Sábado, 12 de Dezembro de 2009

ia uma cigana gorda sentada no metro,

levava um saco preto com muitas coisas lá dentro, levava também duas barrigas, a de nascença e mais outra, em forma de pneu de carne, que tem amortizado em senhas de refeição, levava também uma das mamas de fora, esprimida por um soutien branco de renda, comprado barato nos ciganos,

mais abaixo estava encavalitado um bebé, que tinha as costas apoiadas na carne materna e a cabeça pendurada pela boca, que estava aclopada no bico da teta, de onde chupava leite grátis do dia, o metro ia cheio, num mar de casacos e pastas de roda desta ilha vagabunda,

depois de atestar a barriga, o miúdo largou a mama da mãe, mas depois começou a abrir e a fechar a boca, parecia estar com espasmos de ter estado a mamar tanto, só que agora já não havia teta e parecia não ter percebido ainda, de modo que sugava ar, parecia um peixe de boca rosácea acabado de pescar, era um miúdo gordo e loiro, tinha aspecto sujo e cabia perfeitamente no saco preto que a mãe trazia de lado,

isto ainda consegui ver, porque entretanto puseram-se à frente duas estrangeiras, cada uma das suas cabeças loiras estava enfiada em bonés azuis que diziam the north face, que é uma empresa, vi no site, de equipamentos para a montanha, como os himalaias, que são uns arranha-céus que há na índia, nem por acaso atrás de mim ia sentado um indiano sikh, de turbante violeta enrolado à cabeça e barba branca pendurada da cara até ao terceiro botão da camisa,

ao pé de mim ia uma rapariga, boa vista de trás e feia vista de frente, tinha um sinal grosso em cima de uns lábios finos, as unhas pintadas de vermelho e o cabelo bem tratado, mala e ténis castanhos, perguntava ao namorado se ele achava que ela devia comprar ou não aquele telemóvel, perguntava assim, com a cabeça virada, de mãos agarradas ao ferro.

6 comentários:

april disse...

és o meu olhar nas ruas, reconheço os pensamentos, revejo até detalhes. Obrigada, dear.

Gingerbread Girl disse...

Eu vou ali num instantinho, chegar ao teu nível paranormal, desculpa, paratextual, e depois volto para ler isto.

Cólicencença*

S* disse...

O comportamento sem vergonha em espaços públicos é coisa para me dar comichão.

Bonita de trás e feia de frente? Ui... tantas...

Anónimo disse...

é fauna demais nesse metro...ainda bem que eu só ando de bicla...

muito mais ecológico, em todos os sentidos

Navegante

Anónimo disse...

Escreves tão bem que chega a ser irritante. Enerva-me, admiro e invejo a tua escrita.

Claudia disse...

andar de transportes públicos é assim...

adorei este post, escreves maravilhosamente.

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