Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

ia um casal no metro

ele era castanho escuro e ela era cor-de-rosa, eram os dois novos, ela era morena e tinha um decote muito grande, de onde, aconchegado pelo algodão, espreitava um peito anunciando calor, por cima do decote tinha uma tatuagem de uma pequena pegada de gato, depois via-se outra pegada, mas esta já estava meio coberta pela blusa, uma pegada assim desenhada de lado, já em descida lânguida pelo meio das duas maminhas, os gatos são assim, andam sempre à procura do calor,

nós todos estávamos a ver aquilo e imaginávamos até onde o gato tinha ido no corpo dela, a literatura é isto mesmo, é o gato e o peito, mas é mais, é a pegada meio descoberta, é a ilusão de haver mais, é o que está subentendido, é a promessa de um caminho para a felicidade, que neste caso só o homem castanho escuro conhecia, é nós cheios de inveja dele, e ele olhava-lhe para o peito, via as pegadas do gato, e depois levantava a cabeça e via o mapa das estações, como se uma e outra coisa fossem o mesmo, neste caso já não é literatura, é a vida, que é uma coisa, e o amor, que é outra, como dizia alguém.

2 comentários:

Marta disse...

Hoje também andei de metro e de comboio e de taxi... apanhei uma molha no rossio, cheirou-me as castanhas assadas. E - milagre! - já me apatece escrever outra vez.

Deixa-me dizer-te que gosto à brava dessas pegadas de gato e de como as descreves. É isso que mais gosto nos teus textos, deixas-me ver pelos teus olhos. Obrigada

Anónimo disse...

estes itinerários pelo desconhecido podem-nos levar tão longe...


e as tuas crónicas também... :)

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