e o tipo já estava com o palmier recheado naquelas mãos mecânicas que eles têm para agarrar nos bolos, ele tinha-me visto pelo vidro ainda eu vinha lá ao fundo na rua, o café duplo já estava quase a sair, ele começou-se a rir, discretamente, eu ri-me e disse: é isso, é isso,
houve uma fase da minha vida, aqui há cerca de três meses, em que me deu desejos de palmiers recheados, devia ser carência de qualquer coisa, o café duplo de manhã é normal, os palmiers não eram, além disso os desejos coincidiram mais ou menos com a altura em que comecei a frequentar esta pastelaria, de modo que o tipo decorou o que eu queria logo na primeira semana, e já chegámos a este ponto, ele vê-me do outro lado da rua e reserva-me logo o artigo, não vá alguma velha aparecer com ideias, eu gosto da atenção, mas vamos com calma,
eu não escolho os políticos que me governam, escolho os candidatos que antes foram escolhidos pelos partidos, sou vigiado por câmaras em quase todo o lado, o meu telemóvel tem um dispositivo que me localiza imediatamente, dos movimentos com o cartão nem se fala, andamos, como vocês sabem, a viver nestas gaiolas (e a culpa é toda nossa), gostava pelo menos de ter alguma liberdade, alguma, por mais pequena que seja, a liberdade, por exemplo, de entrar numa pastelaria e escolher um palmier ou um queque, uma queijada ou um mil-folhas,
chegar à pastelaria e vê-lo com o palmier recheado reservado para mim foi uma angústia, não tive coragem de lhe dizer 'hoje era uma torrada aparada', porque o que ele está a fazer é uma gentileza, mascarada de profissionalismo, e não quero ser ingrato, não quero que ele pense 'então, guardei-te o palmier e hoje queres uma torrada?', acho desconfortável, mas algum dia vai ter de ser, naturalmente, mas está difícil, de qualquer modo, para o caso de não me conseguir safar desta, já andei a pesquisar na zona para encontrar uma pastelaria alternativa, até porque três meses a comer o mesmo bolo aborrece-me, quem disse que a vida na cidade era fácil?,
entretanto, saí e fui ali a um quiosque de café que fica à entrada do centro comercial, tem aquelas coisas da nespresso, já que não se pode fumar lá dentro ganhei o hábito de ir buscar um café, trazer no copo de papel para a rua e prostituir um marlboro enquanto oiço música e aprecio a fauna hominídea, pois ontem nem precisei de pedir, foi só responder sim duas vezes, 'expresso forte, não é?', 'normal, não é?', ela sabia tudo, o outro sabia que bolo ia comer, esta sabia até a cor da cápsula do café, depois fui comprar frango assado (outro hábito) e a mulher fez a pergunta (retórica, claro): 'não quer molho, pois não?´,
o que eu queria mesmo era liberdade, a última vez que fiquei com os olhos marejados foi num documentário que vi há umas semanas sobre a queda do muro de berlim, com toda aquela alegria dos de leste de poderem ir para onde quisessem, a alegria dos povos que se libertam comove-me, não há alegria maior do que a da liberdade conquistada, maior do que amor, porque se não se tiver liberdade nem para escolher entre um palmier recheado e um caracol como é que se pode amar alguém decentemente?, há coisas que para mim são óbvias, mas isto sou só eu a gozar com vocês, que estiveram aqui a ler quinhentas e tal palavras sobre nada.
10 comentários:
... estás com TPM, é?
não foram sobre nada, que eu padeço da mesma angústia. já deito compal de frutos vermelhos pelos ouvidos mas a entrada no café da rua faz-se em concomitância com o clique da tampa a abrir. há uns bons meses que ando a ensaiar a forma perfeita de dizer "hoje era de pêra, sff" sem causar grandes mossas no sorriso da senhora empregada. que, no fundo, se deve estar a cagar, eu é que sou um grande paneleiro nestas coisas.
é fodido ter que mudar de pastelaria, de cafetaria e de churrascaria só de uma assentada....
mas recuperar a liberdade é impagável... :)
Também não consigo alterar o meu pedido... está tão enraizado num sorriso de prontidão por parte do empregado e no meu sorriso tímido que tenta segurar um grito: «não é nada disso que quero!». Por causa disso, já fiz como este amigo(a) anónimo... e mudei de café... não fui leal, fiel... não tenho perfil para o ser. Não gosto de rotina...
Agora diz que é sobre nada... Tá bem, tá bem. Vou dar-te essa liberdade.
Quanto à pastelaria, sei que a padaria da minha rua te fica fora de mão, mas é o sítio mais livre do mundo. Moro aqui há 4 anos, já cá tinha morado 20... Todas as manhãs peço um café. Só um café. E todos o dias a gorda pergunta: cheio? não. então curto? não,normal. E quer açucar ou adoçante? açúcar, por favor...
O Gárgula, tu escreves bem pra caraças, até sobre coisa nenhuma.
I think i'm falling for you. :P
isso ainda é ressaca da bebedeira de natal?
Incrível como um gesto de simpatia com a intenção de agradar e fidelizar o cliente tem exactamente o efeito oposto. Pelo menos já sei que não sou só eu que troco com frequência de pastelaria quando isto começa a acontecer. já há algum tempo vou alternando 4 pastelarias durante o mês pois assim os empregados não memorizam nada.
Sergio
Foi bom ler estas tuas palavras sobre nada... E deu vontade de dizer "Viva a Liberdade!" caneco...
Deves ser muita bom para atrair dessa forma imediata a atenção e memória das pessoas... diz-me: andas todo de fatinho, com gravata estilosa, sapatos engraxados, pasta na mão e palavras doces na boca?
Mesmo sendo um vício português, só vai à pastelaria todos os dias quem pode! Esses 3 euros diários saiem caro. (se for apenas breackfast, of course).
Não é rotina para qualquer bolsa...
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