outra coisa.

Deêm-lhe a mulher mais maravilhosa do mundo, que ele vai querer diferente.

Dêem-lhe outra vida, que ele vai querer a que tem agora.

Dêem-lhe olhos verdes, que ele vai estranhar.

Dêem-lhe todo o dinheiro do mundo, que ele vai querer ser pobre, ou modesto.

Dêem-lhe companhia, que ele vai continuar sozinho.

Uma pessoa que viva assim está condenado a ser um infeliz. Ou então a fazer os outros infelizes. Não há saída para isto.

Domingo, 24 de Maio de 2009

Aventuras no Festival de Mértola

Depois do Egipto, Jordânia e Marrocos, neste fim-de-semana estive no meu quarto país islâmico: Mértola. Mértola tem a vantagem de não necessitar de visto no passaporte e de estar cheia de espanholas giras. Isto porque Espanha fica mesmo ao lado de Mértola, que por sua vez fica ao lado de Portugal. Este fim-de-semana foi o Dia Nacional de Mértola, a que não podiam faltar as suas festividades. Portugal tem os comunas a descer a Avenida da Liberdade, Mértola tem o Festival Islâmico.Nas imediações era visível a azáfama dos Bombeiros. Não que os soldados da paz estivessem a arrefecer os ânimos de ter tantas espanholas à solta. Não, os amigos geriam o parque de estacionamento que ficava em frente do quartel. Em troca de um eurito, tome lá senhor condutor um talão vermelho e vá lá sua vidinha, que nós guardamos a viatura. Mas antes isso do que dar o eurito a um drogadito.

A minha curiosidade com o corpo de bombeiros de Mértola aguçou ainda mais quando me deparo com este carro, também em frente do quartel, a anunciar que Há Caracóis, Petiscos, Salada de Atum e Espargete (?) com Frango, além, claro, do super menu especial de 5 euros: "Febras + batatas fritas + salada/bitoque"...Mas o que mais me intrigou foi um pequeno papel colado a fita castanha. Abram a segunda foto e reparem... Caros amigos, bombeiros a venderem frango assado cheira-me bastante a esturro, mas adiante...

Logo à entrada, o visitante é confrontado com a ambiguidade de Mértola. Território islâmico encravado entre Portugal e Espanha, as indicações eram dadas em três línguas: portunhol, árabe e alentejano. Atente-se num exemplo que ouvi no primeiro dia, pelo altifalante, através da agradável voz de uma senhora poliglota:

Em alentejano: "Dentro de momentus, os visitantes poderão assistiri à actuação do grupu Os Alentejanos na praça centrale."
Em portunhol: "Seguidamente poderá assistir à la actuacion de la banda Os Alentejanos a la plaza central."
Em árabe: "بن علي حرم الرئيس التونسي زين العابدين بن علي بأن يكون للمرأة العرتطلّعربيّة إلى Os Alentejanos بن علي حرم الرئيس التونسي زين العابديرأة العربيّق تطلّعات المجتمعات العربيّة إلى."

Entrando na feira, os vendedores de banha da cobra proliferavam, ou não estivessem reunidos neste festival representantes de três dos países com mais tendência para o esquema: Portugal, Espanha e Marrocos (só faltavam ciganos, gregos e italianos para o ramalhete estar completo) - com a clara vantagem para Espanha, que são obviamente as espanholas. Veja-se os curas milagrosas:Pegue-se numa mãozinha destas ervas e aí está, tudo fino. Ele é o Higado, as Picores e Hormigueos, ele é a Retencion de Liquidos e as Menopausas (no plural, ou seja dá para a mãe e para a avó), ele são os Nervos e os Eczemas. Maravilha, hein??? Tudo o que é dores de ossos, ervas pra cima. Só faltavam ervinhas para dores de almas. Nesta banca, faltavam. Noutra não...É verdade! Perfumes patchouli para “Noite de Amor”, “Segredo do Homem” e “Fim-de-semana”. Depois havia um último frasco, nitidamente mais usado do que todos os outros, de tal modo que até tinha um borrão no início. Mas consegue ler-se “... de Paixão Anti-depressivo”. Não admira que seja o mais usado de todos... Lamentavelmente, não havia nenhum patchouli "Segredo de Mulher". Ou então, esgotou...

Bom, muita espanholada depois (salvo seja...), deparo-me com uma acção de campanha do Bloco de Esquerda. Entro por um museu qualquer (calcule-se... ligado ao islamismo; Mértola é dos países árabes mais nacionalistas que conheço), quando me deparo com Miguel Portas, de cigarrinho na mão (pareceu-me ser daqueles cigarrinhos que não têm o caramelo no início, digamos que aqueles todos brancos e moles, estão a ver?), os olhinhos a brilhar muito (devia ser do cigarrinho branco e mole), na fila de espera de uma feijoada.

Uns minutos depois, Miguel Portas sai de prato na mão e vai sentar-se no beiral. Toda a gente sabe que Miguel Portas adora o Médio Oriente (já fez lá uns belos documentários para a RTP 2), por isso é que escolheu Mértola para o início desta campanha para as Europeias.

Miguel Portas está a comer quando lhe aparece uma gata toda esfomeada. Que o Miguel não ia ter problemas em dar de comer ao bicho não teria dúvidas (se bem que a gata estava mais preocupada com o copo de tinto), mas repare-se naquele dedo disciplinador para o bichano. "Vá, come ali." Hummm.... Eu só um homem de pormenores, vocês sabem. E também sou um homem de direita. Consigo cheirar um trotskista autoritário até numa feijoada.

PS: Miguel Portas foi muito amável quando lhe pedi para o fotografar.

Adiante. Outros apontamentos de reportagem. De forma sucinta, que já estou cansado de escrever.
Começando pela fila de alentejanos para a casa-de-banho, tudo muito pachorrento, que até para o xixi há que ter calma, na é Ti Zé?:A caminho das Minas de São Domingos, encontrei estes pequerruchos:Não são lindos, os porquinhos? Daqui a um ano vão ficar lindos assim.

Nas Minas de São Domingos, constatei que a passagem de ano foi em GRANDE... Já agora, as Mais Melhores Boas fotos deste local vão aparecer aqui um dia destes.

À saída das Minas vou a este café, esganado de fome.Chego ao balcão e digo “boa tarde”. A mulher olha para mim e não me diz nada. Vai servir uma mesa e depois volta. “Boa tarde!”, insisto. “Boa tarde”, diz ela, como se não me tivesse ignorado antes.
- Tem sandes?
- Isto na tá bom pra sandes...
- Hum...?
- Não é bom...
- Hum... Tem sandes de queijo?
- Na...
- Fiambre?
- Na...
- Carne assada?
- Na...
- Torresmos?
- Na...
- Tem sandes?
- Na tenho...
- Então era um Sumol de ananás.
- Na tenho.
- Hum?
- Pode ser Frisumo?
- Pode.
- De quê?
- Hein?
- Sumol de quê?
- Então, mas tem Sumol?
- Na tenho Sumol, já lhe disse. É uma maneira de dizeri. Quer Frisumo de quê?
- Ananás.
- E na quer comer nada?

Adoro o estrangeiro.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Restos da infância

Eu nasci em Lisboa lá para finais dos anos 70. Naquele tempo ainda jogava à bola onde calhava, os velhos ainda faziam a sua vida na rua e ainda havia quintas com animais (com galinhas, porcos, cavalos e cabras).

31 anos depois, praticamente só os putos dos bairros sociais jogam na rua, os velhos estão à janela e nos lares e os animais estão no zoo. Foi tudo empurrado para a periferia. Estas fotos têm uma semana e foram tiradas a três quilómetros de Lisboa numa zona que antigamente era rural. Ainda há restos da minha infância aqui, mas já se nota a pressão do alcatrão e da "modernidade"... Daqui a dez anos, só vou encontrar isto a 30 quilómetros.

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

O "isto" e mais alguma coisa...

90 por cento dos cromos da minha vida continuam a ser taxistas. Ontem levou-me a casa um que, depois de me deixar, pergunta "como é que se sai daqui"; isto com dois (dois!) GPS colados no vidro...

Bom, mas quero é contar a conversa de um aqui há dias. Eu que pensava que era um resmungão...

O taxista, 50 anos, boné enfiado na cabeça, saltava de um assunto para o outro com a mesma agilidade com que olhava para mim e para a estrada, aliás olhava mais para mim do que para a estrada, e não olhava pelo espelho, virava a cabeça, o chapéu acompanhava a cabeça e virava também, de modo que se for a analisar (como se faz no futebol com o tempo útil de jogo) digamos que olhou 40 por cento da viagem para a estrada e 60 para mim. Eis a sucessão de assuntos, que mudavam sem nexo mas também em consonância com o mundo (que, sublinhe-se, estava todo contra este pachorrento taxista...) que se desenrolava na estrada.

"Estes gajos são uns bandidos... (referia-se aos colegas com quem estava a conversar)... isto está quase a chover... (sempre o estado do tempo para ganhar balanço)... isto é cá uma coisa... (a seguir à paragem, há uma rotunda enorme para dar a volta) O engenheiro que fez isto... Se isto tem algum cabimento? Uma pessoa tem de dar esta volta toda... Isto tem de se ir por aqui quando não era mais simples ir por ali? Não é? Por aqui em vez de ir por ali, ó c’um caralho. Eu não percebo estes engenheiros. Eu cheguei cá a uma conclusão através de uma análise que fiz (ele falou mesmo assim) que neste país ninguém faz nada para simplificar. Só fazem para complicar. É ou não é? (é...) E na Administração é a mesma coisa. Foda-se... (nem me atrevi a perguntar qual Administração)... e com estes gajos é a mesma coisa... (deduzi que estava a falar dos colegas) Antigamente, pá, a malta juntava-se toda, pagávamos coisas, éramos todos amigos... Agora... Agora, nem um cigarro dão!!!! Discutem por causa de um cigarro, pá!
... e depois é isto... (à frente vai um carro muito devagar) Então põem isto a 50 quilómetros dentro das localidades e os gajos andam a 10 e a 20. Isto tem algum cabimento?
... e o Doci Vita? (falava do Dolce Vita) Aquilo foi logo um gamanço nos primeiros dias... Roubaram tudo. Até os administradores. Mas os gajos não querem que isto se saiba. Então mas vão fazer isto ao pé dum bairro problemático? Os gajos deviam fazer um inquério (?) para saber as zonas melhores. O que eles foram foi pó mai barato. Na Amadora... Mas eu tou-me cagando, que eu sou de Lisboa e não tenho nada a ver com isso. Não é, amigo?" (é, é, mas olhe que o semáforo estava vermelho, 'amigo'...)

Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

As maravilhosas colegas

Este fim-de-semana estive a trabalhar e tenho de agradecer a algumas colegas os "empréstimos" que lhes fiz nas secretárias sem elas saberem:
- dois pêssegos à M. M.
- duas aspirinas à F. M.
- dois pacotes de bolachas integrais à F. A.
- um cigarro à F. M.
Obrigado, meninas. Se não fossem as vossas provisões não teria aguentado.

PS: Esqueci-me de referir esta vantagem no post abaixo. As mulheres estão sempre à espera que aconteça uma inundação ou uma guerra mundial. Não vá ficarmos isolados do mundo, elas acumulam víveres em todas as gavetas.

Quinta-feira, 14 de Maio de 2009

Representação

Algumas pessoas gostam de mim porque às vezes lhes digo que não tenho paciência para as aturar e elas gostam disso porque não estão habituadas a que lhes digam isso.Gostam porque sabem (se não sabem, deviam saber) que, quando estou com elas, estou porque naquele momento quero mesmo estar, que não estou a fazer nenhum favor.

Sabem que podem ser corridas a qualquer momento, mas gostam de sentir que alguém está com elas a 100 por cento, nem que seja por dois segundos, tempo suficiente para dizer "olá e adeus".

Eu tento não enganar ninguém. Tento.

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

As amantes do sr. Basílio, o taxista

Os leitores mais antigos deste blog lembram-se de um post sobre um taxista que apanhei um dia aqui ao pé de casa que resolveu contar-me como corria o seu affair com a amante (ler aqui). Há dias voltei a apanhar o sr. Basílio, que, informa-me, já partiu para outra.

As senhoras que desculpem a linguagem, mas, às vezes, os homens quando estão a sós falam assim.
- Então e a outra senhora?
- Eh, pá, já me livrei dessa. Agora ando aí enrabichado por outra.
- Então?
- Tou maluco com esta tipa, pá! Brasileira...
- É boa?
- Eh pá, tem uns cabelos compridos... Um par de tetas como deve ser. E umas pernas... A gaja usa aquelas coisas que agora elas usam... Não sei o nome daquilo. Aquilo pra mim são umas collants...
- E mais?
- Eh pá, mas estas gajas querem é gajos com dinheiro. Eu não tenho andamento pra elas.
- Mas isso está como?
- Oh pá, a gaja não me dá trela, a cabra. Ela senta-se aqui ao lado, eu ponho-me a olhar as pernas dela... Oh pá... Eu passava-lhe a mão pela perna e ela nada. Passava-lhe a mão pelas mamas - mas ao de leve, hein? - mas ela nada. Não diz nada. Nem que sim nem que não. Tenho de me pôr nela, pá...
- Pois...
- A gaja faz-me lembrar uma tipa que andei a comer uma data de tempo. A gaja até tinha lá uma colega... E até lhe perguntei “quando é que como a tua colega, pá?” E a gaja vira-se pra mim: “Eh, pá, combinamos mas é um café amanhã e comes a gaja.” Mas eu nessa noite estava de serviço e não deu. Mas era mêmo boa...
- É como esta...
- Esta é um bombom... Um gajo até fica a bater mal. Eu já lhe disse: “vê lá se tiras aí um dia para irmos almoçar...” Eh pá, tá a ver aquela gaja a passar ali na rua? É mais ou menos aquilo, mas com o cabelo mais curto e mamas maiores. Porra...
- E a sua mulher, como é que ela está?
- Oh pá, ontem foi tirar os pontos da operação à boca. Agora anda aí com uns arames no queixal de baixo, que aquilo até lhe está a fazer sangue. Gastei uma pipa de dinheiro do caralho com aquilo...

Sinais de que estou a ficar um homenzinho

O meu cabelo deixou de ser rebelde. Antes, principalmente depois de o cortar, era indomável. Agora, é manso, deixa-se cair, não se eriça, está dócil.

Quando subo escadas rolantes pela esquerda e alguém está parado peço licença. Antes, não dizia nada; ultrapassava a pessoa pela direita e dava-lhe encontrão com o ombro de propósito. A cidade para mim já não é um palco de guerrilha. Já não tenho paciência para guerras cobardes. Por isso já não empurro ninguém nas escadas rolantes.

Há duas semanas que ando a dormir seis horas por dia e aguento-me. Se fosse antes, já estava morto. Digo isto porque ouvi dizer que quanto mais velho menos horas se dorme. Ou menos horas se aguenta a dormir.

Quando os taxistas têm a música muito alta, peço para baixar. Quando têm a janela aberta, peço para fechar. Antes, aguentava porque não queria incomodar. E antes alimentava a conversa que eles puxavam para não ser indelicado. Hoje já não faço fretes. Se quiser falar, falo. Se não quiser, não dou corda, desculpe lá, mas é por favor àquele sítio e deixe-me lá estar sossegado no meu canto.

Antes, quando um gordo se sentava ao meu lado no autocarro ou no metro encolhia-me. Agora, deixo-me estar. Já não me encolho.

Antes, entrava nos autocarros e nos cafés e sentia os olhares das pessoas cravados em mim. Hoje também sinto, mas sei que só olham para mim porque sou uma novidade que está a entrar. E sei que naqueles instantes tenho de “representar” o melhor de mim. Entro confiante, determinado. É por isso que gosto de entrar nos restaurantes com mulheres bonitas. A fazer de conta que são minhas para as outras pessoas pensarem que sou o maior. Tudo encenado, claro, que sempre fui um bom actor. Só que agora mais experiente. E depois puxo do cigarro como nos filmes, para pensarem que sou como o Robert Redford ou Clint Eastwood. É por isso que não gosto de restaurantes para não fumadores. Fiquei sem um dos meus truques.

E por falar nisso, antes não sabia como me comportar nos restaurantes de luxo. Tinha medo dos empregados, do que pensassem de mim, eles que estão habituados à fina flor. Tinha pânico dos meus movimentos. Hoje sei como me comportar. Naturalmente, quase como numa taberna. E acho os empregados tão simpáticos e solícitos que os vejo como uns chatos de merda. Não quero, por favor, que me venham à mesa de cinco em cinco minutos a perguntar se está tudo bem. Não quero que fiquem a um canto a olhar para mim fixamente à espera que precise de alguma coisa. Vão à vossa vida, sim? Vocês já não me intimidam. Não vêem que estou a ficar um homenzinho?

Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Ah, bom...

Estou à espera de um texto de um colega. Está atrasado. Mando mail a pressionar, a perguntar "como é que isso está?". A resposta vem rápida:

"Está a andar bem, só comecei a escrever há pouco porque a minha mãe teve de ligar o forno de cerâmica da parte da manhã, impedindo ter qq outra coisa ligada à electricidade por razões de segurança. Espero ter a coisa pronta entre as 15h30 e as 16h."

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Encontrar a passagem num livro como se acham os trilhos no mato

Às vezes, no Mercado de Rua (o outro blog) ponho excertos de livros. É fácil encontrar o que quero. Vou aos livros e vejo onde eles abrem mais facilmente. As páginas onde se volta estão mais abertas do que as outras.

Amanhã vai-me apetecer outra coisa, mas hoje apetece-me isto: "Às vezes vou passear com outros e no fim duma hora acordo persuadido de que tenho conversado muito. Na verdade tenho ido mudo: a conversa tem sido comigo, sempre comigo, destacada, feita de pedaços, e não sei discriminar onde começa o sonho e acaba a realidade.

(...)

É sempre a mesma coisa há meses, a mesma ansiedade sem causa, que não sei de onde provém. Parece-me que espero uma desgraça desconhecida, uma catástrofe que ignoro - e que nunca chegará. Vivo alheado, o cérebro espalhado por todas as coisas: apenas esta inquietação me domina e enche. Se saio do sonho não sei viver.

(...)

Sucede-me às vezes ir pela rua fora e ter a impressão de que toda a gente parou a olhar-me. Não me volto para não endoidecer, porque tenho a certeza que dava com a multidão parada, imóvel, a olhar para mim, não com a cara indiferente com que fingem não me conhecer, mas com a outra dolorosa, com a cara trágica da verdade com que as encontro no sonho.

(...)

Resta-me isto: habituar-me à vida: habituar-me ao ponto de não ouvir, de não ver, habituar-me até a aplaudir. Roçar-me pela vida prática até ficar, ao seu contacto, idêntico a todos.. Encher a alma de palavras, de frases aprendidas, de sentimentos falsos, de crenças usadas e banais. Ser toda a gente. Sorrir ao que os outros sorriem, admirar o que eles admiram... E no entanto, se me vejo assim, se me visiono daqui a anos asssim - recuo de pavor... Ali está sobre a mesa a pistola aperrada. É melhor morrer, estoirar o cérebro, onde resta ainda um vestígio de sonho, do que acabar daqui a anos, esvaziado e grotesco como uma bexiga rota..."

Raul Brandão, "Diário de K. Maurício"

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Ainda há pregões em Lisboa

Em 1940, por aí, a minha avó Débora apregoava azeitonas em Alcântara.

Ontem, setenta anos depois, uma miúda, que nem 18 anos tinha, vira-se para mim na Feira do Livro:

"Ó vizinho, ó vizinho, tenho aqui umas pipocas que são a três euros, mas como é pra si faço a dois e meio, hein?"

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Dr. Kovac

Fui para a cozinha e comecei a fazer chá e café ao mesmo tempo. Em cafeteiras. Encher uma de água, encher a outra, pôr açúcar, ir buscar as saquetas, acender o lume de uma, acender o lume de outra, limpar café, encher café, limpar o que caiu, arrumar o pano, abrir saquetas, livrar-me do papel das saquetas, esperar, desligar o lume, enrolar as saquetas à cafeteira, servir... Tudo numa velocidade supersónica, ao mesmo tempo, coordenado, num perfeito domínio do espaço e do tempo.

Tinha acabado de ver dois episódios seguidos de Serviço de Urgência...

Lembrei-me dos tempos em que via filmes de porrada e depois ia para a rua dar pontapés no ar, contra as paredes, a imitar os golpes, a imaginar que conseguia bater nos maus, como no filme que tinha acabado de ver.

Naqueles cinco minutos, a minha cozinha transformou-se num hospital, as cafeteiras nos doentes, o stress a tomar conta de mim, mas depois as minhas fabulosas capacidades a resolverem tudo, para gáudio atónito do espectador.

Continuamos crianças, portanto.

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

“As mulheres têm fios desligados”

Achei agora mesmo esta crónica do Lobo Antunes, perdida entre jornais e revistas atrasados. Deixo-vos com o mestre. Bom fim-de-semana. Vou passá-lo a empaturrar-me em bolos e livros."
Há uns tempos a Joana
- Pai, acabei um namoro à homem.
perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
- disse-lhe o problema não está em ti, está em mim

o que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti!
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a refectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou mas foi
- Amandei-lhe aquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe

e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia-a-dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)

ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas, pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é pensar que durante uma semana estou safo

e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
- Não quero mais

aí estão eles a alternarem a agressividade com a súplica, ora violentos, ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS, a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores, eles que nunca mandavam, a colocarem-se de plantão à porta, dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos.

A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, Che Guevara ou eu, e eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham.

Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhes caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persianas-mal-descidas-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escitores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim

a mexerem a faca na mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Schubert. De Ovídio. De Horácio, de Vergílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.

Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca. Volta e meia surge-me na cabeça uma frase do Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde de mais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres, etc, que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma mulher contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.

Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua.
- o que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que façam falta
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.

Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que vi na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.
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