há ribeiras tão frias que as usamos como frigorifícos para as cervejas que vamos beber à tardinha, e as folhas acordam todas lambuzadas pelos caracóis, da mesma forma que há uma pessoa que eu conheço que acorda lambuzada por um gato preto, e os pardais vão para o emprego, usam as mesmas vias rápidas entre as árvores e quase chocam uns com os outros, e as pessoas estão a comer ovos mexidos com pão caseiro, e no ar cheira a café de máquina acabado de fazer, e saem fumos pelas chaminés, o gado pasta, as velhas estão na horta, os meninos acordam, o jardim tem sede e as galinhas e os coelhos tomam o pequeno almoço embrulhados uns nos outros,
o pote já fumega lentamente com o que irá ser o feijão com couves e um cheiro de enchidos do almoço, em fundo o ruído do poço de alguém que foi à água, com a pequena cobra à espreita, e nós de pijama, sem vergonha de nós de pijama, vamos até à horta ajudar a apanhar as cenouras que, mal lavadas no tanque da roupa, ainda vamos trincando só porque sim, já a imaginar se, lá para depois do meio da tarde, nos deixarão brincar às piscinas no velho tanque cheio de verdete no fundo,
é o mundo todo a renascer em cada manhã, é a morna esperança da felicidade que nos entra por dentro e sai em bafos pela boca sempre que dizemos bom dia a quem passa. mas isso é nas manhãs de verão no campo,
e de repente queremos ser muito velhos para não termos ânsias de fazer e experimentar e viver aquilo que pensamos ser vida que afinal não é, queremos ser antigos como a árvore em que nos encostamos, termos tempo para ficar parados enquanto o corpo aquece, nas manhãs de verão no campo quase que acreditamos que podemos ser eternos e que não faz mal perder horas a olhar para as formigas, mas isso é nas manhãs de verão no campo.
(post escrito a várias mãos; ver comentários)
4 comentários:
E de repente queremos ser muito velhos para não termos ânsias de fazer e experimentar e viver aquilo que pensamos ser vida que afinal não é. Queremos ser antigos como a árvore em que nos encostamos, termos tempo para ficar parados enquanto o corpo aquece. Nas manhãs de Verão no campo quase que acreditamos que podemos ser eternos e que não faz mal perder horas a olhar para as formigas.
Imaculada
Dizer bom dia a quem passa ou por quem passamos, agora fizeste-me lembrar umas coisas :)
Dar de comer às galinhas e aos coelhos, regar o jardim pela fresca bem cedo, correr buscar o porta-moedas ao ouvir o apito do padeiro a chegar...
Isso, o pão fresco que chega de carrinha e que vamos buscar moeda na mão e pé no chinelo, sem vergonha do pijama. Ou, muito antes da carrinha chegar ao monte, as torradas na braseira da rua, feitas com o pão da semana e barradas com aquela manteiga verdadeira que não mais encontrei ou nenhuma outra me soube assim, tudo enquanto o pote já fumega lentamente com o que irá ser o feijão com couves e um cheiro de enchidos do almoço. Em fundo o ruído do poço, alguém foi à água, será que desta vez tb se vai seguir o grito, haverá pequena cobra à espreita no balde? E não tarda vamos andar na horta também, a ajudar a apanhar as cenouras que, mal lavadas no tanque da roupa, ainda vamos trincando só porque sim, já a imaginar se, lá para depois do meio da tarde, nos deixarão brincar às piscinas no velho tanque cheio de verdete no fundo...
mexeste com as minhas memórias...
da minha janela de sonho eu vejo tudo isso...
:)
Navegante
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