Terça-feira, 28 de Abril de 2009
Sexta-feira, 24 de Abril de 2009
Viagem até ao fim
Andar de Metro aborrece-me e por isso gosto de levar uma revista para ler. Mas hoje não consegui ler nada. Comecei, interrompi, voltei, não fui capaz de continuar. Enrolei a revista e pus-me a olhar. Hoje havia demasiada gente interessante para ver.
Duas miúdas, dezoito anos, por aí, não eram lindas, mas eram vistosas, nariz grande, cabelo comprido, bem tratado, lascivas nos olhares entre elas, levantavam a mão direita e batiam uma na outra, e riam-se com dentes brancos, meio Lolitas meio devassas, e os homens à frente a imaginar as duas deitadas, deviam cheirar bem de certeza, não muito altas, bem vestidas, confiantes, cheias de sonhos e de rapazes na cabeça, impossível desviar o olhar delas.
Um homem, quarenta anos, sujo, cachucho amarelo no dedo, aliança no outro, fio de ouro ao pescoço, t-shirt preta a dizer a branco JD2 Division, entrou a cantar, sentou-se a raspar uma raspadinha que dizia Mealheiro e tinha um porco cor-de-rosa, raspava com a chave de casa, presa por uma fita vermelha que dizia Sony, tinha cara de pugilista e ténis grossos, largos, para não aleijar os pézinhos.
Passa à nossa frente uma mulher enrolada num vestido verde berrante, pano azul claro à volta da cabeça, uns 30 anos, pele de chocolate, nariz pequeno, sandálias brancas, apanhou o Metro em Maputo e saiu em Sete Rios.
À direita, uma rapariga, vinte e tal anos, bem vestida, simples, discreta, com bom gosto, cores neutras, verde tropa na camisa, calças de ganga, tudo a combinar, portátil na mão, óculos escuros grandes, nariz aquilino, não muito bonita, tinha um decote tão grande que se sentia o coração a respirar no peito descomunalmente grande, onde se viam as veias azuis, vivas de sangue, a arfar naquele sítio quente onde o Diabo fica emboscado, ali naquela covinha do meio, entre as duas montanhas cor-de-rosa de carne, e via-se o soutien, preto, tão pequeno que a carne do peito lhe escapava das mãos, ela respirava e o peito saía mais um bocadinho, e os olhos dela observavam tudo, como eu, por isso não trocámos muitos olhares porque os que observam são como os Imortais, sentem-se uns aos outros e evitam-se, porque sabem que quem sabe olhar os pormenores sabe tudo de nós, e nós não queremos ser apanhados nas armadilhas que pomos aos outros.
Ao lado do que entrou com cara de pugilista a raspar no porco cor-de-rosa sentou-se um senhor de idade, no bolso tinha duas cadernetas da Caixa, bem vestido, muito bem vestido, velhinho, cansado, bonito, tão bonito que acho que nunca vi um velho tão bonito, tinha uma pele de cabedal, dura e lisa, os olhos pequeninos, rasgados, parecia aqueles velhinhos que se vêem nos arrozais do Vietname, sentou-se ao lado do pugilista, ficaram os dois muito apertados, o da cara de pugilista nem se mexeu, o velhinho é que se encolheu todo, mas um minuto depois o pugilista lá se mexeu e os dois aninharam-se um no outro, o pugilista de volta da raspadinha, a olhar para ela, à procura do prémio que não tinha, quem sabe não há uma segunda oportunidade, pensava ele, com vontade de começar de novo, sentir a esperança antes da desilusão em que agora está, a olhar para o vazio, que no Metro é o mapa das estações, e o velhinho com os olhos fechados, a dormir um bocadinho, com aquele ar tranquilo, aliviado, de quem já cumpriu a sua missão, de quem olha para os outros e sorri, porque já viveu aquilo, já cometeu aqueles erros, já traiu e foi traído, já viveu todas as paixões, ou não viveu nenhuma e já se acomodou à secura, e acha ridículo o medo dos mais novos antes de darem um passo, tomarem uma decisão, pedirem em namoro ou acabarem uma relação que se arrasta, um velhinho que se enternece com os risos das raparigas de dezoito anos que levantam as mãos, sonham com rapazes, cheiram a morango e têm cabelos bem tratados, daqueles que ainda não secaram naquele vento frio que se apanha à beira-mar.
Duas miúdas, dezoito anos, por aí, não eram lindas, mas eram vistosas, nariz grande, cabelo comprido, bem tratado, lascivas nos olhares entre elas, levantavam a mão direita e batiam uma na outra, e riam-se com dentes brancos, meio Lolitas meio devassas, e os homens à frente a imaginar as duas deitadas, deviam cheirar bem de certeza, não muito altas, bem vestidas, confiantes, cheias de sonhos e de rapazes na cabeça, impossível desviar o olhar delas.
Um homem, quarenta anos, sujo, cachucho amarelo no dedo, aliança no outro, fio de ouro ao pescoço, t-shirt preta a dizer a branco JD2 Division, entrou a cantar, sentou-se a raspar uma raspadinha que dizia Mealheiro e tinha um porco cor-de-rosa, raspava com a chave de casa, presa por uma fita vermelha que dizia Sony, tinha cara de pugilista e ténis grossos, largos, para não aleijar os pézinhos.
Passa à nossa frente uma mulher enrolada num vestido verde berrante, pano azul claro à volta da cabeça, uns 30 anos, pele de chocolate, nariz pequeno, sandálias brancas, apanhou o Metro em Maputo e saiu em Sete Rios.
À direita, uma rapariga, vinte e tal anos, bem vestida, simples, discreta, com bom gosto, cores neutras, verde tropa na camisa, calças de ganga, tudo a combinar, portátil na mão, óculos escuros grandes, nariz aquilino, não muito bonita, tinha um decote tão grande que se sentia o coração a respirar no peito descomunalmente grande, onde se viam as veias azuis, vivas de sangue, a arfar naquele sítio quente onde o Diabo fica emboscado, ali naquela covinha do meio, entre as duas montanhas cor-de-rosa de carne, e via-se o soutien, preto, tão pequeno que a carne do peito lhe escapava das mãos, ela respirava e o peito saía mais um bocadinho, e os olhos dela observavam tudo, como eu, por isso não trocámos muitos olhares porque os que observam são como os Imortais, sentem-se uns aos outros e evitam-se, porque sabem que quem sabe olhar os pormenores sabe tudo de nós, e nós não queremos ser apanhados nas armadilhas que pomos aos outros.
Ao lado do que entrou com cara de pugilista a raspar no porco cor-de-rosa sentou-se um senhor de idade, no bolso tinha duas cadernetas da Caixa, bem vestido, muito bem vestido, velhinho, cansado, bonito, tão bonito que acho que nunca vi um velho tão bonito, tinha uma pele de cabedal, dura e lisa, os olhos pequeninos, rasgados, parecia aqueles velhinhos que se vêem nos arrozais do Vietname, sentou-se ao lado do pugilista, ficaram os dois muito apertados, o da cara de pugilista nem se mexeu, o velhinho é que se encolheu todo, mas um minuto depois o pugilista lá se mexeu e os dois aninharam-se um no outro, o pugilista de volta da raspadinha, a olhar para ela, à procura do prémio que não tinha, quem sabe não há uma segunda oportunidade, pensava ele, com vontade de começar de novo, sentir a esperança antes da desilusão em que agora está, a olhar para o vazio, que no Metro é o mapa das estações, e o velhinho com os olhos fechados, a dormir um bocadinho, com aquele ar tranquilo, aliviado, de quem já cumpriu a sua missão, de quem olha para os outros e sorri, porque já viveu aquilo, já cometeu aqueles erros, já traiu e foi traído, já viveu todas as paixões, ou não viveu nenhuma e já se acomodou à secura, e acha ridículo o medo dos mais novos antes de darem um passo, tomarem uma decisão, pedirem em namoro ou acabarem uma relação que se arrasta, um velhinho que se enternece com os risos das raparigas de dezoito anos que levantam as mãos, sonham com rapazes, cheiram a morango e têm cabelos bem tratados, daqueles que ainda não secaram naquele vento frio que se apanha à beira-mar.
Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
Discurso bifoso
O Expresso tem um crítico gastronómico, José Quitério, que escreve sobre comida como o Gabriel Alves fala sobre futebol.
Além do repasto, Quitério tem sempre à disposição um conjunto de pratos previamente feitos pelo restaurante para degustação e crítica. Em vez de chamar a isto provas, Quitério chama “sumário de contactos”. Chique.
Na crónica de dia 18 (sobre a Cervejaria Trindade), Quitério teve “contacto” com:
- Choco à Convento da Arrábida
- Gambas do Algarve
- Miolo de Sapateira
- Bacalhau à Santo Ofício
- Bacalhau à Mosteiro de Tibães
- Bife do Lombo à Trindade
- Frango à Frei Caneco
- Queijinhos de Cura
No semana anterior (Sobre o Xicos Rio), o “sumário de contactos” era ainda maior:
- Carpaccio de Camarão-tigre
- Revueltos com Farinheira de Porco Preto
- Batatas Bravas
- Favinhas Guisadas
- Calamares
- Polvo à Galega
- Empadinhas de Galinha
- Croquetes de Rabo de Boi
- Carrilhada de Porco Preto
- Perdiz Estufada
- Foie Gras Grelhado com Confit de Laranja e Cebola
- Entrecôte Café de Paris
Isto foram só as provas, perdão, os “contactos”.
E termina: “O espaço não dá para mais do que referir o octeto doceiro, louvar o conteúdo e o preçário da garrafeira, assinalar a fluidez e a simpatia do serviço, felicitar a cozinheira D. Cremilde e sublinhar o que de bom e variado se pode auferir nesta situação privilegiada”.
Eu se fosse crítico gastronómico do Expresso e avisasse com antecedência que ia lá e me preparassem uns “croquetes de rabo de boi” e um “octeto doceiro” também elogiava a D. Cremilde. Adiante.
Detenho-me na terminologia. Tudo é muito erudito e bem apresentado. Destaco duas frases:
- “Para não deixar toda uma zona em branco, a Entrecôte Café de Paris, de positivo discurso bifoso.”
- “Empadinhas de Galinha: o recheio a precisar de estímulo chouriçal.”
Eis, portanto, José Quitério, um crítico com um discurso bifoso, uma escrita muito tenra, com pouco nervo, do lombo, em sangue, mal passado, que provoca no leitor o estímulo chouriçal de uma leve disposição à Bolhão Pato.
Além do repasto, Quitério tem sempre à disposição um conjunto de pratos previamente feitos pelo restaurante para degustação e crítica. Em vez de chamar a isto provas, Quitério chama “sumário de contactos”. Chique.
Na crónica de dia 18 (sobre a Cervejaria Trindade), Quitério teve “contacto” com:
- Choco à Convento da Arrábida
- Gambas do Algarve
- Miolo de Sapateira
- Bacalhau à Santo Ofício
- Bacalhau à Mosteiro de Tibães
- Bife do Lombo à Trindade
- Frango à Frei Caneco
- Queijinhos de Cura
No semana anterior (Sobre o Xicos Rio), o “sumário de contactos” era ainda maior:
- Carpaccio de Camarão-tigre
- Revueltos com Farinheira de Porco Preto
- Batatas Bravas
- Favinhas Guisadas
- Calamares
- Polvo à Galega
- Empadinhas de Galinha
- Croquetes de Rabo de Boi
- Carrilhada de Porco Preto
- Perdiz Estufada
- Foie Gras Grelhado com Confit de Laranja e Cebola
- Entrecôte Café de Paris
Isto foram só as provas, perdão, os “contactos”.
E termina: “O espaço não dá para mais do que referir o octeto doceiro, louvar o conteúdo e o preçário da garrafeira, assinalar a fluidez e a simpatia do serviço, felicitar a cozinheira D. Cremilde e sublinhar o que de bom e variado se pode auferir nesta situação privilegiada”.
Eu se fosse crítico gastronómico do Expresso e avisasse com antecedência que ia lá e me preparassem uns “croquetes de rabo de boi” e um “octeto doceiro” também elogiava a D. Cremilde. Adiante.
Detenho-me na terminologia. Tudo é muito erudito e bem apresentado. Destaco duas frases:
- “Para não deixar toda uma zona em branco, a Entrecôte Café de Paris, de positivo discurso bifoso.”
- “Empadinhas de Galinha: o recheio a precisar de estímulo chouriçal.”
Eis, portanto, José Quitério, um crítico com um discurso bifoso, uma escrita muito tenra, com pouco nervo, do lombo, em sangue, mal passado, que provoca no leitor o estímulo chouriçal de uma leve disposição à Bolhão Pato.
Segunda-feira, 20 de Abril de 2009
Mundo Rural
Aqui o menino foi ao campo este fim-de-semana. 
Relatório de avistamentos:
- 45 vacas
- 2 cavalos
- 1 família de Cascais
- 22 cegonhas
- 389 andorinhas
- 1 bimba boa
- 1 gato
- 5 rôlas
- 22 motards
- 1 gaio azul
- 6 ucranianos
- 1 águia pesqueira (não devia ser, mas parecia)
- 1 lagarto
- 12 sardinhas bebés (mas saborosas)
- 2 melros
- 1 excursão de professoras (nenhuma boa)
- 3 cães
- 2 gaivotas
- 1 frango (já assado)
- 2 brasileiros
- 1 pato mergulhador
- 1 peixe (antes de ser engolido pelo item anterior)
Segunda-feira, 13 de Abril de 2009
Império do bonito
Uma das coisas que se aprendem nas escolas de jornalismo são os valores-notícia, ou seja, o que leva a que um determinado acontecimento seja notícia e outro não.
São os eles a "proximidade", a "notoriedade", a "relevância" e outras coisas do género.
As escolas de jornalismo andam muito desactualizadas. Esquececem-se de outros valores-notícia. As "pressões" (da administração, das agências, dos RPs, dos lobbies, etc, que impõem ou barram notícias) e a "estética".
Foquemo-nos neste último, pegando nos casos Maddie e no do recente sismo em Itália.
Maddie tinha o valor-notícia "proximidade" (aconteceu no Algarve), "notoriedade" (filha de ingleses, ainda por cima com ligações políticas ao governo) e "estética". Porquê? Era linda, uma criança adorável. Teria ela menos destaque se fosse feia que nem um raio? Talvez. Eu digo que sim, teria menos destaque. Teria destaque, mas ser bonita foi a cereja em cima do bolo. Mas este não é bom exemplo.
Veja-se o destaque desmesurado que tem sido dado ao sismo em Itália. 200 mortos num sismo? Há casos na Ásia que provocam dez vezes mais mortos e têm dez menos destaque. Logo, não será o valor-notícia "relevância". Será "proximidade"? Talvez, foi em Itália, não muito longe daqui. Mas se o sismo fosse em Andorra, mais perto, teria o mesmo destaque? Claro que não. Então porque este teve? Porque o sismo de Itália destruiu uma vilazinha muito bonita, cheia de gente muito bonita.
Comove muito mais ver uma igreja do século XVI destruída do que uma aldeia rafeira de pescadores, mesmo que a primeira não tenha caído em cima de ninguém e a segunda tenha desabado sobre gerações de gente matarruana. É o valor da "estética" e do fútil.
O jornalismo como reflexo da nossa vida actualmente.
São os eles a "proximidade", a "notoriedade", a "relevância" e outras coisas do género.
As escolas de jornalismo andam muito desactualizadas. Esquececem-se de outros valores-notícia. As "pressões" (da administração, das agências, dos RPs, dos lobbies, etc, que impõem ou barram notícias) e a "estética".
Foquemo-nos neste último, pegando nos casos Maddie e no do recente sismo em Itália.
Maddie tinha o valor-notícia "proximidade" (aconteceu no Algarve), "notoriedade" (filha de ingleses, ainda por cima com ligações políticas ao governo) e "estética". Porquê? Era linda, uma criança adorável. Teria ela menos destaque se fosse feia que nem um raio? Talvez. Eu digo que sim, teria menos destaque. Teria destaque, mas ser bonita foi a cereja em cima do bolo. Mas este não é bom exemplo.Veja-se o destaque desmesurado que tem sido dado ao sismo em Itália. 200 mortos num sismo? Há casos na Ásia que provocam dez vezes mais mortos e têm dez menos destaque. Logo, não será o valor-notícia "relevância". Será "proximidade"? Talvez, foi em Itália, não muito longe daqui. Mas se o sismo fosse em Andorra, mais perto, teria o mesmo destaque? Claro que não. Então porque este teve? Porque o sismo de Itália destruiu uma vilazinha muito bonita, cheia de gente muito bonita.
Comove muito mais ver uma igreja do século XVI destruída do que uma aldeia rafeira de pescadores, mesmo que a primeira não tenha caído em cima de ninguém e a segunda tenha desabado sobre gerações de gente matarruana. É o valor da "estética" e do fútil.O jornalismo como reflexo da nossa vida actualmente.
Quinta-feira, 9 de Abril de 2009
Porque gosto do Sr. Carlos, o taxista
O Sr. Carlos não me faz perguntas (em tantos anos, não sabe o meu nome nem o que faço) nem me chateia. Uma coisa fundamental, ainda mais de manhã.
O Sr. Carlos fala da vida dele durante a viagem toda e basta olharmo-nos pelo espelho para ele perceber que estou a acompanhar a história. Os outros taxistas, se não têm resposta, calam-se. O Sr. Carlos sabe que não é preciso verbalizar.
O Sr. Carlos deixa sempre A Bola "esquecida" no banco de trás do carro para eu a ler no caminho.
O Sr. Carlos vive feliz com a vida dele, que para mim seria enfadonha, mas para ele é cheia de aventuras. Fala da viagem de férias a Palma de Maiorca com uma grande excitação, como se fosse uma viagem à Patagónia, ao Vietname ou ao Quénia. Coisas que para mim não têm importância nenhuma e que me aborrecem, para ele dão muito que falar. Ainda hoje estava excitadíssimo porque ia haver bailarico no coreto de Caneças. Ontem contou-me as grandes aventuras da pescaria em Peniche. O Sr. Carlos não faz ideia que existem livros e filmes maiores do que a vida, não faz ideia do que é viajar para um país do terceiro mundo, acha genial as praias de Palma de Maiorca terem duzentos metros de água quentinha a dar pelos joelhos. O Sr. Carlos não tem problemas existenciais, a vida dele é aquilo, à escala dele e dos seus horizontes. Não sabe que há mais e se soubesse provavelmente não queria.
Tenho uma inveja tremenda de pessoas que encontraram o seu lugar e vivem felizes assim.
Só estar bem onde não se está é uma grande chatice.
É por isso que gosto do Sr. Carlos. Achou o seu lugar.
O Sr. Carlos fala da vida dele durante a viagem toda e basta olharmo-nos pelo espelho para ele perceber que estou a acompanhar a história. Os outros taxistas, se não têm resposta, calam-se. O Sr. Carlos sabe que não é preciso verbalizar.
O Sr. Carlos deixa sempre A Bola "esquecida" no banco de trás do carro para eu a ler no caminho.
O Sr. Carlos vive feliz com a vida dele, que para mim seria enfadonha, mas para ele é cheia de aventuras. Fala da viagem de férias a Palma de Maiorca com uma grande excitação, como se fosse uma viagem à Patagónia, ao Vietname ou ao Quénia. Coisas que para mim não têm importância nenhuma e que me aborrecem, para ele dão muito que falar. Ainda hoje estava excitadíssimo porque ia haver bailarico no coreto de Caneças. Ontem contou-me as grandes aventuras da pescaria em Peniche. O Sr. Carlos não faz ideia que existem livros e filmes maiores do que a vida, não faz ideia do que é viajar para um país do terceiro mundo, acha genial as praias de Palma de Maiorca terem duzentos metros de água quentinha a dar pelos joelhos. O Sr. Carlos não tem problemas existenciais, a vida dele é aquilo, à escala dele e dos seus horizontes. Não sabe que há mais e se soubesse provavelmente não queria.
Tenho uma inveja tremenda de pessoas que encontraram o seu lugar e vivem felizes assim.
Só estar bem onde não se está é uma grande chatice.
É por isso que gosto do Sr. Carlos. Achou o seu lugar.
Crianças mal comportadas
Fui lá fora fumar. Em vez de ficar à porta a levar com o sol na tromba e com as velhas a perguntarem onde fica a Fontes Pereira de Melo, atravessei a rua com o objectivo claro de me sentar sugadito no banco do jardim a pensar na vida.
Estava quase a chegar quando vem um puto a correr, ultrapassa-me, atira-se para cima do banco e ocupa aquela merda toda. A mãe ria-se, feita estúpida.
F...-se.
Estava quase a chegar quando vem um puto a correr, ultrapassa-me, atira-se para cima do banco e ocupa aquela merda toda. A mãe ria-se, feita estúpida.
F...-se.
Quarta-feira, 8 de Abril de 2009
Bandeiradas
Aqui há dias apanho um taxi e o homem começa-me a contar a vida dele, mais propriamente as histórias sobre a amante, a quem trata carinhosamente por "a gaja".
Eis os contornos do caso:
"A gaja tem 45 anos, e pensa que tenho 49. Tenho mais dez, mas a gaja nem desconfia..."
"Eh pá, mas é uma gaja boa, pá. Mêmo boa..."
"O que a gaja quer sei eu, mas não caio nessa. Tenho de me pôr a pau com estas gajas. Eu dia já tive as malas à porta de casa."
"A gaja é maluca. Outro dia disse-me que tinha três mil euros em casa."
"Outro dia ligou-me, estava com um cliente e tudo. Nhe-nhe-nhe, nhe-nhe-nhe... Dizia-me ela... Queres ver...? Tive de ir lá a casa tratar dela, pá, que a gaja não se calava com o nhe-nhe-nhe, nhe-nhe-nhe..."
"Esta nem sabe que sou casado. Mandei-lhe uma peta que estava separado, mas que a minha mulher ficou a viver lá em casa."
"A gaja agora anda com outro ao mesmo tempo. A gaja diz que foi o gajo que a inaugurou, isto há muito anos, ainda ela trabalhava na fábrica do gajo, depois engravidou doutro, foi-se embora, agora voltaram-se a ver e diz que o gajo anda atrás dela. Outro dia ligou-me a dizer que o gajo lhe bateu à porta, entrou lá para casa sem ela querer e a gaja deu-lhe um estalo. O gajo subiu por umas escadas, que dão para a porta dela. Eh pá, mas se a gaja não quer nada com o gajo porque é que o deixou entrar? Eu tou cá fisgado que isto foi mas é conversa para me ligar. A gaja queria era nhe-nhe-nhe..."
Eis os contornos do caso:
"A gaja tem 45 anos, e pensa que tenho 49. Tenho mais dez, mas a gaja nem desconfia..."
"Eh pá, mas é uma gaja boa, pá. Mêmo boa..."
"O que a gaja quer sei eu, mas não caio nessa. Tenho de me pôr a pau com estas gajas. Eu dia já tive as malas à porta de casa."
"A gaja é maluca. Outro dia disse-me que tinha três mil euros em casa."
"Outro dia ligou-me, estava com um cliente e tudo. Nhe-nhe-nhe, nhe-nhe-nhe... Dizia-me ela... Queres ver...? Tive de ir lá a casa tratar dela, pá, que a gaja não se calava com o nhe-nhe-nhe, nhe-nhe-nhe..."
"Esta nem sabe que sou casado. Mandei-lhe uma peta que estava separado, mas que a minha mulher ficou a viver lá em casa."
"A gaja agora anda com outro ao mesmo tempo. A gaja diz que foi o gajo que a inaugurou, isto há muito anos, ainda ela trabalhava na fábrica do gajo, depois engravidou doutro, foi-se embora, agora voltaram-se a ver e diz que o gajo anda atrás dela. Outro dia ligou-me a dizer que o gajo lhe bateu à porta, entrou lá para casa sem ela querer e a gaja deu-lhe um estalo. O gajo subiu por umas escadas, que dão para a porta dela. Eh pá, mas se a gaja não quer nada com o gajo porque é que o deixou entrar? Eu tou cá fisgado que isto foi mas é conversa para me ligar. A gaja queria era nhe-nhe-nhe..."
Terça-feira, 7 de Abril de 2009
Ora, nesta Páscoa comemos o cinzento, o preto ou o castanho?
COELHO ESTUFADOCorta-se o coelho em pedaços e põe-se num tacho com o vinho branco, a cebola picada, os dentes de alho esborrachados, a folha de louro e o vinagre. Deixa-se neste tempero durante 3 horas. Passado este tempo, põem-se ao lume, temperando com a banha, azeite, sal, pimenta e o toucinho cortado em bocados. Deve cozer em lume brando, mas de calor regular, e, de vez em quando, vão-se deitando colheradas de caldo, até estar cozido e apurado. Cortam-se fatias de pão de forma em triângulo, fritam-se em manteiga ou azeite e colocam-se no fundo de uma travessa ou guisadeira. Deite o coelho por cima do pão. Sirva polvilhado com salsa picada, enfeite com azeitonas. Sirva acompanhado de puré de batata ou batatas fritas e uma salada verde.
Pouco péche
Há tempos relatei aqui que liguei ao Sr. Carlos, o taxista, para me vir buscar.
"Não posso. Estou na pesca em Peniche", disse-me. Hoje tive o relato da jornada.
- Eh pá, aquilo não tava muito bom. Não apanhei muito péche...
- O que é que apanhou?
- Eh pá, apanhei uma choupa.
- Que é isso?
- É um péche que, quando vem, vem azul, e depois fica preto.
- Ah...
- Não sabe o que é?
O Sr. Carlos saca de um livrinho tipo Borda d'Água, mas sobre a problemática piscícola. Mostra o que é, diz-me como é que se escreve (porque eu pensava que era com x) e diz que só se pode apanhar com um mínimo de 23 centímetros.
Não vá eu ser estúpido, o Sr. Carlos exemplica com os indicadores de cada mão o que são 23 centímetros. Aquilo foram só 15, no máximo, mas já se sabe que os homens exageram um bocadinho nos tamanhos... E continua o relato da pesca.
- Aquilo é uma malta porreira, pá. Ontem fui com o Panças. Sabe quem é o Panças, não sabe? (não faço ideia, amigo) O Panças, pá, apanhou um pargo de três quilos. O cabrão... Mas aquilo é malta porreira, pá. Os gajos começam a beber logo de manhã. Eu não. Eu levo três garrafas de Coca-Cola de meio litro. Vazo a primeira e encho de vinho. Se aquilo correr bem, bebo. Se não, não bebo.
"Não posso. Estou na pesca em Peniche", disse-me. Hoje tive o relato da jornada.
- Eh pá, aquilo não tava muito bom. Não apanhei muito péche...
- O que é que apanhou?
- Eh pá, apanhei uma choupa.
- Que é isso?
- É um péche que, quando vem, vem azul, e depois fica preto.
- Ah...
- Não sabe o que é?
O Sr. Carlos saca de um livrinho tipo Borda d'Água, mas sobre a problemática piscícola. Mostra o que é, diz-me como é que se escreve (porque eu pensava que era com x) e diz que só se pode apanhar com um mínimo de 23 centímetros.
Não vá eu ser estúpido, o Sr. Carlos exemplica com os indicadores de cada mão o que são 23 centímetros. Aquilo foram só 15, no máximo, mas já se sabe que os homens exageram um bocadinho nos tamanhos... E continua o relato da pesca.
- Aquilo é uma malta porreira, pá. Ontem fui com o Panças. Sabe quem é o Panças, não sabe? (não faço ideia, amigo) O Panças, pá, apanhou um pargo de três quilos. O cabrão... Mas aquilo é malta porreira, pá. Os gajos começam a beber logo de manhã. Eu não. Eu levo três garrafas de Coca-Cola de meio litro. Vazo a primeira e encho de vinho. Se aquilo correr bem, bebo. Se não, não bebo.
Eles agora já não andam de barco...
Há uns tempos contei aqui no blog que me cruzei com um senhor gordinho, coxo, de bigode, que fazia um barulho de madeira a ranger sempre que andava.
Pois bem, uns dias depois vi o pirata a sair do edifício.
Ia apanhar o Metro, o sacana...
Pois bem, uns dias depois vi o pirata a sair do edifício.
Ia apanhar o Metro, o sacana...
As Coisas Que Uma Pessoa Tem de Ouvir
Alguém aqui no casebre falava ao telefone com o vizinho:
"Se quiser posso-lhe oferecer uma cama. Não pode é continuar a fazer o barulho que faz..."
"Se quiser posso-lhe oferecer uma cama. Não pode é continuar a fazer o barulho que faz..."
Solidariedade
À saída do trabalho sou um interpelado por um indivíduo.
"Boa noite, amigo..."
"Boa noite."
"Amigo, sou guineense e diabético, por acaso não tem um troco que me arranje...?"
Tive vontade de lhe responder:
"Não sou seu amigo, não sou guineese, nem diabético, nem tenho um troco que lhe arranje."
Mas respondi:
"Tenho. Tome lá..."
Dei-lhe um euro, aliás duas moedas de cinquenta cêntimos (o que não é bem a mesma coisa; não pensem que sou assim tão mãos-largas para dar um euro a um "amigo"), não porque ele era guineense (não quero saber) ou diabético (estou-me borrifando), mas porque lhe faltavam os dois dentes da frente.
Parte-me o coração ver alguém sem os dois dentes da frente.
"Boa noite, amigo..."
"Boa noite."
"Amigo, sou guineense e diabético, por acaso não tem um troco que me arranje...?"
Tive vontade de lhe responder:
"Não sou seu amigo, não sou guineese, nem diabético, nem tenho um troco que lhe arranje."
Mas respondi:
"Tenho. Tome lá..."
Dei-lhe um euro, aliás duas moedas de cinquenta cêntimos (o que não é bem a mesma coisa; não pensem que sou assim tão mãos-largas para dar um euro a um "amigo"), não porque ele era guineense (não quero saber) ou diabético (estou-me borrifando), mas porque lhe faltavam os dois dentes da frente.
Parte-me o coração ver alguém sem os dois dentes da frente.
Reineta
Ontem, partilhei uma maçã... Sou ou não sou um fofinho?
Quando vi que a maçã estava quase no fim, deixei a outra pessoa terminar, o que muito lhe agradou.
Assim não tive de me ver livre do caroço.
Quando vi que a maçã estava quase no fim, deixei a outra pessoa terminar, o que muito lhe agradou.
Assim não tive de me ver livre do caroço.
O Diabo mora nos detalhes
O meu gato chama-se Kongo. Forte (tal como eu, parece gordo, mas não é...), é uma besta pachola. Farto-me de lhe dar porrada e ele adora.O Kongo atirou-se do terceiro andar. Partiu o fémur e meia dúzia de metatarsos. Ou seja, caiu de cu. Depois bateu com os cornos no chão e ficou a sangrar do céu da boca. Agora anda com duas talas nas patas de trás. Quando anda, é rídículo, patético.
A gata não quer nada com ele. Deve estar a estranhar os medicamentos. Mas as gajas costumam suportar essas merdas. Agora que ele mais precisa, ela não está. Já lhe disse que não é gata para ele.
Ontem, o Kongo levou uma injecção no rabo. Hoje, foi um clíster, para ver se evacuava. O máximo que conseguiu foi rosnar que nem uma besta porque não se consegue mexer por causa das putas das talas e porque está todo morfinado. Seria o mesmo que ser atado de mãos e pés e ser violado no Mali. Macho como ele é, percebo perfeitamente.
Dez centímetros e o Kongo ficou com a vida virada do avesso.
A mesma coisa aconteceu com o Salazar. A cadeira estava viva demais para ele, bateu com a fuça no chão, nunca mais foi o mesmo e assim se começou a mudar a história de Portugal.
A patinha dez centímetros ao lado na janela e o meu gato deixou de ser virgem no rabinho. Uma cadeira do IKEA e Portugal passou a ser o Cacém.
Os detalhes são fodidos.
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